Continuo Torcendo pela Princesa Charlotte

Eu tenho alguns hobbies intelectuais que, em termos de utilidade prática, não têm valor algum, porque, na realidade, não servem para nada, além da satisfação da minha curiosidade (que é meio inesgotável)…

Um desses hobbies, o mais genérico, é estudar a História da Europa (de um lado, a história intelectual, cultural, social e econômica, e, de outro lado, a história política e militar), de meados do século 14 para cá, envolvendo a Europa Renascentista (século 14 e parte do século 15), a Europa Pré-Moderna, incluindo a Reforma Protestante e as Guerras de Religião (séculos 16 e 17), a Europa Moderna, incluindo o Iluminismo e o  Romantismo (séculos 18 e 19) e a Europa Contemporânea (século 20). Minha tese de doutoramento (1970-1972) foi sobre David Hume, filósofo escocês do século 18, e, através da História da Filosofia e das Ideias eu acabei por me envolver com esse hobby. Hume é o responsável. Filhote desse hobby é o estudo do Império Britânico, das duas Guerras Mundiais, e da Guerra Fria, e, dentro desse universo, da História de Israel, em particular.

O outro hobby, mais específico, mas relacionado, é estudar a História da Família Real Britânica, de Henrique VIII (século 16), o implantador da Reforma Protestante (Anglicana) na Inglaterra, até o presente. Filhote desse hobby é o estudo da vida e do reinado de três rainhas que, somadas, reinaram sobre a Inglaterra (no primeiro caso) e o Reino Unido (nos outros dois casos, a partir de 1707) por nada menos do que 174 anos: Elizabeth I (que reinou de 1540 a 1603 – 43 anos), Victoria (que reinou de 1837 a 1901 – 64 anos) e Elizabeth II (que vem reinando desde 1952 até o presente, até agora com 67 anos de reinado). Elizabeth I não se casou (embora tivesse tido muitos pretendentes) e nem teve filhos: é conhecida como “A Rainha Virgem”. Victoria, por outro lado, casou-se cedo, ficou viúva cedo, mas, em vinte anos de casamento, teve nada menos de nove filhos, todos eles sobrevivendo, algo raro, no século 19  — o marido, Príncipe Albert, morreu cedo, em 1861, com 42 anos. E Elizabeth II, a atual rainha, ficou quase na média: teve quatro filhos: Charles, Anne, Andrew e Edward. (O bisavô de Elizabeth II também era Edward — o rei Edward VII, segundo filho, o primeiro homem, da rainha Victoria. Assim, Elizabeth II é trineta da rainha Victoria). (A propósito, Edward é o nome de rei mais usado na História da Inglaterra.)

Para comprovar a confusão que é a árvore genealógica da atual família real britânica, Elizabeth II, a atual rainha, é trineta da rainha Victoria. Seu marido, o príncipe Philip, também é trineto da rainha Victoria, por outro “caminho”! Assim, os dois são primos distantes — mas primos, de alguma forma.

Ou vejamos.

Elizabeth II é filha de George VI, que é bisneto da rainha Victoria, pois é filho de George V, que é neto da rainha Victoria, pois é filho de Edward VII, que é filho da rainha Vitória. A linhagem de Elizabeth II é toda pelo lado masculino da filha (exceto nas duas extremidades: rainha Victoria, rei Edward VII, rei George V, rei George VI, rainha Elizabeth II).

Philip (príncipe consorte de Elizabeth II) é filho de Alice, que é bisneta da rainha Vitoria, pois é filha de (outra) Victoria, que é neta da rainha Victoria, pois é filha de (outra) Alice, que é, esta sim, filha da rainha Victoria. A linhagem de Philip se deu toda pelo lado feminino da família (exceto na extremidade dele: rainha Victoria, Alice, Victoria, Alice, príncipe Philip — duas Victorias, duas Alices e Philip).

No intuito de homenagear os antepassados, os membros da família real têm vários nomes, em regra todos eles de antepassados ilustres.

Antes de passar ao que mais me interessa, registro que o rei George VI, pai de Elizabeth II, foi gago, por um bom tempo, como mostra o excelente filme The King’s Speech, de 2010, com Colin Firth no papel do rei. O filme ganhou quatro dos mais importantes Oscars em 2011: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro e melhor ator, neste caso para Colin Firth, em magnífico desempenho.

Como se pode constatar, muita informação curiosa e interessante aí, mas muito pouco útil.

Vou me concentrar agora na rainha Victoria. Ela faz parte de um trio de rainhas extremamente famosas, ficando entre Elizabeth I e Elizabeth II. Elizabeth I foi coroada em 1560 e Elizabeth II, em 1952 – Victoria, em 1837. Quase quatrocentos anos separam a coroação das duas Elizabeths. As duas foram pessoas e monarcas muito interessantes e realizadoras, mas, em termos de história de vida, Victoria ganha de longe das duas Elizabeths. E não só pelos nove filhos que teve em um casamento que durou apenas vinte anos — ela sobreviveu ao marido por quarenta anos (ele, príncipe consorte Alberto, morreu em 1861 e ela, em 1901).

Em sua viuvez, a rainha Victoria teve alguns relacionamentos de amizade bastante fortes (provavelmente colorida) com dois criados dela, um dos quais, indiano (há um filme sobre esse segundo caso: Victoria and Abdul, de 2017, com Judi Dench, que eu assisti no ano passado [2018]). Também teve um relacionamento chegado com o Primeiro Ministro Disraeli. Todos esses relacionamentos geraram fofocas e um certo mal-estar na população. Alguns historiadores atribuem a esse mal-estar o fato de que a rainha Victoria foi objeto de nove atentados, fato sem precedentes na história da monarquia britânica moderna.

Além disso, e em um aspecto mais positivo, a rainha Victoria era “casamenteira”, arrumando casamentos para os filhos e para os netos (usando os dois termos no sentido genérico, que envolve tanto homens como mulheres). Assim é que, em um dado momento, já mais próximo de sua morte, ela veio a ser chamada de “A Avó da Europa”, porque em quase toda família real europeia havia um descendente de Victoria no trono.

Só para dar dois exemplos significativos:

  1. Wilhelm II, Kaiser da Alemanha por trinta anos, de 1888 a 1918 (quando renunciou, ao final da Primeira Guerra), era neto da rainha Victoria — pois era filho do Kaiser Friedrich III com a filha mais velha de Victoria, também chamada Victoria (Vicky, para facilitar a distinção), com quem era casado;
  2. Nicholas II, o Czar da Rússia de 1894 a 1917 (quando foi destituído nas várias revoluções russas de 1917, e, posteriormente, assassinado, com sua família), também era neto da rainha Victoria, pois era casado com Alexandra, que era neta da rainha Victoria (pois era filha de sua filha Alice, que foi casada com o Grão-Duque Ludwig de Hesse e da Região do Reno) — Alessandra e seus filhos tendo sido assassinados juntos com Nicholas II, só sobrando, quem sabe, sua filha Anastasia (sobre a qual há um filme, Anastasia, de 1956, com Ingrid Bergman, que eu assisti quanto tinha treze anos…).

Ou seja, nos sete anos finais de sua vida, Victoria era avó do kaiser da Alemanha e do czar da Rússia, só para ficar nos mais importantes. Na primeira década do século 20, depois de ela morrer, em 1901, ela era mãe do rei da Inglaterra, avó do kaiser da Alemanha, e avó (por casamento da neta) do czar da Rússia. A Primeira Guerra, que estourou em 1914, quando já era rei da Inglaterra George V, filho de Edward VII, e, portanto, também neto da rainha Victoria, foi, no fundo, uma guerra em família entre três netos da rainha Victoria: Wilhelm II, da Alemanha, Nicholas II, da Rússia e George V, do Reino Unido — sem falar em outros parentescos: Leopold II, rei da Bélgica de 1885 a 1908 era primo da rainha Victoria (o pai de Leopoldo II e a mãe de Victoria eram irmãos); quem sucedeu Leopold II, e, portanto, era rei da Bélgica durante a Primeira Guerra, foi Albert I, sobrinho de Leopold II, e, portanto, aparentado com os três netos de Victoria que tiveram papel central na Primeira Guerra.

Li em algum lugar — e agora não consigo lembrar onde — que quando Victoria nasceu, em 1819, ela era a nona na linha de sucessão ao trono. Mesmo assim, acabou emplacando, porque seus tios que vieram a reinar (George IV e William IV) morreram sem deixar descendentes legítimos e seu pai, irmão deles, que não reinou, morreu antes de seu tio do meio (William IV), que ocupava o trono, morrer em 1837, e outros parentes na linha de sucessão também morreram. (Há ingrediente aí para uma boa trama de Agatha Christie.)

Por isso, embora eu provavelmente não vá testemunhar o fato, se acontecer, torço para que a Princesa Charlotte (segunda filha do Príncipe William e da Duquesa de Cambridge, Kate Middleton), cujo nome completo é Charlotte Elizabeth Diana, atualmente com quatro anos, e que é a quarta na linha atual de sucessão ao trono, atrás do príncipe Charles (seu avô), do príncipe William (seu pai), e do príncipe George (seu irmão mais velho), possa chegar lá… Pela legislação atual, a princesa Charlotte mantém seu lugar na fila mesmo que o príncipe William, seu pai, venha a ter mais filhos homens (como já teve, com o Príncipe Louis).

Assim sendo, fique firme aí, Charlotte!!!

(Aos interessados, esta é a segunda vez que escrevo sobre a princesa Charlotte aqui neste blog. A primeira foi em 24/04/2018: https://chaves.space/2018/04/24/queen-charlotte-i/)

Em Salto, 22 de Junho de 2019 (primeiro dia inteiro de Inverno); revisado no dia seguinte, 23 de Junho de 2019.



Categories: Hobbies, Uncategorized

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