A Literatura e o Cinema

Nossa vida é demasiado curta – e, dentro do tempo que nos é dado viver, vários fatores (geográficos, culturais, psicológicos, etc.) limitam nossa capacidade de conhecer, experienciar (sic) e vivenciar situações que poderiam representar uma enorme contribuição para o nosso desenvolvimento como seres humanos – ou pelo menos para nossa fruição da vida.

A literatura (e acrescento aqui o seu descendente direto, o cinema, que não se faz sem um roteiro ou script) nos permite conhecer, experienciar e vivenciar essas situações – vicariamente. Vicário é aquele que faz as vezes de outrem – ou aquilo que faz as vezes de outra coisa. Os personagens de ficção vivem, por nós, as experiências que gostaríamos de poder vivenciar, mas, por uma série de razões, não podemos. E nós nos alegramos ou sofremos com eles – torcemos pela sua sorte, nos envolvemos no enredo da história como se fosse, até certo ponto, parte da trama de nossa própria vida.

Há gente que gosta dos romances de Jane Austen. Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), por exemplo. Eu sou um deles. Adoro vir a conhecer detalhes interessantes da sociedade britânica do século 19 – começando no início do século, antes mesmo do início do longo reinado da rainha Victoria: os esforços da classe média para “casar bem”, os amores que insistem em nascer e florescer em oposição aos interesses (em geral sociais, culturais e econômicos) dos pais, as intrigas pelas heranças, as famílias pobres que têm um ramo rico (ou vice-versa), os costumes falsamente rígidos, etc… Tudo isso é tão diferente do nosso mundo de hoje que é preciso estar no estado de espírito certo para conseguir ler um romance de Jane Austen. O filme, talvez, seja mais fácil de assimilar, porque, afinal de contas, dura apenas duas horas, no máximo. A leitura do livro, porém, exige muito maior interesse…

Entre meus personagens histórico-literários favoritos estão Sir Lancelot, Guinevere, a linda mulher do simpático e tolerante rei Arthur, que se apaixona por Lancelot… Não consigo imaginá-los com outra identidade que não as de Richard Gere, Julia Ormond e Sean Connery. O cinema, que é uma mídia mais rica, tende a restringir a nossa capacidade de imaginar livremente. Depois de ver o filme, é difícil ler o livro em que o filme se baseou sem imaginar os personagens com o corpo, os trejeitos e a personalidade que tinham no filme. O mesmo acontece com nossas novelas. Depois da novela da Globo de 1975, dirigida por Walter Avancini e Gonzaga Blota, é quase impossível imaginar uma Gabriela que não seja a cara, o sorriso, e o resto do corpo da Sonia Braga de 44 anos atrás…

Gosto muito da literatura de espadachins francesa (predominantemente no século 19 e início do século 20) sobre os heroicos cavaleiros que, ágeis na espada, provocantes na linguagem, e insuperáveis no amor, fizeram parte do imaginário de muitos de nós, tanto através dos livros como dos filmes. De Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, por exemplo: Athos, Porthos e Aramis – e, naturalmente, D’Artagnan; ou O Conde de Monte Christo. De Michel Zévaco, os insuperáveis Pardaillans – pai e filho. Além de tudo, aprendi muita história da França nos séculos 16 a 18 lendo esses livros. Ficção histórica é a categoria em que são incluídos.

E assim vai. Cito mais a literatura estrangeira porque, por um defeito de formação, conheço melhor as literaturas da língua inglesa e francesa do que a de minha própria língua, embora tenha lido bastante de Machado de Assis, Érico Veríssimo e Jorge Amado. Mas não é questão de ser bairrista ou “chauviniste” aqui… Em Espanhol, li quese tudo de Mário Vargas Llosa e Isabel Allende e alguma coisa de Gabriel Garcia Márquez e de Guillermo Cabrero Infante. Meus autores favoritos em língua inglesa são Ayn Rand e Graham Greene, e, em língua francesa, Victor Hugo. Em Russo, de longe Leon Tolstoi, embora goste também dos principais livros de Fiodor Dostoievsky.

O importante da literatura de ficção (incluindo aí o romance histórico), independente da língua em que venha empacotada, é o papel que ela tem na educação de nossas emoções e de nossa sensibilidade, colocando-nos diante de situações que não teríamos como viver, ou que optamos por não viver na vida real. Nossas emoções e nossa sensibilidade são educadas, em grande medida, vivenciando, vicariamente, as experiências de outrem – e nos perguntando se, fôssemos nós os personagens das histórias imaginadas, teríamos nos comportado de maneira diferente.

Nada tenho contra viver a vida, de forma tão plena possível, num mundo “real”, não vicário. Mas não dá para viver tudo… Mesmo quem vive uma vida plena, no mundo real, ainda tem espaço para desenvolvimento vivenciando, vicariamente, as experiências de outrem.

É por isso que autores como Ayn Rand, Vargas Llosa, e mesmo o brasileiro Ferreira Gullar, insistem que a literatura é indispensável porque nossa vida, por mais rica e desafiante que seja, não nos basta.

Tenho para mim que a melhor forma de promover a educação das emoções e da sensibilidade é através da literatura e do cinema. Mas, para isso, as obras a serem lidas e vistas têm de ser escolhidas com especial cuidado. Um livro mal escolhido pode inocular um jovem para sempre contra a literatura – se ele for obrigado a lê-lo, mesmo sem ter interesse na história que ali é contada. De igual forma um filme.

Em Salto, 25 de Agosto de 2019.

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Categories: Cinema, Literatura, Literature

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