A Globalização

Estou lendo, há dois dias, um livro interessante, porque diferente, sobre a Globalização.

Normalmente, quando pensamos em globalização temos em mente algo que tem que ver com a economia: a produção, independente de linhas divisórias nacionais, ou mesmo continentais, de bens (commodities e manufaturados) e de serviços, e sua comercialização no mercado mundial, também sem considerar os limites que demarcam a organização política dos vários blocos populacionais.

O livro não desconsidera, em nenhum momento, o elemento econômico presente na Globalização, em todas as suas “ondas” (para usar a metáfora que Alvin Toffler tornou conhecida). Mas ele enfatiza o fato de que, muito antes das Cinco Grandes Revoluções (a Revolução Industrial, a Revolução na Agropecuária, a Revolução nos Transportes, a Revolução na Área de Serviços e a Revolução nas Tecnologias de Informação e Comunicação, esta última que, de certo modo, atua como força motriz da onda mais recente da Globalização), já havia uma Globalização alimentada, não pela atividade econômica, em si (a indústria, os serviços e sua comercialização), mas por três outros fatores:

  • os deslocamentos provocados pelas guerras, em especial as de conquista (que envolviam deslocamento de soldados e pessoal de apoio de uma região para outra);
  • as mudanças de um local para outro, por vezes em outro país ou até mesmo continente, decorrentes do espírito inquieto e aventureiro de muitas pessoas que, sentindo-se insatisfeitas onde estavam (por qualquer razão: econômica, política, religiosa, etc.), resolviam “tentar a vida” em outras plagas;
  • o espírito missionário das grandes religiões, em especial as monoteístas, que crendo-se, cada uma delas, a única possuidora da verdade, cruzavam fronteiras para levar aos que adotavam outras religiões, ou nenhuma, a sua mensagem, o seu “evangelho”.

Confira:

O título do livro é Bound Together: How Traders, Preachers, Adventurers, and Warriors Shaped Globalization, e seu autor é Nayan Chanda (Yale University Press, 2007). O autor é professor de Yale e fundou e, por bom tempo, editou e dirigiu uma conhecida e bem conceituada revista chamada YaleGlobal Online (a palavra composta sendo escrita assim como se fosse uma só palavra).

Confira:

https://yaleglobal.yale.edu

Essas quatro categorias de pessoas, que podemos chamar de negociantes, pregadores, aventureiros e guerreiros, cimentaram o caminho que veio a trilhar a onda atual da Globalização, desencadeada principalmente pelo surgimento das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação — vale dizer, pela invenção dos computadores digitais. Chanda traça uma história curiosa de como essas quatro categorias se entrelaçaram nos diversos períodos da história pré-moderna e moderna do planeta para construir o mundo que hoje temos. Nos séculos 15 e 16 temos portugueses, espanhóis e até certo ponto italianos (Veneza era um entreposto comercial importante no Mediterrâneo) comercializando especiarias, metais preciosos, produtos raros para o mercado europeu — que precisavam ser buscadas no Oriente. Com as descobertas dos novos territórios nas Américas, temos aventureiros de todo tipo tentando explorar os novos territórios comercialmente – mas, também, especialmente na América do Norte, gente que, fugindo de perseguição política e religiosa, buscava reconstruir ali uma nova pátria, livre e tolerante. Com a Reforma Protestante, a Igreja Católica passou a ter forte concorrência na Europa e, tendo em vista as novas descobertas, encetou um trabalho missionário sem precedentes para “cristianizar” os habitantes dos novos territórios e garantir a sua posse para os seus patronos políticos. Importante lembrar que as duas tentativas de estabelecimento no Brasil de pessoal de nações europeias não portuguesas, a dos Franceses e as dos Holandeses, foram motivadas por grupos religiosos minoritários em seus países de origem. E, no coração da Europa, as guerras religiosas alteravam a geografia política e humana da Europa a todo momento, mesmo no universo cristão, sem considerar a constante ameaça islâmica, que foi bem sucedida na Península Ibérica e quase alcançou sucesso na Europa Central, tendo os muçulmanos chegado perto de conquistar Viena mais de uma vez. Assim foi, em todos os subperíodos da história, desde meados do século 15. Enquanto isso, diversos ciclos econômicos privilegiam, ora um produto, ora outro: os metais (em especial o ouro e a prata), o algodão, o tabaco, o açúcar, o café, a soja, os produtos animais, os minérios…

Uma outra característica interessante do livro está nos cortes longitudinais (temporais, não espaciais) que o autor faz. Dentro da categoria comércio, os produtos vão evoluindo  no tempo e, com a Revolução Industrial, os meios de transporte que disponibilizam esses produtos em áreas geográficas mais amplas também evoluíram, e com enorme rapidez. Primeiro, os produtos eram especiarias e metais, que eram transportados, em terra, por cavalos, camelos e até elefantes. Depois, os produtos vão variando, ora algodão, ora o tabaco, ora açúcar, ora café, ora borracha, ora a madeira, ora os minérios, e o meio de transporte passa a ser, no mar, as caravelas, depois os navios a vapor, depois os grandes cargueiros, em especial os petroleiros, à medida que os combustíveis fósseis se tornaram essenciais. No transporte terrestre surge o trem, com locomotivas, primeiro a vapor, depois os veículos motorizados, depois as locomotivas elétricas…  E finalmente surge o transporte aéreo, com o avião, que torna indiferente se a distância a ser percorrida é sobre terra ou mar.  E hoje, boa parte dos produtos comercializados é intangível: os bens culturais, a música, os filmes, as séries e os programas de TV, os e-books, os softwares… Tudo isso é distribuído através de redes, com ou sem fio, de telecomunicação…

Uma das evoluções longitudinais mais curiosas que Chanda destaca é a dos missionários. Por um bom tempo, missionários eram padres e pastores que disseminavam uma fé religiosa. Depois, o mundo foi se secularizando, e chegou o momento dos missionários que procuravam esparramar pelo mundo uma ideologia política, frequentemente internacionalista. O socialismo e o comunismo foram a religião política que colocou missionários na rua para tentar promover um mundo mais igualitário, ainda que menos livre, fazendo isso pela força revolucionária das armas ou pelo controle gradual e relativamente pacífico da educação e da mídia… Hoje em dia, destaca o autor, com o debacle do comunismo, o socialismo, sem esquecer a tese do combate à desigualdade econômica e social, e refratário ao uso de empresas multinacionais, forma ONGs globais, supostamente sem fins lucrativos, mas financiadas transnacionalmente, que tentam difundir um evangelho ideológico multicultural, em favor da diversidade, da preservação do ambiente, da regulação do clima, da liberdade sexual, da multiplicidade de gêneros, etc…. Haja vista a luta dissimuada e subterrânea pela Amazonia. Diz o autor: “Hoje, um novo tipo de missionário, procura unificar o mundo com aspirações universalistas”. Os socialistas da Europa se sentem mais irmanados com os socialistas do Terceiro Mundo do que com os liberais e conservadores do seu próprio país… E vice-versa.

É um livro que vale a pena ler. Recomendo.

Confira também:

Em Salto, 29 de Agosto de 2019 (dia da fundação de Leme, SP…)



Categories: Globalization, Uncategorized

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