De uma Vida Ordinária para uma Vida Realizada e Extraordinária

Estou relendo, não sei por que vez, um de meus autores favoritos, Stephen R. Covey, cujo principal livro é The 7 Habits of Highly Effective People: Powerful Lessons in Personal Change, de 1989. Houve uma nova edição, pouco alterada, em 2004, para comemorar os 15 anos de sua publicação original. De 2004 para cá (2019) são mais quinze anos, e uma nova edição comemorativa está sendo publicada este ano, apenas cinco anos depois da edição comemorativa dos 25 anos, publicada em 2014. Durante esses trinta anos, tenho lido e relido, on and off, essa obra de Covey, bem como os inúmeros outros livros que ele, seu filho, e até seu neto produziram, sempre encontrando neles algo novo em cada releitura – e sempre aprendendo mais.

Descobri, recentemente, em 2018, a obra de Martin E. P. Seligman, chamada, no global, de Psicologia Positiva, por causa de sua ênfase na saúde mental em vez de na doença mental. Com a ênfase na saúde mental vieram também ênfases bem-vindas na liberdade, na virtude, no aperfeiçoamento do caráter, na felicidade – esta entendida não como algo episódico e temporário, mas como uma vida virtuosa e plenamente realizada – a plenitude da vida. Seligman dá muita ênfase ao conceito de autorrealização pessoal (eudaemonia, em grego, termo que alguns autores traduzem por florescimento pessoal, ou personal flourishing, em inglês). Descobri Seligman através de sua fantástica autobiografia: The Hope Circuit: A Psychologist´s Journey from Helplessness to Optimism, publicada em abril daquele ano. Um mês depois de ela ser lançada no mercado, eu já a havia lido. A autobiografia me serviu de guia para a sua prolífica produção de cunho mais acadêmico. E constatei que há muito em comum entre Covey e Seligman.

Já neste ano de 2019 descobri dois outros autores que complementam e enriquecem a abordagem e o conteúdo dos livros de Covey e Seligman, mas também vão além. Ambos escreveram, nos últimos três anos, livros que reputo excepcionais. O primeiro deles é Vishen Lakhiani, cujo livro é The Code of the Extraordinary Mind: 10 Unconventional Laws to Redefine your Life & Succeed on your Own Terms, de 2016. O outro é Brendon Burchard, cujo livro principal é High Performance Habits: How Extraordinary People Become that Way, de 2017.

Com a possível exceção de Seligman, nenhum dos outros três autores está muito interessado em pessoas que vivem vidas “ordinárias”, exceto como matéria prima. Essas pessoas podem ser convencidas a viver vidas “altamente eficazes”, ou “realizadas”, ou, então, ainda mais do que isso, vidas realmente “extraordinárias”.

O próprio Covey, que é o principal proponente do conceito de uma vida altamente eficaz ou realizada, deu um passo adiante, e, seguindo na trilha aberta por Jim Collins, que escreveu um notável livro sobre como empresas podem avançar de boas empresas para empresas excelentes, excepcionais, extraordinárias (Good to Great: Why Some Companies Make the Leap… and Others Don’t, de 2001), propôs que também as pessoas podem e devem avançar da alta eficácia para a excelência, passando a viver uma vida excepcional e extraordinária (talvez aquilo que o Novo Testamento chama de “vida abundante”, mas com um conteúdo mais próximo do ideário do grego clássico do que do ideário hebraico cristão. A propósito, a edição comemorativa de vinte e cinco anos do livro de Covey, publicada no ano de 2014, dois anos depois de sua morte, tem um prefácio especial de Jim Collins. (Registre-se que Covey era cristão mórmon, que Seligman é judeu secular, que Lakhiani é um malaio ocidentalizado, e que Burchard é também é judeu… O cristão mais conservador que tem aí é o mórmon, que alguns protestantes não consideram protestantes e outros, nem mesmo cristãos. Todos moram, ou moravam, nos Estados Unidos – o país considerado por muitos ignorantes de esquerda como a terra do capitalismo selvagem.)

 Dos quatro autores, Lakhiani tem um mérito especial: ele começa por discutir qual é o paradigma das pessoas ordinárias. Ele vê esse paradigma como sendo alcançar sucesso – e isso, segundo o paradigma, se alcança através de talento, poder, riqueza e fama – o talento e o poder geralmente sendo os principais meios de chegar à riqueza (para quem não nasceu em berço esplêndido), e os três, conjunta ou isoladamente, sendo a forma de eventualmente chegar à fama (embora nem todos os poderosos e ricos curtam a fama (alguns preferindo a anonimidade e a obscuridade). Sucesso é isso.

As pessoas ordinárias em geral absorvem os objetivos de vida vinculados ao conceito de sucesso, com as crenças e os valores que os sustentam, a partir de seu tempo e lugar, do seu ambiente, das circunstâncias em que elas nasceram e cresceram. Essa forma de vida não foi fruto de uma escolha consciente, baseada em uma análise de todas as possibilidades, uma avaliação de seus prós e contras, méritos e deméritos, das várias alternativas, com base em valores conscientemente adotados, e depois de exame sério e aprofundado. As pessoas adotam esses objetivos de vida por default.

Essa expressão, que usa uma palavra francesa, foi popularizada no inglês e, de lá, em outras línguas, pelo pessoal de informática. Quando você compra um computador (o hardware, o equipamento em si), ele já vem configurado de uma certa maneira: com um determinado microprocessador, com uma quantidade de memória que contém suas rotinas básicas (a chamada memória ROM – Read Only Memory, ou Memória Apenas para Leitura), com uma quantidade de memória na qual o que você faz no computador é temporariamente armazenado (a chamada Memória RAM – Random Access Memory, ou Memória de Acesso Aleatório), e um disco rígido destinado a armazenar programas e dados, e com componentes que permitem que você conecte periféricos ao computador (como monitores de vídeo, impressoras, teclados, mouse, touch pad, etc.). A “natureza” de um computador exige que ele tenha um processador, memórias, discos, e periféricos – mas não determina que tipo de processador, que quantidade de memória, que capacidade de armazenamento dos discos, quantos e quais periféricos. É o fabricante, ou, em alguns casos, o comerciante, que determina qual a configuração padrão (default) de cada modelo de computador. As características específicas da configuração são pré-definidas pelo fabricante ou comerciante, sem que, em regra, o comprador tenha escolha sobre ela: ele simplesmente opta por um ou outro modelo, em geral em função de suas necessidades e limitações financeiras, mas nas características daquele modelo ele não pode mexer. É assim que eles vêm “de fábrica” ou saem “de loja”. Em alguns modelos, é até possível que o usuário, se entender bem do assunto, possa, posteriormente, em casa, fazer algumas alterações (em geral perdendo a garantia, se houver algum problema), mas na maioria dos casos, não. (Hoje em dia, com vendas pela Internet, é até possível configurar seu equipamento no site do fabricante, dentro de certos limites, uma maquininha de calcular mostrando se o custo sobe ou desce com cada escolha sua. Assim, o fabricante compõe uma máquina especificamente para você, sob demanda). O mesmo acontece com softwares – os programas que rodam no computador.

Com os seres humanos acontece algo parecido. Os nossos autores concordam que o ser humano tem uma “natureza”: todos temos um corpo, com uma cabeça (onde fica o cérebro), tronco e membros, um sistema nervoso central, órgãos dos sentidos (que são nossos periféricos), etc. Segundo nossos autores, a natureza humana ainda compreende, além do corpo, um princípio vital, que mantém o corpo vivo, uma mente, que é uma entidade não-material que pensa, sente, atribui valor, avalia, escolhe, decide, e move o corpo a agir, e segundo alguns deles, ainda um espírito. Há características genéticas que determinam os limites para o tamanho do seu corpo quando adulto, a cor de sua pele e de seus olhos, a cor e a forma de seu rosto, de sua cabeça, de seus cabelos, etc. – e, também, e muito importante, se você vai ser do sexo masculino ou feminino. Mas, além disso, que língua você vai falar, que religião você vai ter (se é que vai ter alguma), para que time de futebol você vai torcer (se é que vai torcer para algum), que tipo de música você vai preferir, etc., há um “pacote pronto” que vai lhe ser aplicado pelo seu ambiente ou pelas circunstâncias em que você nasce e cresce. Se sua família é brasileira, você vai aprender a falar português, e, mais tarde, a ler e escrever em português; se você é do sexo masculino e seu pai é são-paulino, provavelmente uma camisa do SPFC vai estar pendurada na porta do quarto de sua mãe na maternidade; se seus pais pertencem a alguma igreja protestante, já está determinado qual é a igreja que você vai frequentar, pelo menos por algum tempo; se seus pais são conservadores política e moralmente, eles provavelmente vão tentar incutir em você valores compatíveis com aquilo que eles acham; e assim por diante. É por isso que todos nós que nascemos no Brasil falamos português, que, tradicionalmente, uma maioria era católica, que times de futebol que têm grande torcida em geral continuam a ter, porque a coisa passa de pai para filho (excepcionalmente de mãe para filho ou filha), que você é favor ou contra o partido que está no poder ou o presidente que está em exercício dependendo de como foi criado e educado, etc.

Essas coisas, em regra, vêm de fábrica ou saem de loja – e a maior parte das pessoas as acata por algum tempo – várias pessoas, pela vida inteira, sem nunca pensar em aprender línguas estrangeiras, se afiliar a uma igreja diferente ou virar ateu, trocar de time de preferência, deixar de ser conservador e passar a ser um libertário anárquico radical, etc. Mas muitos, começando na adolescência, tentam mudar essas características, aprendendo outras línguas, indo morar em outro país, adotando o budismo, torcendo para o Spartak de Moscou, e achando que o Lula é um grande cara e totalmente inocente.

Na maior parte dos casos, essas mudanças, quando ocorrem, infelizmente não são refletidas e criteriosamente adotadas: elas são do tipo conversão mesmo. O cara arruma uma namorada que só fala alemão e resolve aprender a língua; se junta a uma turma de manos e vira corintiano; etc. Ou seja, ele muda de tribo, mas não faz, em nenhum caso, escolhas conscientes, antecedidas de exame das possibilidades, avaliação das alternativas, cômputo das consequências, etc.

 Não há, nesse paradigma que rege a vida ordinária, ênfase em liberdade, virtude, aprimoramento do caráter, e felicidade, entendida como autorrealização – para a qual o indivíduo tem de definir um projeto de vida e persegui-lo com denodo.

É por isso que Lakhiani diz que seu livro não é um livro que ajuda a pessoa a crescer e se tornar adulto, ou que ajuda a pessoa a se desenvolver como um ser humano. O livro dele é, acima de tudo, e primeiro, um livro que vai causar um reboliço no leitor, que vai incomodá-lo, que vai provocar uma “disrupção” em suas ideias, seus valores, seus sentimentos, seus hábitos – porque a intenção do autor é fazer com que você deixe de viver na configuração default que lhe deram, deixe de viver em piloto automático programado por outros, e assuma controle de sua vida, escreva seu próprio script, defina seu projeto de vida, com componentes individuais e interpessoais, e passe a persegui-lo.

É aqui que entra um livro importante de Martin Seligman: o que é que é possível mudar e o que é que não é possível mudar? A despeito das tentativas feitas por Michael Jackson, mudar a cor de sua pele é basicamente impossível. Dependendo de sua genética, se sua família é toda, do lado do pai e do lado da mãe, de gente que não passa de 1,55m para mulheres e 1,65 para homens, vai ser basicamente impossível que você venha a alcançar 2m de altura para jogar no gol da seleção brasileira de futebol ou como ala da seleção brasileira de basquete, ou como principal atacante da seleção brasileira de vôlei. Será possível mudar de sexo? De orientação sexual? De preferências sexuais? Será possível aumentar sua inteligência, sua afabilidade, sua capacidade de se relacionar com outras pessoas e fazer amigos? Será que possível que alguém que nasceu com características atribuídas a artistas altamente criativos possa se tornar um lógico matemático ou um cientista natural extremamente rigoroso? Seus sentimentos e suas crenças na área religiosa, é possível mudá-los drasticamente, um será que alguém que era religioso e resolve abandonar a religião acaba adotando uma religião secular, como o humanismo ou o socialismo marxista? Se você está interessado nessas questões, leia Martin Seligman, What You Can Change. . . and What You Can’t *: The Complete Guide to Successful Self-Improvement [* Learning to Accept Who You Are] (1993, 2007).

A parte final do título do livro, “Aprendendo a Aceitar Quem Você É”, pode ser enganosa para quem só vê o título do livro, porque Seligman acha que você deve aceitar quem você é apenas naquilo que não pode ser mudado, mas pode, e, se for para melhor, deve mudar quem você é naquilo que pode ser mudado, se for algo que o prejudica, que o arrasta para trás, que lhe causa problemas e dissabores, que o faz infeliz…

Os quatro autores que destaquei não vêm o objetivo da vida no sucesso, mas, sim, na felicidade, entendida como uma vida virtuosa e realizada, cujo foco último está na excelência: uma vida excepcional e extraordinária, não só no plano individual, mas no plano social e também em termos do legado que ela deixa em benefício das gerações futuras. O objetivo último de nossa vida é alimentar o melhor que existe em nós, para que possamos dar o melhor que somos e que temos em benefício dos outros, contemporâneos ou por vir, em obediência a valores e princípios que adotamos de forma consciente e examinada.

Para eles, por mais importante que seja definir e implementar um projeto de vida, isto basta apenas para viver uma vida realizada e um pouco mais do que ordinária – não é suficiente para viver uma vida excelente, excepcional e extraordinária, que beneficia a raça humana e torna o mundo um lugar melhor para aqueles que vêm depois de nós.

Vou terminar este artigo com uma das mais lindas orações que conheço. Orações cheias de significado e lindas na forma são admiradas mesmo por ateus, como Ayn Rand admirou a Oração da Serenidade erroneamente atribuída a Reinhold Niebuhr, teólogo americano, ou a famosa Oração de São Francisco de Assis. A que vou citar, fica entre estas. Seu autor é Walter Rauschenbush, pastor batista e teólogo americano, principal expoente do chamado “Evangelho Social Americano”, tão vilipendiado pelos evangélicos fundamentalistas e conservadores. Ele exerceu o pastorado em Nova York, no início deste século, em um bairro que era tão miserável que foi apelidado de “Cozinha do Inferno”. Rauschenbush aprendeu o Evangelho Social de seu verdadeiro fundador, Adolf von Harnack, um dos maiores teólogos do Liberalismo Teológico Alemão do século 19 – também vilipendiado pelos mesmos evangélicos a que já fiz menção. A tradução do inglês é minha. Fi-la a pedido de meu querido amigo Rubem Alves, no final dos anos setenta do século passado. Faz no mínimo uns quarenta anos.

Ei-la:

“Oração por Aqueles que Vêm Depois de Nós

Oh Deus, a ti oramos por aqueles que vêm depois de nós – por nossos filhos, pelos de nossos amigos, e por todas as jovens vidas que, a partir de seu nascimento, começam a marchar para a frente, puras, ansiosas, com o sol da manhã em suas faces.

Lembramo-nos de que estas crianças viverão no mundo que estamos construindo para elas – e isto nos dói. Estamos desperdiçando os recursos da terra com nossa avareza – e elas sofrerão necessidade. Estamos construindo casas sem sol e cidades sem alegria – e nessas casas e cidades elas terão de morar. Estamos fazendo com que se torne pesado o seu fardo e impiedoso o ritmo de seu trabalho – e elas cairão, pálidas e desanimadas, soluçando à beira do caminho. Estamos envenenando o ar de nossa terra, não só com impurezas, mas também com mentiras – e elas terão de respirá-lo.

Oh Deus, tu sabes que gritamos em agonia quando os pecados de nossos pais acabam por nos visitar, e como em vão lutamos contra o destino inexorável que corre em nosso sangue e nos prende, como numa cadeia.

Impede que, acrescentando-lhes a crueldade dos nossos pecados, mutilemos os inocentes que vêm depois de nós. Ajuda-nos a quebrar a força antiga do mal através de uma vontade santa e resoluta e a dotar os nossos filhos de sangue mais puro e de mais nobres pensamentos.

Dá-nos a graça de deixar esta terra mais bonita do que a encontramos; de construir sobre ela cidades nas quais o grito da dor desnecessária inexistirá; e de pôr o jugo de Cristo sobre nossos negócios para que eles possam servir, e não destruir. Levanta o véu do futuro e mostra-nos a geração vindoura como ela será, se deteriorada por nossa culpa, de modo a fazer com que esfrie nossa lascívia e possamos andar no temor do Eterno. Concede-nos a visão do que serão os anos do futuro, se redimidos pelos filhos de Deus, de modo a fazer com que adquiramos coragem e batalhemos, pelos teus e pelos nossos filhos.

Amém.”

Em São Paulo, 15 de Dezembro de 2019



Categories: Eudaemonia, Happiness, Self-Actualization, Uncategorized

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