O Ceticismo e Eu – Parte 1

O que seria eu se não fosse o meu encontro com o ceticismo?

Entrei no Seminário (Seminário Presbiteriano de Campinas) em 1964 um crente. Não o que se convencionou chamar de “um ‘crentão'” — um crente convicto, cujas convicções chegam perto de certezas inabaláveis. Mas um crente, que não tem dúvidas acerca de suas crenças. Se encostado na parede, eu provavelmente diria que tinha convicção nas minhas crenças. Até mesmo certeza nelas.

Os dois anos e meio que passei no Seminário em Campinas plantaram dúvidas na minha mente. Não tanto nas aulas, mas nas leituras paralelas sugeridas pelos colegas. No primeiro ano li um livro que hoje considero conservadoríssimo, Pedro: Discípulo, Apóstolo e Mártir, de Oscar Cullmann, traduzido para o Português e publicado pela então recém criada ASTE — Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos, se não me engano naquele mesmo ano de 1964. Lembro-me bem da leitura desse livro, porque meu pai, pastor evangélico, ele, sim, crentão, conservador, fundamentalista mesmo, ex-católico, na verdade ex-membro da Congregação Mariana, era um controversialista de primeira. Combatendo os católicos, ele interpretava Mateus 16:18, em que Jesus diz a Pedro “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, como se Jesus estivesse apontando com o dedo indicador da mão direita, desta forma: “Tu [apontando para Pedro] és Pedro, e sobre esta pedra [apontando para ele próprio, Jesus, e dizendo, portanto, sobre “esta pedra, que sou eu”] edificarei a minha igreja”…

Não sei de onde meu pai tirou essa ideia do dedo apontando, mas ele estava convicto disso. Certíssimo. Não tinha a menor dúvida. Quando li Cullmann, que apesar de conservador, era um autor sério, vi que ele, embora protestante, reformado, admitia que Jesus disse que Pedro era pedra, e que, portanto, naquele ato, Jesus deu a Pedro uma posição de liderança entre os apóstolos, que fica evidente no Novo Testamento, em especial no livro de Atos. Quando fui contar ao meu pai o que Cullmann dizia, ele quase teve um chilique. Então é isso que esse seminário está ensinando aos alunos? Essa heresia de que Pedro é a pedra, e não ele, Jesus? E foi por aí. Foi minha primeira grande decepção com meu pai. Ele não quis nem ouvir o resto da história, os argumentos que Cullmann usava, etc. Fim de papo. Pelo meu lado, minha confiança de que meu pai estava certo em suas crenças começou a ficar meio abalada. Eu nunca tinha sido católico e não tinha nenhuma rixa com os católicos. Em relação a Mateus 16:18, parecia-me que a interpretação de Cullmann era a mais natural. E, em relação ao livro de Atos, parecia-me que Pedro foi mesmo um dos líderes do Cristianismo Primitivo, pelo menos do grupo mais judaizante, com papel preponderante na Festa de Pentecostes, na reunião chamada de Concílio de Jerusalém (Atos 15), etc. A posição do meu pai não parecia ter nenhum respaldo no texto bíblico, sendo mais fruto de uma implicância dele com os católicos… Comecei a me perguntar que outras interpretações que ele fazia do texto bíblico poderiam ter, de igual forma, tão pouco respaldo exegético e hermenêutico… É assim que as crenças se abalam, que os abalos se expandem, e as dúvidas se instalam e lá ficam…

Quando fui dar continuidade aos meus estudos de Teologia nos Estados Unidos (Pittsburgh Theological Seminary, no Mestrado, e University of Pittsburgh, no Doutorado), em 1967, ainda era um crente — mas um crente, cheio de dúvidas. Ao terminar o meu Doutorado na Pitt (apelido carinhoso da tradicional University of Pittsburgh, fundada em 1794, um pouco depois da Revolução Americana e da Revolução Francesa), eu era um cético, cheio de dúvidas. Não um cético radical, que nunca fui. O cético radical é o equivalente ao crentão, no outro extremo, com o sinal trocado. Ele não tem mais dúvidas: ele tem certeza de suas descrenças. E há uma diferença entre você se considerar um crente, cheio de dúvidas, e você se considerar um cético, cheio de dúvidas. A crença é o ponto de ancoragem no primeiro caso, ainda que cheia de dúvidas. O ceticismo é o ponto de ancoragem no segundo caso, ainda que a gente possa ter, como eu tinha, dúvidas das minhas próprias dúvidas — isto é, não tinha certeza de que as minhas dúvidas fossem definitivas, que não poderiam ser desfeitas mais adiante…  E a confiança que eu começava a ter na visão supostamente científica e racional da realidade, será que era sustentável?

David Hume (1711-1776), sobre quem escrevi minha tese de doutoramento, foi quem me norteou nessa passagem de um estágio ao outro, de crente para cético. Ele era cético — mas, como gostava de dizer, um cético mitigado, não exagerado. Ele era contrário ao fanatismo religioso — mas advertia os seus leitores de que, ao criticar o fanatismo religioso, cuidasse para que não se tornassem adeptos de um fanatismo anti-religioso… Essa atitude dele me cativava e me conquistou. Ele era um cético suave, “soft“, não “hard“, e, ao criticar o fanatismo religioso, cuidava-se para não se tornar fanático com o sinal trocado…

Hume me introduziu aos vários tipos de ceticismo: o ceticismo mais radical, chamado de Ceticismo Acadêmico, porque originário da Academia de Platão, levando adiante o dito socrático de que “só sei que nada sei”; o ceticismo um pouco menos radical, chamado de Ceticismo Pirrônico (por causa de Pirro de Elis, ca. 360–275 AC), o Ceticismo Moderado identificado com Sexto Empírico (Sextus Empiricus, ca. 160–210 AD), o Ceticismo Metodológico (fake, só para Inglês ver…) de René Descartes, o Ceticismo Real de Michel de Montaigne (1533-1592) e de Pierre Bayle (1647-1706), mais próximo do Ceticismo Moderado de Sexto Empírico, etc…. E, naturalmente, ao Ceticismo Mitigado dele próprio, David Hume.

O Ceticismo Acadêmico e o Ceticismo Pirrônico são radicais — embora o segundo menos do que o primeiro. O Ceticismo Acadêmico afirma é impossível conhecer ou saber alguma coisa. O Ceticismo Pirrônico afirma não ser possível afirmar que o conhecimento é possível ou impossível, porque não há evidência adequada nem de um lado nem de outro. Por isso, devemos suspender nosso julgamento em relação às pretensões de qualquer pessoa de que o conhecimento seja impossível ou possível. O Ceticismo Moderado de Sexto Empírico e os demais Ceticismos mencionados, incluindo o Ceticismo Mitigado de Hume, levantam dúvidas quanto às evidências e aos argumentos usados para justificar as pretensões de qualquer pessoa de que ela tem algum conhecimento ou de que ela não tem algum conhecimento sobre alguma coisa e se propõem a examinar rigorosamente essas evidências e esses argumentos. Se, em decorrência desse exame, concluírem que as evidências e os argumentos têm igual peso, suspendem seu julgamento, não acreditando nem desacreditando; mas se concluírem que um lado tem mais peso do que o outro, podem aceitar ou rejeitar as mencionadas pretensões ao conhecimento, mas sempre de forma tentativa e provisória, estando dispostos a alterar seu julgamento, ou a suspendê-lo, se mais evidências ou argumentos aparecerem.

[Um parêntese meio longo… Tenho até hoje os livros de Sextus Empiricus, Montaigne, Bayle, que comprei na época, e alguns que comprei posteriormente. (Dos comprados posteriormente o mais delicioso é de Elisabeth Labrousse, Pierre Bayle: Hétérodoxie et Rigorisme, que comprei no Musée International de la Réforme, em Genebra, em 21.10.2006). Um outro autor, este contemporâneo (à época), que sempre me acompanhou nessa jornada, foi o australiano Richard H. Popkin (1923-2005), cuja primeira cópia do livro The History of Scepticism From Erasmus to Descartes eu comprei em 24.8.1970, em Pittsburgh, PA, quando comecei a escrever sobre Hume. Esse livro tem uma história curiosa. Quando o comprei, a edição era de 1964, mas essa já era uma segunda edição, revisada: a edição original era de 1960. Em meados dos anos 1990 (na verdade, em 18.11.1995, em Fairlawn, OH, quando de uma viagem à casa de minha filha, em Ohio, comprei uma nova edição, a terceira, de 1979, cujo título havia sido alterado para The History of Scepticism From Erasmus to Spinoza. Já no novo milênio, comprei, em 11.12.2018, uma edição ainda mais recente, de 2003, a quarta e a última (pois Popkin morreu em 2005), cujo título estava novamente mudado, agora para The History of Scepticism From Savanarola to Bayle. Essa edição eu só tenho em e-book (Kindle). Aos interessados no Ceticismo, recomendo também Skeptical Philosophy for Everyone, do mesmo Richard H. Popkin e de seu amigo e colega Avrum Stroll, de 2002, que é uma introdução ao ceticismo para leigos (não filósofos). Fim do parêntese.]

Volto agora para onde estava ao final do quarto parágrafo, antes de começar a falar de David Hume.

Nesse contexto, encontrei, em Hume, um argumento atribuído a Estrato de Lampsaco (ca 335-269 AC), acerca do ônus de prova (onus probandi), ao qual o grande filósofo, Antony Flew, dava muita importância. Segundo Estrato, quem faz uma afirmação é que tem a obrigação de prová-la com evidências e argumentos. Se não conseguir fazer isso, as demais pessoas estão plenamente justificadas em não aceitar a afirmação feita, não só suspendendo o juízo, mas negando-lhe a verdade. É como na Justiça: se a acusação não conseguir provar a culpabilidade do réu, ele é simplesmente considerado inocente — não se dá o caso de apenas suspender-se o juízo. Acusação não provada significa que o réu é inocentado, e, em regra, não pode ser novamente acusado do mesmo crime ou do mesmo descumprimento da lei. Aplicada essa tese lógico-filosófica à teologia e à religião, quem afirma que Deus existe, que a alma existe, separada do corpo, e é imortal, sobrevivendo, portanto à morte do seu corpo, etc., é que têm a responsabilidade da prova, o onus probandi. Se quem afirma essas teses não as provar, os demais não precisam suspender o seu juízo, ou se considerar agnósticos, em relação a elas: eles simplesmente não precisam acreditar nelas, e, epistemicamente, estão plenamente justificados em assim fazê-lo. A distância que separa o ateu do agnóstico se mede pela aceitação da tese de Estrato sobre a questão de quem tem a obrigação de provar, a quem cabe o onus probandi

Hume operava dessa forma. Ao discutir a questão dos milagres, por exemplo, definidos como violações das leis da natureza, filósofos não muito céticos, e de orientação mais racionalista, como Spinoza, acreditavam que milagres eram impossíveis, pois as leis da natureza não são violáveis ou mesmo suspendíveis… Hume pensava diferente. Para ele era totalmente possível que o Sol, que aparece no céu todos os dias, introduzindo o dia, e sai do céu, anunciando a noite, um dia possa deixar de aparecer (de fato, não apenas se escondendo atrás das nuvens)… Para Hume, as chamadas leis da natureza, por mais bem justificadas que sejam, podem ser refutadas amanhã, e muitas leis que foram consideradas invioláveis por muito tempo já foram refutadas e abandonadas… (o conjunto das “leis” que sustentavam o sistema geocêntrico, na astronomia, por exemplo). Assim, para Hume, não vem ao caso se milagres são considerados impossíveis, porque são definidos como violações ou suspensões das leis naturais, que seriam invioláveis e insuspendíveis, porque essas leis são, admitidamente, falíveis e, portanto, violáveis… Para Hume a questão é se, diante da evidência existente para eles, milagres são críveis, mesmo por alguém, como ele, que admite a sua possibilidade. A questão passa do plano da Ontologia — daquilo que é — para o plano da Epistemologia — daquilo que podemos dizer que conhecemos ou sabemos. Hume admitia que, se ele visse um milagre comprovadamente acontecer diante dos seus próprios olhos, ficaria surpreso, mas propenso a acreditar na sua veracidade. O problema é que ele nunca havia visto um. Todos os milagres que se alega terem acontecido, se foram vistos por alguém, foram vistos por gente que não pode mais ser interrogada e examinada em juízo, por estar morta, em geral há muito tempo, ou por alguma outra razão… Assim, só tomamos ciência do suposto acontecimento de milagres através de testemunhos ou relatos de seres humanos inalcançáveis. A questão relevante, para Hume, é a da credibilidade de testemunhos e relatos humanos. Nossa experiência mostra que os seres humanos, mesmo quando relatam eventos não milagrosos, não raro erram, imaginando ter visto algo que de fato não aconteceu, ou que não aconteceu exatamente como eles alegaram, assim enganando-se eles próprios. Além disso, temos inúmeros exemplos de casos em que seres humanos, por uma razão qualquer, têm interesse em nos enganar, relatando ter visto uma coisa que, em seu íntimo, sabem que nem de longe viram… Com Hume são mudados os termos da discussão. Se alguém me relata o acontecimento de algo que eu, durante toda a minha vida, nunca vi acontecer, e se eu estou acostumado a ver gente que, ao me relatar alguma coisa, ou se engana ou tenta me enganar, eu sou obrigado a me recusar a crer no relato — isto, se eu sou uma pessoa sábia e razoável, que adequa ou proporciona suas crenças à evidência disponível…

É assim que a gente vai ficando cada vez mais cético… Não acredita mais nem mesmo nas afirmações ditas científicas, sem mais, porque sabe que são conjeturas falíveis, e que os cientistas muitas vezes erram sem querer ou, por algum motivo qualquer, tentam nos enganar… Como no caso do Covid-19. E não acredita mais nas afirmações dos políticos e do pessoal da mídia, porque sabe que a grande maioria deles é corrupta…

No fim, sobra alguma coisas em que se possa acreditar, alguma tese que se possa aceitar? O problema aqui já extrapola a questão religiosa e teológica.

Este o grande dilema.

Em Salto, 1 de Agosto de 2020.



Categories: Belief, Reasonableness, Skepticism

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