O Ceticismo e Eu – Parte 2

Nesta segunda parte, bem como na terceira e na quarta parte (que virão a seguir), da discussão do tema (O Ceticismo e Eu), quero discutir três autores que abordam a questão da crença na existência de Deus, cada um a partir de um enfoque próprio, bastante original, mas que, no conjunto, formam uma discussão interessante e coerente dessa questão e uma contribuição importante para o tema:

  1. Blaise Pascal: Trata-se de um Jogo: Vale a Pena Apostar
  2. W K Clifford: Mesmo que se Trate de um Jogo, É Preciso Obedecer Regras Morais
  3. William James: Não se Trata de um Jogo: Trata-se da Liberdade de Crer

Antes de entrar nessa discussão, propriamente dita, um breve Preâmbulo.

1. Preâmbulo

Neste Preâmbulo vou explicitar duas breves questões:

Primeira questão: C S Lewis, ao final do seu artigo “On Obstinacy of Belief”, faz uma distinção entre “crer em Deus” (credere in Deum) e “crer que Deus existe” (credere Deum esse). Não vou entrar nas minúcias dessa distinção, exceto para esclarecer que, neste artigo, é da crença na existência de Deus que se trata. Quem acredita em Deus procura viver como acha que ele deseja, ter confiança nele (no amor e na justiça dele), e ter com ele um relacionamento pessoal; quem acredita que Deus existe apenas considera o enunciado (ou proposição) “Deus existe” verdadeiro, sem mais. Evidentemente, quem acredita em Deus acredita também que ele existe. Mas quem apenas acredita que ele existe não acredita nele, necessariamente, no sentido que eu mencionei. É isso o que penso agora, mas estou disposto a rever minha posição, caso necessário (i.e., caso alguém me mostre que estou errado).

Segunda questão: Novamente C S Lewis, que se tornou um ateu quando era adolescente, ao narrar a sua conversão quando tinha cerca de 32-33 anos, em sua autobiografia Surprised by Joy, faz uma divisão do processo de sua conversão em pelo menos duas etapas: na primeira, passou a acreditar na existência de uma força superior que de alguma forma era responsável pela existência do mundo e pelos mecanismos de sua conservação, e que, assim, também era responsável, em um plano geral, pelo que acontece e deixa de acontecer no mundo, sem, no entanto, micro gerenciar os acontecimentos no mundo (sem milagres, sem atendimentos de oração, etc.), pois lhe impôs leis gerais de operação que regem o seu comportamento; na segunda, passou a acreditar na existência de um Deus pessoal, que criou o mundo e tudo que nele habita, os humanos entre as demais coisas, que sustenta e é responsável pela operação desse mundo, em um plano detalhado, que, tendo em vista o fato de que os humanos que ele criou o desobedeceram e, assim, se afastaram dele, criou um plano de redenção para eles, que envolvia enviar seu Filho à Terra, etc. Ou seja, no primeiro caso, temos um Deus deísta, que é responsável pela existência do mundo e dos mecanismos que o mantêm em funcionamento, e que não interfere na máquina que produziu (vivendo, por assim dizer, fora dela, como deus ex machina); no segundo caso, temos o Deus dos cristãos, que não deixa nem um fio de cabelo cair de nossa cabeça se ele não quiser, que é infinitamente poderoso, sábio e bondoso, etc.. Neste artigo, trata-se basicamente do Deus dos cristãos, não do Deus dos Deístas.

As pessoas com que vou lidar neste artigo, se não são cristãs (como Clifford não era), têm como objeto de suas considerações as crenças dos cristãos. Pascal e James eram cristãos, se bem que de diferentes maneiras: Pascal era um religioso católico do século 17 e James era um filósofo e psicólogo americano, de tradição protestante, vivendo na transição do século 19 para o 20.

Vamos à discussão de Pascal.

2. Blaise Pascal (1623-1662)

O argumento de Pascal, apresentado no (longo!) segmento 223 de seus Pensamentos (Pensées), é relativamente simples — embora a apresentação dele, nos Pensées, seja meio embolada e prolixa… Vou simplificá-lo, consideravelmente, a ponto de admitir que este é mais um argumento meu, embora claramente inspirado no dele, do que um argumento de fato de Pascal. Não estou interessado na exegese do texto pascalino, apenas em suas linhas gerais.

  1. Em relação à existência de Deus, existem duas, e apenas duas, possibilidades:
    1. Ou Deus não existe.
    2. Ou Deus existe.
  2. Cada uma das duas alternativas tem igual probabilidade (chance) de ser verdadeira: fifty-fifty.
  3. É preciso que você escolha uma das duas alternativas: se você não escolher, será considerado como optante pela alternativa 1.1 (Deus não existe).
  4. Além deste, não há outro argumento para ajudar você a escolher a melhor alternativa.
  5. A única saída, portanto, é apostar numa das alternativas (1.1 ou 1.2): qual a sua escolha?
  6. Se você escolher a alternativa (1.1), que afirma que Deus não existe, haverá duas possibilidades:
    1. Se Deus de fato não existir, você vencerá a aposta, mas não receberá nenhuma recompensa.
    2. Mas se Deus existir, você perderá a aposta e será punido com seu envio para o Inferno, onde ficará para sempre.
  7. Se você escolher a alternativa (1.2), que afirma que Deus existe, também haverá duas possibilidades:
    1. Se Deus não existir, você perderá a aposta, mas não receberá nenhuma punição.
    2. Se Deus de fato existir, você vencerá a aposta, e será recompensado com seu envio para o Céu, onde ficará para sempre.
  8. Apostando que Deus não existe (1.1) você ou não ganha nada ou perde tudo; apostando que Deus existe (1.2) você ou não perde nada ou ganha tudo.
  9. Logo, fica evidente qual a melhor alternativa, em que faz sentido e vale a pena apostar: a alternativa que afirma que Deus existe (1.2).

É esse o argumento. Há alguma falha nele? Se há, qual é, ou quais são?

Creio que o argumento é enganosamente simples. Por isso, é preciso, inicialmente, fazer três esclarecimentos ou ressalvas:

Em primeiro lugar, não se trata de um argumento a favor da existência de Deus, mas, sim, na melhor das hipóteses, um de argumento a favor da tese de que é um bom negócio acreditar na existência de Deus (mesmo que ele não exista) — ou, mais corretamente, um argumento a favor da tese de que é um melhor negócio acreditar na existência de Deus do que não acreditar (independentemente de ele existir ou não). O argumento, na realidade, não é sobre Deus, mas, sim, sobre uma escolha que o leitor deve fazer e sobre uma decisão que ele deve tomar. O argumento não tem como objetivo provar que Deus existe. O objetivo de Pascal é provar que, independentemente de Deus existir ou não, é um bom negócio apostar que ele existe — ou que, independentemente de Deus existir ou não, é melhor que o leitor aposte que ele existe do que aposte que ele não existe. (Antony Flew é um dos filósofos de renome que apoia essa tese com inequívoca clareza em sua seção sobre Pascal em Introduction to Western Philosophy.) Ainda em outras palavras: o argumento não se situa no plano da ontologia ou da metafísica, mas, sim, no plano da pragmática. Ele procura falar ao nosso instinto de jogadores, de gente que procura levar vantagem em tudo, como uma vez disse um grande filósofo pragmático que jogou no Seleção Brasileira (e no SPFC).

Em segundo lugar, o argumento é omisso acerca de quais são as diferenças, se é que há alguma, em relação ao estado de espírito (inclusive as crenças) e à conduta do apostador, no período que medeia entre a sua aposta e o momento em que se revelará se ele ganhou ou perdeu a aposta. Em outras palavras, não se esclarece se, (a) ao apostar em 1.2 (que Deus existe), o apostador se obriga a realmente acreditar em Deus, a procurar viver como ele acha que Deus deseja, a ter confiança nele (no amor e na justiça dele), a ter com ele um relacionamento pessoal, etc. — isto é, a pensar e a viver como se Deus de fato existisse; ou (b) ao apostar em 1.1 (que Deus não existe), o apostador pode se considerar liberado de todos esses difíceis encargos e, assim, como se diz, “meter o pé na jaca”, acreditando no que acha que faz sentido e fazendo o que acha melhor, sem colocar Deus em suas considerações. Na inexistência dessa definição, vale pressupor que a única diferença na vida do apostador (em sua mente e sua conduta) que sua aposta necessariamente acarreta diz respeito ao momento posterior à revelação do resultado da aposta, se ele ganhou ou perdeu: no que diz respeito ao interregno entre a aposta e a revelação do seu resultado, nada se altera.

Em terceiro lugar, Pascal não esclarece por que não fazer uma escolha por 1.1 ou 1.2 equivaleria a escolher a alternativa 1.1. (Deus não existe) — por que não 1.2 (Deus existe)? Já que o argumento não diz respeito à existência de Deus, em si, mas apenas à escolha entre acreditar que ele não existe e acreditar que ele existe, como se tratasse simplesmente de um jogo de apostas, por que não dar ao leitor também a opção de não participar do jogo, eximindo-se de apostar — opção que seria equivalente à opção do agnóstico conservador, que não quer se arriscar? Por que tornar a participação no jogo de apostas (pelo menos implicitamente) obrigatória? A única explicação que encontro é tentar impedir a atitude tucana de ficar em cima do muro, que seria adotada por muita gente que adora não ser obrigado a tomar uma decisão em relação a questões difíceis.

Se forem admitidas as premissas do argumento, e forem corretos os meus esclarecimentos ou aceitas as minhas ressalvas, eu diria que o argumento de Pascal é irrespondível.

Se o direito de quem não deseja participar da brincadeira é reconhecido (terceiro esclarecimento ou terceira ressalva), só vai participar da aposta quem gosta desse tipo de jogo. Para uma pessoa desse tipo, que gosta de jogar e, especialmente, de jogo de aposta, leva em contra três elementos ao fazer uma aposta:

  1. A Chance de ganhar ou perder: os chamados odds, ou a probabilidade;
  2. O Custo da aposta: o quanto é preciso investir para poder jogar;
  3. O Retorno (Retribuição): a recompensa, no caso de ganho, o prejuízo, no caso de perda.

Assim temos, em relação ao argumento de Pascal:

  1. As chances de ganhar ou perder são absolutamente idênticas, como especifica o item 2 do argumento, qualquer que seja a aposta;
  2. O custo da aposta também é idêntico, a saber, inexistente, se se levar em conta o teor do segundo esclarecimento ou da segunda ressalva: faz-se a aposta, em uma ou na outra alternativa, sem precisar pagar nada, isto é, sem precisar mudar a mente ou a conduta em qualquer aspecto;
  3. Quanto à retribuição ou o retorno, há diferenças:
    1. Para quem apostar em 1.1 (Deus não existe), a recompensa, para quem ganhar a aposta, é zero, e o prejuízo, para quem perder a aposta, é total e infinito;
    2. Para quem apostar em 1.2 (Deus existe), o prejuízo, para quem perder a aposta, é zero, e a recompensa, para quem ganhar a aposta, é total e infinita.

Em outras palavras: quem apostar que Deus não existe nada tem a ganhar e tem tudo a perder; quem apostar que Deus existe tem tudo a ganhar e nada a perder. Logo, é evidente qual é a decisão a ser tomada: apostar que Deus existe.

Pascal era matemático e lógico. Sabia tudo sobre como construir argumentos. Construiu este de tal maneira que ele parece inexpugnável, irrespondível.

Por isso eu disse atrás, com todo cuidado, que o argumento de Pascal, SE forem admitidas as premissas explícitas do argumento, e SE forem aceitos os meus esclarecimentos e aceitas as minhas ressalvas, realmente é, simplesmente IRRESPONDÍVEL.

Que recursos sobram para quem não quer aceitar a conclusão? Basicamente três:

  1. Se for rejeitado o enunciado (ou impugnada a premissa) de número dois do argumento, que afirma: “Cada uma das duas alternativas tem igual probabilidade (chance) de ser verdadeira: fifty-fifty;
  2. Se for rejeitado o pressuposto do meu segundo esclarecimentos (ou da minha segunda ressalva), que afirma, basicamente, o seguinte: “a única diferença na vida do apostador (em sua mente e sua conduta) que sua aposta necessariamente acarreta diz respeito ao momento posterior à revelação do resultado da aposta, informando se ele ganhou ou perdeu (no que diz respeito ao interregno entre a aposta e a revelação do seu resultado, nada se altera)“;
  3. Se for rejeitado o enunciado (ou impugnada a premissa) de número três do argumento, que afirma: “É preciso que você escolha uma das duas alternativas: Deus existe ou Deus não existe; se você não escolher, será considerado como optante pela alternativa: Deus não existe” [como já indicado no meu terceiro esclarecimento (ou na minha terceira ressalva)];

Comentemos basicamente essas três estratégias de refutação do argumento pascalino.

Em primeiro lugar, é evidente que o argumento cai por terra se a alternativa de que Deus não existe (1.a) tiver maior probabilidade do que a alternativa de que Deus existe  (1.b), deixando as duas alternativas de ter exatamente a mesma probabilidade. Por exemplo: outros argumentos poderiam ser aduzidos para mostrar que, diante da inegável existência de mal natural no mundo criado do nada por Deus (mal natural sendo mal que não é causado por seres humanos), a probabilidade de que um Deus infinitamente poderoso, sábio e bondoso exista (1.b) diminui consideravelmente, ficando menos provável do que a alternativa oposta. Isto porque, se Deus existe e é onipotente e onisciente, ele será capaz de impedir a ocorrência de desastres naturais que causam morte, sofrimento físico, perda de parentes, amigos e propriedade, e, por conseguinte, enorme sofrimento emocional; se também for infinitamente bondoso, vai querer fazer isso para aqueles que considera seus filhos; se não faz isso, é porque não existe ou, então, não é onipotente, onisciente e infinitamente bondoso, deixando de ser o Deus cristão.

Em segundo lugar, é evidente que o argumento perde muita de sua atração se a aposta na alternativa 1.b, de que Deus existe, tiver um custo significativo no período que vai da realização da aposta até a revelação do seu resultado (provavelmente quando da morte do apostador ou no Juízo Final), cobrindo, portanto, o que resta da vida (pelo menos terrena) do apostador. Se ele tiver, desde o momento que faz a aposta, que acreditar em Deus, dedicar sua vida a Deus, cumprir os mandamentos e as exigências que Deus faz, ser membro de uma igreja, frequentar suas atividades, pagar dízimo, amar o próximo (inclusive o inimigo), fazer boas obras, ter conduta impoluta, não ter maus pensamentos,  etc. o argumento se torna bem menos atraente: o custo para a sua mente e para a sua conduta é alto.

Em terceiro lugar, se for admitida a possibilidade de não apostar (muito a gosto dos agnósticos), muita gente que não gosta de jogar, ou de ser obrigado a jogar (ainda que tacitamente), ou de tomar decisões difíceis, iria optar pela decisão mais fácil: ficar fora do jogo.

Qualquer dessas possibilidades, isoladamente, tira muito da atração do argumento de Pascal. As três juntas fazem com que ele perca totalmente a sua força persuasiva.

Incidentalmente, em um breve parêntese: persuadir alguém é conseguir que esse alguém venha a acreditar em algum enunciado em que não acreditava antes, ou venha a fazer algo que não se dispunha a fazer antes; convencer alguém é conseguir que esse alguém passe a considerar algum enunciado verdadeiro (ou falso, não faz diferença) ou passe a considerar uma linha de conduta moralmente certa (ou errada, também não faz diferença), passando a agir de forma coerente com a nova convicção. Fim de parêntese.

A essas alturas, já estamos razoavelmente do argumento original de Pascal. Mas há de convir que Pascal encontrou maneiras de blindar seu argumento original, em especial ao estipular (forçando a barra) que as chances de ganhar e perder são idênticas (no enunciado de número dois do argumento original), e ao especificar (no enunciado de número três do argumento original) que não seria possível se omitir de escolher (a omissão sendo uma escolha tácita por 1.1), e ao deixar implícito que a aposta não teria nenhum custo, nem de um lado, nem do outro.

Por enquanto, é só… Até as partes seguintes.

Em Santo, 4 de Agosto de 2020.



Categories: Betting Game, Ceticismo, Jogo de Apostas, Skepticism, Uncategorized

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