A Cantiga Dele (do Chico)

Well… Chico did it again! Acertou a mão numa poesia que se encaixou com uma luva na melodia do pianista Cristóvão Bastos. A cantiga — é assim que ele a chama — tem o título simples de “Tua Cantiga”. Se você ainda não ouviu, ouça e veja no link a seguir o Clip Oficial, com o próprio cantando. Com aquela carinha simpática, aparentemente inofensiva, e com aquela voz frágil de não-cantor, que qualquer sopro parece ser capaz de apagar… Eis o link do Clip Oficial.

O conjunto, letra e música, nos faz lembrar dos bons tempos. Na minha memória, faz lembrar, embora em outro ritmo, de “Quem te viu e quem te vê”. Em ainda outro ritmo, de “Valsinha” — de todas, a minha favorita.

“Tua Cantiga” está causando problemas para o Chico.

As músicas antigas do Chico causaram problemas – principalmente com a censura. Há quem pense que a época da censura tenha passado. Well, como diria o Paulo Francis: não passou. A censura continua firme…

A esquerda (em especial a feminista, ou, como preferem alguns, feminazi) está tratando o Chico como ele tratou a Geni numa outra canção antiga.

Por quê? Porque na música, a dona da cantiga é casada, e quem (na história) faz a cantiga, também. E, naturalmente, não com ela. E este diz que deixa mulher e filhos para seguir, de joelhos, sua paixão e sua musa…

Bastou isso.

Eis a letra inteira (o verso mais pecaminoso é o quarto):

Tua Cantiga

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho, a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega,
Desta cantiga
Que fiz pra ti

https://www.letras.mus.br/chico-buarque/tua-cantiga/

Até intelectuais (ou quase) têm se manifestado, fazendo eruditas análises do discurso para explicar que o poeta tem direito de criar sua arte e, afinal de contas, o personagem da história, que, nela, compõe a cantiga, não pode ser identificado com o Chico. Ou, alternativamente, afirmando que o sentido do texto que se lê ou se ouve não integra o próprio texto, mas é atribuído a ele por quem o lê ou ouve… Haveria, no caso, pelo menos três possíveis sentidos que seria plausível atribuir ao texto da cantiga: o sentido que lhe atribuiriam, em regra, os homens, em geral; o sentido que lhe atribuiria a mulher que se sente o objeto de uma paixão como aquela; e o sentido que lhe atribuiria a mulher que se põe no lugar da que seria largada, se e quando… Qual seria o sentido verdadeiro do texto? Ele não teria nenhum. O Chico escreveu apenas um texto sem sentido. Por que tanta celeuma?

Como as pessoas conseguem ser ridículas!

Feministas? Vão achar algo mais útil para criticar.

Pós-modernistas? Se alguns de vocês lerem este texto aqui, saibam que ele tem um sentido, sim, que é mandar vocês plantar batata… (que pelo menos é algo honesto e útil).

Chico? Você merece o sucesso que “Tua Cantiga” vai fazer e o dinheiro que você vai ganhar, porque você é um excelente poeta. Mas você merece também fazer o papel de Geni por aquilo que você diz quando não está fazendo poesia.

Em Salto, 17 de Agosto de 2017

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Categories: Canções e Cantigas

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