A Segunda Guerra: O Desfecho Final  

Ontem, depois do almoço, resolvi, não sei bem por que carga-d’água, ler a parte final do enorme livro The Rise and Fall of the Third Reich – A History of Nazi Germany, de William L. Shirer. O livro, publicado pela primeira vez em 1961, e que tem, na versão atual em Inglês, 1.280 páginas (em um só volume – em Português dividiram-no em dois volumes e ele ficou com 1.648 páginas), é organizado em seis partes, que o autor chama de “livros”. Nunca entendi bem por que um autor escreve um livro e o divide em seis “livros”, em vez de seis partes ou divisões, mas como de louco todo mundo tem um pouco, fica por isso mesmo.

A parte final do livro, a sexta, aquela que eu me pus a ler, tem o título de “6 – The Fall of the Third Reich”. As outras cinco partes têm os seguintes títulos, para que o leitor possa se situar na obra: “1 – The Rise of Adolf Hitler”, “2 – Triumph and Consolidation”,  “3 – The Road do War”, “4 – War: Early Victories and the Turning Point”; e “5 – Beginning of the End”. A parte seis, que foi a que eu li, tem, na edição do livro que eu possuo (de 2011, quando a primeira edição completou cinquenta anos), dois capítulos (o 30 e o 31), um epílogo e um posfácio, este escrito em 1991 (quando da reunificação das duas Alemanhas), com os seguintes títulos: “30 – The Conquest of Germany”, “31 – Götterdämmerung: The Last Days of the Third Reich”, “A Brief Epilogue”, e “Afterword”.  (Götterdämmerung, para quem não conhece Alemão, quer dizer “Crepúsculo dos Deuses” e é o título original de uma ópera de Richard Wagner).

Parêntese: uma hipótese sensata. Depois de ter dito que não sei direito por que fui ler a parte final desse livro, parei um pouco e refleti sobre o assunto, para ver se encontrava uma explicação plausível. Passando várias coisas na cabeça, cheguei a um hipótese sensata, com dois “prongs”, como se diz em Inglês. “Prongs” são os “dentes” de um garfo. O garfo do Diabo tem, pelo que consta, três dentes, sendo chamado, por isso, de “Tridente”. Mas também há garfos de dois, quatro ou até mais dentes. Um garfo de um dente só seria mais um palito, ou um pick (instrumento unidental que você pode usar para pegar uma azeitona de um pratinho – ou para tirar comida dos vãos dos dentes). Minha hipótese tem, como um bidente, dois dentes. O primeiro dente, ou prong, é o seguinte. Há questão de um mês comprei, do mesmo autor (que foi jornalista, e não historiador profissional – morreu em 1993), William L. Shirer, um autobiografia em três volumes (que ele novamente chama de “livros”), com o título geral de Twentieth Century Journey. O primeiro volume cobre sua vida de 1904 (quando nasceu) a 1930, o segundo, de 1930 a 1940, e o terceiro, de 1945 a 1988 (cinco anos antes de ele morrer). Cada volume tem um título próprio, mas dispenso-me de declina-los. Mais curioso é que nenhum volume cobre os anos 1940 a 1945 da vida do autor, que são os anos da Segunda Guerra (mais ou menos). Parece que a história da guerra, que ele tão bem narrou, virou parte tão essencial da autobiografia dele, que nada mais restava a contar sobre aquele período… Comprei a autobiografia em formato e-book, por US$ 3.99, na Amazon. Uma barganha – porque, além de tudo, ela tem 1.999 páginas! (Se fosse eu o autor teria esticado a autobiografia um bocadinho, inventando, que fosse, um causo qualquer, para arredondar o total de páginas para 2.000. Não me conformo com um livro que tenha 1.999 páginas. Mas, como também se diz, cada louco com sua mania… 1.999 páginas estava bom o suficiente para ele). O segundo dente do garfo é o seguinte. Lembrei-me, logo depois que escrevi o trecho sobre “a carga d’água”, que, ontem, recebi um e-mail de propaganda da Amazon Brasil me oferecendo o Rise and Fall em Português, em dois volumes, com o título de Ascensão e Queda do Terceiro Reich, e o preço escrito assim: R$ 189,90  R$ 129,20. É verdade que o livro, em Português, repito, tem dois volumes, capa dura, e 1.648 páginas (indicando que o tradutor deve ser prolixo). Mas mesmo altamente descontado, o preço de R$ 129,20 ao câmbio de hoje dá cerca de US$ 39,35 – e o livro em Inglês custa, US$ 29.89, em capa dura, dez dólares menos do que o preço descaradamente descontado da Amazon. Pior ainda fica quando se compara o preço do livro no Brasil com o do livro, no original, em brochura muito bem encadernada: US$ 12.36. Conclusão: acho que foi por ter tido esses dois pontos de contato recentes com o Shirer que eu fiquei predisposto a pegar o livro dele sobre a Alemanha Nazista para ler ontem depois do almoço – e amanheci hoje disposto a escrever sobre o que li. A mente da gente funciona de forma misteriosa – principalmente a parte dela que fica fora do controle da consciência. E pegar um livro assim aleatoriamente da estante, sem pensar muito, é outra de minhas manias. Fim do parêntese.

Confesso que a leitura do relato acerca dos dias finais da Segunda Guerra me deixou um bocado deprimido acerca da capacidade do ser humano de acreditar em teses, enunciados e afirmações  para os quais não há nenhuma evidência ou mesmo contra os quais existe evidência consistente.

Eu deveria estar acostumado com isso.

Afinal de contas, sou professor de História da Igreja Cristã e sei, muito bem, que desde a época de Jesus e de Paulo, que considero os dois principais fundadores do Cristianismo, os cristãos acreditam que o mundo está na iminência de acabar e que vivemos, portanto, no Final dos Tempos. Houve épocas em que alguns cristãos mais ousados e epistemicamente corajosos definiram dia e hora para o Fim do Mundo. No entanto, passados dois mil anos, o Fim do Mundo nunca veio. Mas poucos foram os que, por isso, deixaram de acreditar na iminente chegada do Final dos Tempos. Na verdade, há um número enorme de cristãos, certamente maior do que no século primeiro, que continua a afirmar, com certeza absoluta, sem se deixar abalar com os fracassos de previsões anteriores, que o Fim do Mundo está próximo.

Dou outro exemplo. Passei quase 35 anos de minha vida trabalhando na UNICAMP, um refinado antro de esquerdistas. A instituição é lotada de petistas e gente ainda mais à esquerda, que, independentemente do ponto no continuum esquerda-direita em que se encontrem, ainda acreditam na ideologia marxista-leninista (em alguns casos, marxista-leninista-stalinista), mais do que refutada e desmentida por fatos e por argumentos. A propósito, eles em geral também acreditamque o Lula é um cara honesto e bem intencionado e que tudo o que se diz acerca de seus crimes e de sua roubalheira não passa de calúnia da direita. Fico com a impressão de que se o Lula, num ataque de honestidade (mesmo), confessasse todos os seus crimes e “malfeitos” (como a Dilma os chama), o pessoal de esquerda que vive na academia iria preferir acreditar que a direita havia sequestrado o ex-presidente, aplicado nele alguma injeção que lavou o seu cérebro (no sentido figurado), e implantado no cérebro dele um novo “programa”, totalmente coerente com as teses da direita… – nunca admitindo que o cara, além de safado, é o rei da mentira (como, aliás, nesse caso ele orgulhosamente admitiu em vídeo).

Enfim… No caso do Alemanha Nazista, chegou uma hora em que qualquer pessoa sensata, representando qualquer um dos lados do confronto, examinando os dados oficiais e os relatos de jornalistas que acompanhavam a guerra no campo de batalha, perceberia que o fim da Alemanha estava próximo. O livro do Shirer tem capítulos que indicam que, depois de várias vitórias significativas por parte da Alemanha Nazista, e da conquista (em alguns casos, nem sequer um esboço de reação) de países importantes como, ao Norte, a Finlândia, a Dinamarca e a Noruega, e no fronte ocidental, a Bélgica, a Holanda, e finalmente a incrível França (que sempre perde e, depois, consegue sair na foto com os vencedores), e depois de ter chegado perto de tomar a Inglaterra, a “coisa” começou a virar – a coisa sendo, na descrição de Shirer, a maré favorável a Hitler. Tudo indica que a coisa começou a virar quando os nazistas, confiantes de que a guerra já estava quase ganha, resolveram romper o pacto de não-agressão que haviam firmado com a Rússia e a invadiram… esquecendo-se de que, do outro lado, o ocidental, os Estados Unidos estavam começando a sentir cócegas para entrar na guerra e derrotar a Alemanha de novo! Assim, Hitler transferiu para o fronte oriental da guerra recursos que estavam sendo usados para assediar a Inglaterra, no fronte ocidental, e acabaram deixando os dois frontes não muito bem guarnecidos. Essa história começou em 1941-1942. Durante o glorioso ano de 1943 (glorioso só porque foi o ano em que nasci), as coisas ficaram mais equilibradas, e, em 1944, a maré virou [1]. O ano de 1944 já pode ser descrito como o ano do princípio do fim: a maré não iria mais virar de novo. A partir desse momento, a Alemanha Nazista, só uma palavra a descrevia: kaput

Enquanto isso, Der Führer estava num bunker, considerado virtualmente inexpugnável, no recôndito mais profundo da Chancelaria Alemã, no centro de Berlin. E os russos marchando, vitoriosos, de um lado, e, do outro, os americanos, igualmente vitoriosos – ambos na direção de onde? De Berlin. Exatamente isso: na direção de onde Hitler estava. Muitos dos seus zelosos assessores recomendaram-lhe que talvez não fosse a coisa mais sábia ficar ali para dar boas-vindas aos russos, seus ex aliados traídos, e aos americanos, sedentos por mais uma vitória. Que ele fosse para o lugar que ficou conhecido como “O Ninho da Águia”, mas cujo nome era Kehlsteinhaus, a sua fortaleza pessoal, no alto dos Alpes da Bavária, num local pertencente à cidade de Berchtesgaden (155 km de Munique, mas apenas 30 km de Salzburgo, na Áustria), onde seria muito difícil prendê-lo vivo (mas onde, naturalmente, ele poderia facilmente ser destruído por uma bomba potente vinda de mais alto ainda). Mas o homem era teimoso. Bolou esquemas fantásticos – mas todos fantasiosos. Seus generais, no campo de batalha, lhe mandavam um telegrama quando as coisas saíam bem e eles eram vitoriosos. Quando perdiam, preferiam não falar nada… Alguns sumiram do mapa com seus exércitos sem avisar o chefe, e este despachava ordens para que resistissem mais ferozmente para não deixar que os inimigos chegassem até o marco zero de Berlin, mas não recebia resposta… Começou a ficar com complexo de traição, como o Lula do Mensalão: todos os meus amigos estão me traindo!!! Mesmo alguns dos generais mais famosos montaram seus esquemas de sobrevivência e simplesmente não apareceram mais no bunker… Ali ficaram Hitler, Eva Braun, Göbbels e família, e um monte de gente que não tinha autonomia nenhuma para tomar uma decisão diferente. Por muito tempo Hitler resistiu ferozmente à evidência de que os barulhos e os tremores das estruturas que se ouviam e se sentiam no bunker eram sinal de que o inimigo estava à porta. Uma hora, porém, não deu mais para negar o evidente. Ele transmitiu uma última mensagem de que continuaria no bunker, resistindo até a morte, casou-se com Eva Braun, coitada, mas com a condição de que ambos se suicidassem em seguida. Esperou tanto para ter a gloriosa oportunidade de morrer com ele. Em 30 de Abril de 1945, Eva Braun tomou veneno e Adolf (peço desculpas pela intimidade que chama-lo pelo primeiro nome pode sugerir) deu um tiro na boca. Parece que bastou. Acho que a ordem foi essa: primeiro ela se mata e depois, ele (vai que…). Terminou assim o trágico romance. Na verdade, terminou assim, melancolicamente, uma vida trágica. Dos assessores mais importantes de Hitler só o famoso Göbbels resolveu morrer com ele. Concluiu que havia dedicado sua vida ao Führer e que a ele também dedicaria a sua morte – e a de sua família inteira! Em 1º de Maio de 1945, depois de se certificar que Hitler estava mesmo morto, ele chamou os seis filhos (!), aplicou-lhes uma injeção letal, deu veneno para a mulher e ele próprio tomou o seu frasco. Fim de caso. Tanto no caso de Hitler como no de Göbbels, eles tomaram providências para que seus corpos fossem incendiados com gasolina, para não dar aos inimigos o gostinho de prender e levar consigo alguma coisa que se parecesse com o que eles um dia haviam sido.

Tétrico. E merecido. Mas concordo com o autor do maravilhoso filme argentino El Secreto de sus Ojos que, em alguns casos muito especiais, a morte é uma punição branda demais: em alguns segundos ou minutos está tudo acabado e o cara não sente, e, portanto, não sofre mais nada por todo o mal que perpetrou… Os calvinistas conseguiram imaginar um local em que os não eleitos passariam a eternidade inteira, sem fim, em sofrimentos indescritíveis, um após o outro, ininterruptos, sem cessar… Penas eternas desse tipo, isto sim é punição digna de um Hitler. Pena (?) que os calvinistas vieram a acreditar que esse seria o destino de todos nós os que não fôssemos agraciados com a seletiva e arbitrária eleição divina, e não apenas para uns poucos, como o protagonista Hitler e seus coadjuvantes, de quem, em maldade, felizmente não chegamos aos pés.

Nota Única:

[1]   Consta que um militar americano, General Henry H. Arnold, Comandante Geral das forças aéreas do exército americano, teria considerado a semana de 20-26 de Fevereiro de 1944 o “tipping point”, a partir do qual os aliados começaram a vencer e a guerra e os nazistas, naturalmente, perdê-la. A variável que ele usou para seu cálculo foi o número de aeronaves inimigas abatidas diariamente em dia de tempo bom. Compare-se William L. Langer, editor, An Encyclopedia of World History (Boston: Houghton Mifflin, 1968), p. 1151.

Em Salto, 18 de Dezembro de 2017.

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Categories: Hitler, Segunda Guerra Mundial, World War II

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