A Fé, a Esperança, e o Amor

Eu tenho uma coleção enorme de Bíblias: tudo que é tradução para o Português (capitaneada pela Almeida, a versão que eu cresci lendo – na realidade, aquela em que ou com que eu aprendi a ler, em casa), várias traduções para o Inglês (capitaneadas pela Tyndale e pela King James, esta a que eu cresci lendo, depois que comecei a aprender Inglês), uma tradução para o Alemão (que só pode ser a de Lutero, que eu comecei a ler quando aprendi Alemão), uma tradução para o Francês, para o Espanhol, até para o Chinês (presente de minha prima  Denise, que morou muito tempo na China)… E tenho Bíblia em Hebraico (apenas o Velho Testamento, a Biblia Hebraica), em Grego (o Novo Testamento) e em Latim (a Bíblia inteira, a famosa Vulgata, traduzida da Septuaginta para o Latim, por São Jerônimo e equipe). Mas não as leio muito assiduamente. Faço-o quase só quando eu quero achar alguma passagem específica. Já li a Bíblia de capa a capa algumas vezes (creio que três), nos bons tempos, naqueles tempos em que as Bíblias compradas (não na Conde Sarzedas que não existia ainda como locus evangelicus) vinham com um planinho segundo o qual a gente, lendo três capítulos por dia, exceto no domingo, que exigia cinco, a leria inteira em um ano.

Mas, vira e mexe, eu me surpreendo com alguma coisa na Bíblia. Anteontem, véspera de Natal, a Paloma fez uma brincadeira que envolveu distribuir alguns versículos para grupos de três ou cinco de nós e nos forçar a alguma reflexão sobre o texto (brincadeiras de Paloma são assim: tentam juntar o agradável ao útil e obrigar todo mundo a participar: só a Milena, minha sobrinha neta, de 13 anos, conseguiu escapar desta, me deixando um pouco invejoso dela…). Mas, para encurtar, caiu-me nas mãos um conjunto de dois versículos que me surpreendeu: Romanos 8:24-25, que, na tradução escolhida pela Paloma (a NTLH) diz o seguinte:

“Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por aquilo que está vendo? Porém, se estamos esperando alguma coisa que ainda não podemos ver, então esperamos com paciência.”

Paulo, o apóstolo tardio, é considerado o autor de Romanos por quase todos os estudiosos (a carta dirigida aos cristãos de Roma, capital do Império Romano, e cidade em que, segundo consta, Paulo morreu, crucificado por Nero). Por sua vez, Romanos é a epístola paulina mais bem considerada e comentada por teólogos famosos – basta lembrar que foi aí que Lutero encontrou o estopim de sua reforma, baseada na justificação pela graça, por meio da fé, e Karl Barth, o estopim de sua neo-ortodoxia, que lhe permitiu fugir do liberalismo teológico de seus mestres, decepcionando von Harnack. Romanos, para mim, sempre esteve indelevelmente ligada à justificação pela GRAÇA, através da FÉ.

 Paulo também é considerado, pela maioria dos estudiosos, o autor das duas epístolas aos Coríntios, duas cartas meio ranzinzas, porque o pessoal de Corinto era meio barra… Karen Armstrong se referiu a Paulo, provavelmente pensando nessas duas cartas, como o apóstolo que todos adoram detestar. De qualquer forma, é na primeira carta que há o famoso Hino ao Amor, no capítulo 13, que termina (no versículo 13) dizendo: “portanto agora existem estas três coisas: a fé, a esperança, e o amor. Porém, a maior delas é o amor” (NTLH). Para mim, I Coríntios sempre esteva indelevelmente ligada à justificação pelo AMOR, através de AÇÕES, pois o amor não é só um sentimento, mas, sim, algo que se traduz em ações, vale dizer, em OBRAS. Assim sendo, sempre li esse versículo como uma porta aberta para reconciliar Paulo e Tiago, que afirmou, na epístola atribuída a ele, que a fé sem ações é MORTA: “Portanto, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé, sem ações, está morta” (Tiago 2:26 – NTLH).

Os protestantes conservadores, em especial os luteranos e os calvinistas ortodoxos ferrenhos afirmam, em resposta à pergunta “que devo fazer para ser salvo e ir para o céu depois da morte para lá gozar eternamente as delícias do paraíso?” SIMPLESMENTE NADA. Absolutely nothing. Essa a grande descoberta de Lutero, ajudado um pouquinho por Agostinho: a salvação é uma obra monergística de Deus – isto é, Deus a executa sozinho, sem a participação dos salvandos. E faz isso, não por qualquer mérito dos salvandos, mas exclusivamente pela sua graça soberana. Ele faz tudo sozinho, sem nenhuma colaboração do homem. Segundo alguns, de mais bom senso, as pessoas têm pelo menos de aceitar o “dom gratuito” de Deus (vale dizer, acreditar, crer, que isso é verdade) – esse seria o significado do “mediante a fé”. Para os calvinistas ortodoxos mais ferrenhos, porém, nem mesmo aceitar pela fé a pessoa precisa: se ela está entre os eleitos, a sua salvação é enfiada pela sua goela adentro ou abaixo mesmo sem o seu assentimento, e, depois de engolida, é indevolvível, pois a graça de um Deus soberano e todo poderoso é simplesmente IRRESISTÍVEL.

Essa tese, descoberta em Romanos por Lutero, acabava com as maiores fontes de receita da Igreja Católica, que afirmava, tiaguinamente, que é preciso que a fé seja acompanhada de de ações, de obras – boas obras, das quais as principais envolvem dar algum dinheiro para a igreja, na forma de contribuição, ou comprar algum serviço ou algum bem vendido com exclusividade pela igreja – o principal bem/serviço no século 16 sendo as famosas indulgências, que, compradas pelos fieis, apagavam os pecados deles, ou, pelo menos, a punição por eles, ou, pelo menos, o tempo em que esses pecados teriam de ser purgados no Purgatório – e isso para os pecados deles, de seus parentes, de seus amigos, até mesmo dos que já haviam morrido há muito tempo… Agora vem Lutero tentando acabar com esse negócio maravilhoso? Excomunhão nele. Foi assim que nasceu o Protestantismo.

Assim, para mim, a salvação (ou justificação, como preferiam tanto Lutero como Calvino) era algo que ficava entre a graça divina e as boas ações humanas, entre a fé e o amor.

Agora, nos versículos distribuídos pela Paloma, se esclarece que aquilo que está entre a fé e o amor é, como Paulo havia dito aos Coríntios, nada menos do que a ESPERANÇA. Foi por meio da esperança que fomos salvos, diz ele em Romanos.

Para mim, ler isso foi um alento: não preciso mais me esforçar para crer em nada, em especial, não preciso crer que Jesus é Deus, que a morte dele tira pecado, que ele ressuscitou dentre os mortos, etc. para ser salvo e fruir as delícias do céu, ouvindo o rei Davi tocar uma bela harpa, ao lado de Betseba, e comendo umas uvinhas em caldo de doce de leite derretido com creme de leite, todo mundo vestido de brancos vestidos… Basta ter esperança, nothing else.

Enquanto eu pensava nessa miragem, me ocorreu um pensamento meio problemático: Mas no que consiste a esperança?

Ocorreram-me duas observações que já havia ouvido ou lido.

A primeira é de Paulo Freire (os meus colegas bolsonaristas mais radicais que me desculpem terminar o ano citando o demo), que afirmou que existem dois tipos de esperança: uma, ligada ao verbo esperar; a outra, ligada ao verbo esperançar. (Desculpem-me de novo: o Paulo gostava de inventar palavras; o Rodrigo Constantino acha que era só isso que ele sabia fazer).

Esperança de esperar é mera espera, mero esperamento, mero aguardamento (já que estou em clima de Paulo Freire, também vou inventar umas palavrinhas). Fique na sua e tenha paciência. Parece que o autor de Romanos (Paulo, provavelmente) tinha esse tipo de esperança em mente, pois diz que quem espera precisa ter paciência. A paciência dos cristãos que esperam que Jesus volte já dura dois mil anos. Haja paciência. Paulo acreditava que Jesus ia voltar ainda na época dele.

Esperança de esperançar é algo mais ativo, pois, se você esperanceia (sorry) ir passar as férias em Portugal, não basta aguardar, ainda que pacientemente: você tem de fazer alguma coisa, ganhar a graninha para as despesas, fazer jus a umas férias, etc. Se você esperanceia (sorry again) ir para o céu, você precisa tomar várias providências, não é só esperar que a providência divina providencie as férias, a grana, faça reserva nos hotéis, etc.

A segunda observação pertinente me chegou pela boca ou por uma carta do meu orientador de doutorado. Depois de me recomendar para emprego junto a vários amigos dele, ele me disse (oralmente ou por escrito, não me lembro bem – foi em 1971-1972): “Hope for everything, but expect nothing”, que academicamente traduzido quer dizer: esperanceie por tudo, mas não expectative nada. Meu orientador que, para os íntimos (como eu, depois de defender a tese e ser aprovado, me tornei, pela sua graça, também irresistível), era Bill Bartley, cria que, além da esperança de esperar (aguardar) e da esperança de esperançar (fazer alguma coisa para que a coisa esperançada se concretize), há um terceiro tipo de esperança: a esperança de expectativar.

Na minha forma de ver as coisas, esse terceiro tipo de esperança é aquela que envolve crença, convicção, certeza, etc. que aquilo que é esperançado está no bolso, e, portanto, não é apenasmente esperançado: é também expectativado. Você está tão certo da coisa que já faz planos para quando o dia chegar.

Certamente, no tocante à salvação, eu não expectativo nada. Mas também não fico só no esperar do tipo aguardar ônibus no ponto. Sou meio freireano nesse aspecto: eu esperanceio, faço algumas coisas para merecer a graça divina, tento facilitar as coisas para Deus, sendo razoavelmente bom, honesto, cumpridor dos meus deveres no melhor da minha capacidade, etc. (Vocês já imaginaram se, sendo eleito, como eu acredito ser, eu vivo uma vida dissoluta? Irei complicar as coisas para Deus). Como dizem os motivadores, eu até visualizo minha chegada ao céu, e me imagino acompanhando a harpa de David ao violão (lá no céu minha competência violonística deverá ser aperfeiçoada), numa interpretação arrasadora do Salmo 23. Meu principal defeito, isto não é segredo para ninguém, até meus inimigos sabem disso, está no departamento crença ou fé. Sou ruim disso. Acho que o danado do Hume me contaminou a tal ponto que fiquei preso a um ceticismo (ainda que mitigado, não radical) inarredável.

Por isso, agradeço à Paloma trinitariamente. Primeiro, por ter sido o instrumento de meu retorno à igreja, a partir de 2008. Segundo, por ter me feito admirar alguns aspectos de Paulo Freire, como a invenção do verbo esperançar. Terceiro, por ter desenterrado esses dois versículos de Romanos, que me tiraram um peso da alma.

Estou de boa. Eu sempre fui um calvinista que acreditava plenamente estar entre os eleitos, só pela graça, sem precisar de fé, agora sei que posso esperançar tranquilo, vivendo de forma honrada, e aguardando a hora da transição com tranquilidade. De esperançamento sou bom. Modéstia à parte.

Em Salto, 26 de Dezembro de 2019.



Categories: Amor, Esperança, , Uncategorized

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