Conversas: As que Vale a Pena Guardar e as pra Jogar Fora

Acabamos de atravessar o período de festas do fim do ano, ocasião que famílias e amigos se reúnem para conversar, comer e beber – não, necessariamente, nessa ordem.

Aquilo que se considera conversa não raro não passa de um tumulto bagunçado de cada um querendo falar mais do que o outro, e mais alto, num diálogo de surdos.

Pra conversar é preciso não só saber falar: é preciso também saber ouvir o outro – e também saber ver, cheirar, degustar, sentir o mundo, sentir com as mãos ou com outras partes do corpo mais adequadas à ocasião… Se não, acabaremos por ficar sem ter o que dizer. E o pior de tudo é que muitos insistem em falar mesmo quando nada têm a dizer.

Bem, sempre podemos dizer alguma besteirinha qualquer, não é? Mas será preciso, ou estamos dizendo a besteirinha apenas preencher o tempo, para que ninguém diga que não participamos da zoeira que chamamos de conversa?

Gosto muito de dois ditos, em relação aos quais, infelizmente, não me lembro mais quem disse, nem onde:

“Bem aventurados os que, nada tendo a dizer, não se deixam persuadir a dizê-lo”

“Quem diz algo, apenas porque imagina que, ficando calado, vão imaginar que ele é ignorante, ao dizer, muitas vezes, elimina qualquer dúvida…”

É possível também ouvir os outros, e ver, cheirar, degustar, sentir o mundo, através da leitura. É verdade que ler é vivenciar e experimentar o mundo de segunda mão, vicariamente. Mas é melhor que nada, não é? Mas será que só isso? Não raro é muito melhor do que nada… Se a pessoa que escreveu é perceptiva e sensível, sabe observar o mundo com cuidado e em detalhe, e sabe descrever o que observou de forma precisa, clara e elegante, aprendemos mais com a leitura das palavras de outrem do que com a nossa própria “leitura do mundo”, direta, de primeira mão, para aproveitar uma frase curta, mas sábia, de Paulo Freire. (“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”). [Paulo Freire, A Importância do Ato de Ler: Três Artigos que se Complementam (Autores Associados e Cortez Editora, 1989].

E a tecnologia atual nos permite conversar, no melhor sentido do termo, pela escrita, e, o que é melhor, com quem está longe… e fazer isso não só assincronamente, mas de maneira síncrona, simultaneamente… E podemos conversar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo sem que esse fato gere excesso de ruído e bagunça… E fica tudo registrado. As coisas boas que foram ditas e o lixinho… (Guardar lixinho é algo que normalmente não vale a pena – mas há gente que consegue reciclar lixo muito bem… Muita gente consegue dizer não-besteiras importantes sobre as besteiras ditas pelos outros – especialmente da esquerda…)

Na verdade, há dois jeitos de ler. Um é ler com vistas a fazer uma prova no futuro próximo. Neste caso você tem de prestar atenção a detalhes e estar pronto para detectar possíveis tópicos para pegadas. O outro é ler para aprender, para tentar vivenciar e experimentar o mundo, de segunda mão, que quem escreveu provavelmente vivenciou e experimentou, de primeira mão. Como disse, não raro ler uma algo escrito por alguém perceptivo, sensível e que sabe observar o mundo é infinitamente melhor do que olhar o mundo com os nossos olhos fracos, míopes e cansados, que procuram, e encontram, sempre as mesmas coisas…

No lindo prefácio que o Rubem Alves escreveu para o meu livro Educação e Desenvolvimento Humano: Uma Nova Educação para uma Nova Era, ele disse (na verdade, escreveu – o Rubem escreve como quem está falando, como quem está conversando):

“Quero, preliminarmente, esclarecer o leitor sobre a minha maneira de ler, pois é ela que determina minha maneira de escrever. Eu leio antropofagicamente: devoro os livros que amo. Depois de devorá-los eles entram no meu sangue. Circulando no meu sangue deixam de pertencer ao autor: passam a ser parte de mim. Assim, ao escrever sobre um livro, escrevo sobre ele tal como foi por mim digerido amorosamente. Tolo seria um homem apaixonado que, ao escrever sobre o jantar que sua amada lhe preparou, transcrevesse as receitas dos pratos que foram servidos… Assim, não vou transcrever e nem resumir. Vou falar sobre aquilo que esse livro fez comigo depois de digerido…”

[In Eduardo Chaves, Educação e Desenvolvimento Humano: Uma Nova Educação para uma Nova Era, Mindware Education, Kindle Edition, Segunda Edição, 2019, Loc.336/14345]

Ainda ontem uma pessoa de quem eu gosto muito e a quem muito admiro me perguntou se eu não estaria disponível para conversar um pouco sobre o Rubem Alves (meu amigo durante mais de 50 anos e colega de trabalho na UNICAMP por uns 30). Disse que sim – até porque gosto muito de falar sobre o Rubem Alves e de conversar com essa pessoa (ele é curioso e a curiosidade dos outros sempre nos leva a refletir e, assim, aprender mais).

Fiquei com o pedido dessa pessoa na cabeça.

Primeiro me ocorreu que ele poderia conversar diretamente com o Rubem lendo as inúmeras coisas que o Rubem escreveu e que estão facilmente disponíveis, muitas até de graça, na Internet.

Mas daí me ocorreu uma objeção que Sócrates uma vez fez a Teuto, quando este lhe sugeriu que, em vez de ficar conversando na praça, dizendo coisas que eram importantes, mas que em seguida se volatizavam (porque verba volant…), Sócrates disse algo assim: “Livros até falam, mas não dialogam”. Livros, segundo o Grande Mestre das Praças Atenienses, falavam, mas não ouviam, e, por isso, eram incapazes de conversar.

Ah, a grande arte de conversar, hoje perdida! O que Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé fizeram, a três, em um mesmo Roda Viva, não foi conversar, não foi dialogar socraticamente: foi monologar em série… Melhor assim do que a bagunça de uma assembleia estudantil ou uma discussão em família! Mas que nenhuma das duas coisas conversa, não é mesmo…

Hoje cedo resolvi ler, mais ou menos ao acaso, ler alguns ebooks que tenho no meu Kindle. Vou relatar uma passagem curta, de um livro, e uma mais longa, e em Inglês, de outro.

Primeiro, a mais curta, contida no mote, e que consiste apenas de uma frase dita por Marcel Proust:

“A única verdadeira viagem não seria viajar por cem lugares diferentes com o mesmo par de olhos, mas seria ver o mesmo lugar através de cem pares of olhos diferentes.” [“The only true voyage would be not to travel through a hundred different lands with the same pair of eyes, but to see the same land through a hundred different pairs of eyes.”]

[Apud Timothy Ferriss. Tribe of Mentors: Short Life Advice from the Best in the World (Motto), HMH Books. Kindle Edition].

A segunda passagem é um trecho longo de um livro de Amy E. Herman. O trecho vem de um capítulo intitulado “The Importance of Seeing What Matters” (A Importância de Ver o que Importa).

“WHEN DERRECK KAYONGO stepped into the shower in his Philadelphia hotel room, he noticed something that millions of business travelers and families on holiday before him had seen and not paid any particular attention to: the tiny bar of soap on the corner shelf. It was different. Instead of the smooth green oval he had used the evening before, a small cardboard box sat in its place. Inside was a brand-new bar of soap. The Ugandan native, who as a child had left everything behind when he and his family fled Idi Amin’s murderous dictatorship, was a recent American college graduate, and on a tight budget. He turned off the water, dressed, and took the unused soap down to the concierge desk. ‘I want to make sure I am not charged for this,’ he told the employee. ‘I have not used it, and do not need it.’

‘Oh, don’t worry, it’s complimentary,’ the concierge answered.

‘Thank you, but I already got one yesterday when I arrived,’ Kayongo explained. ‘Where is that one?’

‘We replace the soap every day for every guest,’ the concierge assured him. ‘No charge.’

Kayongo was shocked. Every room, every day? In every hotel? Throughout America?

‘What do you do with the old bars?’ he asked.

Unlike the slivers of soap used in the African refugee camps he had grown up in, the bar from his shower was fairly substantial; it seemed almost brand-new even after he had used it.

‘Housekeeping throws them away,’ the concierge said, and shrugged.

‘Where?’

‘Just the regular trash.’

‘I’m not a great mathematician,’ Kayongo tells me, ‘but I quickly realized that if only half of the hotels did this, it was an incredible amount of soap—hundreds of millions of bars just being dumped into landfills. I couldn’t get it out of my head.’

Kayongo called his father, a former soap maker, back in Africa and told him the news.

‘You won’t believe it. In America, they throw away soap after they have used it only once!’

‘People there can afford to waste soap,’ his father told him.

But in Kayongo’s mind it was a waste no one could afford, not when he knew more than two million people, most of them toddlers, still died every year from diarrheal disease, a malady easily prevented by the simple act of washing one’s hands with soap. Soap was a luxury item many in Africa could not afford, yet in America it was simply thrown away.

Kayongo decided to try to do something with his new country’s trash to help his old country.

Back home in Atlanta, he drove around to local hotels and asked if he could have their used soap.

‘At first they thought I was crazy,’ he remembers, a smile spilling through his voice over the phone. ‘Why do you want those? They are dirty. Yes, that was a problem, but we can clean them. We can clean soap!’

Kayongo found a recycling facility to scrape, melt, and disinfect the bars of soap he collected, and the charity Global Soap Project was born. He has since recycled one hundred tons of soap and distributed repurposed, life-saving bars along with a hygiene education program to people in thirty-two countries on four continents. In 2011, Kayongo was deservedly named one of CNN’s ‘Heroes.’

Unlike the heroes of old movies and swashbuckling fables, we don’t have to be the strongest, fastest, smartest, richest, handsomest, or luckiest to get ahead or make a difference in the world.

The most successful people in modern times—people such as Bill Gates, Richard Branson, Oprah Winfrey, and Derreck Kayongo—prove that it doesn’t matter what physical attributes we have or don’t, our level of education, our profession, our station in life, or where we live. We can survive and thrive today if we know how to see. To see what’s there that others don’t. To see what’s not there that should be. To see the opportunity, the solution, the warning signs, the quickest way, the way out, the win. To see what matters.”

[Amy E. Herman, Visual Intelligence: Sharpen Your Perception, Change Your Life, (HMH Books. Kindle Edition, pp. 3-5]

Por fim, para voltar ao Rubem Alves e ao pedido que fez meu amigo… Uma vez ouvi uma mini-apresentação do Rubem, não estou certo se foi no seu Restaurante Dali, sobre um quadro, creio que de Johannes Vermeer, que ele aproveitou para tecer alguns comentários sobre “A Aprendizagem da Arte de Ver”. Se seus olhos não têm nenhum problema, ver não parece ser uma coisa complicada. Diferentemente da fala e da leitura, que precisamos aprender, todos nós, aparentemente, nascemos sabendo ver – não parece necessário ter de aprender isso, como se fora uma arte qualquer.

Mas o Rubem quis saber, dos presentes, o que eles viam. As respostas foram simples. Parece que é um quadro sobre alguém que recebeu uma carta. O Rubem continuou a inquirir. E quem foi que recebeu a carta? De quem era a carta? O que ela dizia? A resposta em geral era que não dava para responder isso olhando para o quadro. O Rubem continuou? Mas olhem para a expressão no rosto de quem está lendo a carta. É possível inferir alguma coisa? E assim continuou. Ao final, havia várias possíveis “leituras” do quadro – sem que fosse possível concluir qual delas era (mais) verdadeira, se é que alguma…  Mas, no processo, aprendemos um bocado sobre a “Arte de Ver”.

O Rubem lia a Bíblia como se fosse literatura, não como se fosse ciência, história, crônicas de fatos. Ao encarar a Bíblia assim, as perguntas mudam. As questões não são mais do tipo: “O peixe que engoliu Jonas era uma baleia? E baleias conseguem engolir seres humanos adultos? A mula de Balaão realmente falou? O Sol foi realmente parado por Josué? Naquela época o Sol se movia e a Terra ficava parada? Por que José foi chamado de pai de Jesus em vários lugares do Novo Testamento, se o nascimento de Jesus foi realmente de uma virgem? E assim vai.

O Rubem nos ensinou um bocado sobre como ler o mundo, ou ver um quadro, ou interpretar a Bíblia.

Salto, em 1º de Janeiro de 2020



Categories: Conversas, Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: