It was only yesterday that… (1): O Milagre de Marialva

Hoje, no quarto dia de 2020, ouvindo Karen Carpenter (que saudade!) cantar Only Yesterday, sob o competente acompanhamento do irmão (cujo primeiro, incidentalmente, creio que nunca soube – ela era a alma da dupla!), ocorreu-me começar a escrever uma série de crônicas sobre a temática It was only yesterday that… E quando tenho o que me parece uma boa ideia para um artigo ou uma crônica, em geral não perco tempo para começar… Às vezes a coisa sai inteira, de uma vez. Outras vezes, sai aos pedaços e fica difícil continuar e, especialmente, acabar. Algumas vezes a coisa aborta.

It was only yesterday that… eu estava na charrete, com meu pai, minha mãe e meu irmãozinho mais novo, o Flávio, que no dia 20.12.19 completou 73 anos com uma linda festa proporcionada por seus filhos. Fiquei meio com inveja… A Paloma já me proporcionou uma maravilhosa festa de aniversário, em 2009, aqui no sítio, no segundo aniversário meu que passamos juntos (e o primeiro que passamos no sítio). Eu fazia, naquele ano, 66 anos e ela 34. Juntos, comemoramos o centenário de nossas vidas somadas… Lindo, nunca vou me esquecer. Mas minhas filhas nunca me deram uma festa de aniversário como a que o Flavinho e o Césinha deram pro Flavião, ou Flá-Flá, como ele mesmo se designa… (Este ano passado de 2019 a Paloma e eu celebramos, mais modestamente, 120 anos de nossas vidas somadas. Cada um ficou dez anos mais velho, somando dá vinte.)

Mas estou fugindo do assunto da charrete. Foi em Marialva, PR, cidade que, naquele tempo tinha duas ruas, a de baixo e a de cima. Meu pai era pastor lá. Minha mãe era a linda mulher do pastor, com um menino de três anos, eu, e esperando outro, o Flá. Ela tinha, como dizia um colega meu da UNICAMP, cearense, apenasmente vinte e dois anos. Acho que o Teodorico Paraguaçu foi inspirado nesse meu colega, mas ele era ex-padre, não ex-político. Ou talvez fosse, não sei, não importa. Quando chegou a hora de meu irmão nascer, saímos de Marialva e fomos para Campinas, onde moravam meus avós e minha tia Alice… Fomos de trem. Tomávamos o Expresso Ouro Verde em Ourinhos, descíamos na Sorocabana, em São Paulo, andávamos, de mala e cuia, até a Paulista, e íamos para Campinas. Lá pegávamos o bonde para ir até a casa da minha avó. O Flávio nasceu lá. Eu tinha apenas três anos, três meses e treze dias e já perdia minha condição de filho unigênito dos meus pais. (A de primogênito, nunca perdi, felizmente!) Mas me lembro de tudo. O Flávio, como eu e minhas duas irmãs, elas dez e doze anos depois, nascemos em casa. Eu em Lucélia, elas em Santo André. Mas, como dizia, me lembro de tudo. Na bagunça de ferve água, pega toalhas, chama a parteira, etc., esqueceram-se de mim, e, quando o Flávio chegou, creio que eu fui o primeiro a dar-lhe as boas vindas a este mundo: estava no pé da cama, aquele toquinho de gente que eu era, prestando máxima atenção a todos os detalhes. Não é sempre que a gente tem assento de primeira fila em um espetáculo desse tipo… Minha memória é muito boa para espetáculos que valem a pena e que são didáticos – ou, como diria a Paloma, matéticos, isto é, do tipo em que a gente aprende coisa importante, especialmente antes da hora, mesmo que ninguém tenha a intenção de nos ensinar alguma coisa…

Mas estou fugindo do assunto da charrete de novo… Não sei quanto tempo ficamos em Campinas, no casarão em que o Flá nasceu. Nós o chamávamos de Casarão do Seu Chico. Ficava na Rua José Paulino 254, perto do Largo do Pará, em Campinas, e perto também do pontilhão de ferro, pintado de preto, da Companhia Paulista de Estrada de Ferros, que deu o nome de Ponte Preta ao bairro e ao time que ali nasceu em 1900 – a Veterana, apelidada de Macaca. O campo dela, que os bugrinos, despeitados pela idade da concorrente, chamavam de “pastinho” o Estádio Moysés Lucarelli, que, convenhamos, era bem mais feio que “O Brinco de Ouro da Princesa”, todo de concreto. No pastinho da Ponte o chão de vez em quando afundava e deixava um buraco… Quando a gente passava no trem da Paulista, indo para São Paulo, ou voltando, podia ver o campo inteiro, de cima do aterro muito alto (o terreno era irregular, o campo ficava em um buraco) em que estavam os trilhos da ferrovia. Quando o trem passava e estava havendo um jogo, era uma glória – embora a gente só visse uns dois ou três segundos de jogo. Em todo caso, onde era em 1946-1947 o casarão do Seu Chico, é hoje um hotel. A Avenida Aquidaban, feita pelo Quércia, quando prefeito da cidade (bom prefeito!) roubou metade do Largo do Pará. E a Accord construiu um Mercure e um Ibis do outro lado dela, onde o Largo do Pará antes terminava… A Paloma e eu já ficamos hospedados no Mercure dali…

Mas continuo a fugir do assunto da charrete de novo… Talvez seja porque eu fiquei meio traumado, como dizia uma professora amiga minha que morava em Cosmópolis. O que aconteceu foi o seguinte. Agora não vou fugir de contar. A charrete estava com um cavalo novo, meio arisco, e um menino passou por nós num carrinho de rodas de rolemã, e o cavalo se assustou. Empinou, e ao aterrisar colocou as patas sobre um barranco. A charrete virou. Estava com a capota armada. Virou do lado da minha mãe, que estava com o Flávio no colo. Eu estava no meio, mais protegido. Caí em cima de minha mãe, e meu pai, ágil, deu meio que uma cambalhota para não cair em cima de nós e, quem sabe, machucar o Flá… A rua era de terra e comemos um pouco de pó. Mas tivemos muita sorte. Meu pai disse que foi um milagre. Se foi, foi o primeiro que vi. Não diria que foi o último. Um outro foi a Paloma gostar de mim, trinta e dois anos mais velho do que ela. O que aconteceu, voltando para o milagre de Marialva, foi que, meu pai, rápido no gatilho, nos puxou para longe da charrete. Foi nossa salvação. No minuto seguinte, o cavalo disparou puxando a charrete virada. Só parou cerca de um quilômetro depois. Não sobrou nada da pobre charreta. O deus das charretes não foi tão bom com ela quanto o nosso foi conosco.

Parece que foi ontem… e já faz 73 anos. Meu pai já se foi, minha mãe também, mas o Flá e eu estamos firmes, mais ou menos, hanging in there, como dizem os gringos, por força do milagre de Marialva.

 It was only yesterday that

Pra você, Flá, um relato de seu nascimento e de alguns acontecimentos dos seus primeiros meses, contado por alguém que estava lá e viu tudo – por uma testemunha ocular da história!

Em Salto, 4 de Janeiro de 2020.



Categories: Memórias, Memories, Uncategorized

2 replies

  1. Lindo… Adoro suas crônicas… Enquanto leio, parece que a gente está sentado juntos, e você contando seus causos…

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