Sherlock Holmes e Jesus Cristo

Eu li apenas o capítulo inicial do livro, mas na minha mente ideias já pululam e saltitam. O livro é From Holmes to Sherlock: The Story of the Men and Women Who Created an Icon, e o autor é o sueco Mattias Boström (Grove Atlantic, na tradução para o Inglês, 2017 – original sueco de 2013).

O autor, um fã de Sherlock Holmes, receava que Sherlock Holmes, um personagem tão britânico e tão vitoriano, pudesse deixar de ser apreciado pelo público do século 21, um público, digamos, pós moderno, que não confia na razão, na objetividade, na crença de que a verdade existe e que a encontraremos se a procurarmos com método, denodo e seriedade. Na mente do autor, não se tratava simplesmente de, numa transposição hermenêutica, tornar as histórias do século 19, brilhantemente inventadas por Sir Arthur Conan Doyle, digeríveis e apreciadas pela população do terceiro milênio. Tratava-se, isto sim, de reescrever as histórias de Sherlock Holmes para o contexto do século 21, em que há terrorismo, islamismo, Internet, redes sociais, invenção de notícias (fake news), discurso de ódio (hate speech), guerra cultural e ideológica, intolerância, construção de narrativas que reescrevem o passado e produzem leituras alternativas do que está acontecendo no presente, com vistas a construir o futuro que se deseja alcançar — sem nenhuma preocupação com fatos e com a verdade.

Para o autor, não se trata, por exemplo, fazendo uma analogia entre Sherlock Holmes e Jesus de Nazaré, de pegar um relato de Jesus, ao lado do Mar da Galiléia, multiplicando cinco pães e dois peixinhos para dar de comer a uma multidão, e interpretar o que essa história teria a dizer para as pessoas do século 21. Trata-se de reescrever a história da multiplicação dos pães e peixes para o século 21, de modo a se tornar inteligível e relevante para a gente pós-moderna, cheia de ódio e intolerância, que não se importa com a verdade e com o que é moralmente correto, pois tudo é relativo, etc. de modo a tornar a tarefa hermenêutica menos complicada.

Seria possível literalmente reescrever as histórias de Sherlock Holmes para o século 21, removendo-lhe o cachimbo, o chapeuzinho idiota, a capa, os trejeitos de um britânico do século 19, e tornando-o, por exemplo, um ex combatente na guerra do Iraque, corajoso mas chegado a uma droga mais forte, embora seja eleitor do Partido Republicano e tenha votado em Donald Trump, com manias atualizadas de modo a serem facilmente compreensíveis pelos leitores de nossa época, etc. – e fazer isso sem perder o vínculo ou o liame com as histórias que gerações anteriores leram e admiraram? Isso seria viável? Factível? Se for, será que o produto será convincente? Será que o leitor não preferiria uma obra literária totalmente nova, em vez de se tentar colocar vinho novo em odres velhos?

Como se pode ver, o desafio hermenêutico vai além dos scholars bíblicos. É possível reescrever Jane Austen e Charles Dickens, ou José de Alencar e Machado de Assis, colocando suas histórias na Inglaterra ou no Brasil da atualidade, de modo a se poder dizer que é a mesma história, apesar de totalmente reescrita?

O importante é compreender a diferença entre as duas abordagens. A primeira, tradicional, de ler o que Conan Doyle e os autores bíblicos escreveram, na forma em que escreveram, ainda que atualizando a linguagem, e tentar tirar lições para o século 21. A segunda, inovadora e revolucionária, de manter o corpus sherlockiano e bíblico como referência, mas recriar as histórias num contexto que exija menos ginástica hermenêutica por parte dos leitores.

O desafio está colocado. Agora vou voltar ao livro para ler o capítulo 2…

Em Salto, 11 de Junho de 2020



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