Existe a Liberdade de Crer e Descrer?

1. Introdução

Desde que comecei a estudar Teologia, nos idos de 1964, vai fazer sessenta anos daqui a dois anos, tenho tido interesse na controvérsia sobre o livre arbítrio – a questão da liberdade do ser humano. Na História do Pensamento Cristão essa controvérsia teve disputantes que ficaram célebres. No fim do período da História da Igreja Antiga, Agostinho e Pelágio disputaram. Agostinho ganhou, Pelágio foi declarado herege. No início da Reforma Protestante, Lutero e Erasmo se enfrentaram. Lutero ganhou (em termos), Erasmo foi declarado herege pelos luteranos. No século seguinte a controvérsia novamente pegou fogo, agora entre Calvinistas Ortodoxos (talvez mais ortodoxos do que Calvino) e Arminianos (talvez mais ortodoxos em seu arminianismo do que o próprio Armínio). Os Calvinistas Ortodoxos ganharam dentro da fé reformada calvinista, ali os Arminianos perderam, e foram cantar em outra freguesia – mas sobrevivem, fortes, até hoje, talvez, numericamente, até bem mais fortes do que os Calvinistas Ortodoxos. Billy Graham e todos os pastores que fazem apelo que o digam.

Simplificando um pouco a controvérsia, a questão básica é a seguinte. Se eu não sou cristão, se sou pagão, ou muçulmano, ou um indígena escondido no recôndito da Amazônia, e eu ouço a mensagem cristã, digamos que (antes de ele morrer) numa Cruzada do Billy Graham, eu sou inteiramente livre, depende apenas de mim, aceitar a Jesus Cristo como meu Salvador, tornar-me cristão, e dedicar o resto da minha vida a ele. Ou será que não?

Pelágio, Erasmo e os Arminianos em geral (passando por cima de diferenças entre eles) dizem que SIM. Ao ouvir o apelo, só depende de mim fazer a escolha, tomar a decisão, e ir à frente para me tornar cristão dali para frente. A queda dos nossos primeiros pais, no Jardim do Éden, acarretou a mortalidade deles e de todos os seus descendentes, mas não destruiu o seu livre arbítrio, não os tornou incapazes de livremente tomar grandes decisões, sobretudo a de se tornar um seguidor de Jesus Cristo.

Agostinho, Lutero e Calvino, por outro lado, acreditam não só na doutrina da predestinação (a dupla predestinação, pelo menos entre os Calvinistas Ortodoxos, tanto para a salvação como para a perdição eterna), mas na doutrina da corrupção total do homem: a queda de Adão e Eva tornou todos os seus descendentes totalmente incapazes até mesmo de aceitar por si só, por sua livre e espontânea vontade, a salvação que, segundo um hino evangélico tradicional, é “um dom gratuito de Deus”, a maior manifestação da graça divina para com o homem. Para aceitar esse dom, oriundo da graça divina, é necessário que Deus intervenha, com uma graça adicional, preveniente, que leva os eleitos a aceitar a Jesus Cristo e ganhar a salvação. Sem essa gratia praeveniens, não há como o homem dizer SIM, não há salvação. Mas, para os eleitos, está garantido que Deus concederá essa graça. Para os não eleitos, não há graça preveniente e, por conseguinte, não há salvação. Inferno direto, sem baldeação, sem mesmo uma parada intermediária para esticar as pernas.

2. Sou Livre, Liberal e Até Certo Ponto Libertário

Vou ser biográfico um pouquinho. Sempre sou, em meus artigos.

Eu, desde os meus 21 anos, sou liberal. Mais recentemente, passei a me considerar libertário. A liberdade para mim está entre as características mais importantes do ser humano. Sempre achei muito difícil acreditar na predestinação (em especial na dupla), na corrupção total do homem, no chamado monergismo (na salvação Deus faz tudo, age sozinho, sem a cooperação humana), na graça preveniente. Sempre achei que a aceitação de Jesus Cristo como Salvador é um ato livre da pessoa humana, que, da mesma forma que pode aceitar, pode rejeitar. Só isso justificaria (em termos) o Céu para uns (os que creem), o Inferno para outros (os que se recusam a crer).

Nunca tive dúvida de que nós, seres humanos, somos basicamente livres: para pensar, para sentir, para agir – e, naturalmente, para crer (ou descrer).

Sou livre para pensar? Naturalmente que sim. Livre pensar, dizia Millôr Fernandes, é só pensar. Posso pensar coisas agradáveis, coisas desagradáveis, coisas horríveis, e até coisas muito impróprias. Nunca aceitei a afirmação de Jesus de que quem tem um mau pensamento em relação a uma pessoa (“Bem que esse cara poderia morrer”), já cometeu assassinato – ou já cometeu adultério, se for casado e o pensamento for de natureza sexual. Pensar, para mim, é uma coisa, agir para realizar o que se pensou, outra coisa, muito diferente.

Sou livre para sentir? Para amar, por exemplo? Ou deixar de amar? Aqui a coisa parece um pouco mais complicada. Há muita gente que gostaria de deixar de amar uma pessoa e não consegue. Ou que gostaria de amar uma pessoa, bonita, de bom caráter, de boa índole, crente em Deus, e não consegue. O Príncipe Charles, quando casado com a Princesa Diana, certamente gostaria de amá-la, e provavelmente desejou parar de amar a mulher que ele de fato amava. (Quanto problema teria deixado de existir se ele tivesse feito isso – talvez fosse até rei, hoje, ao lado da rainha Diana). Tudo ficaria tão mais simples se amar ou deixar de amar alguém fosse algo que a gente pudesse escolher e decidir e, pronto, estivesse feito. Mas as coisas não são assim tão simples. A gente pode até tentar, mas não há garantia de que consiga.

Sou livre para agir? Não tenho nenhuma dúvida que sim. Estou sentado aqui no meu quarto lendo e escrevendo numa das noites mais frias que já passei aqui em Salto. São 21h. Eu tenho total liberdade para ir dormir agora. Ou para continuar aqui escrevendo. Ninguém me coage, ou mesmo me pressiona, a fazer uma coisa ou outra. Ou poderia escolher ainda fazer uma terceira, ou uma quarta coisa. Poderia não ir dormir, mas parar de escrever e passar a ver televisão. Poderia fazer uma loucura e sair na noite para procurar um bar acolhedor onde tomar um conhaque que me aquecesse. Ou fazer inúmeras outras coisas. A única coisa que de certo modo condiciona a minha escolha é minha natureza. Não gosto muito de sair de casa, mesmo que o tempo esteja bom. Logo, sair para tomar um conhaque numa noite escura e fria está fora de cogitação para mim. Posso até tomar o conhaque, mas aqui em casa mesmo. Ver televisão também está bem fora de cogitação para mim. Há mais de dois anos que decidi não assistir mais a programas de televisão. Nem mesmo jogos de futebol e corridas de Fórmula 1, de que eu gostava. E assim vai. Peguei até implicância com televisão, especialmente por causa da Globo, que espero que quebre. Mas a decisão de que vale mais a pena ficar em casa em vez de sair, ou de continuar escrevendo em vez de ver televisão, sou eu que as tomo, livremente. Sou livre para agir. A liberdade é algo que se aplica primariamente à ação.

3. Sou Racional, com uma Tendência Cética, Antidogmática

David Hume, filósofo escocês do século 18, talvez a pessoa mais racional que já existiu (racional no sentido de razoável, não de racionalista, que ele nunca foi), afirmou que a pessoa racional / razoável é aquela que procura proporcionar suas crenças às evidências para elas disponíveis. Há evidência contrária a determinada crença, e nenhuma evidência favorável, não adote essa crença. Há evidência favorável a determinada crença, e nenhuma evidência contrária, você pode adotar a crença sem deixar de ser racional / razoável — mas faça-o de maneira cautelosa, prudente, meio cética, nunca de forma dogmática, porque pode haver evidência contrária que ainda não foi encontrada. A evidência se divide entre favorável e contrária? Suspenda o seu juízo: nem acredite, nem desacredite. Espere uma melhor definição do quadro evidencial. E assim vai.

David Hume advertiu de que é possível que haja evidência favorável a uma determinada crença que, no entanto, é falsa, e que é possível que haja evidência contrária a uma determinada crença que, no entanto, é verdadeira. Ele ilustrou com uma história (aparentemente verídica) em que um viajante britânico viajava pelo coração da África, e entabulou conversa com um habitante de uma localidade, perto de um belo lago, em que uma manada de elefantes bebia água. Conversa vai, conversa vem, o britânico perguntou ao nativo: — “Você acredita que, lá onde eu moro, há uma época do ano em que a água de lagos como este fica tão dura, por causa do frio, que essa manada de elefantes poderia atravessar o lago andando, sem afundar?  — “Não acredito”, disse o nativo. E Hume comenta que o nativo estava sendo perfeitamente racional / razoável em não acreditar, porque aquilo que o britânico lhe disse era tão distante de sua experiência que não havia como ele pudesse crer que fosse verdade.

Lição: a verdade é uma coisa, a racionalidade, outra. Uma afirmação é verdadeira se ela corresponde aos fatos da realidade, e falsa, em caso contrário. Uma crença é racional / razoável se temos evidência adequada para ela, e não temos evidência contrária. Mas há verdades para as quais não temos nenhuma evidência, e há falsidades para as quais temos alguma evidência. Por isso, alguém pode ser racional / razoável e acreditar em algo falso, como pode não acreditar em algo verdadeiro e, ainda assim, ser racional, como o nativo africano.

Assim, eu, além de livre, tento ser racional, não ser dogmático, evitar a irracionalidade.

As crenças que tenho eu as tenho porque acredito ter evidência adequada para elas. As que tive e abandonei, eu abandonei porque vim a acreditar que a evidência que eu imaginava ter para elas não era eficiente para sustentá-las. As crenças que não tinha e vim a adotar, agora já velho, passaram por um processo inverso: eu acreditava não haver evidência para elas e, com o tempo, constatei que havia – pelo menos em quantidade maior e de qualidade melhor do que havia para as crenças contrárias. Em alguns casos, suspendi meu juízo por um tempo, e, depois, acabei pendendo para o lado oposto.

Isto está de certo modo acontecendo no momento em relação à questão que é tema do capítulo seguinte.

4. Existe Mesmo a Liberdade de Crer e Descrer?

Agora vem a questão decisiva: Sou totalmente livre para crer e descrer? Como disse atrás, sempre achei que sim. Mas nos últimos tempos li um livro que me balançou um pouco – que, na verdade, está me balançando.

A questão é importante. Se eu não sou livre para crer e descrer, eu não posso ser recompensado por crer ou punido por descrer: seria extremamente injusto. Qualquer que seja o objeto da crença: a salvação por meio de Jesus Cristo ou a graça preveniente ou qualquer outro.

Se você está no trânsito e vê um carro à sua frente cruzar um farol vermelho e atropelar um motociclista – será que você é livre para não crer que o carro atropelou o motociclista? Será que é possível que você diga: — “Vi o atropelamento acontecer na minha frente, mas não acredito que ele tenha acontecido”? Será que acreditar ou não no que você viu é uma escolha sua, que você tem total liberdade de fazer? Dificilmente. A crença, em um caso assim, se impõe. Outro exemplo parecido… Se você está entrando nas dependências da escola e vê seu namorado beijando uma outra moça, a melhor amiga sua, e não tem nenhuma dúvida de que é ele e que é ela, será que você é livre para não crer naquilo que os seus olhos estão vendo, a saber, que ele estava beijando a outra moça, sua melhor amiga? Será que acreditar ou não no que você viu é uma escolha ou decisão sua, que você tem total liberdade de fazer? Dificilmente. A crença, em um caso assim, se impõe.

Nesses dois exemplos, muito parecidos, mencionei acontecimentos passíveis de observação, pela visão. Parece que experiências sensoriais visuais são auto-atestatórias, elas atestam a sua própria verdade, elas se confirmam a si mesmas, sem necessidade de outras evidências. Se você viu alguma coisa acontecer, parece impossível que você alegue: — “Vi, mas não acredito que tenha acontecido”. Se você disser isso, virtualmente todo o mundo vai achar que você está meio destrambelhado.

É verdade que, de vez em quando, a gente observa visualmente determinadas coisas tão improváveis que a gente duvida, por um momento, que realmente esteja vendo aquilo. A gente pergunta a quem está do lado: “Você também está vendo o que eu estou vendo? Me belisque para eu ter certeza de que estou acordado!”  Mas situações assim são excepcionais. Em regra, experiências sensoriais visuais carregam suas próprias credenciais, como se fosse. A resposta “Acredito porque eu vi com estes olhos que a terra há de comer” é, em regra, uma resposta cabível e cabal para a pergunta acerca da razão por que a gente acredita que determinado fato aconteceu.

Mas mudemos o tipo de exemplo… Um amigo chega e lhe pergunta: — “Você acredita que todo homem é mortal?”, e você responde que sim. Ele continua: — “E você acredita que Jesus Cristo foi um homem?”, e você (digamos) responde que sim. Seu amigo conclui: — “Então você acredita que Jesus Cristo era mortal”? Novamente, se você responder que acredita nas duas primeiras afirmações (que funcionam como premissas), mas não na terceira (que funciona como conclusão), seu amigo (e, com ele, todo mundo que conhece um pouco de lógica) vai achar que você está meio destrambelhado, ou, então, não conhece “nadica de nada” de lógica.

Parece que a lógica, assim como a observação sensorial visual também nos constrange a aceitar a conclusão (acreditar nela) de um argumento válido cujas premissas são verdadeiras. Se você disser que acredita que todo homem é mortal e que Jesus Cristo foi um homem, você estará se contradizendo se negar (não acreditar) que Jesus Cristo era mortal – tanto era, que morreu. A crença de que ele era mortal se impõe.

Mas mudemos mais uma vez o tipo de exemplo… Um calvinista ortodoxo tenta convencer você da verdade das doutrinas da eleição, da dupla predestinação, da queda, do pecado original e da total corrupção do ser humano por causa da queda. E você lhe pergunta: — “E uma criança que morre logo depois de nascer, digamos que uma semana depois, e não é eleita por Deus, ela vai passar o resto da eternidade no Inferno, sem ter cometido pecado algum?” Se ele responder que não, ele estará se contradizendo. Ele terá que, inevitavelmente responder que sim. Você pergunta por quê. E ele lhe diz que é porque, antes da criação do mundo, Deus determinou que iria haver a queda, elaborou um plano de salvação, e escolheu salvar uns tantos dos que iriam nascer, depois de criado o mundo, e depois de acontecida a queda, determinando que os demais estariam perdidos, condenados ao Inferno, por causa do pecado dos nossos primeiros pais. Você pergunta por quê.  E lhe diz que é porque Deus é Soberano e ele assim escolheu, decidiu e resolveu. Ponto final para ele. Você tenta argumentar que acha isso profundamente injusto e que, dada a sua razão / razoabilidade, sua experiência, e seus valores, você simplesmente não consegue acreditar nisso. Ponto final para você. Mas você resolve ainda fazer mais uma pergunta: Será que você vai para o Inferno por não acreditar nas doutrinas da eleição, da dupla predestinação, da queda, do pecado original, e da total corrupção do ser humano ao nascer? E ele lhe diz: — “Se você não estiver entre os eleitos, vai; se estiver, não vai”. Mesmo não crendo, se eu estiver entre os eleitos, eu vou para o Céu? você retorque. Sim, é a resposta. Ele (o seu amigo) está absolutamente coerente com suas premissas e você está coerente com o que você entende serem os ditames da razão / razoabilidade, coerente com sua experiência, coerente com seus valores. Mas você não está sendo lógico, se aceitar as premissas dele e não aceitar a conclusão. Para não ser acusado de contradição, você terá de negar pelo menos uma das premissas dele. Porque a Lógica constrange. Em um argumento válido, se você não aceita a verdade da conclusão, você é obrigado a negar a verdade de pelo menos uma das premissas. A decisão sobre qual das premissas você rejeitará, ou se todas, é sua. Aqui você é livre.

E aqui estamos.

Um interstício autobiográfico para terminar este capítulo.

Com toda franqueza, por mais que eu tenha tentado, não há como eu, pessoalmente, consiga acreditar nas doutrinas que constituem as premissas do argumento apresentado, porque elas acarretam, no meu entender, a veracidade de uma conclusão absurda: “Se eu sou eleito, não faz diferença: vou para o Céu de qualquer jeito; e se não sou eleito, não importa, porque irei para o Inferno de qualquer jeito”. Ou seja, meu destino está decidido, não importa o que eu faça. E a minha liberdade, onde fica?

O livro que estou lendo e que me motivou a fazer estas reflexões é The Myth of the Closed Mind: Understanding Why and How People are Rational (2012), de Ray Scott Percival – que é meu amigo. É um livro carinho. Mais de 40 dólares pela versão Kindle. Mas vale a pena, na minha forma de ver e entender as coisas. Percival acredita que, na maioria das situações, nós não somos livres para crer ou descrer: nós somos constrangidos pela nossa experiência sensorial (visual) e pela lógica – vale dizer, pela nossa racionalidade. Nós podemos até tentar não reconhecer e aceitar a nossa racionalidade – e acreditar em qualquer coisa que nos pareça aceitável. Mas, mais cedo ou mais tarde, a gente acaba reconhecendo e aceitando – e daí não somos livres para aceitar ou rejeitar qualquer crença. Aceitamos o que nossa racionalidade sanciona, e não aceitamos o que ela rejeita. Assim, não temos a liberdade total de crer ou descrer, posto que somos racionais – por obra da natureza, da evolução, ou de Deus. A resposta que Percival dá à pergunta que dá título a este capítulo é basicamente NÃO.

5. A Dificuldade de Ser Racional / Razoável

No entanto, ser racional / razoável o tempo todo é difícil. Mesmo de vez em quando, às vezes também é difícil. A experiência sensorial visual e a lógica nos obrigam a aceitar conclusões que a gente não gostaria de aceitar e nos proíbem de aceitar conclusões que a gente gostaria muito de aceitar… Diante disso, em geral, quem sai perdendo é a lógica: as pessoas abandonam a lógica e, por vezes, admitem, com candura, que são um poço de contradições. “Estou me contradizendo, e daí?”

Estou lendo um outro livro interessante (sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo – em termos). Trata-se de The Story Telling Animal {How Stories Make Us Human}, de Jonathan Gottschall (também de 2012). Antes e mais do que ser um animal racional / razoável, somos, segundo Gottschall, um animal ouvidor e contador de histórias. E não nos importamos muito se as histórias que contamos (ou ouvimos / lemos / vemos na tela) são factuais ou fictícias. Queremos contar e consumir histórias. Diferentemente da lógica, que é fria e implacável, histórias são “quentes”, falam às nossas emoções, nos comovem, nos fazem chorar. Ninguém nunca chorou de emoção diante de um argumento válido com premissas verdadeiras (e, portanto, com conclusão verdadeira). Mas choramos ao ler um livro ou ao assistir a uma novela. Para falar a verdade, até anúncios (propagandas, reclames) às vezes nos comovem.

David Hume defendeu a tese de que a razão (e, por conseguinte a lógica) é impotente para nos levar a agir ou deixar de agir. São as emoções que fazem isso. Por conseguinte, concluiu Hume, a razão é escrava das paixões. Se for necessário justificar racionalmente o que escolhemos fazer (com base em nossas emoções), nós “racionalizamos” – isto é, inventamos uma razão, uma história qualquer, para esconder o fato de que não fomos racionais.

Quando nós dizemos que as doutrinas da eleição, da dupla predestinação, da queda, do pecado original, da total corrupção do homem, estão na Bíblia, nós (segundo a narrativa de Gottschall) não estamos construindo uma cadeia de argumentos: nós estamos simplesmente apelando para uma história que nós resolvemos aceitar, porque ela mexeu com as nossas emoções. Mais do que a racionalidade / razoabilidade (que inclui a lógica), mais do que a filosofia, que as reúne, é a literatura, no sentido mais amplo possível (as histórias que ouvimos, lemos ou vimos na tela, ou que inventamos), que rege a nossa vida. Em outras palavras, as narrativas são mais importantes do que os fatos e os argumentos na “justificação” (não consigo deixar o termo sem aspas) de nossa conduta – inclusive de nossas crenças.

Quando dizemos “Se Deus quiser”,  “Deus é fiel”, “Deus está em controle”, “Deus proverá”, “A vontade de Deus é sempre feita, e ela é sempre boa, mesmo que nós não a entendamos”, nós estamos nos situando dentro de um conjunto de narrativas que nos foi legado e que nós resolvemos adotar – não pela lógica, não porque somos racionais / razoáveis, mas porque essas narrativas nos confortam e nos consolam nos momentos difíceis de nossa vida, elas nos “garantem” que o justo será recompensado e o malfeitor, punido, ainda que em uma outra vida, elas nos “asseguram” que nós encontraremos de novo, no Céu, aqueles entes queridos que se foram antes de nós. Em vez de garantir a fé, as histórias que adotamos servem de base para a nossa esperança. A religião se sustenta, não na fé, mas na esperança. Mas cada um escolhe, em termos, o tipo de religião que quer ter – e arca com as consequências. Aqui talvez se aplique a Aposta de Pascal.

Salto, 24 de Maio de 2022



Categories: Belief, Calvinism, Critique of Religion, Freedom, Liberalism, Rationality, Reasonableness

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