A Prova de um Conceito: A Desintermediação

Conteúdo

RESUMO

1. Curta Introdução Biográfica

2. A Questão da Desintermediação: O Conceito e um Exemplo

3. O Pai da Desintermediação: Martinho Lutero

4. A Desintermediação com Base Tecnológica no Século 20

A. A Área de Informática 

B. A Área da Educação

C. A Área da Saúde

5. Uma Nova Velha Ideia

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RESUMO

O artigo é centrado no conceito de desintermediação e sua aplicação em quatro áreas: bancos, informática, educação e saúde. Conclui mostrando que a desintermediação tem muito a avançar, e ilustra com a área em que ela teria começado: a igreja.

1. Curta Introdução Biográfica

No ano passado fez 50 anos que comecei a dar aula no Ensino Superior, como Assistente de Ensino de um professor meu, enquanto eu terminava o Doutorado. Foi em 1971. Em 1972, com o Doutorado defendido, arrumei meu primeiro emprego como Professor Universitário. Faz 51 este ano. Imaginava que seria Professor de Filosofia a minha vida inteira. Uma pessoa especializada, sabendo cada vez mais sobre cada vez menos.

No entanto, minha vida já havia vivido reviravoltas. Como menor de idade trabalhei em duas empresas na área de Contabilidade e Cálculo de Custo. Em 1964 fui estudar Teologia. Pensei que ia entrar em um Seminário, ficar lá cinco anos e tirar meu diploma de Graduação. Passei por três instituições em dois estados brasileiros e um país estrangeiro antes de receber meu diploma.

Em 1966-1967 voltei a trabalhar na área de Contabilidade e Cálculo de Custos por quase um ano num dos interregnos acadêmicos meus.

No final em Setembro de 1967 comecei a fazer o meu Mestrado em Teologia (especializando-me na área de História da Igreja e do Pensamento Cristão) e, ao terminá-lo, decidi sair da Igreja, desta vez de livre e espontânea vontade. Fui fazer meu Doutorado em Filosofia (História da Filosofia), talvez a área mais afim à da Teologia (História do Pensamento Cristão). Então, em 1971-1972, quando comecei minha carreira como Professor Universitário de Filosofia, já tinha tido alguma experiência multi e interdisciplinar.

Ao começar minha carreira de Professor de Filosofia da Educação na UNICAMP em 1974, logo tive outro desvio de função. Por falta de pessoal na Faculdade de Educação da UNICAMP, e por eu ser um de dois ou três (tenho certeza de mais um, dúvida quanto a um terceiro), professores em tempo integral com doutorado completo, fui chamado a exercer funções de administração acadêmica, dentro da Faculdade e, depois, na Universidade. Fui Coordenador de Curso Superior (Pedagogia), Coordenador de Curso de Pós-Graduação (Mestrado em Educação), Diretor Associado e depois Diretor da Faculdade de Educação (4+4 anos), enquanto Diretor da Faculdade de Educação, também fui Presidente da Comissão de Orçamento e Patrimônio da Universidade por dois mandatos de um ano, e, ao terminar o mandato de Diretor, em 1984, passei a ser Assessor Especial da Reitoria na Área de Contratos, Convênios e outros Assuntos Administrativos, que exerci por dois anos. Depois passei, cedido pela UNICAMP, a exercer cargos, durante cinco anos, inicialmente, na Administração Pública do Estado de São Paulo, na Secretaria da Educação (Diretor do Centro de Informações Educacionais) e na Secretaria da Saúde (Diretor do Centro de Informações e Informática e Saúde e Assessor Especial do Secretário). Entrementes, virei sócio de algumas empresas, em sequência e simultaneamente, aposentei-me (em 2007) e voltei ao Governo do Estado de São Paulo, onde fui Secretário Adjunto de Ensino Superior por um semestre (talvez o semestre em que mais aprendi de forma intensiva e concentrada na minha vida), virei Consultor de Empresas, ONGs, Escolas e Governos na área de Tecnologia Aplicada à Educação, ao Treinamento, aos demais Processos Formativos, e à Gestão (em especial de Inovação e Mudanças, a ordem dos termos não faz muita diferença).

E o projeto de vida de ser Professor de Filosofia especializado no século 18 (Iluminismo) para o resto da vida, onde ficou? Ficou onde fica a maioria dos projetos de vida, derrotado por circunstâncias de vida alteradas, outras possibilidades, às vezes simplesmente urgentes, outras vezes urgentes e mais importantes, ainda outra vezes mais importantes, mas não urgentes (que foram, como o projeto de vida inicial, colocadas na prateleira para quando “eu me aposentar”. Aposentei-me em 2007, este ano faço 79 anos, e não tive tempo (nem de longe) de fazer todas as coisas que um dia planejei fazer. Mas continuo a tentar. Quem vê meu arquivo com projetos de curto, médio e longo prazo, fica com a ideia de eu planejo viver até 120 anos, ou, melhor ainda, não morrer. Gosto de ver gente como o velho Roberto Marinho nunca parando de fazer projetos: criou a Rede Globo quando tinha mais de 60 e se casou, finalmente, com a paixão da juventude dele, Dona Lili, quando tinha mais de 80. Só Deus sabe o que vai ser da vida de cada um, e há horas em que eu duvido que ele ainda continue a fazer isso, com a multiplicação vertiginoso da população da Terra (não contando o “Universo dos Espíritos”), e mesmo admitindo que ele tenha um Centro de Processamento de Dados bem mais sofisticado do que os terrestres.

Enfim… Pular de um galho para outro, ser multi, inter, transdisciplinar, ser generalista em vez de especialista, tem suas vantagens. Uma delas é que você se torna capaz de “detectar padrões” que se repetem em várias áreas diferentes, com século de diferença entre as épocas e todo um universo de ideias e conceitos de diferença entre as áreas. E assim chego ao meu tema. Espero que não tenha “rodeado o toco” demais antes de chegar ao objeto principal do sermão, como dizia meu pai, pastor presbiteriano, com quem briguei muito, ficamos dois anos sem nos falar, mais foi e é uma figura marcante na minha vida. Gostaria que ele pudesse ler isso que escrevo agora, onde quer que esteja, se é que faz sentido dizer que permanece em alguma forma de existência consciente em algum lugar, observando o que se passa com a prole e os outros descendentes dele. Se permanece, é melhor que seja uma forma de existência imortal, porque, vendo o que vê e escutando e o que escuta, morreria de novo se não fosse imortal.

2. A Questão da Desintermediação: O Conceito e um Exemplo

Quero falar sobre um conceito: Desintermediação. Em 1980 li um livro de Alvin Toffler, publicado naquele ano, chamado A Terceira Onda, onde vi esse assunto discutido em nível de cultura geral. Toffler defendia a seguinte tese, lá atrás, mais de quarenta anos atrás: a presença das novas tecnologias digitais de comunicação e informação iria eliminar passos ou agentes intermediários – ou, em outras palavras, desintermediar – no nosso acesso a um número imprevisível de informações, serviços e mesmo bens. Desintermediação é isso: eliminar passos ou agentes intermediários em um processo. É uma espécie de um DIY – Do It Yourself em uma determinada área.

Como exemplo, menciono: naquela época o Banco Itaú começava a dar seus primeiros passos na área de automação bancária aqui no Brasil, e mesmo de criação e fabricação de tecnologia para promovê-la e facilitá-la, criando uma empresa chamada Itaú Tecnologia S/A, a Itautec, da qual fui consultor por algum tempo, através do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED) que criei na UNICAMP em 1983 (e dirigi até 1986, quando fui para a Secretaria da Educação). Automação Bancária é uma forma de desintermediar o nosso acesso aos bancos. Dependendo de sua idade, você deverá se lembrar das enormes filas diante dos bancos na época de recebimento das aposentadorias e das pensões do INSS… Ou das enormes filas para retirar salários da conta nos primeiros dez dias do mês… (O salário em geral não durava mais do que 15 dias, porque, com a inflação alta, era importante pegar o dinheiro e comprar tudo o que era necessário comprar até o resto do mês, se o dinheiro fosse suficiente – ou entrando no bendito Cheque Especial que desastrou a vida de muita gente que considerava que o limite do Cheque Especial era como se fosse um salário estendido).

Hoje, pouca gente vai ao banco físico mais. Sou cliente do Itaú desde 1974, minha agência é no Morumbi, onde morei por alguns anos, mas moro aqui em Salto, no interior, em um sítio, em tempo integral, desde 2015, e minha agência, na Giovanni Gronchi, que envolvia dois casarões enormes é hoje um pequeno conjunto de salas elegantes, onde servem café expresso e água mineral gaseificada, bem como umas bolachinhas amanteigadas, aos raros clientes que aparecem por lá. Tudo se faz online. Até comprar moeda estrangeira se faz em determinados caixas eletrônicos. O acesso aos serviços prestados e aos bens disponibilizados pelos bancos foi desintermediado.

É sobre isso que quero falar. Para os mais velhos, parece algo novo, que começou no final do século 20, quando o Itaú e os demais bancos começaram a se preocupar com automação bancária e, no devido tempo, mandar embora seus escriturários e seus caixas (que eram chamados, por um tempo, de “Subchefe de Serviço Adjunto”, de tão importantes que se julgavam).

3. O Pai da Desintermediação: Martinho Lutero

Algo novo? Minha tese é de que o primeiro grande desintermediador da História foi Martinho Lutero. Começou a assumir essa função sem querer, na verdade inconscientemente, mas era isso que estava fazendo, e foi isso que o tornou, em certos aspectos, um reformador, em outros, um verdadeiro revolucionário. Eu gosto mais do Lutero Revolucionário (e nada do Lutero Contrarrevolucionário). Vou gastar uns paragrafinhos narrando essa história do meu ponto de vista.

A Igreja Cristã, depois de o Cristianismo se tornar a religião oficial no Império Romano (algo que aconteceu no século 4), herdou, de certo modo, o Império Romano Ocidental, em 476, quando este se desintegrou, com a invasão dos povos germânicos vindos do Norte (aquela que antigamente era chamada de “A Invasão dos Bárbaros” …). No Oriente (da Turquia para a frente), o Império continuou até 1453, quando os Turcos invadiram Constantinopla, hoje Istambul, que era chamada de Roma do Oriente. Vou me concentrar na história da Igreja Cristã Ocidental, que, tendo se tornado uma Igreja Imperial na Europa, continuava a mandar e desmandar sozinha na Europa até a criação do Sacro Império Romano do Ocidente, no ano 800, com Carlos Magno (Charlemagne, em Francês). A partir daí até a época de Lutero, a Igreja Cristã Ocidental e o Sacro Império Romano do Ocidente meio que dividiram as tarefas, as honras e as responsabilidades sobre quem mandava na Europa Ocidental.

A Igreja Cristã Medieval (até a Reforma Protestante não há por que chamar a Igreja Cristã de Católica, no Ocidente Europeu, porque ela era monopolista: não havia outra Igreja Cristã na época) desenvolveu um complexo sistema de controle da vida da população vinculada a ela – e toda a população era, porque a Igreja era Universal (isto é, Católica) no Ocidente. Assim, todos os que viviam no Ocidente eram automaticamente cristãos, porque ela era a igreja oficial de reis e rainhas, dos príncipes e duques, e, naturalmente, dos imperadores do Sacro Império Romano. Ela criou um sistema que os teólogos chamam de sistema de sacramentos ou sistema sacramental. Ela inventou que havia Sete Sacramentos que deveriam ser ministrados aos fiéis para que eles pudessem ser salvos e herdar os céus. Ela anunciava em todos os cantos que “extra ecclesiam nulla salus”: fora da igreja não há salvação). Eram os seguintes os sacramentos:

  • Batismo (quando você nasce)
  • Crisma ou Confirmação do Batismo ou Primeira Comunhão (quando você alcança a “Idade da Razão” na adolescência
  • Eucaristia (em regra servida na Missa – toda Missa tinha a Eucaristia, ou Santa Ceia)
  • Confissão de Pecados e Penitência (depois que passa a ser “Membro Comungante” da Igreja”)
  • Matrimônio (Casamento) ou Ordenação (quando você decide se casar ou se tornar um profissional da igreja, que não pode se casar — não dá para ser casado e ser um profissional da igreja ao mesmo tempo)
  • Unção dos Enfermos (que inclui a Extrema Unção, quando você está perto de morrer).

Sete sacramentos, que vão do nascimento à morte da pessoa, que prendem a pessoa à Igreja, através dos sacerdotes (dos padres), que eram os únicos autorizados a ministrar os sacramentos. (O sacerdote era ordenado por um bispo, que, por sua vez, só podia ser ordenado por outros bispos, essa cadeia indo para trás até, supostamente, São Pedro, que, tendo sido o primeiro bispo da Igreja Cristã de Roma, segundo a lenda, teria sido o Primeiro Papa – segundo a narrativa da igreja cristã ocidental. Você vê por aqui onde essa história de narrativas começou a ter um papel importante no Ocidente Cristão).

Ou seja: se você quer ser salvo e ir para o Céu, tem de fazer o que a igreja manda e passar por todos os sacramentos que se lhe aplicam. A pessoa normal que se casa, passa por seis (porque recebe o do matrimônio, mas não recebe o da ordenação); o padre, a freira, o monge, e a monja, passam por seis (porque, embora se tornem celibatários, isto é, solteirões obrigatórios, se ordenam). As pessoas que não se casam, nem se ordenam, e permanecem sexualmente virgens, passam por apenas cinco: não se casam nem se ordenam. As pessoas que nunca ficaram doentes seriamente e morrem de repente, passam por um sacramento a menos, porque nunca recebem a unção dos enfermos. Assim vai. O sistema é complexo.

Um pouco antes da Reforma Protestante, a Igreja Cristã, sempre muito criativa para tapear os fiéis (todo mundo era cristão, não se esqueça disso), criou um sistema intermediário entre, de um lado, a Terra, e, do outro lado, o Céu ou o Inferno: o Purgatório. O Purgatório, entendam bem, é um local intermediário. Para sair de lá e ir para o Céu, você precisa de um agente mediador que (surprise!) é a própria Igreja, que lhe vende indulgências que abreviam o seu tempo no Purgatório e facilitam e apressam o seu ingresso no Céu. Com o dinheiro assim arrecadado com a venda de indulgências, a Igreja esperava reconstruir ou reformar as igrejas de Roma (especialmente a Basílica de São Pedro) e dar uma melhorada nas demais dependências do Vaticano. Os agentes locais ficam com uma parcela do dinheiro.

Tudo indica que foram as indulgências que tiraram Lutero do sério. Ele era um monge muito crente, exagerado mesmo, Professor de Teologia no mosteiro dos agostinianos de Wittenberg, e achou que a igreja tinha ido longe demais com a história das indulgências. Ingênuo, imaginou que isso era história do Arcebispo Primaz da Igreja em Mainz, o Príncipe Alberto de Brandenburgo, e que o Papa Leão X, assim que ouvisse a história, iria mandar parar com esse abuso da credulidade dos fiéis. Ledo engano. Era o Papa que estava por detrás das indulgências. E o resto é história. Lutero parou de falar apenas contra as indulgências e, a partir de 1520, passou a falar contra o Papa, a Cúria Romana e a própria Igreja Cristã sediada em Roma (que, a partir desse tempo, passa a ser chamada de “Igreja Católica Romana” – às vezes se acrescentava “Apostólica” antes de “Romana” para lembrar o povo de que a origem da Igreja estaria na pessoa do principal dos doze apóstolos originais: aquele a quem Jesus disse que daria “As Chaves do Reino”). Começava a Revolta Protestante.

Em seus estudos Lutero chegou à conclusão de que, dos sete sacramentos aceitos e aplicados pela Igreja Católica, apenas dois deles teriam algum respaldo bíblico: o batismo (afinal de contas o Novo Testamento relata que o próprio Jesus foi batizado por João, o Batista) e a eucaristia (afinal de contas a eucaristia se baseia na cerimônia da última ceia de Jesus com seus discípulos), razão pela qual os protestantes chamam de santa ceia, ou ceia do Senhor, o sacramento da eucaristia). Os outros cinco ficaram de fora do universo luterano (e das demais igrejas protestantes), inclusive a ordenação para o sacerdócio. (Lutero, que era meio masoquista, teve dúvida sobre deixar de fora a confissão com as consequentes penitências, mas no fim deixou).

Aqui vem outra grande inovação de Lutero. Negando que o sacerdócio seja um status privilegiado dentro da Igreja, ele declarou o “sacerdócio universal dos crentes”. Isso quer dizer que todo cristão batizado é um sacerdote, e pode fazer tudo que um sacerdote pode fazer. Fica dispensado o sacerdote como “mediador”, fica eliminada a função dos santos e de Maria de agirem como “mediadores”, o cristão fala direto com Deus, interpreta diretamente as Escrituras (sem requerer que um padre ou teólogo o faça para ele), e pode até batizar um ao outro e ministrar a santa ceia. (Isso mudou um pouco na maior parte do protestantismo histórico, que colocou o pastor meio que na posição do padre… Só ele pode batizar, só ele pode oficiar a santa ceia, só ele pode dar a bênção apostólica… – tudo isso sem respaldo bíblico).

Mas o importante é que, de início, Lutero promoveu a desintermediação total (ou quase) da relação do cristão com Deus. Disse “quase” porque há, ainda, mesmo entre os protestantes, uma mediação: a de Jesus Cristo, que seria o “mediador por excelência”, na verdade o “único mediador”, eliminando todos os outros. Os cristãos, por exemplo, oram a Deus (Pai), mas o fazem “em nome de Jesus”, não em seu próprio nome.

Mas a semente da desintermediação estava plantada. Os cristãos que vieram a ser chamados de anabatistas (rebatizadores), por exemplo, leram o Novo Testamento por si próprios e constataram que, embora no Velho Testamento houvesse a circuncisão de crianças (masculinas), ela foi abolida no Novo Testamento, e este não instituiu o batismo de crianças, não havendo relato do batismo de nenhuma criança na parte propriamente cristã da Bíblia. Os anabatistas resolveram, portanto, abolir o batismo infantil (por alguns sofisticados chamado de pedobatismo) e declarar nulo o batismo dos adultos que haviam sido batizados na infância – razão pela qual eles deveriam ser rebatizados (donde o nome da variante reformadora, os anabatistas). Por causa disso, os anabatistas foram perseguidos não só pelos católicos, mas também pelos protestantes luteranos, zuinglianos e, depois, calvinistas. Estes matavam os líderes anabatistas, não no fogo, como os hereges comuns eram executados, mas, por ironia, na água, afogados, “batizando-os por imersão” (definitiva), em um dos (belos!) lagos da Alemanha e da Suíça. (Belo consolo, a beleza do lago em que você é executado).

Enfim, como já disse, a semente da desintermediação estava plantada. Ela iria voltar, com força total, e de muitas formas diferentes, na segunda metade do século 20, quinhentos anos depois, mas iria ser combatida ferozmente por todos os “mediadores” que iriam perder sua “boquinha”. A base dessa desintermediação generalizada a partir da segunda metade do século 20 foi a tecnologia.

(Que fico claro que o “mediador” é um “despachante”. Para ter cliente, é preciso que um “burocrata”, instalado em algum “governo”, ou alguma outra instância, crie alguma dificuldade, uma série de passos intermediários arbitrários que operam como empecilhos e obstáculos, para tornar necessária ou recomendável a ação do “mediador”. Uns vinte anos atrás eu tentei “relicenciar” o meu carro sem a “ajuda” (paga) do despachante. Foi virtualmente impossível. Hoje o serviço está totalmente desintermediado.)

4. A Desintermediação com Base Tecnológica no Século 20

Esta questão já foi introduzida no capítulo 2, com o exemplo da automação bancária. A automação de escritórios veio em seguida. E muitas outras. Nas seções que seguem discutirei a desintermediação na área da informática, na área da educação, e na área da saúde, nas quais tive bastante experiência.

A. A Área de Informática

O primeiro computador foi inventado durante a Segunda Guerra Mundial, inicialmente, para ajudar um dos lados a ganhar a guerra. Os Aliados, que vieram a ganhar a guerra (Estados Unidos e Grã-Bretanha, em especial – a França ficou entre os ganhadores como um presente dos outros dois: foi invadida, quase sem resistência, foi dominada, colocou um francês para governar o país sob ordem dos alemães, uma vergonha), ganharam a batalha tecnológica. Considera-se que o primeiro computador eletrônico digital foi o ENIAC, produzido nos laboratórios de engenharia elétrica da Moore School of Engineering da University of Pennsylvania, em Filadélfia – universidade fundada por Benjamin Franklin (da mesma forma que a University of Virginia, em Charlotteville, foi fundada por Thomas Jefferson, outro “Pai” da república americana). ENIAC quer dizer “Electronic Numeric Integrator and Calculator”. Imaginava-se, na época, que o computador só serviria para realizar tarefas numéricas, como os cálculos complicados necessários para determinar a trajetória de projéteis e mísseis. Ele demorou tanto para ficar pronto, porém, que a guerra foi ganha antes, sem ele. Mas considera-se que 1945 foi a data em que ele foi concluído e revelado ao mundo. Só não para ser aplicado na guerra.

Assim, o computador, inicialmente, foi criado para processar dados – dados numéricos. Processar dados numéricos é calcular. O primeiro computador tinha um tamanho enorme e possuía dezoito mil válvulas (que hoje não se usam mais, substituída que foram por transístores e, depois, por circuitos integrados). Gastava tanta energia que, quando era ligado (não ficava ligado o tempo todo), as luzes do restante da cidade de Filadélfia ficavam mais fracas…

Logo se percebeu, porém, que era possível atribuir um código numérico às letras do alfabeto e outros símbolos e sinais usados na linguagem comum e conseguir que o computador processasse texto. Ele passou a se tornar bem mais interessante para nós, o resto dos mortais, que não somos engenheiros e matemáticos. Mas a gente não sabia. (Bem, eu, nem na escola estava ainda). O processamento de dados passou, de dados numéricos, para dados alfanuméricos. Mas o processamento de dados continuava a ser feito em “templos tecnológicos” denominados Centros de Processamento de Dados, por “sacerdotes da tecnologia”, os engenheiros e técnicos de processamento de dados. Os templos necessariamente tinham ar-condicionado, porque os componentes dos computadores esquentavam demais. Até mesmo água gelada era necessária para refrescá-los. Ninguém entrava nesse “santo dos santos” a não ser os sacerdotes. Leigos ficavam de fora. Processamento de dados por computadores era coisa de gente especializadíssima. O termo “informática” nem havia sido inventado ainda. Ele surgiu quando se percebeu que o termo “informação” era mais abrangente e mais curto do que a expressão “dados alfanuméricos”. A informática (oriundo do francês “informatique”) surgiu devagar como ciência + tecnologia que lidava com o processamento de informações (numéricas e alfabéticas) através de computadores.

Logo se percebeu que seria bom que um computador se comunicasse com outros computadores e surgiu o termo “telemática”, que quer dizer “telecomunicações entre computadores” (de novo oriundo do francês “télématique” – o francês gosta de palavras terminadas em “tique”: pneu em francês é “pneumatique”). Por algum tempo houve uma guerra entre os defensores de um termo ou de outro, mas informática ganhou: a telemática hoje foi engolida pela informática.

Com o tempo encontrou-se uma forma de “digitalizar” as imagens e os sons. Digitalizar quer dizer, no caso, decompor um som ou uma imagem em mini fragmentos que possam ser representados por números, que vieram a ser chamados de dígitos porque, inicialmente, a gente contava até dez nos dedos das mãos, razão pela qual nosso sistema numérico tem apenas dez algarismos e se chama decimal. O sistema numérico usado pelo computador, porém, é binário, não decimal, porque o computador só reconhece se um determinado componente ou qualquer outra coisa está energizado ou não, está ON ou OFF. Se está ON, representa o número 1; se está OFF, representa 0. Simples assim.

Onde é que entra a desintermediação aqui?

Com a digitalização dos dados alfabéticos, das imagens e dos sons, o computador entrou no campo de interesse da pessoa comum: os textos, as fotografias, as músicas… E quando surge uma oportunidade, que logo passa a ser necessidade, surgem produtos visando a atendê-la. Só em 1977 apareceram três modelos e marcas diferentes de microcomputadores – computadores pessoais, voltados para a pessoa comum, o leigo em informática. Ainda eram meio grandões, precisando ser usados em escrivaninhas (donde o termo “desktop”). A miniaturização surgiu com o tempo. Ele diminuiu, se tornou um computador portátil, diminuiu mais e se tornou do tamanho de um caderno (“notebook”), diminuiu mais e se tornou um computador de bolso (“pocket computer”), mais ainda e se tornou um computador de mão (“palm computer”). Mas um “palm computer” é do tamanho de um telefone, até menor. Porque não fundir o computador e o telefone, e ter um “smart phone”, um telefone inteligente, que não passa de um computador ouvinte e falante?

Mas eu me adianto.

Hoje ninguém precisa de um intermediário para usar um telefone celular inteligente – e basicamente todos são hoje. Embora, se você for um adulto de meia idade para cima você vai precisar da ajuda (isto é, da mediação) de um adolescente. Mas, antigamente, ninguém sabia nada sobre computadores, microcomputadores, telefones inteligentes… O processo de desintermediação, por mais irônico e paradoxal que pareça, precisava de mediadores! Escrevi, em 1985, com a ajuda de meus colegas na People Computação, o que talvez tenha sido o primeiro livro de Introdução à Informática destinado exclusivamente ao leigo, à pessoa que estava vendo que precisava saber alguma coisa básica sobre os microcomputadores e não sabia onde. Podia fazer um Curso de Informática, numa Escola de Informática – elas começaram a surgir rapidamente e em grande número. Mas eram criadas e gerenciadas por profissionais de informática e ofereciam o quê? Curso para profissionais de informática ou quem quisesse se tornar um. Os cursos eram de programação de computadores. Eu mesmo fiz um curso desses: Programação de Microcomputadores em Linguagem de Alto Nível: COBOL (Common Business- Oriented Language). Foi assim que me aproximei da People. E procurei mostrar ao fundador, meu amigo Valter Balazina, que era preciso oferecer cursos para leigos como eu. A essas alturas eu já havia comprado meu primeiro microcomputador, um Commodore 64. O resultado foi o livro Informática: Micro Revelações, que saiu em 1985 (People Computação & Cartgraf Editora, ambas de Campinas), e rapidamente chegou à 10a edição, ficando dois meses no topo da lista dos livros mais vendidos de informática em São Paulo publicada toda quarta-feira pela Folha Informática. Eu e meus amigos nos prestamos ao papel de intermediários da desintermediação da informática, ajudando leigos a bem usarem os microcomputadores.

Passou mais um tempinho e a febre, lá fora, virou algo chamado multimídia.

Antes, números eram processados por calculadoras, texto por máquinas de escrever, imagens por máquinas fotográficas e fotógrafos, sons por discos e fitas. Texto, imagens e sons eram analógicos. Cada um exigia sua própria tecnologia. Com sua digitalização, tudo virou passível de digitalização (transformação em número) – e, consequentemente, como número, ser processado por computador, e transformado de novo em texto, imagem e som para desfrute do usuário final. Um equipamento só processando números, texto, imagens e sons: multimídia (do Inglês “multimedia”). Novamente, o processo de desintermediação requeria um mediador – e lá fui eu. Publiquei em 1992, também pela People, o primeiro livro de Multimídia escrito diretamente em português por um brasileiro: Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia.

B. A Área da Educação

Mas tem mais: quando o computador se mete a processar textos, e, em seguida, imagens e sons, ele se torna de enorme interesse na educação, não é verdade? Já imaginou um livro que fala, que mostra fotografias em movimento (vídeo), que mistura tudo isso com texto ou fala que explica as coisas e ao mesmo as ilustra com imagens fotográficas estáticas (fotografias) ou dinâmicas (em movimento, vídeo)?

Nessa época eu era Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP e, tendo participado de uns seminários sobre Informática na Educação promovidos pela Secretaria Especial de Informática (SEI), com o apoio do Ministério da Educação (MEC), do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), e da Fundação Televisão Educativa (FUNTEVÊ) – e apoio da nascente indústria de microinformática brasileira, que tentava copiar rápida e fielmente tudo que aparecia nos Estados Unidos e em outros países. (Por um momento, o viés francês da educação brasileira fez com que muitos educadores brasileiros imaginassem que a França fosse liderar o processo. Enganaram-se.) Entrei de corpo e alma na área, propus a criação de um Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), que foi criado em 1983 (fará 40 anos no ano que vem – ainda existe) e do qual eu fui o primeiro Coordenador, encarregado de sua implantação.

Entrementes, a SEI e os demais órgãos envolvidos nos dois seminários criaram quatro grandes projetos de Informática voltada para os Usuários Finais: Micropeme (para a pequena e média empresa), Micromed (para a área da saúde), Agrocom (para a área da agricultura) e Educom (para a área da educação). Logo foram feitas licitações solicitando projetos. O NIED estava pronto e submeteu um projeto que foi um dos cinco vencedores, recebendo verbas para comprar microcomputadores e formar professores na área da Informática na Educação de três grandes escolas da região de Campinas.

Novamente, eu estava no papel de mediador do processo de desintermediação, tentando capacitar professores de todas as áreas no uso do computador na educação.

C. A Área da Saúde

Mas tem mais… Em 1987 fui para a Secretaria da Saúde, dirigir o Centro de Informações e Informática em Saúde, a convite do Professor José Aristodemo Pinotti. Nessa função minha tarefa foi reunir e potencializar as iniciativas de uso de Informática na Área de Saúde: sistema de atenção primária (em centros de saúde), sistema de cuidados hospitalares, sistemas ambulatoriais, consultórios médicos particulares, etc. Foi ali que fiquei conhecendo de perto as iniciativas da Escola Paulista de Medicina, da Universidade de São Paulo e da própria UNICAMP. Foi feita uma reunião e criada uma Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), da qual eu me tornei Secretário. O primeiro presidente foi o Professor Daniel Sigulem, da EPM, e ele me convidou para publicar uma Newsletter de Informática em Saúde (Newsletter da SBIS). Tornei-me um Pesquisador do CNPq na área, vinculado ao Centro de Informações em Saúde da EPM.

Mais uma vez, eu, no papel de mediador do processo de desintermediação – até, naturalmente, que esse papel se tornasse desnecessário dado o nível de conhecimento e competência entre os profissionais da área.

5. Uma Nova Velha Ideia

Minha nova ideia é velha. Vou tentar voltar ao que Lutero deveria ter continuado a fazer, mas não fez, em parte por causa do hábito, em parte porque não havia tecnologia disponível que o tentasse a fazê-lo. Não nos esqueçamos de que o livro impresso foi uma potente tecnologia que permitiu que Lutero ensaiasse a desintermediação que ele tentou. A população, em geral, era analfabeta, até aquela época. Não havia por que aprender a ler: quase não havia o que ler. Os poucos livros, manuscritos, estavam guardados, por vezes acorrentados, em bibliotecas dos mosteiros. Vide O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

O surgimento do livro impresso, com grandes quantidades do mesmo livro, a um preço relativamente barato, e totalmente padronizado, tornou possível também uma revolução na educação que Lutero também começou a fazer.

Eis o que diz a respeito Peter Drucker, em seu livro As Novas Realidades:

“Quarenta anos atrás Marshall McLuhan apontou pela primeira vez que não foi a Renascença que transformou a universidade medieval, e sim o livro impresso. (…) Assim como o livro impresso era a ‘alta tecnologia’ da educação no século XV, também o computador, a televisão e o videocassete estão se tornando a alta tecnologia do século XX. Esta nova tecnologia está fadada a ter um profundo impacto sobre as escolas e sobre o modo como aprendemos” [1].

O que Peter Drucker está a dizer é que a força motriz da primeira Renascença foi uma tecnologia que, em retrospectiva, se vê como claramente relevante para a educação: a impressão tipográfica, que produziu o livro impresso. O livro revolucionou a educação nos séculos 15 e seguintes: tornou possível a educação a distância e a aprendizagem através da leitura.

“Desde o início, o livro impresso forçou as escolas a modificarem drasticamente o que ensinavam. Antes dele, a única maneira de aprender era copiar laboriosamente manuscritos ou ouvir palestras e recitações. Subitamente eis que as pessoas podiam aprender lendo[2].

Além disso, o livro impresso – na verdade, a tecnologia da impressão tipográfica – permitiu que se difundisse a sábia noção de que mais importante do que memorizar grandes quantidades de informação é ser capaz de encontrar, rápida e eficientemente, a informação desejada, quando ela se faz necessária, e ser capaz de analisá-la, avaliá-la e colocá-la a bom uso nos processos de reflexão (pensamento) e tomada de decisão (ação). Com o surgimento do livro impresso, tornou-se evidente, para usar as palavras de Molière, frequentemente citadas por Edgar Morin, que “vale mais uma cabeça bem-feita do que uma cabeça cheia” [3]. Em outras palavras: o livro começou a tornar possível uma mudança extremamente importante que se consolida apenas em nossos dias: a mudança de uma educação centrada na transmissão de conteúdos informacionais para uma educação centrada na busca de informações e conhecimentos e no desenvolvimento de competências e habilidades… [4]

Vamos à “nova velha ideia”. Como eu disse atrás, Lutero começou com tudo, declarando que o homem podia ter acesso direto a Deus, sem a intermediação da igreja e dos sacerdotes, mas depois ele e as demais igrejas protestantes recuaram e reinstalaram um pastor (chamado de presbítero docente) no lugar do padre, criaram presbíteros “regentes”, anciãos, etc. A Igreja Católica manteve além de seus padres, monges, freiras, os bispos, arcebispos, cardeais, e, naturalmente, o Papa – para não mencionar Maria, os Apóstolos e todos os santos, operando como intermediários.

Creio que chegou a hora de fazer uma “Segunda Reforma Protestante” e levar (pelo menos) o Protestantismo adiante, desintermediado a religião e dispensando os pastores, presbíteros, anciãos, etc. Dispensados também serão os templos e as igrejas. E as atividades que caracterizam a religião (o culto, o louvor, a comunhão entre os “irmãos”, a educação religiosa, o apoio psicológico e emocional, a assistência social, o evangelismo tudo isso será feito online, como, de resto começou a ser feito durante os dois anos da pandemia que estão se encerrando.

Hoje o fiel vai à igreja uma vez por semana, aos domingos. Protestantes por vezes vão duas, com uma visita ao tempo no meio da semana para estudo bíblico e reunião de oração. No restante do tempo, as pessoas não se encontram, não se conversam, não têm a menor “comunhão” umas com as outras. No domingo, é em geral uma surpresa sobre o que o pastor vai falar. Ele fala e não há discussão, debate, crítica, oposição, tentativa de extrair do sermão as consequências práticas do que o pastor disse. Por que o pastor não pode disponibilizar o texto de seu sermão, escrito ou gravado em vídeo, na segunda-feira, todo mundo lê ou assiste, reflete, discute na rede social da igreja o que foi dito, levanta questões, e, oportunamente, o pastor reaparece para ser “sabatinado” pelos fiéis. Não seria muito mais proveitoso? Entremente os fiéis poderiam investigar melhor o assunto, ler textos subsidiários propostos pelo próprio pastor ou por outros membros, aprofundar o seu entendimento do tema, levantar questões, amadurecer o seu entendimento do problema? E toda a discussão ficaria registrada para consulta. Nada precisaria ser feito de forma “síncrona”: cada um poderia participar do processo de maneira “assíncrona”, quando tivesse tempo e disposição, às vezes, quem sabe, tarde da noite, depois de as crianças estarem na cama e a casa sossegada. Poderia ser criado um “Bulletin Board” de “Questões Levantadas Mas Ainda não Discutidas”, “Questões Discutidas Mas Ainda não Resolvidas”, “Áreas Possíveis de Questionamento”. Poderiam ser disponibilizados vídeos com cantos de hinos e louvores, que poderiam ser acompanhados em casa pelos fiéis. Haveria avisos, informações de pessoas doentes e que pedem oração, informações sobre pessoas desempregadas e que procuram emprego, informações sobre empregos disponíveis, etc. Discretamente poderia haver uma informação com a Chave Pix da igreja para os fiéis que quisessem fazer uma oferta pudessem fazê-lo, sem pressões e constrangimentos. O custo de operação da igreja seria reduzido consideravelmente. Não precisaria haver templo, nem edifício de educação religiosa. Pastores poderiam ter outra ocupação (professores, por exemplo), ganhando seu salário como Paulo fabricava redes, e trabalhando na igreja de forma voluntária. Outras pessoas, que não pastores, que tivessem preparo e interesse poderiam participar da liderança do processo. Se se sentisse necessidade de um encontro de sociabilidade, poderia se alugar um clube ou um salão social e promover encontros episódicos ou regulares para quem quisesse se abraçar, comer e beber juntos. Pode ser uma pizza, ou um potluck dinner, não precisa ser uma santa ceia com pão e vinho (suco de uva, entre os protestantes). O foco estaria na comunhão, na “fellowship of the faithful”, na koinonia… não na crença, na confissão de fé.

Cada um tem a utopia que quer, não é verdade?

Mas esse processo não vai acontecer naturalmente. Ninguém larga uma “boquinha” sem alguma pressão. Será necessário, mais uma vez, que intermediários ajudem a pôr em andamento o processo de desintermediação.

Já tentei fazer isso na igreja. Fui rechaçado. Não deu muito certo. De certo modo, era de esperar: tentar vender à igreja a ideia de desigrejar a religião (“dechurching religion”) é equivalente a tentar vender à escola a ideia de desescolarizar a educação (“deschooling education”). Mas isso não quer dizer que não vá dar certo da próxima vez, não é?

Até lá.

Em Salto, 19 de Maio de 2022.

Notas


[1]   Peter Drucker, As Novas Realidades (Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1989, tradução brasileira de Carlos Afonso Malferrari do original em Inglês The New Realities, Harper Books, New York, 1989, 1994), p. 213. Ver a esse respeito Marshall McLuhan (Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem, Editora Cultrix, São Paulo, 1996), tradução do Inglês Understanding Media: The Extensions of Man, McGraw-Hill, New York, 1964), p. 174: “O livro foi a primeira máquina de ensinar e também a primeira mercadoria produzida em massa. (…) A sociedade aberta é aberta em virtude de um processamento educacional tipográfico uniforme, que permite expansão indefinida de qualquer grupo por adição. O livro impresso baseado na uniformidade e repetibilidade tipográfica na ordem visual foi a primeira máquina de ensinar, e a tipografia foi a primeira mecanização de uma arte manual”.

[2]   Drucker, op.cit., loc.cit. (ênfase acrescentada). Por isso, McLuhan, op.cit., p. 173, chama essas escolas medievais de verdadeiros “scriptoria”.

[3]   In “The Reform of Thinking and Education in the Twenty-First Century”, in Keys to the 21st Century, organizado por Jérôme Bindé (Berghahn Books, New York, UNESCO Publishing, Paris, 2001), p. 203. O tema é desenvolvido por Edgar Morin em seu livro A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma e Reformar o Pensamento (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2001), tradução brasileira de Eloá Jacobina do original em Francês La Tête Bien-Faite: Repenser la Réforme, Réformer la Pensée (Éditions du Seuil, Paris, 1999). Eis a dedicatória desse livro: “Este livro é dirigido a todos, mas poderia ajudar particularmente professores e alunos. Gostaria de que estes últimos, se tiverem acesso a este livro, e se o ensino os entedia, desanima, deprime ou aborrece, pudessem utilizar meus capítulos para assumir sua própria educação” (p. 5; ênfase acrescentada).

[4]   Um executivo, John Sculley, que fez carreira numa empresa de refrigerantes e depois se tornou o principal executivo da Apple Computers, disse o seguinte: “Pensar na educação apenas como uma forma de transferência de conhecimento do professor para o aluno, como um despejar de informação de um recipiente para o outro, não é mais possível. Não se pode mais dar aos jovens uma ração de conhecimento que vai durar-lhes a vida inteira. Nem mesmo sabemos o que vão ser e fazer daqui a alguns anos. Os alunos de hoje não podem pressupor que terão uma só carreira em suas vidas, porque os empregos que hoje existem estarão radicalmente alterados no futuro próximo. Para que sejam bem-sucedidos, os indivíduos precisarão ser extremamente flexíveis, podendo, assim, mudar de uma companhia para outra, de um tipo de indústria para outro, de uma carreira para outra. Aquilo de que os alunos de amanhã precisam não é apenas domínio de conteúdo, mas domínio das próprias formas de aprender. A educação não pode simplesmente ser prelúdio para uma carreira: deve ser um empreendimento que dure a vida inteira. (…) Preparar os alunos para que alcancem sucesso no século XXI não é questão de ensinar-lhes uma certa quantidade de conhecimentos: é, isto sim, fornecer-lhes condições e habilidades que lhes permitam explorar o seu meio, descobrindo e sintetizando conhecimento por si mesmos”. Prefácio do livro Interactive Multimedia: Visions of Multimedia for Developers, Educators, & Information Providers, organizado por Sueann Ambron e Kristina Hooper (Microsoft Press, Redmond, WA, 1988), pp. vii-viii; ênfase acrescentada.



Categories: Liberalism

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