Acaso vs Providência Divina

Ontem (25/4/2017) transcrevi no Facebook um pequeno trecho de um vídeo do Rubem Alves em que ele comenta que, quando foi gravar o depoimento que é o conteúdo do vídeo, um jovem lhe perguntou: “Como é que o senhor planejou a sua vida para chegar aonde chegou?” A resposta do Rubem foi a seguinte: “Eu cheguei aonde cheguei porque tudo que eu planejei deu errado…” [vide o vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=PaCFf8L-2dA].

Hoje resolvi ler um artigo escrito por Steven Key, com o título de “A Reforma de Genebra”, que alguém inseriu, como um link, num post que eu havia publicado no Facebook. [Descobri depois o site do qual o artigo foi tirado: Monergismo [http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino_reforma_genebra_key.htm]. O artigo começa assim:

“O papel de João Calvino na Reforma de Genebra foi divinamente ordenado”.

Quando eu leio algo assim, dito, como diriam os antigos, de maneira apodíctica, revelando tanta certeza, eu tenho um calafrio…

Confesso que usei o termo “apodíctico” no parágrafo anterior porque ele se me ofereceu, gentileza do mais recôndito de minha memória… Mas fiquei incerto. Fui consultar o Houaiss, que diz que o termo “apodíctico” quer dizer o seguinte (ele fornece três sentidos, que se relacionam entre si:

1FIL que exprime uma necessidade lógica, e não um simples fato empírico, apresentando uma natureza evidente e indubitável;

2.  p.ext. que não pode ser refutado, contradito, contestado; indiscutível

3. p.ext. que se mostra convincente em função das evidências, que convence; evidente.”

OK… A memória, apesar dos meus quase 74 anos, não me falhou. (Quando a gente envelhece a memória que primeiro começa a falhar é a de curto prazo… As coisas que a gente aprendeu quando adolescente e jovem estão mais bem enraizadas na memória da gente, raramente conseguem fugir com facilidade…).

Mas ao ler o Houaiss, ficou-me claro que ninguém pode afirmar uma coisa dessas sem evidências e, especialmente, sem argumentos – argumentos daquele tipo que Charles Dodgson (Lewis Carroll) classificava como “nice knock-down arguments”, argumentos que derrubam os adversários, que os levam à lona (como dizem os locutores de luta de boxe) num nocaute fulminante [1].

Ansioso, fui procurar as evidências e os argumentos, que serviriam de sustentáculo epistêmico para a afirmação. Para seu crédito, Steven Key tenta amealha-los. Diz ele:

“O próprio Calvino não o procurou [o seu papel na Reforma de Genebra]. Na sua provavelmente maior anotação autobiográfica, encontrada no prefácio do seu Comentário sobre o Livro de Salmos, ele apontou que ele não tinha intenção de permanecer em Genebra mais do que uma simples noite, e muito menos de se tornar uma figura de liderança ali. O plano de Calvino era ir para Estrasburgo. Seu coração estava posto numa vida isolada de estudos privados. Ele acabou passando por Genebra, porque, na providência maravilhosa de Deus, o caminho direto de Paris para Estrasburgo estava bloqueando, fazendo-se necessário para Calvino tomar uma rota diferente, muito mais longa e tortuosa para o sul. Assim, ele chegou em Genebra sem aviso prévio. Mas, embora com somente 27 anos de idade, Calvino era um erudito e professor bem conhecido neste tempo, e alguns que o reconheceram fizeram conhecido a Farel que o autor da Institutio estava na cidade. Assim, o Reformador e pastor Guillaume (William) Farel se tornou o instrumento de Deus para colocar Calvino num caminho diferente.”

É isso. Isso é tudo que Steven Key tem a dizer para justificar a sua afirmação apodíctica. Se formalizarmos o argumento, ele fica mais ou menos assim:

Premissa 1: Calvino, que estava em Paris, saiu de casa com a intenção de [com planos de] ir para Estrasburgo;

Premissa 2: Circunstâncias fora de seu controle o obrigaram a passar por Genebra;

Premissa 3: Guilherme Farel, que era o reformador que estava tentando fazer de Genebra uma cidade protestante, disse a Calvino que ele deveria ficar em Genebra, porque, se não o fizesse, Deus iria puni-lo;

Premissa 4: Calvino acreditou em Farel e ficou em Genebra;

Conclusão: Logo, “o papel de João Calvino na Reforma de Genebra foi divinamente ordenado”.

Hummm… Esse argumento me parece um total non sequitur, isto é: a conclusão (que pode até ser verdadeira) não se deriva, por dedução, das quatro premissas. Em outras palavras, mesmo que todas as quatro premissas sejam verdadeiras, e (ad argumentandum, isto é, por amor ao argumento) não vou contestar que o sejam, a conclusão não é verdadeira, porque as premissas e a conclusão não estão “amarradas”, logicamente, entre si. Por conseguinte, o argumento não é formalmente válido: trata-se de uma falácia (batizada com o nome indicado atrás: non sequitur).

Se Steven Key tivesse concluído: “Logo, João Calvino acreditou que seu papel na Reforma de Genebra foi divinamente ordenado”, seu argumento seria “passável”, quase aceitável – digamos que “salvável”… Mas não foi isso que Steven Key concluiu. Sua conclusão não se refere a algo que Calvino veio a acreditar, e que ficava, portanto, “dentro da cabeça dele”, por assim dizer. A conclusão de Steven Key se refere à causa supostamente objetiva de um evento histórico, a permanência de Calvino em Genebra, alegando que essa causa foi uma ordem do próprio Deus. E essa conclusão é um non sequitur. O argumento é falacioso.

Voltando à historinha do Rubem Alves, o que Steven Key está dizendo, em última instância, é que Calvino ficou em Genebra porque o plano dele de ir morar em Estrasburgo não deu certo… Está certo: essa provavelmente é uma afirmação verdadeira. Mas não deu certo por quê? Azar, sorte, o acaso?

Há uma premissa maior que Steven Key não explicita, mas que é essencial para transformar a falácia que ele apresenta em um argumento digno de consideração, a saber: “Quando os planos da gente não dão certo, não é por acaso: é porque Deus quer que façamos alguma outra coisa…” Essa premissa, se inserida no argumento, o tornaria um argumento formalmente válido (com mais alguns ajustes pequenos, perfeitamente factíveis). O problema é que a veracidade dessa premissa é muito difícil de defender… Talvez seja indefensável.

Muita gente afirma que “nada acontece por acaso”. Uma coisa, porém, é afirmar – outra, muito diferente, é provar a veracidade dessa afirmação. Se nada acontece por acaso, só há duas explicações possíveis: a existência de um destino que inexoravelmente se cumpre ou a providência divina também inexorável (que, no caso dos calvinistas, pode ser generalis, specialis e specialissima, no último caso, a que se aplica aos eleitos) [2].

Aqui volto a bater na tecla em que bati em meu artigo recente “Ironias da Vida…”, publicado em 19/4/2017 no meu blog Chaves Space [3]. Concluo aquele artigo dizendo o seguinte:

“Cada vez me convenço mais de que o sentimento mais básico de uma pessoa religiosa é esse sentimento de que, por mais que tentemos controlar a nossa vida, envisionar o nosso ponto de chegada, planejar o percurso, nos seus menores detalhes, há tantos imponderáveis em tudo isso que é preciso reconhecer que o controle sempre vai nos escapar, nossos planos sempre vão se frustrar, e que se, ao final da vida, pudermos vir a dizer que combatemos o bom combate e acabamos a carreira felizes e realizados, até isso isso, no frigir dos ovos, não terá sido mérito nosso… Podemos dizer, se preferirmos, que não há como controlar o acaso, a sorte ou o azar, que nosso destino está escrito nas estrelas… Ou podemos dizer, como Lutero preferia, que nós não estamos em controle, mas Alguém está! Essa opção, tomada por Lutero, certamente nos traz bem mais conforto. Deve ser bom morrer sabendo que estamos indo para os braços do Pai… A grande questão é se isso é verdade — ou se nós simplesmente estamos nos iludindo, dando um outro nome, o pomposo nome de Divina Providência, ao velho acaso… Oh, dúvida cruel! Não há filosofia ou ciência que resolva essa questão. Como diria Tomás de Aquino no século 13, ou como disse Ed René Kivitz na última VEJA, essa é uma questão cuja resposta jaz supra rationem — além da razão. Talvez esta seja a maior de todas as ironias na vida: que, diferentemente do restante dos animais, sejamos seres dotados de razão — mas que as questões mais importantes da vida só tenham resposta, se é que têm, além do plano racional.”

De qualquer forma, sempre fico arrepiadamente admirado de que pessoas inteligentes se sintam tão confiantes para fazer afirmações do tipo:

“O papel de João Calvino na Reforma de Genebra foi divinamente ordenado”.

Steven Key, segundo tudo indica, é calvinista. Além de calvinista, é pastor (porta o Rev. antes de seu nome). Como tal, deve aceitar que a única autoridade epistêmica para fazer afirmações desse tipo, é a Bíblia (princípio do Sola Scriptura). Mas a Bíblia, embora fale de Deus, desconhece Calvino. Assim, como é que Steven Key se sente autorizado a fazer uma afirmação desse tipo?

Nossos planos às vezes dão errado por falha nossa: planejamos mal. Às vezes eles falham por causa da ação de terceiros (terceiros humanos, não divinos), que, insatisfeitos com o que planejávamos fazer, decidiram frustrar a nossa ação. E às vezes eles falham por razões que não conseguimos definir – em cujo caso, atribuímos seu fracasso ao acaso ou, se acreditamos calvinisticamente em Deus, à Divina Providência.

Steven Key considera que o bloqueio da estrada direta entre Paris e Estrasburgo, que forçou (?) Calvino a fazer um trajeto esquisito, via Genebra, se deveu à “providência maravilhosa de Deus”. Só poderia fazer uma afirmação dessa se houvesse, antes, descartado a hipótese “acaso”, defendendo, assim, a premissa oculta a que fiz referência antes: “Quando os planos da gente não dão certo, não é por acaso: é porque Deus quer que façamos alguma outra coisa…”

Pode ser também que, ao frustrar os nossos planos, o acaso ou a Providência Divina simplesmente queira que não façamos nada… que fiquemos quietinhos em nosso canto.

NOTAS

[1] A expressão é usada por Humpty-Dumpty no capítulo VI de Alice Through the Looking Glass (Alice no País do Espelho). Humpty- Dumpty tentava convencer Alice de que é muito melhor receber “presentes de desaniversário” do que “presentes de aniversário”. Ela achou que a coisa não fazia sentido. E ele então argumentou: você tem apenas um dia de aniversário no ano, portanto só um dia no ano em que pode receber presentes de aniversário; em compensação, você tem 364 dias de desaniversário no ano, e logo muito mais dias cada ano em que pode receber presentes de desaniversário”. Assim, é muito melhor receber “presentes de desaniversário” do que “presentes de aniversário”. Entendeu, Alice?  (Alice de vez em quando era meio burrinha). Humpty-Dumpty arrematou: “There’s a nice knock-down argument for you!”. Vide The Complete Works of Lewis Carroll (The Modern Library, New York), p.214. Um “nice knock-down argument”, portanto, é um argumento irrespondível, irrefutável – porque é formalmente válido e não há como questionar a veracidade de suas premissas. Registre-se que é bem mais fácil construir um argumento formalmente válido do que provar a veracidade de suas premissas – e, por conseguinte, e necessariamente, de sua conclusão.

[2] Vide meu artigo “A Vida é um Enigma — ou As Boas Risadas de Deus”, em meu blog Liberal Space, em https://liberal.space/tag/filosofia-de-vida/.

[3] “As Ironias da Vida…”, em meu blog Chaves Space, em https://chaves.space/2017/04/19/ironias-da-vida/.

Em Salto, 26 de Abril de 2017

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Categories: Acaso, Chance, Providência, Providence

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