Ironias da Vida…

Em Janeiro de 1546 Lutero, que andava bastante doente, com seus 62 anos, foi chamado pelos seus familiares até Eisleben, onde, em 1483, ele havia nascido… Queriam eles que Lutero os ajudasse na negociação de algumas desavenças entre a família e os condes que eram proprietários das minas de cobre que membros da família, através de algo parecido com franquias, ajudavam a explorar. Embora Lutero não tivesse se tornado o advogado que seu pai que queria que fosse, em 1546 ele tinha autoridade moral suficiente para atuar como mediador da disputa, mesmo que ela envolvesse, como envolvia, membros da nobreza… Pois até o Imperador do Sacro Império Romano ele havia enfrentado!
 
Curiosamente, Lutero escolheu quatro pessoas para acompanha-lo na viagem: seus três filhos homens e seu grande amigo Justus Jonas, ex-colega em Wittenberg. Jonas concordou em ir, porque ele já havia pedido a Lutero que este estivesse presente ao seu lado quando ele, Jonas, morresse — e ele também (como Lutero) sentia que não andava bem de saúde.
 
Em Eisleben, Jonas de fato ficou mais doente… Um problema surgiu em sua perna que produziu vários buraquinhos em sua canela e deixou todo o mundo preocupado…
 
As negociações com os condes foram lentas e difíceis… O tempo passava sem que elas chegassem a bom termo.
 
No dia 14 de Fevereiro, Dia de São Valentin, Lutero escreveu à sua querida Katharina, dando notícias (da doença de Jonas, por exemplo), contando boatos, brincalhão como sempre era em suas cartas para a mulher (e para os amigos — mais de 2.200 cartas de Lutero sobreviveram!). Terminou a carta dizendo à mulher: “Esperamos ir para casa esta semana — se for esta a vontade de Deus…” “Wenn Gott will !!!” God willing. Deo volente. Se Deus quiser.
 
Bom, não foi a vontade de Deus que Lutero voltasse vivo para junto de sua amada. No dia 18, quatro dias depois da carta do Dia de São Valentin, ele morreu. E Jonas, que queria que Lutero estivesse presente ao seu lado quando ele morresse, viu os papeis se inverterem: foi ele que esteve à cabeceira do amigo quando este expirou.
 
Mais uma vez me lembro do dito, originado não sei com quem, que, quando Deus nos ouve falar de nossos planos, ele dá boas risadas — como que dizendo: “Inocente… mal sabe ele que…”
 
Ironias da vida.
 
Cada vez me convenço mais de que o sentimento mais básico de uma pessoa religiosa é esse sentimento de que, por mais que tentemos controlar a nossa vida, envisionar o nosso ponto de chegada, planejar o percurso, nos seus menores detalhes, há tantos imponderáveis em tudo isso que é preciso reconhecer que o controle sempre vai nos escapar, nossos planos sempre vão se frustrar, e que se, ao final da vida, pudermos vir a dizer que combatemos o bom combate e acabamos a carreira felizes e realizados, até isso isso, no frigir dos ovos, não terá sido mérito nosso…
 
Podemos dizer, se preferirmos, que não há como controlar o acaso, a sorte ou o azar, que nosso destino está escrito nas estrelas… Ou podemos dizer, como Lutero preferia, que nós não estamos em controle, mas Alguém está!
 
Essa opção, tomada por Lutero, certamente nos traz bem mais conforto. Deve ser bom morrer sabendo que estamos indo para os braços do Pai… A grande questão é se isso é verdade — ou se nós simplesmente estamos nos iludindo, dando um outro nome, o pomposo nome de Divina Providência, ao velho acaso… Oh, dúvida cruel! Não há filosofia ou ciência que resolva essa questão. Como diria Tomás de Aquino no século 13, ou como disse Ed René Kivitz na última VEJA, essa é uma questão cuja resposta jaz supra rationem — além da razão.
 
Talvez esta seja a maior de todas as ironias na vida: que, diferentemente do restante dos animais, sejamos seres dotados de razão — mas que as questões mais importantes da vida só tenham resposta, se é que têm, além do plano racional.
 
NOTA: Reflexões provocadas pela leitura do primeiro capítulo de Martin Luther: Visionary Reformer, de Scott H. Hendrix (Yale University Press, New Haven, 2015).
Em Salto, 18 de Abril de 2017

Eduardo CHAVES

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