Da Justiça Social, do Igualitarismo e da Inveja, um texto escrito em 1989

[Artigo]

“Justiça Social, Igualitarismo e Inveja” [34]

[Artigo Terceiro do livro Cinco Artigos em Defesa do Liberalismo Clássico: Uma Coletânea, de Eduardo Chaves. Amazon / Kindle Edition e Mindware Educação, 2018]

[Mote do Artigo]

“Não tenho respeito à paixão pela igualdade, que me parece ser mera idealização da inveja”. [35]

[Autor]

Eduardo Chaves

[Parte da NOTA 1 incluída no início do livro, não do artigo:]

“[. . . ] ‘Justiça Social, Igualitarismo e Inveja: A Propósito do Livro de Gonzalo Fernández de la Mora’ [foi originalmente] publicado na revista Pro-Posições, Vol. IV, Março de 1991, pp.26.40.

[NOTA de 2020: Transcrevo aqui apenas a Parte 5 do artigo, que é sua Conclusão. Omito as Partes 1 a 4 do artigo por serem muito longas. É bom que não se esqueça que o artigo foi originalmente publicado no número de Março de 1991 da revista Pro-Posições, órgão oficial da Faculdade de Educação da UNICAMP, mas foi escrito e submetido à revista em 1989. Embora ele possa parecer meio datado, aqui e ali, números e outras informações se referem àquele contexto do final da década de 1980. Esclareço ainda que eu tinha mais confiança então do que tenho hoje na Pedagogia Tradicional, calcada no Ensino, e tinha menos confiança então na Auto-Aprendizagem e na Aprendizagem Colaborativa, que considero muito mais importante do que o Ensino e a base de uma Nova Educação Desescolarizada. No lado prático, números entre chaves { } se referem às páginas do livro que eu resenho no artigo: Egalitarian Envy: The Political Foundations of Social Justice, de Gonzalo Fernández de la Mora, cujos dados são fornecidos nas Notas 34 e 36, abaixo.]

*** Parte 5. Conclusão ***

E a Universidade Brasileira, Como Fica? Os partidos políticos que defendem o igualitarismo, principalmente os inspirados pelo Marxismo, adotam hoje a tática de chegar ao poder, não através do apoio maciço do proletariado, mas sim através da cooperação dos chamados intelectuais (entre os quais se incluem homens de letra, artistas, jornalistas e professores universitários) [82]. Pouco importa que essa tática contradiga os postulados básicos do materialismo histórico. Sua aplicação prática envolve controle dos órgãos formadores da opinião pública, como os meios de comunicação de massa (a mídia) e as instituições educacionais, principalmente as universidades {107}. A universidade, como o ponto culminante de todo o processo educativo formal, como a credenciadora das profissões, e como o celeiro onde se escondem cientistas, homens de letras, artistas, políticos em potencial, etc., é a instituição preferida dos igualitaristas. Por isso, tomaram-na de assalto.

O que falta em competência intelectual aos igualitaristas universitários sobra-lhes em número, organização e demagogia.

Primeiro, quanto à questão numérica. Na universidade pública brasileira, em especial na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), enquanto os professores que acreditam na competência e no mérito se ocupavam de suas pesquisas e de suas aulas, os igualitaristas se encarregaram da política – e de se multiplicar como coelhos {107}. Usaram a tática de criar mais e mais disciplinas sobre os mesmos surrados temas, para pressionar a administração a contratar mais professores para ensina-las [83]. Quando não havia mais como inventar disciplinas, inventaram um princípio pedagógico que, de uma tacada, criou a necessidade de outro tanto de professores: uma sala de aula com mais de 30 alunos não condiz com as condições mínimas de aprendizagem [84].

Ainda sobre o problema de números, é fato sobejamente sabido que professor, em regra, não dá muita atenção a funcionário, dentro da universidade. Mas como foi impossível conter as demandas dos funcionários, e, assim, limitar aos docentes o igualitarismo dentro da universidade brasileira, funcionários acabaram por tornar-se politicamente importantes como potenciais aliados – afinal de contas eles também votam, e (acreditam os professores) são mais facilmente manobráveis do que os alunos. O resultado da participação dos funcionários na política universitária foi uma inflação também no seu número dentro da universidade. Hoje a UNICAMP, que tem um professor para cada cinco alunos, tem cerca de 0,77 funcionários para cada aluno! Acredito que seja recorde mundial. Se somarmos os números de funcionários e professores, a UNICAMP chega bem perto de um funcionário / professor por aluno, mesmo quando é excluído do cômputo o pessoal de obras (que, se incluído, faz com que o número seja maior do que um) [85].

Mas números, em si só, não significam tanto. É preciso organização. Nesse aspecto, os partidos políticos que vivem da exploração do ópio igualitarista se estruturaram para dar aos seus militantes dentro da universidade as condições de ali ganhar e exercer o poder. Conseguiram. A UNICAMP, hoje, como muitas outras universidades públicas brasileiras, é propriedade da esquerda igualitarista, que dela dispõe a seu bel-prazer. O Governador Orestes Quércia, com seu Decreto concedendo autonomia às universidades, abdicou do direito – eu diria mesmo do dever – de exercer um certo controle, em nome da população que o elegeu, sobre o que se passa dentro das universidades e sobre como é gasto o dinheiro do povo paulista ali aplicado. Hoje, as universidades paulistas não prestam contas a ninguém. A ideologia demagógica que permitiu aos igualitaristas obter o poder dentro da universidade foi o democratismo. Negligenciando o fato de que a universidade é uma instituição hierárquica, organizada em função do saber que uns detêm e outros (pelo menos em princípio) aspiram a obter, em que liderança deve ser exercida por seleção natural e não por voto universal [86], os igualitaristas “democratizaram” a universidade. Multiplicaram o número de órgãos colegiados e neles deram representação aos três segmentos da comunidade universitária. É verdade que a representação não é igualitária: professores têm uma representação muito maior (em números absolutos e relativos) do que funcionários e alunos. Além disso, apesar da “representatividade” dos órgãos colegiados, tudo o que importa é decidido fora deles, de forma plebiscitária, por voto comunitário de que participam os três segmentos – novamente, com um peso maior para os professores. A votação “paritária” (em que o voto de cada um dos três segmentos vale um terço do total) é vista pelos professores como muito arriscada (afinal, os alunos são meio imprevisíveis e podem se unir aos funcionários, e daí só Deus sabe o que pode acontecer [87]) e a votação “universal” (em que cada indivíduo tem um voto com o mesmo peso), então, é considerada como inadmissível pelos docentes.

A prática política dos intelectuais defensores do igualitarismo dentro da universidade nos mostra que eles reconhecem que há nela alguns que são “mais iguais do que os outros” (a saber eles mesmos, os professores). Eles procuram negar, porém, que, dentro da categoria docente, haja, e deva haver, uma real hierarquia de competência. Dentro dela tudo tem, segundo eles, de ser decidido por voto universal – isto é, segundo a vontade da maioria que, em muitos casos, não obteve sequer seu doutorado porque seu maior mérito é votar por cabresto, votar segundo a determinação do partido [88].

O resultado disso tudo? Diz Fernández de la Mora:

“Aqueles que se rebelam contra a subserviência ideológica, comumente os melhores, são eliminados ou marginalizados. . . . A ciência objetiva assim se torna igualitária” {107} [ênfase acrescentada].

O igualitarismo na política universitária talvez não trouxesse tantos problemas se não acabasse sendo levado para a sala de aula. “A transmissão da cultura foi deixada nas mãos dos comentaristas do catecismo partidário” {107}, diz Fernández de la Mora. Os docentes “orgânicos” de hoje não hesitam sequer diante de fazer proselitismo político-partidário na sala de aula, em horário que deveria estar sendo dedicado ao ensino. Fazem-no desavergonhadamente, especialmente em momentos pré-eleitorais (sejam as eleições internas ou externas).

Aqueles que não repetem a letra do catecismo igualitarista tentam praticar e inculcar o seu espírito. O igualitarismo na sala de aula é tipicamente representado (principalmente na área de Humanas) pelo professor que chega diante de seus alunos e diz algo (mais ou menos) assim: “Há os que pensam que sabem mais do que outros. Vã pretensão. A verdade é que todos somos iguais em nossa ignorância. Portanto, aqui vamos aprender juntos. A opinião de todos e de cada um terá o mesmo valor. O importante é dizer alguma coisa, não o que é dito”. Os jovens, que já não têm como definir sua identidade porque seus pais se comportam como “copains“, “buddies“, encontram, na universidade, professores que, igualmente, abdicam de seu papel.

O pior é que muitos dos alunos na universidade acabam por acreditar no evangelho igualitarista [89]. Os que não acreditam muitas vezes saem da universidade para manter sua sanidade mental. Se lhes falta coragem para tanto, permanecem, mas violentados, que realmente foram. Como muitas das vítimas de violação, acabam frequentemente neurotizados.

Tudo na vida tem seu preço. Se comemos dieta inadequada por muito tempo, nosso corpo acusa os resultados. Quando a comida é muito ruim, ou estragada, o estômago chega mesmo a se recusar a digeri-la e a põe para fora. O que nos leva a pensar que nossa mente possa engolir qualquer porcaria impunemente? Estamos submetendo nossos jovens, em nossas universidades, a uma dieta intelectual que os leva a esconder sua competência, a disfarçar suas virtudes, a se desculpar por suas realizações, que os incentiva não a buscar o melhor e a dar o melhor, mas a nivelar por baixo. Fingir que se é bom é errado, mas é até desculpável, perto do cúmulo que é fingir que se é ruim. E depois nos indagamos porque tantos jovens procuram a droga. Ou porque o suicídio está se tornando uma das principais causas de morte nessa faixa etária [90]. É possível destruir a mente e o amor próprio de um jovem com essa dieta intelectual – mas não é possível forçá-lo a viver com o que lhe resta.

[A Primeira Versão deste artigo foi escrita em 1989-1990. A Segunda Versão, com os cortes reinseridos e com mais Notas de Rodapé (vide Nota 34, no Início) foi recomposta em 1991-1992. Revisões subsequentes em Dezembro de 2007 e Março de 2018. Transcrito no meu blog Liberal Space em 8 de Dezembro de 2007.]

NOTAS DE FIM DE TEXTO:

[34] O título original deste artigo era: “Justiça, Igualitarismo e Inveja: A Propósito do Livro de Gonzalo Fernández de la Mora”. O livro em questão era Egalitarian Envy: The Political Foundations of Social Justice. Dados sobre seu autor são fornecidos na Nota 2 e na Nota 36 deste livro. O artigo foi inicialmente publicado, em versão mais curta, na revista Pro-Posições, órgão oficial da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nº 4, Março de 1991, pp.26-40. O artigo só foi publicado depois de o autor ter concordado em eliminar dele várias referências explícitas à Universidade, que os leitores do trabalho, membros do Comitê Editorial da revista, todos eles professores da Faculdade de Educação, acharam inapropriadas. A justificativa dada pelo Comitê Editorial foi que, embora nada do que estava dito fosse falso, não ficava bem numa revista oficial da Faculdade de Educação que aparecessem críticas explícitas à Universidade. Concordei (como uma vez disse David Hume) em “castrar” o artigo para poder publicá-lo ali. Nesta versão as partes cortadas foram reintroduzidas. Esta versão também contém bem mais material do que a original, especialmente nas notas de rodapé.

[35] ​O mote do artigo, que não fazia parte da versão original, vem de Oliver Wendell Holmes, Jr. (1841-1935), que foi Juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos durante trinta anos (1902-1932). A passagem citada está no livro The Holmes – Laski Letters: The Correspondence of Mr. Justice Holmes and Harold J. Laski, 1916-1935 (Cambridge, Harvard University Press, 1953), Vol. II, p.942, e ele é citado aqui apud Friedrich A. Hayek, The Constitution of Liberty (The University of Chicago Press, Chicago, 1960), tradução brasileira de Anna Maria Capovilla e José Ítalo Stelle, com supervisão de Henry Maksoud [sim, o mesmo do hotel], sob o título Os Fundamentos da Liberdade (Visão e Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1972), p.85 da edição original, p.92 da edição brasileira. A passagem é mote do capítulo VI da obra de Hayek. A tradução é minha, porque o texto da edição brasileira não é tão fiel ao original neste caso. O texto original é o seguinte: “I have no respect for the passion for equality, which seems to me merely idealizing envy”. Os tradutores não só tornaram o texto mais enfático como introduziram três termos (“obsessão”, “igualitarismo”, e “sublimação”) que não traduzem adequadamente os termos originais, para os quais há correspondências apropriadas em Português. Eis o texto dos tradutores brasileiros: “Não tenho o menor respeito à obsessão pelo igualitarismo, que não me parece ser nada mais do que a sublimação da inveja”.

. . . [As NOTAS 36-81 são omitidas por se referirem às Partes 1 a 4 do artigo, que não estão transcritas aqui] . . .

[82] ​Cf. William W. Bartley, III, op.cit., pp.xx,130. [INFORMAÇÃO retirada da NOTA 54, onde o artigo foi mencionado pela primeira vez: “William W. Bartley, III, em seu Unfathomed Knowledge, Unmeasured Wealth: On Universities and the Wealth of Nations (Open Court, La Salle, Illinois, 1990), cita Ronald H. Coase que menciona que uma das razões porque intelectuais são, em regra, favoráveis à regulamentação da economia é que eles frequentemente se imaginam como os reguladores. Bartley, precocemente falecido [em 1990], foi meu orientador de doutorado nos idos de 1970-1972 na Universidade de Pittsburgh. Ele era, além de orientando de Karl R. Popper, quando de seu doutorado, o seu testamenteiro intelectual, bem como o de Friedrich A. Hayek.]

[83] ​O Departamento de Ciências Sociais Aplicadas à Educação (DECISAE) da UNICAMP, que é um de cinco departamentos da Faculdade de Educação, e que “concorre” com o Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade e (pelo que parece) também com o Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem, lista, no catálogo de Pós-Graduação da Universidade para 1990, nada menos do que 94 (noventa e quatro) disciplinas. Entre elas, “Empresa Privada e Educação”, “Educação e Empresa” [imagino que estatal, porque a empresa privada já terá merecido devida atenção na disciplina anterior], “Educação Sindical”, “Educação das Populações Rurais”, “Educação e Organizações Partidárias”, “Aspectos Educacionais dos Meios de Comunicação de Massa”, “Meios de Comunicação de Massa e Educação”, “Educação e Ciências da Linguagem”, “Teorias Narrativas e Educação”, “Teorias do Discurso e Educação”, “Formas do Discurso e Educação”, “Educação, Comunicação e Cultura”, “Discursos Políticos e Educação”, “Formas de Comunicação e Educação I”, “Formas de Comunicação e Educação II”, etc. A multiplicação de disciplinas, mesmo que nunca oferecidas, serve de base para se exigir a contratação de novos professores, sob a alegação de que há inúmeras disciplinas “a descoberto”.

[84] ​Como são aceitos 90 alunos anualmente para o curso de Pedagogia, o número máximo de 30 alunos por turma significa que são necessárias três turmas (e três professores) para cada disciplina. (Há quem diga que houve, na Faculdade de Educação da UNICAMP, os que defenderam que o número mágico seria 20, não 30. Imagino que o substitutivo tenha sido rejeitado porque não dá para dividir exatamente 90 por 20 – mas isso não passa de especulação de minha parte…).

[85] ​Os dados relativos ao ano de 1989, retirados do Relatório do Quatriênio 1986/1990 preparado pelo ex-Reitor Paulo Renato Costa Souza (pp.11,66,71), foram divulgados para a imprensa de Campinas pelo próprio Reitor atual, Carlos Vogt (Correio Popular de 16/8/90, fl.4), e são os seguintes: 2.475 professores, 9.689 funcionários técnico-administrativos (excluído o pessoal de obras!), e 12.517 alunos regulares (7.741 de graduação, 3.216 de mestrado e 1.560 de doutorado). Vai chegar uma hora — e ela chegou na segunda metade desta década de 2010, depois do desastroso primeiro mandato de Dilma Rousseff, em que não haverá mais dinheiro público para pagar tanta gente.

[86] ​Também é de Sumner a frase que, na indústria, as pessoas são escolhidas para exercer suas funções “por seleção natural, não por eleição política”. É isso que explica seu sucesso. Cf. Fine, op.cit., p.83. Nos cargos de confiança do governo brasileiro o oposto se dá. [INFORMAÇÃO transcrita da NOTA 75: “William Graham Sumner defendeu com vigor essa tese no final do século passado. “Na luta entre o homem e a natureza … esta é neutra, submetendo-se àqueles que a submetem mais resolutamente. Se o estado não interferir, os homens serão recompensados em proporção aos seus esforços, e os mais aptos sobreviverão. A sobrevivência do mais apto só pode ser alterada se se subtrair dos que foram bem sucedidos para dar aos que fracassaram, diminuindo assim a desigualdade. ‘Não podemos fugir dessa alternativa: liberdade, desigualdade, sobrevivência do mais apto, ou então não-liberdade, igualdade, sobrevivência do mais inapto’. A primeira alternativa constrói a civilização e o progresso, a segunda produz a anti-civilização e o retrocesso.” [ênfase acrescentada]. Sidney Fine, Laissez-Faire and the General-Welfare State: A Study of Conflict in American Thought, 1865-1901 (The University of Michigan Press, Ann Arbor Paperbacks, Ann Arbor, 1956, 1964), p.82. As passagens em aspas simples são citações de Sumner. O restante está nas palavras de Fine.]

[87] ​Basta verificar os resultados, quebrados por categoria, da “consulta à comunidade” (eufemismo para “eleição”) para escolha do Reitor da UNICAMP em 1986, para ver quão mais acachapante teria sido a derrota do candidato dos igualitaristas, hoje Ministro da Educação, se a eleição tivesse sido paritária ao invés de ter tido os pesos três, um e um para docentes, funcionários e alunos, respectivamente. O candidato dos igualitaristas, embora tenha perdido por boa margem entre funcionários e alunos, ganhou no Conselho Universitário, no qual a representação destes é meramente simbólica.

[88] ​No início da gestão de Carlos Vogt na Reitoria da UNICAMP (ele foi reitor de 1990 a 1994) 43,5 % dos docentes da UNICAMP não possuíam o doutorado. Cerca de 20% desses (ou seja, um pouco mais de 8% do total) só possuíam a graduação. Isto numa universidade que se pretendia ser (e ainda pretende) nada menos do que a melhor do Brasil. Dê-se crédito a Carlos Vogt por ter tentado implantar na UNICAMP um “Projeto Qualidade”, que (de certa forma) procurava constranger os professores não-doutores a defender seu doutoramento dentro de quatro anos. Ressalte-se que havia, na época, professores na universidade, em regime de tempo integral e de dedicação exclusiva, que estavam há mais de quinze anos para defender seu mestrado. Apesar disso, os igualitaristas protestaram contra a “pressão” da Reitoria. Sua demagogia apareceu em alegações como esta: “Qualidade nunca pode ser identificada com titulação!” A afirmação é verdadeira. Mas o projeto não afirmava nem pressupunha que o fosse. A afirmação é verdadeira porque a obtenção de um doutorado acadêmico é o mínimo indispensável para comprovar qualidade. Assim sendo, quem não tem o doutorado não demonstrou ter qualidade ao nível mínimo. Quem leva mais de dez anos para concluir um curso de pós-graduação “doesn’t have what it takes”: já deveria estar em outra profissão. Mas os igualitaristas, afirmando que qualidade não pode ser identificada com titulação, procuravam sugerir que titulação nada tinha que ver com qualidade, tentando, assim, encobrir o fracasso de seus correligionários, que, usufruindo das mordomias universitárias por vários anos, geralmente em tempo integral e dedicação exclusiva, não conseguiam obter um título que, em qualquer país desenvolvido, é condição sine qua non para pleitear ingresso na vida acadêmica.

[89] ​É a conclusão de professores experientes e competentes que o melhor aluno para ensinar é o de primeiro ano, recém-ingressado, orgulhoso da façanha de ter entrado na universidade, motivado para aprender, porque ainda acredita que está na universidade para isso e que seus mestres lhe ajuda-lo a aprender o que é preciso. Essa esperança não sobrevive a um ano de prática e doutrinação igualitária – geralmente está extinta ao fim do primeiro semestre. Cf. Bartley, op.cit., p.xviii.

[90] ​O problema da droga é por demais conhecido para necessitar de corroboração. O do suicídio entre jovens não tem merecido tanta atenção. Entretanto, suicídio é a segunda principal causa de mortes entre jovens, depois de acidentes com veículos automotores, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Na França, três jovens se suicidam por dia – número bem maior do que o dos que morrem por “overdose” acidental. Cf. o artigo “Suicide des jeunes: les chiffres qui font peur”, em L’Express, Edição internacional nº 2017, de 9 de março de 1990, pp.8-9. Cf. também “Suicide: Ces jeunes qui veulent mourir”, em Le Point, Edição internacional nº 1007, de 4 de março de 1992, pp.56-60.

[FONTE: Eduardo CHAVES, Cinco Artigos em Defesa do Liberalismo Clássico: Uma Coletânea. Amazon Kindle Edition / Mindware Education, 2018]

(Esse livro está disponível em qualquer loja online da Amazon, em especial na Amazon-US e na Amazon-BR)

Transcrito aqui neste blog Chaves Space em Salto, 10 de Novembro de 2020



Categories: Liberalism, Liberalismo, Liberals, Liberdade, Liberty, Socialism, Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: