Processos de Convencimento vs Processos de Persuasão

Apesar de muitas pessoas usarem os termos “convencer” e “persuadir” como se fossem sinônimos, ou quase, eu considero o conceito de convencer (convicção, convencimento) e o conceito de persuadir (persuasão) como basicamente distintos.

Convencimento é um processo através do qual uma pessoa adota ou rejeita uma crença (uma opinião, um ponto de vista, uma tese, uma teoria, uma doutrina, uma ideologia, uma visão de mundo, etc.), que ela não tinha antes, ou muda de uma crença (etc.) que tinha antes, para uma outra, ou para nenhuma, em relação a qualquer assunto ou questão, e o faz através de meios que não violam ou transgridem sua integridade, liberdade e autonomia, por se limitarem e restringirem exclusivamente aos domínios da percepção, da lógica e da racionalidade, como, por exemplo: apelo a fatos empiricamente comprovados ou racionalmente demonstráveis, a conceitos coerentes e bem fundamentados, a enunciados verdadeiros ou altamente prováveis e a argumentos válidos e sólidos.

Essa adoção, rejeição ou mudança de crença (etc.) pode se dar através de observação, leitura, reflexão, etc., feitas pela própria pessoa, sem intervenção direta de terceiros, ou, com a intervenção direta de outras pessoas, através de conversa, diálogo, discussão, debate, etc., com essas outras pessoas, ou, ainda, com a participação indireta (não interativa) de outras pessoas, assistindo a fala, aula, conferência, discurso, pregação, feitas por outras pessoas, ou mesmo peça de teatro, série, novela, filme, que, necessariamente, envolvem outras pessoas, etc.

O importante é que, havendo envolvimento de outras pessoas, a pessoa focada (a que vai aceitar ou rejeitar uma crença (etc.), ou mudar de crença (etc.), não seja, nem se sinta, obrigada, forçada, constrangida (em nenhum sentido dos termos) por esses terceiros a aceitar ou rejeitar a crença (etc.) ou mudar de crença (etc.), e que em todos os sentidos tenha sua integridade, liberdade e autonomia plena e integralmente respeitadas.

Não há nada oculto, subliminar, ou sub-reptício no processo: fica evidente, para os envolvidos, ou para quem quer que seja que testemunhe o que está acontecendo, que x está tentando convencer y de que p é verdade (onde p é uma proposição ou conjunto de proposições) ou de que c é a coisa certa a fazer (onde c é uma conduta qualquer). No fundo, x não tem, necessariamente, maior interesse em fazer com que y aceite p (ou rejeite p, ou suspenda seu julgamento acerca de p): está interessado em defender aquilo que lhe parece verdadeiro, correto, ou certo.

Persuasão, por outro lado, é um processo através do qual uma pessoa adota ou rejeita crenças, ou altera suas crenças — mas pode também envolver a adoção, rejeição e mudança de valores, emoções, sentimentos, atitudes, e, no extremo, ações, condutas, comportamentos.

Uma outra diferença entre persuasão e convencimento é que a persuasão não se limita ao uso de meios lógicos e racionais, como no caso do convencimento, apelando também para estratagemas psicológicos, apelos emocionais, envolvendo, desejos, esperanças e medos, ainda que irracionais. No processo, a persuasão não hesita em utilizar recursos aos quais o convencimento nunca recorreria, como uso atores disfarçados de médicos e engenheiros, apelo a “fatos” inventados ou distorcidos, “fake news“, conceitos enganosos, argumentos falaciosos (inválidos ou não sólidos), o emprego de recursos ocultos e processos subliminares que tentam influenciar o subconsciente ou mesmo o inconsciente da pessoa, uso manipulador e insuspeito das emoções e de sabidos “pontos fracos” e “vulnerabilidades” da pessoa, e todo um arsenal de táticas e estratégias que visam a “encurralar” a pessoa, não lhe deixando outra saída que não aceitar (ou, se for o caso, rejeitar) o ponto de vista em foco, ou alterar o ponto de vista que já possui.

É na persuasão que se sentem em casa os hoje conhecidos processos de manipulação mental: doutrinação, reeducação, controle de pensamento, lavagem cerebral, ressocialização, reaculturamento, etc., usados em especial com prisioneiros de guerra, com vítimas de sequestro, ou com crianças e adolescentes em situação de alienação parental, mas também usados na mídia, em novelas e filmes, especialmente na publicidade e propaganda, bem como em igrejas, em partidos políticos, e, lastimavelmente, em escolas (religiosas ou seculares, para não só “fazer a cabeça das pessoas”, fazendo-as optar, sem possibilidade real de escolha, por uma crença ou doutrina, religiosa ou política, e adotar certos sentimentos e sentir certas emoções, e, muitas vezes sem retorno, embarcar em um curso de ação, e isso tudo sem se valer de sua capacidade lógica e racional de autodefesa intelectual, mental, ou emocional, mesmo em condições que a vítima se percebe, de alguma forma, sob deliberado e bem orquestrado assédio ou ataque.

Persuadir é claramente diferente de convencer.

Uma coisa é tentar, de maneira aberta, visível, admitida e pública, convencer uma pessoa da verdade de um enunciado, de uma proposição, de um ponto de vista, de uma tese, da corretude de uma linha de ação e conduta, através de um apelo a fatos e argumentos. Isto é tentar convencer a outra pessoa de que algo é o caso, um fato, a verdade.

Outra coisa é tentar controlar e manipular, em geral de forma disfarçada, furtiva, sorrateira, subliminar, subreptícia, quando não oculta e invisível, e nunca admitida, o pensamento e a crença, a emoção e o sentimento, e, dessa forma, a decisão, a ação e a conduta das pessoas. Isto é persuadir: tentar teleguiar a outra pessoa em suas crenças e convicções, emoções e sentimentos, e decisões e ações, e, por conseguinte em sua conduta — e isto, sem admitir, pelo contrário, negando, que é isso que está ocorrendo.

Persuasão é uma forma evidente de manipulação mental — mesmo que não contenha o uso ostensivo da força física e a maldade da violência psicológica, como é o caso na lavagem cerebral.

Este texto é uma Nota de Fim de Texto de um livro que estou escrevendo sobre Liberalismo e Educação, em que abordo o assunto. Quem quiser me enviar contribuições sobre essa questão, pode fazê-lo através do e-mail edkeys@chaves.im. Obrigado.

Em Salto, 10 de Janeiro de 2021. Revisão e expansão em 18 de Maio de 2021.



Categories: Liberalism

2 replies

  1. Texto bom não é necessariamente aquele com o qual concordamos totalmente, mas aquele que nos faz pensar. Esse texto é isso. Como sou privilegiada, depois que eu conseguir refletir o suficiente, vamos conversar sobre ele na mesa do café da manhã, ou num final de tarde, na poltrona do nosso quarto? Amo você. ❤️

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