Processos de Convencimento vs Processos de Persuasão

Apesar de muitas pessoas usarem os termos “convencer” e “persuadir” como se fossem sinônimos, ou quase, eu considero o conceito de convencer (convicção, convencimento) e o conceito de persuadir (persuasão) como basicamente distintos.

Convencimento é o processo através do qual uma pessoa adota um ponto de vista, que ela não tinha antes, ou altera um ponto de vista que ela já possuía, em relação a qualquer assunto ou questão, através de meios que se limitam e restringem exclusivamente ao domínio da lógica e da racionalidade, como: apelo a fatos, conceitos, enunciados (verdadeiros ou bastante prováveis) e argumentos (válidos e sólidos), apresentados por outra pessoa, de forma escrita ou oral, em especial em contextos que envolvem interação, conversa, diálogo, discussão, debate, troca de correspondência, sempre de natureza crítica, ou mas podendo também ser em contextos que envolvem apenas uma apresentação oral ou escrita unidirecional, como, em se tratando de uma apresentação oral, uma palestra, discurso, conferência, pregação, etc., presencial ou mediada pela tecnologia, sem que possa haver interação, ou como, em se tratando de uma apresentação escrita, um texto qualquer, como panfleto, artigo, jornal, revista, livro, dicionário ou enciclopédia, ou outro meio de comunicação em que a interação é, na prática, inexistente ou improvável. Não há nada “oculto” ou “subreptício”: fica evidente, para os envolvidos ou para quem testemunha o que está acontecendo, que x está tentando convencer y de que p é verdade (onde p é uma proposição ou conjunto de proposições) ou de que c é a coisa certa a fazer (onde c é uma conduta qualquer).

Persuasão, por outro lado, é um meio de comunicação que também tem por objetivo levar uma outra pessoa a adotar um ponto de vista, ou mudar de ponto de vista, mas que não se limita ao uso de meios lógicos e racionais, como no caso do convencimento, apelando para meios psicológicos e irracionais, como: apelo a “fatos” inventados ou distorcidos, “fake news“, conceitos enganosos, argumentos falaciosos (inválidos ou não sólidos), uso de recursos ocultos e processos subliminares que tentam influenciar o subconsciente ou mesmo manipular o inconsciente, uso manipulador e insuspeito das emoções e de sabidos “pontos fracos” e “vulnerabilidades” da pessoa, e todo um arsenal de táticas e estratégias que visam a “encurralar” a pessoa, não lhe deixando outra saída que não aceitar o ponto de vista ou alterar o ponto de vista que já possui. Aqui estão os hoje conhecidos processos de doutrinação, reeducação, controle de pensamento, lavagem cerebral, ressocialização, reaculturamento, etc., usados em especial com prisioneiros de guerra, com vítimas de sequestro, ou com crianças e adolescentes em situação de alienação parental, mas também usados na mídia, em novelas e filmes, mas especialmente na publicidade e propaganda, bem como em igrejas, em partidos políticos, e, lastimavelmente, em escolas (religiosas ou seculares), para não só “fazer a cabeça das pessoas”, fazendo-a optar, sem possibilidade real de escolha, por uma crença ou doutrina, e adotar certos sentimentos e sentir certas emoções, e, muitas vezes sem retorno, embarcar em um curso de ação, e isso sem se valer de sua capacidade lógica e racional de autodefesa intelectual, mental, ou emocional, mesmo em condições que a vítima se percebe, de alguma forma, sob deliberado e bem orquestrado assédio ou ataque.

Persuadir é diferente de convencer.

Uma coisa é tentar aberta, admitida e publicamente convencer uma pessoa da verdade de um enunciado, de uma proposição, de um ponto de vista, de uma tese, através de um apelo a fatos e argumentos. Isto é tentar convencer a outra pessoa de que algo é o caso, um fato, a verdade.

Outra coisa é tentar controlar e manipular, em geral de forma disfarçada e subreptícia, quando não oculta e invisível, e nunca admitida, o pensamento e a crença, a emoção e o sentimento, e, dessa forma, a decisão, a ação e a conduta de uma pessoa. Isto é persuadir: tentar teleguiar a outra pessoa em suas crenças e convicções, emoções e sentimentos, e decisões e ações, e, por conseguinte em sua conduta — e isto, sem admitir, pelo contrário, negando, que é isso que está ocorrendo.

Este texto é uma Nota de Fim de Texto de um livro que estou escrevendo sobre Liberalismo e Educação, em que abordo o assunto. Quem quiser me enviar contribuições sobre essa questão, pode fazê-lo através do e-mail edkeys@chaves.im. Obrigado.

Em Salto, 10 de Janeiro de 2021



Categories: Liberalism

2 replies

  1. Texto bom não é necessariamente aquele com o qual concordamos totalmente, mas aquele que nos faz pensar. Esse texto é isso. Como sou privilegiada, depois que eu conseguir refletir o suficiente, vamos conversar sobre ele na mesa do café da manhã, ou num final de tarde, na poltrona do nosso quarto? Amo você. ❤️

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