A Virtualização da Realidade e o Metaverso

1. Introdução

Este artigo retoma, e leva adiante, alguns temas sobre os quais já escrevi bastante: realidade virtual (incluindo igreja virtual), unschooling, identidade pessoal, memória etc. Material escrito em outras ocasiões, desde 1993, quase trinta anos atrás, é aproveitado. No final ideias futurísticas ou mesmo utópicas são apresentadas que alguns, talvez muitos, acharão insanas.

2. Um Artigo Aparentemente Fora de Hora

Escrevi pela primeira vez sobre este assunto em Janeiro de 1993. Vai fazer 30 anos no ano que vem. O trabalho original era pequeno, com cerca de cinco páginas impressas por impressora. Dei-lhe o título que agora orna este trabalho maior: “A Virtualização da Realidade”. O trabalho foi escrito como material de apoio para um curso sobre “Desenvolvimento de Sistemas de Multimídia e Hipermídia”, que ministrei no primeiro semestre de 1993 na Pós-Graduação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. O caráter simples e didático do texto reflete o fato de que, naquela época, em que a Internet não havia ainda nem sequer chegado oficialmente no Brasil (isto se deu em 1995), o tema era meio esotérico.

Talvez por causa do ineditismo no assunto, na época (1993), passados seis anos a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), vendo o meu artiguinho no meu principal site de então (http://edutec.net), financiado pela Microsoft, pediu-me permissão para publicá-lo, com o mesmo título, na sua revista Comunicação & Educação. Fiquei, naturalmente, deveras lisonjeado, honrado mesmo, e evidentemente dei permissão. Senti-me orgulhoso de que algo despretensioso que havia escrito seis anos antes como material de apoio para um curso meu, fosse julgado digno de figurar numa revista da ECA/USP. Fiz uma pequena revisão e enviei o artigo à ECA. Ele foi publicado no nº 16, de Dezembro 1999, fls.26-28. Apenas três páginas em impressão diagramada. Faz mais de 22 anos. Tenho – e guardo com cuidado – três exemplares da revista que a ECA me enviou.

3. Mudando de Assunto – ou Não!

Em 2010, depois de um interregno de 40 anos, eu voltei a ser membro de uma igreja, a Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo (conhecida como a Catedral Evangélica de São Paulo, por ser a primeira igreja evangélica (protestante) criada na capital e no estado de São Paulo – isto foi em 1865. Quase como se fosse um neófito que se esquecia de que nasceu virtualmente (!) dentro de uma igreja, eu estava entusiasmado, e percebendo que a Igreja, além de um site, não existia no “Plano Virtual”, fiz uma proposta de criação de uma “Rede Social” dos membros da Igreja, para que a igreja passasse a ser algo ligado à vida dos crentes 24 horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas no ano. Pareceu-me uma ideia original. Mas a proposta foi recusada pelo colegiado de pastores. Não era hora. A igreja pretendia apenas transmitir seus cultos pela Internet – algo unidirecional, nada interativo. Mas não desisti da ideia.

Em 2014 fui convocado a trabalhar na FATIPI – Faculdade de Teologia São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB) – a denominação da qual a Catedral é a primeira igreja local, algo, de certo modo, parecido com a “moedinha número um”, como dizia Tio Patinhas da primeira moeda que ganhou e que serviu de base para sua fortuna. Na FATIPI tive oportunidade de explorar o tema da “Igreja Virtual”, chegando até a dar um minicurso de três dias sobre o tema, em um programa de férias chamado, se bem me lembro, de Faculdade Aberta, dedicado ao público em geral, não aos alunos da faculdade, nem mesmo apenas aos membros da igreja.

Fiquei na FATIPI até 2017 – apenas quatro anos. Quando senti que meu “liberalismo teológico” começou a irritar pastores conservadores no campo, e, assim, começou a criar problemas para o Diretor da Faculdade, que era, e continua, meu amigo, pedi demissão. De problemas com Seminários e Faculdades de Teologia eu já tinha tido minha cota plena em 1966, no Seminário Presbiteriano de Campinas, do qual fui expulso naquele ano. Mas continuei na igreja, só que na United Presbyterian Church dos Estados Unidos, para onde havia ido, para dar continuidade aos meus estudos. Foi só em 1970 que efetivamente saí da igreja, começando minha peregrinação de quarenta anos pelo deserto, até que voltei em 2010, para a Catedral. Na Catedral fiquei dez anos, e saí em 2020. Aqui não vale a pena discutir por quê. Ainda que frequente regularmente a Igreja Presbiteriana Independente de Salto (da qual minha mulher se tornou membro), não sou membro dela – e, na minha idade de quase 80 anos, creio que nunca mais vou me tornar um membro regular, oficial, de uma igreja. Passei a ser um cristão ou um crente “desigrejado”, termo criado para designar aqueles que estão fora da igreja, mas ainda se reconhecem como cristãos –no caso, cristãos protestantes ou evangélicos, chamados de crentes. Crente desigrejado não tem pastor para azucrinar sua vida, não tem conselho de presbíteros para repreendê-lo, suspendê-lo da comunhão, ou mesmo desligá-lo da igreja. Eu devia ter descoberto isso antes.

Em 2017, quando eu saía da FATIPI, um grande amigo meu, que eu não via durante décadas, Marcelo Girsas, retomou contato. Havíamos nos tornado amigos na década de 90, em um contexto profissional, quando ele trabalhava, primeiro na PROMON, depois da NORTEL, e eu prestei alguns serviços de consultoria para ele, nas duas empresas, através de uma empresa minha que meu enteado dirigia: ela se chamava Keysoftware:  “keys” é chaves… Ele havia morado em São Paulo e Campinas, e eu não sabia que ele havia se mudado para Florianópolis (desde então parece que voltou para Campinas), nem que ele tinha interesse em religião (no caso dele, a católica). O contato foi retomado quando ele descobriu que eu estava trabalhando na FATIPI (na verdade, estava prestes a sair). Ele estava interessado exatamente no tema dos “desigrejados”. Mal sabia eu (ou ele) que em três anos eu me tornaria um. Por dever de ofício, eu tinha interesse no tema, porque um “desigrejado” é, de certa forma, um “crente virtual”: é um crente que não pertence a nenhuma igreja institucionalizada, sendo apenas parte da chamada “Ecclesia Invisibilis”, que, com a “Community of Scholars”, talvez sejam as duas maiores (a primeira muito maior do que a segunda) e famosas “Comunidades Virtuais” já criadas – e há muito, muito tempo…

Por outro lado, desde o ano 2000, meu segundo ano de consultor junto à Microsoft, e meu primeiro ano como consultor junto ao Instituto Ayrton Senna (por recomendação da Microsoft), comecei a me interessar por “Comunidades Virtuais de Aprendizagens”. A formação dos professores das escolas parceiras das duas instituições, no programa “Sua Escola a 2000 por Hora”, era, inicialmente, presencial – a um custo elevadíssimo. Mas viajar, para quem é formador, é ótimo: conheci o Brasil através de viagens para o Instituto Ayrton Senna e o mundo através de viagens para a Microsoft (a matriz). Mas, aos poucos, mesmo instituições ricas começam a sentir a pressão dos custos… Começamos a fazer essa formação à distância, através de “Experiências de Aprendizagem Colaborativa” (EAC). Com o passar do tempo, a coisa e o nome foram aperfeiçoados e se tornaram “Aprendizagem Personalizada e Colaborativa em Ambientes Virtuais Estruturados” (APECAVE). O ambiente, no caso, era a plataforma Moodle, criada no Instituto.

As coisas nunca ficam paradas – elas evoluem. Embora a Microsoft e o Instituto Ayrton Senna tenham continuado a ter interesse nas escolas físicas, eu, a partir de 2010, e, especialmente, de 2013, quando encerrei minha consultoria nas duas instituições, gradualmente me convenci de que é muito difícil, quiçá impossível, mudar uma instituição tão conservadora como a escola. A razão para essa conclusão está no fato de que na escola se concentram inúmeros interesses, como, por exemplo, os de milhões de professores que só sabem “dar aula” de um assunto especializado; os de uma burocracia criada para gerir milhares de escolas públicas de qualidade, na melhor das hipóteses, duvidosa; os de proprietários de escolas particulares criadas para ser uma escola alternativa e fornecer uma educação de qualidade menos duvidosa, mas ainda dentro do paradigma, para aqueles que podem pagar; o de editoras voltadas para produzir livros didáticos para as escolas; o de autores de livros didáticos e proprietários de “sistemas de ensino”; o de indivíduos, e empresas e organizações não governamentais e não empresariais interessados em oferecer consultoria e outros serviços para o mercado escolar, público ou privado; o de empresas de comunicação e mídia, interessadas em oferecer “telecursos” e outros serviços para esse mercado; ou de outras empresas interessadas em fornecer material didático, como Lego, para as escolas; e, especialmente, “last but not least”,  de mafiosos sindicatos de professores e especialistas não docentes na área da educação escolar (diretores de escolas e de sistemas escolares, supervisores pedagógicos, orientadores educacionais, a até inspetores escolares, em nível sistêmico, e “bedéis”, em nível local…). Entre os “stakeholders” da escola (os que têm algo a ganhar com ela ou a perder, se ela for mal ou acabar), estão os pais de alunos, desejosos de um lugar em que possam deixar (“despejar”) seus filhos enquanto trabalham, e, por isso, batalham por uma “escola de tempo integral”, para ter o dia inteiro livre. Esse conjunto de pessoas e instituições interessados na manutenção da escola, mais ou menos como ela é hoje, não vão deixar que essa “mamata” termine nunca. Pelo contrário: querem aumentar a duração, em anos, da escolaridade obrigatória (um sistema de prisão sem sentença), querem aumentar o número de dias letivos no ano, querem aumentar as horas diárias em que as crianças / adolescentes / jovens permanecem na escola… Aumentam também os níveis de escolaridade: a pré-escola deixou de ser pré-escola e passou a ser o nível “infantil” da escola, depois vem o Fundamental 1, o Fundamental 2, o Médio, e o Superior, que antes só tinha a Graduação e agora tem a Pós-Graduação lato sensu, a Pós-Graduação stricto sensu (Mestrado, Doutorado e o tardio a chegar, o MBA), e os incríveis “Pós-Doutorados”… Daqui a pouco o indivíduo terá 50 anos e ainda estará na escola, fazendo o seu “Pós-Pós-Pós-Doutorado”… Como o personagem de Jorge Amado, em Gabriela, que apresentava seu cartão de visitas que indicava, embaixo do nome dele, que ele era “Bacharéis”, porque Bacharel em Letras e em Direito, nossos professores universitários um dia terão cartões de visita que os identificam como “Pós-Doutores3” (leia-se “com três Pós-Doutorados”, ou “Pós-Doutor ao Cubo”…).

Enfim… Se a escola é uma prisão que só dá lucro para os seus donos e carcereiros, e ela não vai terminar nunca por decisão dela mesma (algo como suicídio), o jeito de acabar com ela é investir na tecnologia – a mesma que acabou com as tipografias, está acabando com as mídias e as editoras convencionais, com os jornais, revistas e livros impressos, com as emissoras de rádio e canais de televisão convencionais, com cinemas físicos (hoje templos da Igreja Universal), até mesmo com discos, cassetes, CD, CD-ROM, DVD, e seus “players”, como walkman, discman, ipod etc.). No caso da escola, o movimento de subversão e corrosão começou com home schooling, evoluiu para deschooling, e agora virou de uma vez unschooling ou non-schooling. A educação (com a necessária aprendizagem, mas sem o desnecessário ensino) está se livrando, de uma vez por todas, da escola moderna, depois de 500 anos de existência. A educação está se desescolarizando – virtualizando –  por completo. Como a religião, que está cada vez mais se desigrejando – ou seja, se virtualizando.

Meu modesto artiguinho de 1993, publicado em 1999 pela ECA/USP, antecipou, de certo modo, esse desenvolvimento fantástico, mas expandiu o conceito ou o sentido do “virtual” –  como se verá a seguir.

Mas tem mais … Mas antes de ir para a frente eu quero ir para trás um pouco…

4. Voltando ao Artigo de 1993/1999

Neste capítulo vou basicamente transcrever, mas com algumas pequenas modificações e inserções posteriores, o artigo de 1993/1999. Não vou indicar quando mudo ou acrescento algo, porque o sentido, no essencial, não mudará em nada.

A expressão “realidade virtual”, embora cunhada em uma época relativamente recente, posterior à invenção do computador, que veio à luz em 1945, se refere a algo que, em certo sentido, sempre foi do conhecimento de todos. Os acontecimentos descritos em obras literárias de ficção ou exibidos na maioria das peças de teatro, filmes, e novelas representam uma “realidade virtual” — isto é, uma realidade que, conquanto não exista no plano “real”, existe em um plano “virtual”, isto é, imaginado ou potencial.

O existir da realidade virtual é um existir em um sentido válido, embora fraco (soft, não hard), do termo. Os acontecimentos dessa realidade virtual (livros de ficção, peças, filmes, novelas) sem dúvida afetam nossas vidas, nos emocionam, não raro nos transformam. Algumas pessoas, principalmente as mais simples, confundem essa realidade virtual — que, por paradoxal que pareça, é uma “realidade não-real” — com a “realidade real” — por redundante que possa soar essa expressão. É por isso que essas pessoas detestam determinados atores porque os personagens que eles representam na tela geralmente são maus, ou que elas se decepcionam quando descobrem que a vida pessoal de um ator não se coaduna com a imagem de integridade identificada com o personagem que ele encarna na tela.

Se a expressão “realidade virtual” se referisse, hoje, somente àquilo que tradicionalmente chamamos de ficção, e que, embora afete nossas vidas, o faz apenas através da imaginação, seria difícil entender porque essa expressão vem aparecendo com tanta frequência nas revistas, especializadas ou não, e mesmo nos jornais, na televisão,, seja na sua forma original (“realidade virtual”), seja em formas derivadas: “escritório virtual”, “loja virtual”, “shopping center virtual”, “livraria virtual”, “banco virtual”, “dinheiro virtual”, “empresa virtual”, “conferência virtual”, “sala de reuniões virtual”, “biblioteca virtual”, “livro virtual”, “jornal virtual”, “cinema virtual”, “comunidade virtual”, “grupo de trabalho virtual”, “turismo virtual”, “férias virtuais”, “sexo virtual” (não podia faltar…) – mas, em compensação, há a “igreja virtual”, “velório virtual” e, especialmente depois da pandemia, “aula virtual”.

O sentido da expressão “realidade virtual” (e de suas formas derivadas) não tem, hoje, entretanto, uma conotação de algo que é ficcional ou fictivo, apenas imaginado. Quando hoje falamos, por exemplo, em “livraria virtual”, ou “supermercado”, ou “shopping center virtual”, modalidades introduzidas na realidade “real” pela Amazon, não estamos nos referindo a uma livraria ou a um supermercado ou a um shopping center que existe apenas na ficção ou na imaginação, e, portanto, apenas em um sentido fraco do termo do “existir”. Estamos nos referindo, isto sim, a uma livraria, a um supermercado, e a um shopping center que existem em um sentido forte do termo, ainda que sua existência ou realidade não possa ser delimitada precisamente em termos físicos ou espaciais (o que torna difícil de determinar sua real natureza). Tanto a livraria virtual como o supermercado virtual, bem como o shopping center virtual de hoje existem que é possível neles fazer compras, e as compras neles feitas não são “de faz-de-conta”: são compras “realmente reais”, posto que são, de fato, entregues na casa de quem as comprou, que, por elas, tem de pagar — ainda que o faça com o que poderia ser chamado de “dinheiro virtual” (como, por exemplo, um cartão de crédito ou de débito).

A realidade dita virtual de hoje é, portanto, uma realidade que se distingue, conceitualmente, do reino do ficcional e do imaginário. O que a torna diferente da realidade comumente vista como tal é o fato de que a realidade virtual de hoje é uma realidade tornada possível e viável pela revolução da tecnologia digital (a “informática”): computadores e equipamentos de telecomunicação, em especial depois de eles terem seu tamanho miniaturizado e se tornado móveis, e incorporado câmeras e microfones: independentes de fixação em algum local específico.

A virtualização da realidade de que trata este artigo pode ser bem ilustrada no caso da chamada “comunidade virtual”. O termo “comunidade” tem vários sentidos. Seu sentido principal, porém, talvez seja o que faz referência a um grupo de pessoas cujos membros habitam uma determinada região e, em alguns casos, possuem memória e características comuns que individualizam o grupo e lhe dão identidade. Em comunidades pouco coesas talvez a única característica comum do grupo seja o fato de habitar uma determinada região. Mas em geral as pessoas fazem suas amizades na comunidade em que vivem e essas amizades não raro refletem interesses comuns (i.e., “comunidade de interesses”).

Uma comunidade virtual, no sentido em que a expressão é empregada hoje, é uma comunidade constituída por pessoas que não habitam necessariamente uma mesma região, mas que se encontram e se mantêm unidas através de computadores e diversos outros equipamentos de telecomunicação, em das muitas “redes de telecomunicação” (que envolvem hardware e software, e que incluem computadores fixos, laptops e notebooks, tablets, smartphones, smart cameras, etc., bem como os equipamentos de base que lhes dão suportes, como modems, roteadores, etc. que hoje permitem a interligação dos equipamentos) e as chamadas “redes sociais”, que permitem que os usuários das redes telecomunicação (a Internet e a “meta-rede”, a rede das redes) se interliguem uns com os outros formando “redes de pessoas”, que, no limite inferior, podem consistir apenas duas pessoas conversando e/ou se exibindo uma para a outra (como bem sabem os enamorados e os praticantes do sexo virtual). Os membros de uma comunidade virtual podem habitar até mesmo continentes diferentes e viver em locais distantes uns dos outros vários fusos horários. O que os une é apenas uma comunidade de interesses, e o interesse comum às vezes é, pelo menos no início, simplesmente encontrar outras pessoas também curiosas em aprender a se comunicar através de seus computadores e dos equipamentos subsidiários. (Antigamente havia, com sede em São Paulo, a SUCESU – Sociedade dos Usuários de Computadores e Equipamentos Subsidiários, que hoje incluiria todo ser humano do planeta — razão pela qual a dita sociedade mudou de nome.) Outros interesses comuns rapidamente aparecem, e os grupos às vezes se quebram em grupos menores para discutir tópicos que só interessam a alguns dos membros do grupo maior. De qualquer forma, é impossível negar que essas comunidades — virtuais, porque transcendem o plano espacial, e, em certo sentido, também o temporal, visto que a comunicação entre seus membros é assíncrona — sejam comunidades reais, em que as pessoas genuinamente se interessam umas pelas outras, dão suporte (na forma de informação, conhecimento, apoio emocional e até mesmo auxílio financeiro) umas às outras, por vezes se desentendem e brigam feio (ficam de mal, rompem relacionamento, se cancelam), e, em alguns casos, se entendem, se aproximam, e até mesmo se apaixonam. (Se o interesse pessoal, ou, quem sabe, o amor, leva membros da comunidade virtual a se encontrar face-a-face, uma comunidade não-virtual por vezes se sobrepõe à virtual, criando interações humanas por vezes extremamente complicadas.

A comunidade acadêmica e científica, que, a despeito de não habitar uma mesma região, já era chamada de comunidade mesmo antes dos computadores e das telecomunicações digitais e móveis (já sendo, portanto, em certo sentido, virtual), sendo chamada de “community of scholars”, é hoje eminente e paradigmaticamente virtual, no sentido de que seus membros se comunicam, primária e fundamentalmente, através de seus computadores e das redes criadas para interligar esses computadores, em especial através da Internet, a rede das redes de computadores instalados originalmente apenas em instituições acadêmicas e de pesquisa e desenvolvimento. (Em 1993 a Internet ainda era isso. Foi nesse ano que ela começou a se desvincular da comunidade acadêmica e se tornar universal, nos Estados Unidos. No Brasil isto se deu dois anos depois, em 1995, quando o Ministro das Telecomunicações de FHC – o mérito foi do ministro das Telecomunicações Sérgio Motta –  jogou duro e pesado contra o Grupo Telebrás e garantiu que a Internet brasileira fosse privada e comercial, e não ficasse apenas como um brinquedo privilegiado, controlado pelo governo, para pesquisadores de universidades públicas e centros de pesquisas estatais.) Não vai nenhum exagero ao dizer que muitos pesquisadores hoje têm mais e melhores relações com pesquisadores com os quais mantêm principalmente encontros virtuais, através da Internet, do que com pesquisadores da mesma instituição, cujas salas ou laboratórios às vezes são adjacentes ou estão no mesmo prédio ou corredor, que às vezes são uns chatos intragáveis.

Conferências científicas em regra envolviam, até a pandemia, encontros face-a-face, e, portanto, eram virtuais. Professores universitários e pesquisadores adoram viajar como todo mundo. Hoje são quase todas virtuais. Mas, mesmo antes da pandemia, a organização e o preparo dessas conferências geralmente eram feitos por grupos de trabalho virtuais, cujos membros estavam a milhares de quilômetros de distância uns dos outros, comunicando-se quase que exclusivamente por correio eletrônico e mensagens instantâneas. Os trabalhos científicos a serem apresentados nessas conferências e reuniões são enviados pela rede para o comitê organizador, que os distribui, também pela rede, a avaliadores, que devolvem seus pareceres pelo mesmo meio. Com a pandemia, e a tendência provavelmente não vai desaparecer com o fim dela, se é que ela um dia vai terminar, é de esperar que conferências científicas passem a ser totalmente virtuais. Nelas, os participantes permanecem em seus próprios locais de trabalho ou em suas próprias casas e se reúnem pela rede para discutir seus textos. Esses eventos são às vezes chamados de “telepresença”. Já há plataformas de telepresença em que o espaço é virtual e os participantes possuem “avatares”, etc.

O chamado correio eletrônico é um correio virtual, pelo qual circulam correspondências eletrônicas. Contudo, seria um erro considerar o correio eletrônico apenas uma recriação digital do correio e das correspondências convencionais. A virtualização do correio acrescentou-lhe dimensões importantes, não existentes antes. Muitas dessas dimensões representam nítidas vantagens. Em primeiro lugar, a transmissão das mensagens e, portanto, a comunicação, é muito mais rápida — virtualmente instantânea. Em segundo lugar, uma mesma mensagem pode ser enviada para vários destinatários simultaneamente. Em terceiro lugar, e mais importante, uma mensagem pode, hoje, em muitos casos, incluir som (a voz humana, por exemplo) e até mesmo imagens estáticas ou vídeos. O correio eletrônico está perdendo espaço, em especial entre os jovens, pelos sistemas de mensagens instantâneas, como Messenger, WhatsApp, Telegram etc. que viraram verdadeiros telefones multimídia instantâneos e serviços de teleconferências.

Por outro lado, a transmissão de mensagens por cabos convencionais, fibras ópticas ou via satélites coloca sérias questões de segurança, confidencialidade e privacidade que já foram adequadamente equacionadas no correio convencional. Além disso, com a comunicação móvel sem fios entre computadores e telefones, que hoje é de rigueur, a correspondência das pessoas literalmente circulará pelo espectro eletromagnético, com seus textos, sons, e imagens digitais, fato que complica ainda mais o problema da segurança, confidencialidade e privacidade da comunicação.

Registre-se aqui, por fim, o caso do “ebook“, o livro digital (ou virtual) que rapidamente vai ganhando a preferência dos leitores. Ele é um livro sem papel, e, por conseguinte, ecologicamente correto. Hoje em dia pode ser publicado diretamente pelo autor. É vendido em livrarias virtuais, nas quais não ocupa espaço de armazenamento em enormes galpões – só ocupando um pequeno espaço em um disco rígido, situado em uma nuvem. Além disso, sua distribuição, além ter custo negligível, é instantânea, seja ela feita pela livraria virtual ou pelo próprio autor ou algum outro agente seu. Poderia ser vendido muito barato não fosse a máfia das editoras (quando o livro é publicado por uma) querer ter um lucro obsceno sobre um investimento mínimo.

5. Poslúdio e Futlúdio: O Metaverso

Domingo passado (7.8.22) e ontem (11.8.22) assisti a vários capítulos da série Upload, da Amazon (mas escrita, produzida e dirigida por Greg Daniels. Embora seja listada como comédia ou mesmo “workplace comedy” (comédia contextualizada no local de trabalho), e embora a série seja bastante divertida, e vários personagens estejam em seu local de trabalho, Upload é muito mais do que isso: é uma exploração intrigante e instigante sobre o que é possível criar com tecnologia já existente (ou quase).

O Facebook tem uma opção de configuração em que você pode definir o que você quer que aconteça com seus perfis (em tese cada pessoa só pode ter um), suas páginas e seus grupos quando você morrer. Você pode pedir que o Facebook apague seus materiais, ou os congele na forma de um memorial à sua pessoa, ou pode ainda indicar alguém que vá continuar a geri-los, como bem lhe aprouver.

A história da série Upload vai mais ou menos na mesma linha. Em tese o “universo virtual”, ou “metaverso” [i], pode preservar todas as suas memórias. Em breve, o seu cérebro poderá ser escaneado e digitalizado e você, ou alguém poderá fazer um download de todas as suas memórias (de todo o conteúdo de seu cérebro) para um megacomputador. Se você suspeitar que está para morrer, você pode mandar fazer um upload de suas memórias para um local na nuvem, junto de um avatar seu, e, isto feito, você pode morrer em paz porque o seu avatar – o seu eu virtual – continuará a existir em uma dimensão, agora virtual. Aqui na Terra, você morreu, mas no plano virtual você estará vivo. Um guardião terreno, não virtual, cuidará de suas memórias, na verdade de seu novo eu, e defenderá os seus interesses. Esse guardião tem a possibilidade de, com um par de óculos especiais, ir até onde você está –local chamado de Lakeview na série – e, com os diversos apetrechos disponíveis, até transar com você, se ambos estiverem a fim disso, e inexistir qualquer empecilho.

Lakeview é, na realidade, uma réplica do Céu. Você tem de decidir que quer ir para lá – e pagar uma elevada taxa para que suas memórias sejam transportadas (o verbo é upload) para a nuvem e o seu avatar seja criado e também transportado (de novo, upload) para lá, e para custear o trabalho de seu guardião terrestre que vai cuidar de você (em vez de um anjo celestial é um anjo terrestre que cuidará de você). Como um resort de luxo, suas acomodações têm conforto e amenidades diferentes, que variam com o preço que você está disposto a pagar. Se você quer fazer seu upload, mas não muita grana, você pode pagar pouco mas vai literalmente pastar numa área reservada de Lakeview (chamada de 2-Giga: com apenas 2-Giga, você não tem roupas, a comida é minimíssima, e, se você é homem, até o seu pinto (a série é cheia de chulices) é sacrificado: você recebe só um conezinho para fazer xixi – e mais nada. Quem não quiser ou não puder pagar nada é, imagino, aniquilado ao morrer. Parece não existir nem Inferno nem penas eternas na programação.

No estágio atual explora-se a possibilidade de que alguém que recebeu um upload possa “ressuscitar” – receber um download  — e voltar a existir normalmente na Terra. Mas a tecnologia desse download não está totalmente dominada ainda. Alguns cobaias sofreram sangramento pelo nariz e a consequente explosão de sua cabeça ao retornar à Terra, depois do que elas deixaram de existir definitivamente.

Há muita coisa interessante nessa série – e que não tem nada que ver com comédia e ambiente de trabalho.

Em primeiro lugar, a série é uma tentativa de lidar criativamente com a questão da morte, e, mais interessante, de uma possível vida após a morte viabilizada pela tecnologia. Na narrativa do livro de Gênesis, os humanos perderam o Paraíso por tentarem ser como Deus (ou como deuses). Na série é tentando ser como Deus (ou como deuses) com os humanos reganham o Paraíso. Lembram-se de John Milton? O Paraíso Perdido e O Paraíso Reconquistado. Nihil novum sub sole (Nada de novo debaixo do Sol).

Em segundo lugar, a série é uma tentativa de operacionalizar o insight filosófico de John Locke de que a identidade pessoal está fundamentada na nossa memória. É o conjunto de minhas memórias que me faz quem eu sou. Algumas considerações, no espírito da sugestão de Locke:

  • Se eu perder completamente as minhas memórias (como o personagem Henry Turner, representado por Harrison Ford, no filme Regarding Henry, de 1991), eu deixo de ser eu, e não vou mais saber, como antes sabia, a reconhecer os outros ou as coisas, entender os outros, falar, até mesmo andar etc. Na realidade, eu deixo de ser uma pessoa humana. É só na medida em que eu for adquirindo novas memórias que eu me torno novamente uma pessoa humana – mas uma outra pessoa, diferente daquela que existia antes.

  • Se, per impossibile, eu trocar de memórias com uma outra pessoa, nos termos do “thought experiment” de John Locke, eu passo a ser ela e ela, a ser eu.  No livro de ficção científica I Will Fear no Evil, de Robert Heinlein (1970), defende-se a tese de que o cérebro é a base física da memória, e que, se (ou quando) houver transplantes de cérebro, colocando na cabeça de uma pessoa que está com o cérebro danificado o cérebro perfeito de uma pessoa que morreu, digamos, com um tiro no coração, o recipiente do cérebro passa a ser o doador, assume a identidade dele, e a pessoa que ele era antes, deixa de existir.

Se isso é verdade, se (ou quando) for possível fazer um upload para a nuvem de todas as memórias de uma pessoa, instantes antes de ela morrer, e, depois, criar um avatar, colocá-lo na nuvem e transferir para ele as memórias que haviam sido armazenadas na nuvem, e ativá-lo, a pessoa dona das memórias para todos os fins ressuscitou: volta a viver, mas no plano virtual. Se o mecanismo de comunicação entre a Terra e a Nuvem for bom, e o avatar for bem feito, pode ser quase imperceptível o fato de que a pessoa original morreu e ressuscitou (ou foi ressuscitada): ela parecerá nem ter morrido…

Dependendo das características e do preço do plano de upload adquirido, a pessoa da qual se fez o upload, pode até transar com seres humanos vivos, se estes, fazendo uso de óculos especiais, puderem ter acesso à nuvem.

Tudo isso é bastante complicado, mas mostra a distância que percorremos, desde que o virtual era identificado com o fictivo, até o que vemos na série Upload.

Os céticos, bem como os crentes em outras realidades e possibilidades, podem achar tudo isso inviável, ou, então, viável, mas inconveniente: “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.

Em Salto, 12 de Agosto de 2022


[i]  “Metaverso é o nome usado para denominar um ambiente virtual imersivo, coletivo e hiper-realista, onde as pessoas poderão conviver usando avatares customizados em 3D. Em outras palavras, ele é uma evolução da nossa internet atual.” https://blog.nubank.com.br/metaverso-o-que-e/; “Metaverso é um novo projeto digital que tem como objetivo integrar a vida virtual com a vida real das pessoas. Isto é, um ambiente imersivo de realidade simulada onde os usuários podem fazer tudo o que fazem na vida real.” https://www.idealmarketing.com.br/blog/metaverso/; “Metaverso é uma espécie de nova camada da realidade que integra os mundos real e virtual. Na prática, é um ambiente virtual imersivo construído por meio de diversas tecnologias, como Realidade Virtual, Realidade Aumentada e hologramas.” https://www.infomoney.com.br/guias/metaverso/#o-que-e-metaverso/; Meta é o novo nome da holding que inclui Facebook, Instagram, WhatsApp etc.



Categories: Liberalism, Metaverse, Virtual Reality

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