Memórias de 50 Anos Retomadas Hoje

No dia 8 de Agosto de 1972 eu defendi minha tese de Doutorado na Graduate School of Arts and  Sciences (Department of Philosophy) da University of Pittsburgh [1]. À noite fui celebrar jantando no restaurante mais famoso de Pittsburgh, “The Top of the Triangle”, um restaurante giratório localizado no 62o andar do prédio mais alto de Pittsburgh, “The US Steel Tower”, de 64 andares. O prédio continua lá, e, a menos que me engane, continua sendo o prédio mais alto da cidade. Mas o restaurante fechou em 2001 [2].

Tudo isso me voltou à mente hoje porque, desde ontem, estou lendo um livro notável de Frederick Lewis Allen, publicado em 1935, chamado The Lords of Creation: The History of America’s 1 Percent [3]. O “1 Percent” é, naturalmente, o um por cento mais rico da sociedade americana [4].

O prédio em que eu jantei em 1972, na época chamado de “U.S. Steel Tower”, tem esse nome em homenagem a Andrew Carnegie (1835-1919), o magnata do aço, que tinha suas usinas em Pittsburgh, no virar do século 19 para o século 20, e que, na época era simplesmente o homem mais rico do mundo [5]. Em 1900, ele vendeu o conjunto de suas empresas e se aposentou do seu trabalho lucrativo, digamos assim, dedicando-se, nos 19 anos finais de sua vida, à filantropia e à educação, criando bibliotecas, centros de arte e educação artística, e fundações de fomento à educação. Prometeu e cumpriu gastar toda a sua fortuna nessa área (apenas reservando uma pequena parcela para sustentou de sua família). Quando morreu, seu dinheiro estava literalmente todo gasto.

Em 1935, ano em que Frederick Lewis Allen publicou The Lords of Creation, também foi publicado um outro livro, que ficou mais famoso do que o livro de Allen: Think and Grow Rich, de Napoleon Hill (1883-1970). Este livro de Hill é hoje considerado um dos mais importantes e mais vendidos (entre os dez mais vendidos, “ever”, “überhaupt”) na categoria de “Auto Ajuda”. Hill afirmou que seu livro foi sugerido por Andrew Carnegie e que se baseou nas ideias de Carnegie e em ideias reunidas em entrevistas, que o próprio Carnegie teria recomendado e facilitado, com as pessoas mais bem sucedidas e ricas dos Estados Unidos da época. Muitos autores, quase todos eles contrários a essa categoria de livros (Auto Ajuda), questionam que Hill tenha realmente tido, como afirma, contato pessoal com Carnegie, ou feito as entrevistas que alega (com pessoas entre as quais estariam John D. Rockefeller [maior industrial da área da exploração e do refino do petróleo], Henry Ford [inventor do automóvel, fundador da Ford], Thomas Alva Edison [inventor, fundador da General Electric], Alexander Graham Bell [inventor do telefone], George Eastman [fundador da Kodak], George Safford Parker [inventor das canetas a tinteiro e fundador da Parker] King Gillette [das lâminas de barbear que, no Brasil, carregam seu nome, F. W. Woolworth [o criador das lojas populares chamadas de “5 & 10”, onde tudo custa 5 ou 10 centavos], Theodore Roosevelt [presidente dos EUA], Woodrow Wilson [presidente dos EUA], William Jennings Bryan [três vezes candidato a presidente dos EUA], Clarence Darrow [grande advogado criminalista], etc. Sou cético dessas críticas, embora, para mim, elas não façam diferença. O importante, para mim, é o que Hill afirma, e o que ele afirma é bastante coerente com o que a gente sabe sobre as ideias de Andrew Carnegie [6].

Bill Gates, que na transição de século seguinte, do século 20 para o 21, ocupava a posição de Carnegie como o homem mai rico do mundo, tem seguido o exemplo de seu precursor de um século antes e vem doando boa parte de sua fortuna em um admirável curso de ação filantrópica, através da sua fundação, a Bill e Melinda Gates Foundation.

Consta que, em seu ponto mais alto, por volta de 1900-1901, a fortuna de Andrew Carnegie chegou a 400 bilhões de dólares, em valores de hoje. Ele nasceu em Dunfermline, na Escócia, em 25 de novembro de 1835. Hoje é dia do seu aniversário natalício — do aniversário de seu nascimento. Estaria fazendo hoje 187 anos, se fosse imortal (no sentido literal da palavra — no sentido metafórico, ele é imortal. Continua sendo discutido hoje e seu nome está presente em centenas de instituições humanitárias, filantrópicas, artísticas e educacionais.

Esta é minha pequena homenagem a ele. A homenagem é mais pelo dinheiro que ele foi capaz de ganhar do que pelo dinheiro que ele gastou, fazendo doações (embora admire essa capacidade também — mais nos outros do que em mim, onde ela inexiste).

Carnegie morreu — pobre, por ter doado todos os bilhões (em valores de hoje) que tinha — em Lenox, Massachussets, em 11 de Agosto de 1919, poucos meses depois da Primeira Guerra Mundial, cuja aproximação ele deplorava. Era eleitor do Partido Republicano. Defendia um estado pequeno e que não interferisse na economia e, em especial, no mundo dos negócios. Suas doações ao Partido Republicano ajudaram esse partido a derrotar, em três eleições presidenciais, William Jennings Bryan, candidato do Partido Democrata, e presbiteriano fundamentalista. Desiludido da polícia, Bryan se concentrou ao combate do Liberalismo Teológico. Era o arqui-inimigo das doutrinas evolucionistas que, segundo ele, destruiriam a fé cristã. Bryan foi o indivíduo que serviu de promotor (auto) convidado no famoso Scopes Trial, o Julgamento do Macaco, em 1925. Morreu logo depois de ganhar o julgamento em primeira instância, depois de ver o juiz aplicar uma sentença de um dólar ao jovem professor que ensinava a teoria darwiniana na sala de aula. Mas Carnegie já estava morto nessa ocasião. 

Andrew Carnegie tinha uma filosofia de vida um pouco idiossincrática. Vida, família, amizade, religião faziam parte de uma dimensão da vida; negócios, de outra. Ele conseguia destruir o negócio de um amigo no processo natural de concorrência, e acreditar que a amizade entre eles não devesse ser alterada no mínimo por causa disso. Ele acreditava na máxima (invertida em relação à máxima normal, que diz “amigos, amigos, negócios à parte”) que negócios são negócios, e amigos ficam à parte. Os amigos cujos negócios foram destruídos por ele nunca concordaram com essa máxima. A maioria simplesmente deixou de ser amigos; uns poucos se tornaram inimigos ferrenhos. Ele, Carnegie, dizia nunca ser capaz de entender essa reação.

NOTAS:

[1] Escrevi um artiguinho nessa ocasião: Vide, no meu blog Chaves Space, “O Jubileu de Ouro do meu Doutorado”, em https://chaves.space/2022/08/08/jubileu-de-ouro-do-meu-doutorado/.

[2] Vide, acerca dos locais mencionados, os seguintes artigos: (a) na Wikipedia em Inglês, o artigo “U.S. Steel Tower”, em https://en.wikipedia.org/wiki/U.S._Steel_Tower; (b) na revista Pittsburgh Magazine, o artigo “Pittsburgh Then and Now: Downtown’s Tallest Skyscraper”, em https://www.pittsburghmagazine.com/pittsburgh-then-and-now-downtowns-tallest-skyscraper/; © no jornal Pittsburgh Post Gazette, o artigo “Sky High: The Steel Industry Collapsed, but the U.S. Steel Tower Stands Tall 50 Years After its Dedication”, em https://newsinteractive.post-gazette.com/us-steel-tower-50-anniversary/; e, finalmente, na revista Pittsburgh Business Times, o artigo “Top of the Triangle Restaurant to Close”, em https://www.bizjournals.com/pittsburgh/stories/2001/02/19/daily26.html.

[3] New York: Harper and Row, hoje reeditado, em ebook, na série “Forbidden Bookshelf”, e vendido pela Amazon.

[4] O livro cobre o 1% mais rico dos Estados Unidos até 1930 (este o terminus ad quem), quando ele começou a ser escrito, sendo publicado, como assinalado, em 1935. O seu terminus a quo é basicamente 1890. Assim, o período coberto pelo livro é de quarenta anos: 1890-1930.

[5] Vide o artigo sobre ele na Wikipedia em Inglês: “Andrew Carnegie”, que está disponível em  https://en.wikipedia.org/wiki/Andrew_Carnegie. A Wikipedia em Português também tem um Artigo com o mesmo título, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Andrew_Carnegie. Para uma biografia de peso do grande industrial, vide David Nasaw, Andrew Carnegie (The Penguin Press, New York, 2006) – livro (de quase 900 páginas que eu comprei, em capa dura, em Maio de 2007, quando estava em Boston. Dei tratos à bola tentando descobrir o qu seu estava fazendo em Boston nessa ocasião, mas não me lembrei).

[6] Vide o site da Carnegie Corporation of New York, em https://www.carnegie.org/, e, especialmente, os seguintes  subsites “Our History”, https://www.carnegie.org/about/our-history/, e “Other Carnegie Organizations”, https://www.carnegie.org/about/our-history/other-carnegie-organizations/.

Em Salto, 25 de Outubro de 2022.



Categories: Accomplishment, Flourishing, Liberalism, Success, Wealth

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