Brasileiros e Americanos

Vou discutir aqui basicamente duas coisas – ambas relacionadas a brasileiros e americanos.

1. A Pretendida Idiossincrasia dos Brasileiros

Há um site americano (quora.com), que tem uma seção chamada “Spaces“, que promove discussão de temas relacionados com linguagem, cultura, história, geografia, etnias, etc. Nessa seção, alguém faz uma pergunta e outros usuários do site respondem. (Aparentemente, o site, em si, não se envolve na formulação das perguntas e respostas a não ser para publica-las). Muitos brasileiros, especialmente os radicados nos EUA, participam da conversa.

Ultimamente tem havido uma série de perguntas sobre o Brasil e os brasileiros, em parte porque o americano típico não conhece muita coisa do país, sua história, sua geografia, sua população, sua cultura, etc. Muitos americanos imaginam que Buenos Aires é a capital do Brasil. O fato de o Brasil ser, na América Latina, o único país colonizado por Portugal e que fala português cria uma série de dificuldades para os americanos.

O americano gosta da inventar alguns termos para facilitar a comunicação – embora, muitas vezes, o que era para facilitar a comunicação a dificulta e complica, causando ruídos desnecessários. Ele usa, por exemplo, o termo “oriental” para se referir a todo mundo que tem os olhos meio puxadinhos: japonês, chinês, coreano, etc. Entram no bolo os tailandeses, os filipinos, os indonésios, os malaios, até os vietnamitas e seus vizinhos. Mas não os indianos, nem, naturalmente, os australianos e zelandeses – possivelmente porque não têm olhos puxadinhos.

Para se referir aos vizinhos mais de perto, excetuados os canadenses, os americanos em geral usam dois termos: “latino”, escrito assim mesmo, e “hispanic” (“hispânico”). Em geral, para o americano esses dois termos englobam, de forma genérica, todo mundo que é oriundo de países que, no mapa, ficam diretamente abaixo (ao sul) dos EUA (“south of the border”, “below the Rio Grande”, etc.). O Brasil e os brasileiros entram nesse embrulho.

Os americanos não parecem ver maiores problemas nesses “englobamentos” – exceto aqueles americanos que se pretendem culturalmente mais sofisticados e que têm receio de infringir as regras do “politicamente correto”.

Assim, no site mencionado acima, têm aparecido, com certa frequência, quatro perguntas:

  1. É apropriado se referir aos brasileiros como “latinos” (termo incorporado ao inglês americano)?
  2. É apropriado considerar o brasileiro como parte da categoria “hispanic” (“hispânicos”)?
  3. O brasileiro típico deve ser considerado “white” ou “non-white“, ou, alternativamente, “white” ou “people of color“? (Esta última categoria inclui todo mundo que não é “white“, posto que “white“, aparentemente, não é uma cor, para eles, sendo equivalente a “sem cor”, as cores, quando aplicadas a pessoas, sendo preto [a cor dos negros], vermelho [a cor dos índios], amarelo [a cor dos “orientais”] e marrom [a cor dos “latinos”].)
  4. O Brasil faz parte do Ocidente?

Vou tentar dar minha resposta, aproveitando perguntas feitas e respostas dadas no site.

Preliminarmente, eu diria que, quase sem exceção, os brasileiros que são descendentes de europeus (com a possível exceção dos descendentes de espanhóis) responderiam a essas quatro perguntas, de forma inequívoca, com NÃO, NÃO, SIM, e SIM. Brasileiros descendentes de europeus (com a possível exceção feita aos descendentes de espanhóis) claramente não gostam de ser considerados latinos e hispânicos e se consideram brancos na cor e parte do Ocidente tanto na geografia como na cultura. Os brasileiros que são descendentes de espanhóis (espanhóis da Espanha, não simplesmente falantes nativos da língua espanhola) pode ser que se considerem hispânicos – mas dificilmente se considerariam latinos (apesar de, sendo brasileiros, se reconhecerem como latino-americanos, como todos os demais brasileiros inegavelmente se reconhecem).

As razões para essas respostas são, para a maioria de nós, brasileiros, razoavelmente evidentes, como tentarei mostrar a seguir.

Em primeiro lugar, o termo inglês “latino“, como usado nos EUA nos últimos tempos, teve, em sua origem, uma conotação claramente pejorativa (que também existe no termo inglês “oriental“). Note-se que o termo usado não é “Latin“, mas “latino“, apropriado do espanhol. Também não é “latino-americano” (“Latin American“). O termo “latino”, como usado hoje nos EUA, claramente não se refere a europeus que falam uma língua latina (como os que falam, nativamente, o italiano, o francês, o espanhol, o catalão, o português, o galego, ou o romeno, que é uma língua latina) ou a europeus oriundos de países de cultura predominantemente latina (como Itália, França, Espanha e Portugal). O termo “latino” foi criado, inicialmente, para se referir, em especial, a trabalhadores migrantes sazonais “importados” da América Latina de fala espanhola para trabalhar na agricultura americana durante o plantio e a colheita) e, possivelmente, a outros imigrantes originados da América Latina, imigrantes esses no mais das vezes ilegais, que, pelo menos por um bom tempo, não incluíam brasileiros, pois eram principalmente nativos de países mais próximos dos EUA: mexicanos (que são norte-americanos, geograficamente falando), ou oriundos de países de fala espanhola do Caribe e da América Central (porto-riquenhos, dominicanos e cubanos, do Caribe, e guatemaltecos, hondurenhos, salvadorenses, nicaraguenses, e costa-riquenhos, da América Central).

[Parêntese: (a) Os panamenses ficam fora porque têm um estatuto meio especial por causa da presença, por tanto tempo, dos americanos no Panamá, em virtude do Canal do Panamá; (b) Os caribenhos e, na América do Sul, os guianenses e surinameses, que falam inglês, ou holandês ou francês, também ficam fora)].

É verdade que, dada a grande imigração para os Estados Unidos de nacionais dos países de fala espanhola da América Latina, o sentido do termo “latino” pode vir a se generalizar e a perder seu sentido pejorativo, que, no início, o tornava equivalente a “cucaracho“. Um jornalista americano descendente de espanhóis, chamado Jorge Ramos, escreveu há algum tempo um livro chamado La Ola Latina (The Latino Wave, A Onda Latina – vide https://www.amazon.com/Ola-Latina-Hispanos-Transformando-Politica-ebook/dp/B01BG22X00/), em que usa o termo, sem sentido pejorativo, para designar os imigrantes que entraram nos EUA a partir da América Latina, em especial da América Espanhola, e seus descendentes já nascidos em solo americano. O autor não faz menção explícita aos brasileiros. (No Apêndice, faz referência explícita a “Los Hispanos”).

Brasileiros, reconheçamos, são meio frescos: podem até entrar ilegalmente nos EUA, e lá trabalhar lavando pratos em restaurantes, ou fazendo unhas em casa, em ambos os casos um quebra-galho, mas não querem ser agrupados com latino-americanos de fala espanhola que trabalham, sazonalmente, na agricultura dos EUA, colhendo uvas, etc. Como, em especial no sul da Flórida, e no sul de outros estados banhados pelo Golfo do México, há muitos “latinos” que alcançaram um nível sócio-econômico elevado. Os índices de natalidade dos “latinos” é bem maior do que os de outros grupos étnicos (da ordem de 6 para 1,5), o que leva alguns analistas a preverem que até 2050, por aí, a população dos EUA possa vir a se majoritariamente “”latina“. Se e quando isso acontecer, pode ser que os brasileiros queiram ser incluíds, como “latinos“, na mainstream da população. Já se vê, hoje, que quando se trata de concorrer a prêmios, os brasileiros não têm maiores problemas em se considerar “latinos” e concorrer ao Emmy Latino…

Em segundo lugar, o Brasil, mesmo tendo sido, em tese e por via indireta, dominado pela Espanha, durante um período de 60 anos, de 1580 a 1640, em que Portugal respondeu à Coroa Espanhola, o período do chamado de “Domínio Espanhol”, não foi colonizado pela Espanha, como os demais países da América do Sul (exceção feita às duas Guianas e a Suriname) e vários países do América Central e do Caribe, bem como o México. Os brasileiros, evidentemente, não falam Espanhol como sua linha nativa. Logo, não há como o termo “hispanic” (“hispânico”) possa se aplicar a eles. Aqui a questão parece bem mais clara do que no caso anterior.

Em terceiro lugar, a questão delicada da cor. Nenhum americano diz que espanhóis, portugueses, franceses e italianos, nascidos na Europa, sejam “people of color“, embora sejam mais coloridinhos do que suecos, noruegueses, dinamarqueses e finlandeses. Por que um descendentes deles, ou um descendente de escandinavos, ou de imigrantes do Leste Europeu, ficaria “colorido” simplesmente por ter nascido no Brasil? Que haja brasileiro que tenha cor que não seja o branco, sem mistura, é evidente. Mas nos EUA também há americano que não é branco puro, mas isso não impede que os que assim são sejam considerados brancos, sem mais firula. A coisa, no caso, tem de ser decidida caso a caso – e, no Brasil, diferentemente do que acontece nos EUA, é a aparência, não a biologia, que decide, e, na maior parte dos casos, não é nem a aparência como outros a entendem: é a aparência como o próprio indivíduo a percebe e declara. O Ronaldo “Fenômeno” fez muita gente no Brasil levantar a sobrancelha quando afirmou que ele era branco e ponto final. Se ele falou, está falado, e pronto, assunto encerrado. Nos EUA, ele seria contestado.

Em quarto lugar, a questão do Ocidente. Ela pode ser discutida do ponto de vista geográfico ou do ponto de vista cultural. Geograficamente, os americanos e os europeus tendem a considerar como parte do Ocidente apenas a parte de cima do mapa – os países do Hemisfério Norte que estão mais próximos do Meridiano de Greenwich do que da Linha Internacional do Tempo. Mas se a América do Norte é Ocidente, a Central e a do Sul também são – São Paulo estando mais perto do Meridiano de Greenwich do que Seattle, San Francisco e Los Angeles. Culturalmente, a coisa depende. No período Colonial, quem fazia curso superior no Brasil o fazia em Coimbra ou na França. Hoje em dia, quem vai estudar fora em geral vai para os EUA ou para a Europa, não para outros países da América Latina, ou do Leste Europeu, ou da Ásia. A influência da cultura europeia e americana no Brasil é grande, no período colonial se falava francês na corte – e a família imperial brasileira tinha laços incontestes com as realezas europeias (em especial com a da Áustria e a da França). Assim, é difícil negar ao Brasil, ou mesmo a países como o Uruguai, a Argentina e o Chile, uma vinculação com a cultura europeia que, no caso, predomina sobre qualquer outra.

É isso, no tocante à primeira questão.

2. Quem Nasce nos EUA é o quê?

A segunda questão tem que ver com como nos referimos a quem nasce nos EUA ou é cidadão daquele país.

Lá nos EUA, quem nasce no país ou é cidadão, ainda que naturalizado, do país, é simplesmente “American” (Americano).

Como já disse, brasileiro é bicho fresco. Muitos brasileiros metidos a besta pretendem contestar como os americanos se designam. Americanos, dizem eles, também nós somos. Por isso, resolvem designar os americanos de “norte-americanos” ou de “estadunidenses”.

Não dá, e não está certo.

Por um lado, norte-americanos também são os canadenses e os mexicanos. Chamar os americanos de norte-americanos não os diferencia suficientemente.

Por outro lado, o termo “estadunidense” é um despropósito. O Brasil, por um bom tempo, se chamou “Estados Unidos do Brazil” (assim com “z”). E ninguém dizia que quem nascia aqui era estadunidense: dizia que era brasileiro (ou brazileiro). É isso que os americanos fazem. O nome do país deles é Estados Unidos da América (não da América do Norte). Assim, da mesma forma que nos designávamos brasileiros quando o nome do nosso país era Estados Unidos do Brazil, eles se designam americanos e não estadunidenses.

E ponto final. Se na primeira questão eu deles discrepo, nesta segunda estou 100% com os americanos e não abro.

Em Salto, 19 de Novembro de 2019 (Dia da Bandeira estadunidense do sul…).

Eis algumas das perguntas do site quora.com:



Categories: Americanos, Americans, Brasileiros, Brazilians

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