As Coisas que não Sabemos e Deveríamos Aprender

ALGUÉM QUE SABE MUITO (seja ele filósofo, cientista, professor, político, ou pastor), numa plataforma (seja ela pódio de um grande auditório, mesa de uma pequena sala da aula, parte elevada de um grande salão de preleções, palanque improvisado de um comício, púlpito no topo de uma escada encaracolada de grande catedral em estilo gótico), ou, então, num estúdio improvisado, diante de uma câmera de vídeo sofisticada — alguém, nesses condições, PODE, APENAS FALANDO, se conhecer bem o assunto, tiver boa voz e dicção, dominar bem a lógica, a retórica e a oratória, souber mexer eficaz e eficientemente com as emoções de seus ouvintes, e a audiência estiver interessada e atenta, não havendo ruídos externos que interfiram com a comunicação, FAZER COM QUE SUA AUDIÊNCIA SE COMOVA E NUNCA VENHA A ESQUECER AQUILO QUE ELE DISSE, seja qual for o conteúdo de sua fala, tradicional e antiquado, ou radical e inovador.

MAS NÃO CONSEGUIRÁ, SÓ FALANDO, nem nas mais perfeitas condições do ambiente, FAZER COM QUE SUA AUDIÊNCIA RESOLVA TIRAR O PÓ DE SUAS IDEIAS, NA ÁREA DA APRESENTAÇÃO OU EM OUTRAS ÁREAS, EXAMINAR ESSAS IDEIAS, E REFLETIR SOBRE ELAS, COM O MAIOR CUIDADO, CONCLUIR QUE, SE ELAS ESTIVEREM ANTIQUADAS E ULTRAPASSADAS, EMBOLORADAS PELO TEMPO, É PRECISO SAIR INVESTIGANDO QUAIS IDEIAS NOVAS PODEM SUBSTITUÍ-LAS, SE É QUE NÃO SERIA POSSÍVEL FICAR SIMPLESMENTE SEM ADOTAR IDEIAS…

Especialmente na área da filosofia e da teologia, as nossas ideias estão extremamente empoeiradas, depois de alguns milhares e/ou várias centenas de anos em que elas foram formuladas pela primeira vez. Mas, surpreendentemente, porque nessa área elas são bem mais recentes, até nas ciências há ideias verdes de bolor… Será que as ideias nessas áreas são eterna e perenemente verdadeiras? Ou será que nós é que somos intelectualmente preguiçosos, acomodados, sem a menor vontade e disposição, em especial em relação a assuntos que podem nos tirar de nossa zona de conforto e nos causar incômodo e mal-estar, examinar nossas ideias com coragem e intrepidez, refletir sobre elas em profundidade, e, quem sabe, procurar algo mais satisfatório, algo mais próximo da verdade?

E qual seria o objetivo mais válido da educação: ficar repisando as velhas ideias ou ajudar as pessoas a passá-las a limpo?

Será que as únicas ideias que nos foram legadas pelo passado, e que vale a pena rever, são as que afirmam que a Terra é plena e que o Sol gira em torno dela, que os homens são superiores às mulheres, e que os seres humanos de cor branca são superiores aos de outras cores? E o resto? Há gente propondo que os seres humanos, e, quem sabe, os demais animais, ainda que, biologicamente, sejam classificáveis em apenas dois sexos, podem escolher o “gênero” que quiserem, mesmo mais de um, ou nenhum… Há gente propondo que os enunciados em que acreditamos, ou em que deixamos de acreditar, não se classificam apenas em verdadeiros ou falsos, mas podem ter, epistemicamente, quem sabe, um (ou mais de um) dentre cinquenta (ou mais) tons de cinza… E, na política, será que as alternativas são direita e esquerda, ou há 360 raios que podem ser traçados entre o totalitarismo controlador (de esquerda ou de direita) e o anarquismo libertário? E será que entre o determinismo e a liberdade não há dezenas de possibilidades? E assim vai.

[Algumas ideias provocadas depois de ler poucas páginas do livro de Adam Grant, Think Again: The Power of Knowing What You Don’t Know (Penguin Publishing Group, Kindle Edition), publicado agora, nestes dias, e que, comprado da Amazon em meados do ano passado, só foi distribuído em ebook formato Kindle hoje de madrugada].

Em Salto, 2 de Fevereiro de 2021



Categories: Liberalism

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