Uma Coisa Puxa a Outra

São 3h da madrugada. Admito que não é hora de começar um artigo (por mais curto que seja — e este será curto pelos meus padrões). Mas quando você está aposentado, se encontra na metade de seu 78o ano de vida, e perdeu o sono, depois de tirar uma soneca enquanto sua mulher e sua filha assistiam ao (hoje) intolerável Big Brother na Globo, você tem o direito de fazer algumas loucuras. Escrever este artigo a essas horas é uma delas. E o artigo tem um título que eu já use como parte do título de um outro artigo. Veja “What If? A Bit of Free Flow of Consciousness… (ou: Uma Coisa Puxa a Outra…)”, aqui mesmo neste blog:

https://chaves.space/2020/07/30/what-if-a-bit-of-free-flow-of-consciousness-ou-uma-coisa-puxa-a-outra/.

Outra loucura, que comecei perpetrar no dia 1o de Janeiro deste ano (2021), foi seguir a compulsão (e literalmente foi isso) de escrever uma série de três artigos sobre Thomas Jefferson — uma pessoa que admiro desde a juventude e cuja riqueza de ideias, complexidade de personalidade, e contradições entre as ideias e a vida eu venho descobrindo aos poucos, nos últimos 17 anos — desde que, em Fevereiro de 2004, passei três semanas na Universidade de Virginia (fundada por ele em 1825) e visitei Monticello (a casa que ele projetou para construir no alto de um morro, um “monticello”, e que ele levou a vida inteira construindo, reformando, reconstruindo, e que, lastimavelmente seus herdeiros precisaram entregar aos credores quando ele morreu). Lá comprei em 2004 um busto de bronze de Jefferson que é a única pessoa que tem seu busto adornando o meu escritório. No início deste novo ano “baixou aquele espírito em mim” que me mandou escrever sobre Jefferson. Sentei e comecei a escrever — especificamente sobre a relação dele com a escravatura, porque:

1. Foi ele que escreveu a Declaração da Independência dos Estados Unidos, que diz “Consideramos estas verdades evidentes, — QUE todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade, — QUE…”.

2. Foi ele que, dezesseis anos depois de sua mulher branca e rica morrer (Martha Wayles Jefferson), quando ele tinha meros 39 anos [metade de minha idade hoje], e, antes de morrer, tomou providências para que Jefferson solenemente prometesse nunca mais se casar, para que as filhas do casal não fossem criadas e educadas por uma madrasta, — foi ele, retomando, que — aos 55 anos de idade, veio a engatar um “relacionamento estável” com uma escrava sua, de 16 anos, 29 anos mais nova do que ele, Sarah (Sally) Hemings, que, por ironia do destino, era meio-irmã da falecida mulher do próprio, e, portanto, sua meio-cunhada, mantendo esse relacionamento por incríveis 38 anos, até sua morte, aos 83 anos, em 1826, relacionamento esse que lhe deu seis ou sete filhos (dos quais só quatro sobreviveram à primeira infância, três dos quais homens, que ele não teve em seu casamento oficial), só tendo ela, Sally, a segunda mulher dele, se tornado legalmente livre de sua condição de escrava depois que ele morreu (por ordem dele).

3. Foi ele que, pela aparente contradição entre “a” e “b”, gerou uma controvérsia quilométrica entre acadêmicos americanos (historiadores e biógrafos), que se digladiam até hoje, uns negando, peremptoriamente, o que os fatos hoje comprovam, outros reconhecendo os fatos evidenciados, mas criticando Jefferson, ou pelo que ele fez (manter o relacionamento), ou pelo que ele deixou de fazer (não emancipar a mulher escrava), outros (entre os quais me situo) o elogiando pela coragem de fazer o que fez numa época que era o auge da escravatura nos Estados Unidos e reconhecendo as limitações que o impediram de fazer mais.

A primeira loucura mencionada (este artiguete) está relacionada à segunda (a trilogia sobre Thomas Jefferson), que continuo a escrever. Explico como.

Por volta da meia-noite de ontem (na passagem de 11.2 para 12.2.2021), comecei a procurar a data em que Thomas Jefferson, que, em 1789, em pleno “olho do furacão” da Revolução Francesa, estava em Paris (como Ministro Plenipotenciário dos Estados Unidos na França), foi convocado pelo presidente George Washington para retornar (contra sua vontade) aos Estados Unidos para ocupar o cargo de Chanceler no seu governo, que estava para iniciar. Tenho essa data em vários livros esparramados ao meu redor aqui no meu quarto, onde escrevo, mas resolvi procurar no Google, que seria mais fácil. Instruí o Google a procurar a resposta para a seguinte pergunta: “When did Thomas Jefferson receive orders to return from Paris?”. Eis que o primeiro texto sugerido pelo Google foi um artigo, publicado no número de Novembro de 1872 (sic!) da revista The Atlantic, de autoria de James Parton, que eu não sabia exatamente quem era. O artigo estava disponível, sem bloqueios, sem insistência para que eu assinasse nada, no seguinte endereço:

https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1872/11/jeffersons-return-from-france-in-1789/537267/.

O artigo começava desta forma [tradução fornecida na sequência]:

“Man proposes, woman disposes. Such is often the way of this world.

In the summer of 1789, James Madison, who was the man of all others most solicitous for the success of the new Constitution of the United States, wrote to Jefferson asking him if he would accept an appointment at home in General Washington’s administration.”

“O homem propõe, mas é a mulher que decide. Este é, frequentemente, o jeito que as coisas são neste mundo.

No verão de 1789, James Madison, que era o homem, à frente de qualquer outro, mais solícito para que a nova Constituição dos Estados Unidos fosse bem sucedida, escreveu a Jefferson consultando-o se ele aceitaria uma nomeação para um cargo, nos Estados Unidos, na administração de George Washington. […] “. [Minha tradução.]

A resposta de Jefferson foi negativa — mais ou menos nos termos a seguir. Disse ao seu amigo Madison que ele havia desistido temporariamente de sua aposentadoria voluntária para ir trabalhar em Paris apenas porque, bem, ter a oportunidade de morar em Paris é algo irrecusável, mas que voltar para os Estados Unidos para trabalhar no governo, e, acima de tudo, em Nova York (que funcionava, junto de Filadélfia, como a capital do país), NÃO. Sua primeira opção era continuar em Paris (onde estava com suas duas filhas e com Sally Hemings, a meio-cunhada escrava, com a qual o relacionamento afetivo-sexual havia começado há pouco tempo (mas esse detalhe ele não forneceu a Madison). Sua segunda opção, se fosse demitido do cargo de embaixador junto à França (chamado de Ministro Plenipotenciário), seria voltar para os EUA e continuar a aposentadoria na sua amada casa, situada em meio a uma plantação de cerca de 15 mil acres, em Monticello, estado de Virginia.

O segundo parágrafo do artigo de James Parton, que comecei a citar atrás, termina assim:

“A few months after these words [refusing the invitation] were written, Jefferson was in New York, Secretary of State; and it was a maiden of seventeen that brought him to it.”

Poucos meses depois de essas palavras [de recusa do convite] terem sido escritas, Jefferson estava em New York, como Chanceler; e foi uma jovem de dezessete anos que o convenceu a fazer isso”. [Minha tradução.]

Curiosidade: no verão de 1789 tanto Sally Hemings, a chamada “concubina” dele, como a filha mais velha de Thomas Jefferson, Martha Washington Jefferson, estavam com ele em Paris e tinham idade ao redor de 17 anos. A conferir qual das jovens foi capaz de convencê-lo a voltar aos Estados Unidos e assumir o cargo de Chanceler do governo de George Washington.

Sendo James Parton capaz de começar um artigo desse jeito, eu fui literalmente compelido a descobrir quem exatamente era ele. Descobri (na Wikipedia – que é indispensável nessas horas) que era um jornalista e escritor americano, que havia escrito, entre outros vários livros, uma biografia de Jefferson (publicada em 1874).

Mas antes de eu ir procurar a dita biografia, alguns fatos da biografia do próprio James Parton chamaram minha atenção, em especial o seguinte fato: ele havia se casado duas vezes, a primeira vez com uma mulher, que era viúva e já tinha vários filhos, e que morreu dezesseis anos depois de eles se casarem, e, a segunda vez, com uma das filhas da primeira mulher, em seu primeiro casamento. Ele era onze anos mais novo que a primeira mulher e vinte e dois mais velho que a segunda. A primeira mulher nasceu em 1811, ele em 1822, e a segunda mulher em 1844. Curiosidade: se você pegar 11 e dobrar, dá 22; e se você pegar 22 e dobrar, dá 44. Não sei bem por quê, mas essas coisas sempre me interessam (essas coisas sendo casamentos fora da curva de normalidade, relações curiosas entre datas e idades, etc).

Tem mais:

a. Sob a influência de James Parton, sua primeira mulher se tornou uma escritora famosa, na verdade a mulher mais bem paga para escrever naqueles meados do século dezenove nos Estados Unidos;

b. Também sob a influência de James Parton, e, naturalmente, da mãe dela, sua segunda mulher também se tornou uma escritora bastante bem sucedida;

c. Uma sobrinha de sua segunda mulher, cuja irmã, mãe da menina, havia morrido, e, portanto, uma neta de sua primeira mulher, foi informalmente adotada por ele e por sua segunda mulher, tia dela, vindo a assumir, quando adulta, o sobrenome Parton, e também se tornou uma escritora de sucesso.

Parece que adotar o sobrenome Parton na Nova York do século 19 era receita garantida para uma carreira bem sucedida de escritor.

Enfim: dá para ir dormir e deixar de contar uma história linda dessas, que eu descobri apenas porque me deixei levar pelo fato de que uma coisa puxa a outra, coisa que eu pude me dar o luxo de fazer porque sou um velho aposentado com mania de escrever…

E, acrescentando a história de amor de Tom & Sally, dá para deixar de se maravilhar com o fato de que as pessoas procuram — e acham! — o amor em lugares e circunstâncias dos mais improváveis, e quando tudo parece indicar que ele é impossível?

Para terminar… Alguém já disse (na verdade, a frase vem de duas pessoas, mas eu juntei duas frases numa só e introduzi alguns comentários editoriais…) que a inteligência não prospera sem uma boa dose de vagabundagem (em que a gente pode perseguir os interesses mais incríveis, sem maiores compromissos e prazos de entrega) e a criatividade não prospera sem uma boa dose de bagunça (em que é possível manter “trocentos” livros esparramados por estantes, escrivaninhas, e bancos, mesmo pelo chão, e até pelo que era para ser uma sapateira e acabou virando uma estante móvel, com rodinhas, que eu posso puxar para perto ou empurrar para longe, conforme a necessidade).

É isso. São 5h da manhã. Levei duas horas para escrever o artigo. Vou relê-lo e publicá-lo, e, em seguida, lavar a cara, pentear o cabelo e sair para abrir o portão para o caseiro entrar na área residencial privativa do sítio, para fazer os seus deveres do dia… Graças a Deus por caseiros!

Em Salto, 12 de Fevereiro de 2021.



Categories: Liberalism

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