Acreditar em Vida Futura no Céu É Racional?

Como é que nossas crenças, em geral, são formadas? De onde elas vêm?

Algumas crenças a gente adquire bem cedo na vida, e logo as abandona; ao final da primeira infância elas em geral já foram colocadas na lata de lixo. Outras a gente vem a adquirir mais tarde, mas, depois, também as abandona. E algumas crenças a gente adquire, cedo ou tarde, e nunca as abandona, por mais tempo que possa viver. Leva-as para o túmulo, por assim dizer.

Algumas pessoas parecem fazer, num determinado período de sua vida, mais ou menos extenso, uma revisão, mais ou menos radical, de suas crenças (se não de todas, pelo menos das principais). Ao final dessa revisão, pode continuar a manter algumas, abandonar outras, suspender juízo sobre outras. Pode até voltar a acreditar em todas, embora isso seja pouco provável, se a revisão foi bem feita. Se a revisão foi realmente muito profunda e radical, pode até abandonar todas suas crenças, passando a ser um cético, que não acredita em nada. Sócrates deve ter passado por um processo assim bastante radical para chegar a dizer, ao final, que só sabia que nada sabia. (Presumo que Sócrates, quando não sabia algo, consistentemente não acreditava naquilo que ele afirmava não saber.)

Embora os empiristas, como Aristóteles, dissessem que nada está na nossa mente — e parece-me bom senso acreditar que seja lá, na nossa mente, que nossas crenças habitam — sem ter estado antes no nosso sentido (isto é, sem ter passado antes por um de nossos órgãos dos sentidos): Nihil in intellectu quod non prius fuerit in sensu [1]. Ou seja: O conjunto dos nossos sentidos (tanto que o singular é usado) é visto como a porta de entrada e o guardião da nossa mente – que é mantida virgem e intata (uma tabula rasa) até que um dos sentidos deixe alguma impressão sensorial penetrar até ela, deflorando-a, por assim dizer. A percepção sensorial seria, assim, no entender dos empiristas, a fonte de todas as nossas ideias e de todas as nossas crenças.

A frase (a que foi citada em latim) é bonita e serve para gerar um bocado de discussão interessante em cursos de filosofia (em especial, nos de epistemologia ou teoria do conhecimento). No entanto, há um probleminha a ser resolvido. Nossas crenças, ou a maior parte delas, em especial as nossas primeiras crenças, primeiras no tempo (mesmo que não em importância), surgem (isto é, entram ou simplesmente aparecem na nossa mente) porque alguém nos disse aquilo que se tornou o objeto daquela crença — na infância, em geral, em resposta a alguma pergunta. “Mãe, de onde a gente vem?” “Pai, quem é que traz os presentes que a gente ganha na noite de véspera do Natal?” “Vô, para onde a vó foi quando ela morreu?” A primeira e a terceira pergunta são questões fundamentais da filosofia: De onde viemos? Para onde vamos? Mas falta o complemento: Como é que a gente é capaz de saber a resposta para essas perguntas? A segunda pergunta, sobre os presente de Natal, já não é tão filosófica… As crenças que são incutidas nas crianças como respostas a esse tipo de pergunta (“As cegonhas trazem os bebezinhos, de lá do país das cegonhas, para a casa das pessoas, para uma mamãe e um papai”; “O Papai Noel traz os presentes, lá de sua casa no Polo Norte, mais precisamente na Lapônia, onde um bando de duendes os fabricam, durante o ano inteiro, para as crianças que se comportam bem durante o ano”; “Quando uma pessoa morre, e ela foi muito boa, como a sua vovó era, ela vai para o Céu”) — essas perguntas, repito, parecem inofensivas e as crianças em regra aceitam as respostas dadas de bom grado. Nada consideram absurdo. Mais tarde pode haver algum sofrimentozinho para abandonar a crença no Papai Noel, mas tudo bem — não fica dano. A crença nas cegonhas em geral é abandonada sem nenhuma dor ou pesar. E a crença na existência do Céu, um lugar lindo para onde as pessoas boas vão depois de morrer, não é, em muitos casos, abandonada nunca (mesmo que a crença contrária, de que as pessoas ruins vão para um outro lugar, horrível, o Inferno, onde vão sofrer punições terríveis, para sempre, seja oportunamente abandonada).

Mas, como eu dizia, há um problemazinho com essas crenças que o Empirismo não resolve muito bem: elas surgem ou nascem em decorrência do que outras pessoas nos dizem, não daquilo que nós próprios vemos como nossos próprios olhos (ou percebemos com algum outro órgão dos sentidos). O fato de que a gente recebe o que outra pessoa nos diz através dos olhos ou dos ouvidos não faz com que nós tenhamos tido experiência empírica do conteúdo daquilo que nos foi dito. Nenhuma criança que acreditou na cegonha jamais viu uma cegonha entregando uma criança, nenhuma criança que acreditou em Papai Noel jamais viu o bom velhinho descendo pela chaminé da casa com um saco de presentes nas costas (algo que, hoje em dia, aqui no Brasil, em que as casas raramente têm chaminé, é mesmo inverossímil…), nem nenhuma criança jamais viu alguém morrer e ser levado para cima onde o Céu supostamente tem seu endereço. Se a criança muito cedo teve a infelicidade de presenciar o enterro de alguém, ela pode retorquir ao avô que a avó de fulano foi enterrada no cemitério, e não foi para o Céu — ao que o bom avô diz que não é o corpo que vai direto para o Céu, mas a alma da pessoa… Ou algo assim. Todos nós conhecemos o roteiro.

Pode não parecer, mas essa dificuldade não é um problema trivial para o Empirismo e ela aparece até mesmo na área séria das ciências físicas, como a astronomia. Nós todos acreditamos, hoje, que a Terra gira ao redor do Sol, mas o que vimos é o Sol mover-se ao redor da Terra, ou, pelo menos, passar sobre o lugar em que nós estamos aqui Terra, indo de uma extremidade a outra no céu. Ou na filosofia moral. A gente acredita que os justos serão recompensados e os maus, punidos, porque assim nos foi dito que seriam as coisas, e isso nos parece justo… mas o que vê é os maus prosperarem e os justos sofrerem (vide Salmos 73:12-14). . . Possivelmente, o dito empirista atribuído a Aristóteles esteja errado, não por nós não sermos uma tabula rasa ao nascer, mas porque as coisas que são escritas na tabula rasa não foram inseridas na nossa mente por fatos empíricos que presenciamos, mas por coisas que outras pessoas nos disseram (sem que elas próprias houvessem presenciado aquilo que disseram acontecer — em muitos casos, sabendo muito bem que o que estavam dizendo não era sequer verdade, como no caso da cegonha e do Papai Noel). Isso talvez signifique que devemos distinguir a questão da origem das nossas crenças da questão da origem de nossos conhecimentos — muito embora os gregos acreditassem que todo conhecimento é também uma crença, só que não uma crença qualquer, mas, sim, uma crença verdadeira e bem confirmada pela evidência e justificada pelos fatos.

Mas deixemos essas firulas epistemológicas de lado e passemos a discutir outras firulas — não muito diferentes.

Nós todos, oportunamente, deixamos de acreditar na cegonha e no Papai Noel — mas muitos de nós, pelo menos no universo cristão, persistimos em acreditar, até o final de nossa vida, na existência do Céu, para onde os bons (e crentes) irão quando morrer — e tudo o mais que essa crença implica. Por quê? Pesquisa recentemente feita nos Estados Unidos, e relatada por Bart D. Ehrman, em seu livro Heaven and Hell: A History of the Afterlife [2], indica que 72% dos americanos acredita na existência do Céu como um lugar real, literalmente físico, e 58% acredita a mesma coisa em relação ao Inferno.

A pergunta que me realmente me incomoda é um pouco mais sofisticada. Ser bom, ser justo, ser honesto, ser leal, não ser mau, nem corrupto, viver uma vida impoluta e virtuosa, é, convenhamos, uma coisa razoavelmente difícil de alcançar. Se o Cristianismo dissesse simplesmente que aqueles que assim procuram viver, ainda que não obtendo total sucesso, vão para o Céu, silenciando sobre o destino dos que não conseguem, o Cristianismo seria mais plausível. A bem da verdade, há tendências dentro do Cristianismo que vão mais ou menos por aí. Mas o Cristianismo considerado de boa cepa, o Cristianismo de Paulo, de Agostinho, de Lutero e de Calvino não vai por aí. Ele afirma, com todas as letras, que a natureza do ser humano é totalmente corrompida (como ela ficou assim é outra história difícil de acreditar) e que ninguém, nem mesmo os que seriamente o tentam com o maior afinco, consegue ser bom de modo a mercer o Céu pela sua conduta e pelo seu esforço. Mas, continuam, aqueles que acreditarem que a morte de Jesus na cruz tira pecados, e que sua ressurreição e sua subsequente subida ao Céu comprovam isso (outra história difícil de acreditar), vão para o Céu, morar com Jesus, mesmo não sendo criaturas muito boas da perspectiva da ética, da justiça, e da virtude. . . E os que não acreditarem vão para o Inferno, ainda que sejam bons, justos e virtuosos… Esta é a parte complicada da história, difícil de acreditar. Difícil, mas não impossível, como demonstra o crescimento do Cristianismo conservador e fundamentalista. Tudo depende apenas de acreditar — e, para acreditar, basta querer acreditar.

Vou dizer algo nos próximos parágrafos (até o fim) que pode surpreender a alguns (mas, com toda certeza, não aos que conhecem a história da filosofia e da teologia).

Acreditar em algo, mesmo que improvável e difícil de crer, é fácil, basta querer, não é mesmo? Ou há coisas em que você seriamente quer acreditar, mas não consegue. Acho difícil. Muitos de nós acreditamos em tanta coisa improvável e mesmo absurda o tempo todo, contra toda evidência, não é assim? Tem gente que acredita que o Lula é honesto, que os juízes do STF brasileiro são justos e isentos, que o Dória tem enfrentado o povo e levado ovo podre na cabeça, não porque ele quer se candidatar à Presidência, mas porque ele realmente deseja o melhor para os paulistas, não quer que peguemos o Covid, não quer que morramos bestamente sem ar numa UTI de um hospital público vagabundo… É fácil acreditar nisso, não é? Tanta gente acredita!

Se acreditar é tão fácil, porque só basta querer, por que nem todo mundo acredita na história contada pelos cristãos e assim é vacinado contra o Inferno e ganha garantia de entrada no Céu?

Blaise Pascal, conhecido no mundo da computação por ter inventado a Pascalina, a primeira máquina de calcular do mundo, era, por profissão, lógico e matemático, meio filósofo. Mas ele também era cristão sério e pensador profundo sobre a religião, e elaborou o seguinte argumento (aqui meio adaptado) para persuadir os incréus:

Se você acredita que a história cristã da criação do mundo, da queda do homem, da redenção do pecador, do julgamento final e da vida futura é falsa, pura invenção humana para enganar os trouxas, e ela é de fato falsa, um mero conto da carochinha, você não ganha nadazero, zilch, nichts, absolumment rien (ele era francês);

Se você acredita que essa história é falsa, e, contrário ao que você imagina, ela é verdadeira, você está ferrado: vai ter a pior punição que alguém já imaginou, que é passar toda a eternidade em meio aos piores tormentos, sem nenhuma trégua;

Se você acredita, no entanto, que essa história é inteiramente verdade, é a verdade perfeita que Deus revelou ao mundo, e ela é falsa, você apenas não ganha nada do que estava imaginando, mas, também, não perde nada, nadica de nada;

Se, contudo, você acredita que tudo nessa história é verdade, e, de fato, ela é verdade, você ganha o jack pot, o grande prêmio da loteria cósmica: você vai passar toda a eternidade em meio às maiores belezas e delícias, na companhia daqueles que você amava, quando na vida terrena, e que, como você, também acreditaram — e isso para os séculos dos séculos, para todo o sempre, sem fim, amém e amém!

Diante desse argumento, imaginou Pascal, ninguém que tivesse a cabeça no lugar, e fosse uma pessoa racional iria hesitar: toda pessoa com esse perfil iria acreditar na verdade da história cristã — e seria feliz, não só nesta vida, mesmo que encontrasse infortúnios e passasse por sofrimentos, pois teria certeza de que esta vida tem um fim, mas a vida futura, que será eterna, será uma vida de total felicidade, em que de seus olhos nunca mais correrá, jamais, sequer uma lágrima.

Reiterando o que já disse, meu assombro não é que haja gente que continue a acreditar na história contada pelos cristãos, quando acreditar nela é tão fácil (basta querer): é por que, diante de um argumento como o de Pascal, que parece irrespondível, haja gente que ainda não acredita. Parece loucura. Nem mesmo a introspecção me explica isso. Acreditar, longe de ser um ato tresloucado, parece ser a opção mais racional que existe.

Talvez, por repugnância moral, pode haver quem queira acreditar no Céu mas não queira acreditar nas penas eternas dos que não crerem, preferindo acreditar que os incréus serão exterminados, aniquilados. Tudo bem. Mas a crença na salvação, na ida para o Céu, com sua ventura e felicidade eterna, isso nada tem de imoral, e parece tão fácil de alcançar.

Ou será que eu escorreguei em algum ponto de meu raciocínio?

Em Salto, 2 de Maio de 2021

Eduardo CHAVES


[1] Além de Aristóteles, outros grandes empiristas a endossaram, como, por exemplo, Tomás de Aquino, John Locke, George Berkeley e David Hume (para mencionar apenas os mais conhecidos e famosos, antes do século 20). Há uma variante, simplificada: “Nada na mente, se não antes no sentido”: Nihil in intellectu nisi prius in sensu.

[2] Simon & Schuster, New York, 2020, p.xviii.



Categories: Liberalism

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