“Imagine the Possibilities”

Muito interessante o post de minha amiga Mirian Fávaro — com a qual tive o privilégio de conviver por um bom período na Zoom: Education for Life, empresa de São Caetano do Sul, que à época representava, com exclusividade, a Lego Education no Brasil — publicado na rede social LinkedIn (que hoje pertence à Microsoft):

https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6793260198778679297/

Ela discute, no sucinto artigo, como a pandemia virou do avesso (ou de ponta cabeça) a vida profissional de milhões de pessoas, por esse mundo afora — entre eles, a vida dos professores (e, em menor grau, a vida de seus alunos — que dificilmente pode ser designada como “vida profissional”, a menos que se conclua que estudar, ou estudar na escola, seja a profissão do aluno).

Eu tenho estado envolvido, já faz mais de quarenta anos, desde 1980, pelo menos, com vários outros colegas meus da “velha guarda” (Lea Fagundes, da UFRGS, Fernando José de Almeida, da PUC-SP, etc.), na investigação do impacto transformador que as novas tecnologias — as tecnologias digitais — de comunicação e informação teriam (e com o tempo, vem tendo) sobre a educação. Hoje, 75 anos depois do primeiro computador eletrônico-digital ter visto a luz do dia, o ENIAC, na Pensilvânia, e cerca de 50 anos depois de a Internet ter sido inventada, na Califórnia, essas tecnologias nem devem mais ser chamadas, com propriedade, de novas. Só se forem novas porque vieram ao mundo depois de mim, da Lea e do Fernando…

Para ir ao ponto, até o início do ano passado o impacto transformador (ênfase nessa expressão) das tecnologias digitais da comunicação e da informação sobre a educação havia sido mínimo. É verdade que a maioria das escolas, inclusive as públicas, hoje têm um número significativo de computadores e acesso razoável à Internet, e a grande maioria dos alunos, inclusive os das escolas públicas, têm seu telefone celular (tipo smartphone) com acesso à Internet. No entanto, se focarmos em transformação no sentido de mudança radical, mudança que transcende a forma atual, indo além dela, se distanciando e se afastando dela, criando uma nova forma de encarar, pensar e fazer a educação, gerando algo que possa ser chamado de um novo paradigma de educação, os resultados são, no mínimo, constrangedores.

Um tempo atrás, em uma reunião que tivemos, patrocinada pela Microsoft, sobre “One to One Computing” (Um Computador por Aluno), reunião que se realizou em um local perto da casa de Seymour Papert, para que ele, que era o Papa da Informática na Educação, já doente, pudesse estar presente, Bruce Dixon, grande amigo meu, educador australiano, disse algo que ficou armazenado fundo na minha memória. Disse ele: “A maior tragédia que pode acontecer na área que estamos discutindo é, daqui a dez anos, todo aluno (para não dizer toda criança) ter o seu computador, ainda que na forma miniaturizada mas enriquecida de um smartphone, toda escola ter acesso rápido e eficiente à Internet, e a educação que acontece nas salas de aulas deste país ser exatamente a mesma que sempre tivemos.” Bom, os dez anos se passaram, e, até o início do ano passado, a tragédia estava, de forma aparentemente definitiva, presente entre nós: exceto pela ubiquidade da tecnologia, nas escolas e nas mãos dos alunos, na educação escolar tudo continuava como antes, com pouquíssimas e honrosas exceções, a mais importante das quais é Sudbury Valley School, criada em 1968 por meu amigo Daniel Greenberg, em Framingham, subúrbio de Boston. Menção honrosa deve ser feita à Escola da Ponte, criada, perto do Porto, em Portugal, por meu também amigo José Pacheco, e a Escola Lumiar, criada em São Paulo, por meu também amigo (e, por um tempo, depois que me aposentei da UNICAMP, chefe) Ricardo Semler. Uma das vantagens de ficar velho é que a gente acaba ficando amigo da maior parte das pessoas que importam para a gente.

Como diz a Mirian Fávaro no artigo dela, a pandemia mexeu profundamente com isso, no mundo do trabalho e da escola — principalmente aqui no Brasil onde governadores tresloucados tentaram simplesmente parar o mundo usando o vírus como calço. Mexeu tanto que eu fico com a impressão de que boa parte dos professores de escolas e universidades públicas se convenceram de que podem passar o resto de suas vidas em sua própria casa, sem ver um aluno face-a-face — e ganhando do mesmo jeito. E o curioso é que, para os alunos, esse seria o melhor dos mundos possíveis: não ver mais um professor na sua frente nem ter de botar os pés dentro de uma escola — recebendo, regularmente, as aprovações e, ao final dos ciclos, os respectivos certificados e diplomas (que é o que, para eles, a única coisa que vale a pena na escola).

A grande sacada foi uma criação tupiniquim chamada de “Ensino Híbrido”, que é uma farsa do que lá fora se chama “Blended Learning“. “Learning” não é a mesma coisa que “Ensino”, e “blended” não é a mesma coisa que “híbrido” — híbrido sendo, na farsa que se criou, uma mistura de “aula gravada em vídeo” e de “pesquisa na Internet” (em geral leitura de um ou outro artigo ou visualização de um ou outro vídeo). Como as aulas gravadas (fajutamente, em geral) e os roteiros de leitura e visualização (pobres, o mais das vezes) podem ser reaproveitados indefinidamente, os professores encontraram na pandemia a sua versão do paraíso terrestre. Podem deseducar seus alunos sem sair de casa.

Pais de alunos que frequentam escolas particulares já perceberam a farsa, pois continuam a pagar mensalidades altas por um serviço de pobreza franciscana. Os alunos, naturalmente, encaram tudo isso “de boa”. Pais de alunos que frequentam escolas públicas ficam preocupados com o fato de que no mínimo quatro horas de aulas por dia possam se esvair em meia hora, se tanto, de atenção a uma tela, por semana! Os alunos, naturalmente, como seus colegas das escolas particulares, dão-se por mais do que satisfeitos.

Note-se que, em termos de paradigma de educação, não mudou nada. A educação continua a ser centrada em disciplinas, regidas e conduzidas por professores, em blocos de aulas mais leituras em casa (só que as aulas são gravadas e remotas). A escola, através de seus professores, continua desinteressada de investigar as características pessoais únicas de seus alunos, seus talentos naturais, as capacidades (habilidades e competências) que já desenvolveram antes de chegar à escola, seus interesses, seus gostos, suas preferências, seu projeto de vida (o que gostariam de fazer de sua vida)… (Sir) Ken Robinson, que era amigo de (Sir) Paul McCartney, narra em seus livros e vídeos que Paul McCartney passou vários anos frequentando uma escola, onde tinha aulas regulares de música, e nem seu professor de música, nem muito menos a escola, jamais percebeu que ali estava um gênio musical, capaz de compor, tocar, e cantar algumas das mais lindas canções da música popular global na segunda metade do século 20. Um outro Beatle, se não me engano George Harrison, também frequentou a mesma escola na mesma época. E o professor de música e a escola tiveram em suas mãos por vários anos metade dos Beatles, e não os aproveitaram — na verdade, nem tiveram a menor visão (ou audição) de seu talento e de sua genialidade. Escola é isso. Esse paradigma de educação, que é a educação escolar, obrigatória, padronizada, de massa, baseada em um currículo igual pra todo mundo, repassado através do ensino de professores que estão fazendo aquilo porque não sabem fazer outra coisa (como é o ditado? “quem sabe, faz, quem não sabe, ensina”?), em aulas maçantes que a maior parte dos alunos só frequenta porque é obrigada a fazê-lo. Paul McCartney e George Harrison conseguiram fazer o que queriam de suas vidas, sem que a escola contribuísse grande coisa, depois de estarem fora da escola. Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg e tantos outros largaram as universidades que frequentavam (no caso dos dois primeiros, nada menos do que Harvard) para poder executar seu projeto de vida, projeto esse que não cabia nos escaninhos do currículo que lhes era imposto.

Mas nem tudo é um desastre. Há bênçãos que chegam disfarçadas. No caso a bênção será que, quando terminada a epidemia, as escolas e os professores nunca mais vão voltar ao normal de antes. Alunos, e, mais importantes, nesse caso, do que eles, os seus pais, principalmente os pais que pagam escolas particulares, mas também os outros, irão perceber quão pouco estão recebendo pelo dinheiro que pagam — uns, duplamente, diretamente à escola e na forma de impostos que sustentam a educação pública, os outros, apenas na forma de impostos que podiam muito bem ficar nos seus bolsos enquanto seus filhos aprendem, uns com os outros e com seus amigos e colegas, numa aprendizagem horizontalizada, entre pares e parceiros, e valendo-se do que está disponível na Internet (em especial na Web e nas Redes Sociais) aquilo que pode contribuir para seu projeto de vida. Não é preciso ser profeta para perceber o que está acontecendo e o que vai acontecer quando a pandemia for embora. O novo novo não será o velho de antes da pandemia nem o velho requentado de durante a pandemia. Será novo mesmo, não um defunto maquiado.

Como dizia uma propaganda da Microsoft, “Imagine the Possibilities”.

Em Salto, 29 de Abril de 2021

Eduardo Chaves



Categories: Liberalism

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