Havia Ortodoxia na Igreja Cristã do Período Apostólico?

Escrevo este artigo como parte de um debate, que pode ser encontrado no Facebook (vide endereço/URL abaixo), em que alguém afirmou o seguinte: 

“… a noção de certo e errado está muito bem fixada nas Escrituras e não pode ser relegada ao desenvolvimento da Igreja Oficial, como você parece afirmar! Muito antes de Constantino (século 4), ainda no primeiro século, João já considerava falso profeta e anticristo aquele que dissesse que Cristo não veio em carne. Também Paulo nos ensina a chamar de anátema a qualquer um que pretenda ultrapassar o Evangelho de Cristo. Já no segundo século temos a Igreja Cristã condenando a heresia de Márciom que tentava restringir as Escrituras aos escritos de Paulo e ao Evangelho de Lucas; e no terceiro século (cerca de 260), condenava a heresia de Paulo de Samosata, que ensinava que Jesus era um homem que se tornou divino, contrariando as Escrituras que afirmam exatamente o contrário, isto é, que Jesus é Deus que se fez homem. Esses são apenas alguns exemplos de que não foi Constantino quem primeiro tentou estabelecer a ortodoxia na Igreja Cristã; antes é um conceito caro aos cristãos, desde os tempos bíblicos!”

Mnha resposta é nos seguintes termos.

Que os conceitos de verdade e falsidade, de certo e errado, de bem e de mal, de belo e de feio existem e estão bem fixados não tenho dúvida. E foram definidos até antes e fora do Novo Testamento, pelos Gregos, que propuseram e defenderam os Valores Transcendentais do Verdadeiro, do Certo, do Bom e do Belo. Não sou relativista.

Isso posto, é forçoso reconhecer que há necessidade de esclarecer quais os critérios que nos permitem, em relação a qualquer enunciado, dizer que é verdadeiro ou falso, certo ou errado. Essa questão já não é tão fácil de decidir. No próprio Novo Testamento há evidência de divergências entre os apóstolos em relação a determinadas teses.

Dou apenas um exemplo.

Os judeus do sexo masculino que se tornaram cristãos eram, naturalmente, circuncisos. Essa não era uma questão aberta para os judeus. Mas e os gentios do sexo masculino que se convertiam ao Cristianismo: precisavam se circuncidar também, como os judeus, ou não? Todos os doze apóstolos eram judeus (incluindo Paulo). Mas Paulo, o mais letrado e bem preparado nas ideias da filosofia greco-romana (helenística), e também o mais motivado a converter os não judeus para o cristianismo, divergiu da maioria. Paulo e Pedro, principalmente, pensavam de forma diferente. Paulo provocou uma reunião com Pedro e Tiago, que aconteceu em Jerusalém, por volta dos anos 49-50, e ali discutiram a questão (Atos 15). Paulo e Pedro expuseram os seus pontos de vista e Tiago, o irmão de Jesus, que era o líder da comunidade cristã em Jerusalém, decidiu que os homens gentios não precisavam se circuncidar. Essa questão foi, aparentemente, decidida de uma vez por todas ali.

Em retrospectiva, a reunião veio a ser chamada de “O Concílio de Jerusalém”.

Mas naquela reunião algumas outras questões foram levantadas que não foram resolvidas definitivamente e para todo sempre. Haja vista o relato de Paulo em Gálatas 2, que deixa Pedro numa posição constrangedora em relação a uma questão que hoje, e para nós, parece até boba: se os cristãos judeus podiam tomar refeições com os cristãos gentios. Havia outras questões, consideradas importantes por alguns, em que havia divergência, sobre o quanto do Judaísmo permanecia no Cristianismo. Essas questões só deixaram de existir quando, depois da queda de Jerusalém e a expulsão dos judeus da Palestina, o Cristianismo deixou de ser uma seita judaica para se tornar uma religião gentia (que, entretanto, nunca renegou suas raízes judaicas).

É inegável que alguns dos apóstolos, segundo o relato do Novo Testamento, acusavam algumas pessoas de serem “falsos mestres” e de disseminarem “falsas doutrinas”. Paulo, mesmo, no que parece ser um excesso de autoconfiança e até arrogância, disse, em uma de suas cartas, que se alguém ensinasse aos crentes da cidade para a qual escrevia qualquer coisa diferente daquilo que ele, Paulo, havia ensinado, era para a igreja rejeitar e colocar o falso mestre para correr (II Coríntios 4:11 sg). Isso é evidência de que havia divergências no Cristianismo do período apostólico. Nem tudo estava definido, nem havia mecanismos e estruturas criadas para promover essa definição.

Na verdade, não estava sequer definido que haveria um segundo testamento a ser acrescentado à Bíblia Hebraica. Isso só foi definido gradualmente. E os livros que fariam parte desse Novo Testamento só foram definitivamente fechados no século 4. Até lá cada bispo tinha uma lista diferente dos livros cuja leitura ele recomendava aos fiéis de sua diocese. Segundo consta, foi só em 367 que uma lista elaborada por Atanásio veio a conter exatamente os 27 livros que hoje constituem o Novo Testamento. Mesmo assim houve resistências em relação a alguns, em especial acerca da Epístola de Tiago (que parece contrariar o que Paulo afirma) e do Apocalipse (cujo conteúdo é difícil até de entender, quanto mais de decidir se é verdadeiro ou não). Mesmo no século 16, Lutero por pouco não deixou a Epístola de Tiago fora da sua tradução da Bíblia para o Alemão. Por insistência dos colegas incluiu a epístola, mas no final do Novo Testamento. E demonstrou reservas quanto ao Apocalipse. Chegou a dizer que o cânon dele era, na realidade, qualquer escrito que defendesse a doutrina da Justificação pela Graça, mediante a Fé.

Uma parte enorme da Igreja Cristã também aceitou, como parte do cânon do Velho Testamento, livros que a maioria dos judeus mais ortodoxos não aceitavam, os que vieram a ser chamados de Dêutero Canônicos. Os reformadores protestantes se recusaram a aceitá-los como canônicos, mas os católicos continuam a imprimir suas Bíblias com eles até hoje.

Quando havia divergências, como é que os cristãos lidavam com elas, antes do século 4? Uns criticavam, outros defendiam. Quando muito, se não chegavam a uma conclusão unânime, de que um lado estava certo e o outro lado errado, em geral se separavam e continuavam a pregar, cada um a sua opinião. Cada um chamava o outro de “falso mestre”, e ficava por isso mesmo, como acontece até hoje nos arraiais protestantes, que se dividem com extrema facilidade: concordam em discordar e em viver separados.

Foi assim, por separação mais ou menos consensual, que surgiu a Igreja Ortodoxa Oriental, em 1054, separando-se da Igreja Católica Ocidental. Foi assim que surgiram as Igrejas Protestantes, separando-se da Igreja Católica no século 16 (aqui sem sequer uma aparência de consenso). Mas os Protestantes não se entenderam entre si e, por conseguinte, não formaram uma só Igreja Protestante: formaram várias. Vindo para o Brasil, no século 19, país que era predominantemente católico, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) se dividiu e a Igreja Presbiteriana Independente (IPIB) foi criada em 1903. Continuaram denominações irmãs, apesar de se fustigarem aqui e ali. A própria Igreja Presbiteriana Independente (IPIB), entre 1938-1942, produziu vários filhotes (uma Igreja Presbiteriana Conservadora e uma Igreja Cristã, de tendência liberal). A Igreja Presbiteriano do Brasil voltou a se dividir algumas vezes, e em uma dessas vezes surgiu a Igreja Presbiteriana Unida IPU). Há inúmeras Igrejas Presbiterianas no Brasil hoje. Alguns dos filhotes de uma e de outra depois até chegaram a se unificar, esquecendo as divergências de 1903…

O que aconteceu de especial e de diferente no século 4, a partir da conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo? Os habitantes do Império Romano, em sua maioria, não eram monoteístas: adoravam vários deuses, inclusive, alguns deles, considerando o Imperador um ser divino. Eles eram relativistas, e, como tais, tolerantes: se você reconhece meus deuses, eu reconheço os seus, e estamos conversados. O que era diferente em relação aos cristãos (e aos judeus) é que eles eram monoteístas e intolerantes de outros deuses, e, consequentemente, de outras religiões. Consideravam-se os donos da verdade e o povo escolhido pelo único Deus verdadeiro. Por isso eram perseguidos. Como disse um dia Karl Popper, a única coisa que a tolerância não pode tolerar é a intolerância… Os pagãos politeístas não toleraram, vez ou outra.

Mas dentro do arraial cristão continuava a haver divergências de opinião. E divergências de opinião sobre questões fundamentais, essenciais mesmo. A principal era sobre a natureza de Jesus de Nazaré, chamado de Cristo. Antes de existir o Novo Testamento, ele era chamado de muitas coisas: Ungido, Messias, Filho do Homem, Filho de Deus, etc. Em Grego passou a ser chamado de Cristo (que mais ou menos expressa o sentido dos dois primeiros termos mencionados atrás). Mas era ele plenamente Deus? E se era, era também plenamente humano? Arianos pensavam uma coisa, Ebionitas pensavam outra. Uns achavam que ele não era plenamente divino, outros achavam que não era plenamente humano. Para o Imperador Constantino, isso era inadmissível – e nem tanto porque ele fosse um cristão muito convicto de suas crenças (deixou para se batizar apenas no leito de morte), mas porque essas divergências doutrinárias podiam pôr em risco a já frágil unidade política do Império Romano (que anteriormente já havia sido dividido em dois, depois em quatro, e, com Constantino, se reunificou). Foi por isso que Constantino decidiu convocar um Concílio Ecumênico (vale dizer, Universal), o primeiro da história do Cristianismo, de que participassem todos os bispos da Cristandade (por isso o título “Ecumênico”). Foi assim que surgiu o Concílio de Niceia, em 325: convocado pelo Imperador, custeado pelo Império, e presidido por ninguém menos do que o próprio Imperador, que não aceitava, como produto final do Concílio, nada menos do que consenso e uniformidade para que as brigas se encerrassem de uma vez por todas.

É evidente para quem lê a história do Concílio de Niceia, e a história da Igreja Antiga, que a questão da natureza de Jesus de Nazaré, que talvez seja a questão mais importante do Cristianismo, não estava resolvida em 325 AD, quase trezentos anos depois da morte de Jesus. Em particular, discutia-se se ele era plenamente Deus, e, se era, se também era plenamente homem, ou se seria meio Deus ou meio homem, ou qualquer combinação dessas possibilidades. A questão foi resolvida “na marra”: decidiu-se que ele era plenamente Deus e plenamente homem, e que, naquela única pessoa que foi Jesus de Nazaré, havia duas naturezas: uma divina e uma humana. No concílio, quem não quis aceitar essa solução foi trocado por alguém para quem a solução era aceitável. Declarou-se, no final, que essa era a doutrina correta (ortodoxia) e quem não a aceitasse era considerado herege, e, para esses, não havia lugar na Igreja: foram anatematizados e passaram a ser perseguidos, tendo de fugir para fora dos limites do Império Romano comandado por Constantino. A igreja que era perseguida antes de Constantino, passou a ser uma igreja perseguidora de seus hereges.

A Solução Nicena, incorporada a um Credo, resolveu uma questão, mas criou várias outras.

Uma série de questões criada a partir da Solução de Niceia é: Se Jesus era uma pessoa com duas naturezas, uma divina e outra humana, como é que essas duas naturezas se relacionavam entre si? E se as duas naturezas divergissem entre si, se uma quisesse uma coisa e outra quisesse outra? Se a natureza divina sempre prevalecia, será que seria possível dizer que ele era realmente plenamente humano? E assim vai. Essa discussão veio a ser batizada de “O Problema Cristológico” na Igreja Antiga.

Outra série de questões é: se Jesus é plenamente Deus, como fica a crença no monoteísmo herdada dos Judeus? O Cristianismo é biteísta? Mas também há o Espírito Santo, não é verdade? Seria ele também uma pessoa separada, ou seria apenas o Espírito de Deus? Aceitando que o Espírito fosse também uma pessoa, o Cristianismo teria três deuses, e não apenas um, e seria triteísta, o que parecia invalidar sua postura monoteísta… Por 125 anos essa questão foi discutida e rediscutida até ser resolvida (da mesma forma que a questão de Nicéia) em um outro Concílio Ecumênico (já o quarto), o de Calcedônia, em 451. A Solução Calcedônica é que Deus tem uma natureza (ou uma essência) única, mas que se manifesta em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Teve gente que aceitou essa solução (a maioria) e teve gente que não aceitou e foi anatematizada, perseguida, e banida do Império. Essa discussão veio a ser batizada de “O Problema Trinitário”.

Entre, de um lado, os anos 313-325, quando foi baixado o Edito de Milão (313) e quando teve lugar o Concílio de Niceia (325), e, de outro lado, ano de 451, quando teve lugar o Concílio de Calcedônia, houve um outro desenvolvimento importante.

Em 380, através do Edito de Tessalônica, o Cristianismo deixou de ser apenas uma religião lícita no Império Romano (junto das demais, todas elas lícitas), e se tornou a Religião Oficial do Império (a única religião, a religião obrigatória). Isso se deu por decreto do Imperador Teodósio. A partir desse momento todo mundo, no Império Romano, que tinha uma religião, tinha de ser automaticamente cristão: não era admissível ter outra religião. Ter outra religião era desobedecer o decreto imperial. O Cristianismo, em menos de setenta anos, passou, de religião minoritária (e perseguida) para religião única, oficial – “A Religião Imperial”, que se impunha, pela força das armas, se e quando necessário.

Em 325, quando do Concílio de Niceia, o Cristianismo era apenas uma religião lícita, mas com uma importante distinção: era a religião do Imperador. Isso lhe dava, além de dinheiro para construir enormes igrejas e basílicas, a retaguarda do poder imperial para impor suas decisões pela força, sempre que necessário ou recomendável.

Assim nasceu a Ortodoxia. Não há Ortodoxia se eu simplesmente acho que você está errado, é um falso mestre, e digo isso – mas nada posso fazer para impedi-lo de continuar a defender o seu ponto de vista. Há Ortodoxia quando a divergência doutrinária deixa de ser apenas falsa doutrina, erro de julgamento, e passa a ser Heresia, rejeição de algo que se anatematiza, persegue e pune exemplarmente – desobediência à Autoridade, enfim.

Discordo, portanto, e frontalmente, que já houvesse, no período apostólico, refletido no Novo Testamento, uma Ortodoxia Cristã, com todo o aparato que ela envolve, como, de um lado, as decisões de Concílios Ecumênicos e Credos aprovados por esses concílios, que ditavam aquilo em que se devia acreditar dentro da Igreja, e, de outro lado, a força política, respaldada pelo poder militar do Império de impor essas decisões e esses credos dentro dos limites de uma unidade política, no caso, o Império Romano.

Com o desaparecimento do Império Romano no Ocidente em 476, a Igreja herdou o seu manto burocrático mas custou para assumir a sua força política e militar. Foi só no final da Idade Média que os Papas se tornaram tão poderosos politicamente que podiam recorrer aos Imperadores para impor sua vontade, e mesmo humilhá-los, quando os Imperadores tentavam escapar de sua vontade. Essa foi a época em que o Poder Espiritual era considerado superior ao Poder Temporal.

No período apostólico, em que se formava o Novo Testamento, o Cristianismo era uma seita judaica, um grupo minoritário e fraco, que não conseguia se impor nem mesmo aos judeus. Seus membros eram perseguidos e assassinados, seja pelos outros judeus, seja pelos romanos. Se Ortodoxia havia no período apostólico, em que foi composto o Novo Testamento, era a Ortodoxia dos outros (principalmente dos judeus), contra os cristãos. E também dos pagãos, que defendiam uma Ortodoxia da Tolerância contra os intolerantes cristãos (e também contra os judeus). Os judeus não foram tão perseguidos pelos pagãos quanto os cristãos porque ser judeu era uma condição étnica, enquanto ser cristão era uma decisão livre da vontade.

A Ortodoxia Cristã só surgiu quando o cristianismo deixou de ser a religião minoritária, fraca e ilícita que era, e se tornou a religião, primeiro dos Imperadores Romanos, depois do Império em si.

Essa Ortodoxia, no devido tempo, gerou a Inquisição e as fogueiras do final da Idade Média, começo da Era Pré-Moderna. Essa Ortodoxia levou até mesmo um reformador protestante de renome, João Calvino, a pedir ao Conselho de sua cidade, a execução de um herege que se recusava a aceitar a Solução Calcedônica para o problema da Trindade: Miguel de Serveto. Curioso que isso tenha acontecido exatamente em uma pequena cidade em que Calvino era simplesmente a pessoa mais importante: nada se fazia ou deixava de fazer sem o seu consentimento.

E essa Ortodoxia existe até hoje. Ela, por força de um novo clima de opinião, que nada deve ao Cristianismo, abandonou a fogueira – tornou-se uma “Inquisição Sem Fogueiras”, como bem a definiu João Dias de Araújo, que não mata os seus hereges no fogo mas continua a expurga-los e a fazer de conta que não existem. Essa Ortodoxia “cancela” os hereges, para usar um termo bastante usado hoje: eles passam a ser como se não fossem.

[* https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/pfbid02dUpAUfb77KnpAiiCsX1cHbNyWHW6iZkKMY2dqg2f9NTCBroPevi5QC9AQTjBnxkdl%5D

Em Salto, 11 de Julho de 2022



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