Eu e a Educação – Primeira Parte

Parte 1 – A Evolução das Minhas Ideias sobre a Educação

  1. Ponto de Partida
  2. Sete Linhas de Reflexão
  3. Ponto de Chegada
  4. Reflexão de Despedida

Quando se vai discutir a educação, em geral, ou do ponto de vista de qualquer pessoa (até mesmo do ponto de vista da gente, que é o que eu vou fazer aqui), é preciso, desde o princípio, estar preparado para abordar estas três questões básicas:

  • A questão do conceito de educação — como se deve entender a educação?
  • A questão do currículo da educação — qual deve ser o principal conteúdo da educação?
  • A questão da metodologia da educação — qual deve ser a melhor maneira de educar?

Vou, na sequência, procurar discutir essas três questões de forma tão objetiva e sucinta quanto me for possível. Mas o artigo, como o título explicita, é basicamente biográfico. Por isso, minha objetividade será circunscrita pelo fato de que estarei lidando com a minha visão — principalmente a atual — da educação. Minha visão atual da educação, embora seja, acredite eu, inovadora, não é nova: traz consigo elementos bastante antigos. É inovadora no sentido de que se contrapõe àquilo que tem passado como educação nos últimos tempos — talvez uns quinhentos anos, por aí…

Discutir os vários conceitos de educação propostos ao longo da história da filosofia e da educação, mesmo nos atendo apenas aos principais, é algo quase proibitivo: os conceitos propostos são em número muito elevado. É preciso, portanto, tentar agrupá-los, de alguma forma, em algumas categorias básicas.

Meu pensamento acerca dessa questão tem evoluído bastante. Mas antes de discutir a evolução na minha forma de ver a educação, vou discutir de onde parti.

A. Ponto de Partida

Meu ponto de partida foi um conceito extremamente simples — quase simplório.

Comecei minha carreira como professor universitário, no ano de 1972, nos Estados Unidos, na área em que obtive o meu doutorado: Filosofia. No doutorado estudei bastante História da Filosofia, Teoria do Conhecimento, Filosofia da Ciência, Filosofia da História, e Filosofia da Religião. Não estudei absolutamente nada de Educação — nem mesmo Filosofia da Educação ou Teoria da Educação.

Assim, quando vim para o Brasil, para trabalhar na UNICAMP, em 1974, imaginava que seria aproveitado em uma dessas áreas da Filosofia. O destino não quis que assim fosse: o Curso de Pedagogia da UNICAMP estava sendo criado e fui incumbido de assumir a disciplina de Filosofia da Educação, que havia sido prevista para o primeiro semestre do curso. Não adiantou argumentar que eu nunca havia estudado Filosofia da Educação. Quando a gente está chegando não tem como se recusar a fazer o que lhe é pedido: aceitei. Tinha um mês para preparar a disciplina de Filosofia da Educação que eu iria ministrar. Não havia um catálogo do curso e, portanto, nem uma sugestão de ementa era fornecida. Eu estava livre para fazer o que achasse melhor. Fui comprar uns livros nas livrarias de Campinas, São Paulo e Santo André (onde moravam meus pais e meus irmãos) e comecei a estudar.

Ao iniciar os meus estudos, o meu conceito de educação era elementar: educação, para mim, era, em um sentido básico, aquilo que tinha lugar na escola — e isso eu conhecia relativamente bem, depois de passar mais de vinte anos seguidos em diversos tipos de escola (de nível elementar, médio, superior e de pós-graduação). Para mim, naquele momento, não havia uma distinção significativa entre educação, enquanto tal, e educação escolar: era tudo fundamentalmente a mesma coisa.

Quais eram, na minha forma de entender inicial, os elementos básicos da educação que tem lugar na escola? Eram três:

Conteúdo: Havia uma série de coisas que a gente não sabia e precisava aprender na escola, especialmente, na educação básica, nas seguintes áreas:

  • Da LINGUAGEM: aprender a ler e escrever, aprender a expressar bem nossas sensações e observações, nossos pensamentos, nossas emoções, nossos desejos, nossas intenções e decisões, etc., tanto oralmente como por escrito, em privado e em público, e, naturalmente, entender níveis cada vez mais sofisticados de comunicação, tanto orais como escritos.
  • Da MATEMÁTICA: aprender a fazer contas e outros tipos de cálculos, inclusive financeiros e comerciais, a lidar com formas geométricas, noções de área, volume, com expressões simbólicas de vários tipos, etc.
  • Das CiÊNCIAS: aprender fatos relacionados ao ser humano e seu desenvolvimento, sua constituição biológica e psicológica, sua história, o mundo em que vivemos, etc. [biologia, psicologia, história e geografia], fatos relacionados aos seres vivos, em geral, inclusive os humanos [biologia], e fatos relacionados às coisas inanimadas que constituem a natureza [física e química]).

Todo esse conteúdo deveria ser aprendido independente de a gente ter interesse nesses assuntos ou não, sem levar em consideração nossos talentos e interesses. E todo mundo deveria aprender a mesma coisa, independentemente de diferenças individuais e daquilo que a gente pudesse querer ser na vida, depois da concluída a fase escolar. Quando eu estava na escola básica (década de 50 e 60) em algumas áreas havia conteúdos diferentes dependendo de você ser menino ou menina, moça ou rapaz: educação física, trabalhos manuais, etc.

Método: A metodologia utilizada pela escola para a gente aprender isso não era, exatamente, uma metodologia de aprendizagem: era uma metodologia de ensino. Pressupunha-se que a melhor maneira de a gente aprender essas coisas todas era, no fundo, ficando quieto e prestando atenção àquilo que alguém que conhecia bem esses conteúdos, o professor, dizia. E ele o dizia tanto oralmente, de viva voz, como pela escrita, rabiscando no quadro negro. Assim o professor apresentava e explicava os conteúdos a serem aprendidos. E a gente prestava atenção, anotava e copiava o máximo do que era apresentado, para estudar depois. Livros didáticos eram usados como material complementar e de apoio, para leitura posterior, em casa.

Na minha época de escola não havia Internet. Em algumas escolas ou vizinhanças às vezes havia uma biblioteca.

Avaliação: a forma de avaliar a aprendizagem da gente (não o ensino do professor) consistia de testes, provas e exames, exigidos periodicamente bem como ao final do semestre e ano letivo, que aferiam se a gente havia assimilado e memorizado de forma satisfatória uma quantidade mínima dos conteúdos transmitidos pelo professor em sala de aula.

B. Sete Linhas de Reflexão

Minhas linhas de reflexão tiveram como ponto de partida os diversos elementos desse quadro apresentado e se concentraram nos elementos que a seguir passo a listar, que foram surgindo, em minha mente, basicamente na ordem em que os apresento.

Em primeiro lugar, sendo uma pessoa meticulosa, e começando pelo que me parecia ser o começo, tentei construir uma definição de educação com base nos textos que ia lendo. Isso se mostrou bem mais difícil do que a princípio parecia.

Em segundo lugar, tendo iniciado o Curso Primário (hoje Fundamental I) relativamente tarde, aos oito anos e meio, quando já sabia ler, escrever e contar de maneira bastante satisfatória (já lia a Bíblia e Sherlock Holmes com desenvoltura, por exemplo), e tendo aprendido a fazer essas coisas fora de uma sala de aula e sem ensino formal, apenas com pequenas ajudas de meus pais, aqui e ali, tentei descobrir por que, na escola, o ensino parece ser considerado indispensável para a nossa aprendizagem, se a gente aprende tanta coisa, antes e fora da escola, e, presumia eu, também depois dela, sem ser formalmente ensinado, até mesmo coisas que são ensinadas na escola. Como eu gostava muito de ler, comecei a refletir sobre por que a gente precisava da escola, se podia aprender tanta coisa lendo, em casa. Por que não aprender tudo assim? (O fato corroborativo de eu estar incumbido de dar aulas de Filosofia da Educação numa universidade brasileira de primeira linha, e de nunca ter sido ensinado nada acerca desse assunto na escola, aprendendo tudo o que aprendi fora dos bancos escolares, lendo, refletindo e discutindo, em contextos não-formais, especialmente em casa, passou a ser extremamente significativo para minha visão da educação.)

Em terceiro lugar, esta uma linha de reflexão já mais sofisticada, que se tornou meu primeiro projeto de pesquisa formal na UNICAMP, para fazer jus ao tempo integral e à dedicação exclusiva: tentei descobrir quais as diferenças essenciais entre educação e doutrinação, se ambos os processos, os educacionais e os doutrinatórios [esse termo, eu sei, não existe nos dicionários, mas eu o estou criando], em especial quando usados dentro da escola, fazem uso do ensino e tem por objetivo fazer com que a gente aprenda, isto é, venha a aceitar e a adotar, como verdadeiros, fatos presumidos, ideias, pontos de vista, visões de mundo, etc. (É bom lembrar que, em 1974, quando montei esse projeto de pesquisa, ainda estava em plena vigência o regime militar brasileiro, que considerou obrigatórios, em todos os níveis de escolaridade, seja a Educação Moral e Cívica, seja o Estudo de Problemas Brasileiros, institucionalizando e tornando obrigatório para todos um processo doutrinatório dentro da escola.)

Em quarto lugar, esta uma linha de reflexão ainda mais avançada, que se originou, em parte, no fato de eu ter resolvido aprender a nadar já depois dos trinta anos: tentei descobrir qual a diferença entre, de um lado, aprender, no sentido de assimilar (aceitar como da gente) conteúdos informacionais, como fatos, conceitos, ideias, enunciados, pontos de vista, doutrinas, visões de mundo, ideologias, etc., que a gente até aquele ponto desconhecia, e, de outro lado, aprender, no sentido de tornar-se capaz de fazer alguma coisa que a gente até aquele ponto não conseguia fazer — como nadar, no meu caso..

Em quinto lugar, esta a linha de reflexão mais recente, e que tem por base dois fatos básicos: (a) todas as linhas de reflexão anteriores parecem ter que ver, principalmente, com o componente intelectual de nossa mente (nosso intelecto), que também parece ser a preocupação central, se não única, da escola; e (b) segundo vários filósofos, a nossa mente tem, pelo menos, dois outros componentes: primeiro, o componente que lida com as emoções, os sentimentos, a sensibilidade; segundo, o componente que lida com os processos de escolha e decisão, bem como os valores neles envolvidos, com vistas à nossa conduta, às nossas ações, aos nossos comportamentos, em especial quando se tornam habituais e configuram aquilo que os antigos chamavam de “formação do nosso caráter”. Em outras palavras: como é que a gente, além de aprender a conhecer e a fazer, aprende a sentir e a respeitar os sentimentos dos outros, ou para resumir, aprende a ser, mas não a ser só, a ser socialmente, isto é, a conviver?

Em sexto lugar, esta a minha linha de reflexão talvez mais conhecida: se hoje a gente faz a maioria das coisas que precisa fazer, pelo menos parcialmente, em espaços virtuais criados ou tornados extremamente eficazes pela tecnologia, por que não aprender o que é preciso ou desejável aprender também em espaços virtuais constituídos pela tecnologia, desescolarizando de vez, e totalmente, a educação, como propôs, um dia, cinquenta anos atrás, quando a Internet nem existia ainda, Ivan Illich, retirando a educação da escola e levando-a para a sociedade como um todo, e, paradoxalmente, trazendo-a de volta para dentro de casa, usando as redes sociais e as demais tecnologias de comunicação e acesso à informação para aprender e nos educar uns com os outros, como um dia recomendou Paulo Freire, na mesmíssima época em que seu amigo Ivan Illich fazia a recomendação dele? [Escrevi este parágrafo em Julho de 2020, em meio à pandemia, mas quando a gente ainda esperava que no segundo semestre tudo voltaria ao “normal” — e o “normal” seria o “normal de antes”, não um “novo normal”.]

Em sétimo e último lugar, a minha linha de reflexão mais radical, mas coerente com o liberalismo clássico e o libertarianismo anárquico que tenho tentado viver  ao longo da minha vida: por que não aproveitar a revolução que está sendo causada pela tecnologia e retirar o governo da educação, decretando, de uma vez por toda, a separação entre a educação e o estado, da mesma forma que há separação (em alguns países, pelo menos) entre religião e o estado?

C. Ponto de Chegada

É forçoso reconhecer que o ponto de chegada está bem distante do ponto de partida. Comecei, como ponto de partida, vendo a educação como aquilo que tinha lugar dentro das escolas, que, em sua maioria eram públicas, vale dizer, estatais. Chego ao final vendo a educação como um processo que pode e deve ter lugar totalmente fora da escola, de forma desinstitucionalizada e desestatizada: como era a educação de antigamente, só que, agora, com todas as possibilidades inerentes às mais sofisticadas tecnologias digitais.

Sócrates, o maior educador que já viveu, era muito diferente dos professores de hoje. Ou vejamos:

  • Ele não educava na escola, mas, sim, na praça;
  • Ele não recrutava seus discípulos, nem brigava para conquistá-los: eles o procuravam;
  • Ele não se enxergava como um sábio genérico ou um especialista em alguma área do conhecimento: ele admitia, certo ceticismo e muita modéstia, que nada sabia;
  • Ele não se enxergava como alguém que concebia e dava à luz grandes ideias, pontos de vista e visão do mundo: ele se considerava como uma parteira, que ajudava os outros a conceber e a dar à luz suas próprias ideias, pontos de vista e visão do mundo;
  • O “currículo”, aquilo que se deve aprender, não era definido por ele para todo mundo: cada discípulo seu definia o que desejava aprender com base em seus interesses, necessidades e talentos;
  • Quanto ao “método”, quando um discípulo lhe fazia uma pergunta, ele, que admitia nada saber, respondia com outra pergunta, induzindo o outro a procurar respostas às suas próprias perguntas, a metodologia sendo de aprendizagem, nunca de ensino;
  • Quanto à avaliação da aprendizagem, o discípulo decidia quando havia aprendido o suficiente; se ainda tivesse questões irrespondidas, curiosidades insaciadas, saberes inalcançados, habilidades e competências ainda não desenvolvidas, precisava continuar…

Na época de Sócrates esse tipo de educação totalmente personalizada era feita um-a-um. Não era possível conseguir ajudar muitos a aprender em bloco e ainda manter o processo personalizado. Mas hoje, com as redes sociais, isto começa a se tornar possível, com comunicação assíncrona e “anytime, anywhere learning”. A Educação socrática é hoje perfeitamente escalável.

D. Reflexão de Despedida

Apesar de ter dito muita coisa, eu deixei de dizer uma coisa muito importante. O que é a educação? Educação não é um processo de transmissão de informações de uma geração para a outra, com o intuito de preservar e reproduzir a sociedade.

Um amigo meu, professor da rede pública de Campinas, escreveu, em 1999-2000, a mais significativa definição de educação que eu já vi:

“Educação é o processo pelo qual aprendemos a sonhar nossos próprios sonhos e a transformá-los em realidade”.

O conjunto de nossos sonhos é o que hoje é chamado, na literatura psicológica e pedagógica, de projeto de vida. Dentro  dessa visão, é impossível que alguém que não tem um projeto de vida próprio possa se educar. Para quem não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve, qualquer itinerário é tão bom, ou tão ruim, quanto qualquer outro, e o próprio viajar perde a graça.

Em Salto, 23 de Julho de 2020, levemente revisado em 5 de Abril de 2021.



Categories: Autobio, Autobiography, Education

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