Virtudes e Traços de Caráter (Classificação de Seligman e VIA)

Já que descrevi, no artigo anterior, a lista de treze virtudes de Benjamin Franklin, redigida no início do século 18, resolvi descrever também uma lista de seis virtudes em que cada uma delas é desdobrada em alguns “Traços de Caráter”, que, no total, somam vinte e quatro.

1. Preliminares

Há conjuntos de conceitos que, um dia, lá atrás, na Antiguidade Clássica, andavam juntos e, a partir de um determinado momento, começaram a se separar. Tenho em mente aqui três desses conjuntos.

O primeiro conjunto de conceitos salienta a importância da inteligência, da verdade, da razão. Para nos tornar inteligentes, precisamos desenvolver a nossa razão, pois a inteligência se desdobra e traduz em características mentais voltadas para o pensamento claro, preciso e rigoroso, a capacidade de argumentar de modo logicamente válido e defensável, e de analisar de forma crítica e correta as ideias, próprias e de outrem, com vistas à busca da verdade. Esse o domínio da verdade (verum), em que impera a razão.

O segundo conjunto de conceitos salienta a importância do bem, da virtude, do caráter. Para promover o bem, é necessário que busquemos a virtude, e para nos tornar virtuosos é preciso que desenvolvamos o nosso caráter. A promoção do bem se faz pela vida virtuosa, que se traduz em traços de caráter nobres e bem definidos, alicerçados em valores bem selecionados. É assim que se alcança o bem no plano individual e pessoal, a vida boa, e o bem no plano social e coletivo, o bem comum, a sociedade boa. Esse o caminho do bem (bonum), em que impera o caráter.

O terceiro conjunto de conceitos salienta a importância da inovação, da criatividade, da imaginação. O primeiro conjunto de conceitos busca mostrar o que existe, o que é verdadeiro, e como é que sabemos isso. O segundo conjunto de conceitos busca mostrar o que é bom e certo, naquilo que existe, e o que é mau e não é certo. Este terceiro de conjuntos busca mostrar o que é que não existe, ou ainda não existe, e que é melhor do que existe e que pode substituir o que existe, é mau e não é certo por alguma coisa melhor. É a aqui que entram em cena a criatividade e a imaginação para propor algo inovador, melhor, mais funcional, mais justo — conceitos que os medievais resumiam debaixo do conceito do belo (pulchrum). A canção “Imagine” (Imagine), de John Lennon, o comercial “Imagine the possibilities” (Imaginem as possibilidades), o slogan “A new and better world is possible” (Um mundo novo e melhor é possível), são exemplos da força deste terceiro conjunto de conceitos. A frase atribuída a muita gente, mas especialmente a Robert Keneddy, “Some people look at what is there and ask why? I imagine what is not there and ask why not?” (Algumas pessoas olham ao que está aí e se perguntam por quê? Eu imagino o que não está aí e pergunto por que não?”). Todas essas frases são coerentes com esse terceiro conjunto de conceitos.

O primeiro conjunto de conceitos, herdado da antiguidade clássica e tremendamente reforçado no século 18, das Luzes, do Iluminismo, da Razão, é bastante conhecido, embora não muito praticado hoje em dia fora do contexto das ciências.

O terceiro conjunto de conceitos talvez esteja entre as mais populares nos dias atuais, alimentando as utopias, o combate à pobreza e às desigualdades intoleráveis, as lutas por um mundo melhor.

É o segundo conjunto de conceitos que, talvez, tenha ficado mais nas sombras, depois da antiguidade clássica e alguns bons momentos da Idade Média e da Idade Moderna. É nele que quero concentrar minha atenção. Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, e um idealista quase utópico, ressaltou que é importante ser racional e ser virtuoso — mas desses dois ideais, o ser virtuoso é o mais importante. Um indivíduo inteligente e racional, e capaz de conhecer a verdade, mas que é mau, é um perigo muito maior do que um indivíduo moralmente bom, mas de capacidade intelectual limitada. O erro mais grave de Hitler foi mais moral do que intelectual.

2. A Virtude, o Caráter e o Bem

Há conceitos que um dia foram extremamente importantes e, com o tempo, perderam a importância. Dois deles são os conceitos de virtude, de caráter, de bem (o bem individual e pessoal, o bem coletivo e social, o bem da humanidade). Houve época em que a pessoa virtuosa e de bom caráter (ou de caráter impoluto, como se dizia) era valorizada, admirada e colocada como modelo para o restante da sociedade. Na literatura, no cinema, no teatro, nas novelas do rádio e da televisão, até mesmo nos gibis, podiam até aparecer pessoas sem virtude e de mau caráter, e até mesmo sem nenhuma virtude e de péssimo caráter, os vilões, mas elas não eram apresentadas como exemplo de vida: os vilões eram maus exemplos, exemplos do que não deveria ser, e havia consenso de que eles deveriam ser punidos e, nos enredos, derrotados ou sobrepujado pelos heróis.

Hoje, apesar dos esforços de escritores como Ayn Rand, que, em sua ficção, criaram heróis virtuosos e dignos, bem como vilões que enojam, e, em suas obras de não-ficção, ressaltaram a importância da luta do bem contra o mal, hoje em dia a maior parte das pessoas nem tem ideia do sentido dos conceitos de virtude e caráter, de bem e mau, e, consequentemente, não tem como se preocupar em viver uma vida altamente virtuosa e em desenvolver um excelente caráter.

Vivemos em uma época que dá importância à diversidade, que enfatiza as diferenças, que endossa a tolerância mesmo para com pontos de vista (crenças) e condutas (comportamentos) que parecem absurdos, esdrúxulos, e estapafúrdios para quem deles discorda (no caso de pontos de vista) ou a elas desaprova (no caso das condutas). Ser normal, isto é, ficar dentro da faixa considerada como equidistante dos extremos, tentar ser bom e de bem, virou algo careta. Tenta se promover a ideia de que aquele que vive fora das normas, o anormal, o radical, é que é o novo normal, que aquele que busca os extremos, os exageros, as bizarrices, o que choca em vez de deleitar a alma, é que está certo, é que deve ser posto como exemplo.

Em notável sermão pregado no culto virtual da Catedral Evangélica de São Paulo no dia 3.5.2020, o Rev. Valdinei Aparecido Ferreira, pastor titular daquela igreja, salientou uma verdade dura de ouvir. Ninguém desconhece o fato de que vivemos, hoje, uma condição anômala, drasticamente diferente daquela em que vivíamos, digamos, um ano atrás, na época do Carnaval de 2020. Uma situação de distanciamento e até isolamento social. Diante sessa situação, muitos indagam quando é que vamos voltar à normalidade, à nossa condição normal de vida. A verdade que o Rev. Valdinei salientou é que não vale a pena voltar ao normal de um ano atrás… Para os políticos, por exemplo, o normal, pelo qual não escondem estar tentando voltar, é uma época de roubalheira e corrupção, de compra e venda de favores e facilidades, de total imoralidade. Para os juízes de nosso mais alto tribunal, o Supremo Tribunal Federal, o normal não é cumprir e fazer cumprir a Constituição. Para cada um deles, o normal é ele próprio ditar o que é a lei, conforme as conveniências políticas (ou, pior do que isso, conforme os interesses pessoais, a maior parte das vezes totalmente inconfessáveis). Na mídia, o normal é defender as causas de quem paga mais, canonizando a “fake news“, que não passa da velha mentira deslavada que alguém paga para que se proclame aos quatro ventos. No entretenimento, o normal é constranger, quando não ofender diretamente. Por mais chocante que ela tenha parecida quando focada pelas câmeras, o normal é a infeliz Karol Conká. O entretenimento, seja ele no teatro, no cinema ou na TV, é, na linguagem, um desfilar de palavrões e piadas grosseiras e ofensivas, e, na conduta, um desfilar de depravações que tentam alcançar o status de normalidade. Nas redes sociais (quando não ao vivo no rádio e na TV) o normal é que atores famosos e mesmo apresentadores de programas de auditório, para não falar dos convidados e entrevistados, usem linguagem e afirmem despropósitos que, sessenta anos atrás, na boca de uma criança, geraria punição incontinenti e severa. É para esses estados de normalidade que se deseja voltar? Não vale a pena! Concordo plenamente com o Rev. Valdinei. Os que pretendem ser “les bien pensants” de hoje se escandalizam de que haja ainda quem acredita que ainda haja gente que acredita que a Terra é plana (de terraplanistas, eles são chamados), ou que o Universo foi criado por Deus (os criacionistas). Mas no que essas crenças hoje démodées são mais absurdas do que a ideologia de gênero que a maioria de nossas escolas propaga como se fosse ciência, a ideia de que sexo é uma construção social, que eles chamam de gênero, e que cada um pode construir para si o gênero que quiser, ou todos (o número de possibilidades ainda resta em aberto), ou, quem sabe, nenhum? É para essa condição de normalidade que se deseja voltar? Não vale a pena!

O choque pelo que vimos passando deve ser visto no sentido que às vezes se dá ao conceito de crise: uma oportunidade de mudar, de transformar o “patamar de normalidade” a que chegamos, antes da pandemia, com seus distanciamentos e isolamentos, para um novo patamar, melhor, mais virtuoso, para uma nova cultura que valorize a virtude e o caráter impoluto.

Diante disso, e nesse quadro, um dos livros que mais admiro e respeito é um volume de 800 páginas escrito por Christopher Peterson & Martin E. P. Seligman, Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification (Oxford University Press and American Psychological Association, Oxford and New York, 2004). Nesse livro os dois autores examinam as principais correntes filosóficas, psicológicas e religiosas da humanidade, tanto históricas como atuais, em busca de virtudes que possam ter potencial de universalidade, e que possam ser traduzidas em traços de caráter positivos, fortes, coerentes e mensuráveis, que possam consubstanciar programas educacionais voltados para a educação moral e a formação do caráter, programas esses que possam permitir que, numa sociedade comprometida como a qualidade de vida, as pessoas não só sejam física e mentalmente sadias, mas possam florescer e alcançar realização pessoal e profissional plena (eudaemonia, como os gregos antigos chamavam essa condição).

Para os gregos clássicos, que criaram essas ideias, a felicidade não é hedônica, não tem que ver com o prazer, físico ou mental: a felicidade é eudaemônica, tem que ver com a realização plena de nossa natureza, no plano pessoal, social e profissional. E, para eles, os gregos clássicos, a realização de nosso ser humano não pode prescindir da virtude e do força do caráter. Pelo contrário: essa realização se dá em cima do alicerce provido pela virtude e pelas “character strengths“.

Não é a ciência que irá promover essas mudanças. A ciência é cega: só lida com meios. Apenas a filosofia e a teologia, que lidam com fins, têm alguma chance de promovê-las.

Parêntese: a gente imagina que dicionários não podem ser corrompidos, mas podem, sim. O Houaiss não distingue entre os termos “incontinente” e “incontinenti” (este que eu usei atrás).   O sistema de tradução do Google traduz “character strength“, força do caráter, por “força do personagem”. Fim do parêntese.

Hoje a doença virou normalidade. O mau virou o bem e o certo. A mentira se traveste de verdade.

Vide, nesse contexto, meu breve artigo “Saúde e Doença, Física e Mental”, nos meus blogs Chaves Space e Eudaemonia Space, nos seguintes URL:

https://chaves.space/2020/04/25/saude-e-doenca-fisica-e-mental/

https://eudaemoniaspace.wordpress.com/2020/04/25/saude-e-doenca-fisica-e-mental/

Esse tipo de educação tem que ver, mais do que com a promoção de ações boas e certas, independente de sua raiz motivadora, com o cultivo da virtude e o desenvolvimento de traços de caráter que a concretizem, produzindo, agora sim, com a raiz motivadora correta, ações boas e certas do ponto de vista moral. É o caráter virtuoso que produz as ações morais, e não vice-versa. A noção de que a gente deve agir dessa ou daquela forma porque é assim que Deus ordena e assim que ele deseja gera uma moralidade autoritária, não uma moralidade enraizada e ancorada na virtude.

Virtudes são características (valores que se traduzem em atitudes, posturas, hábitos) morais positivas e louváveis. A educação deve encontrar formas de torná-las desejáveis. Virtudes se contrapõem a vícios, que são seu negativo.

Os gregos já haviam tentado fazer uma lista mínima de virtudes – mas a lista deles parece pequena demais. Aquelas que eles chamavam de virtudes transcendentais eram a busca da verdade, a prática do bem e o cultivo da beleza. Subsequentemente foram acrescentadas o desenvolvimento da coragem, a aplicação da justiça, e a veneração do sagrado (neste caso, aquilo que eleva a alma e a inspira, e que não tem relação necessária com o divino). Os medievais, alterando um pouco a ênfase, definiram sete virtudes cardeais: a castidade, a temperança, a caridade, a diligência, a paciência, a bondade (humanitas, em Latim) e a humildade.

Parece que pelo menos os gregos estavam na direção mais certa: será que seriam considerados virtuosos os que se dedicam a promover a mentira, o mal, o feio, a covardia, o injusto,  e o que deprime a alma e desanima as pessoas? As virtudes cardeais medievais também enfatizam algumas virtudes que parecem ser bem mais universais do que as outras: a temperança (moderação, equidistância dos extremismos, etc.), a diligência (que inclui o esforço, a persistência, a paciência), a humanidade (que inclui a bondade, a caridade, a compaixão, a generosidade, sem esquecer da modéstia e da humildade…).

Peterson & Seligman (este o fundador da Psicologia Positiva) registram seis virtudes fundamentais, que eles chamam de nucleares (core virtues) e vários traços de caráter em que essas virtudes se desdobram e concretizam na ação humana), indo, no processo, bem além dos gregos e dos medievais. No processo, expandem a noção de virtude, indo além de categorias tradicionalmente vistas como morais, em sentido estrito.

3. Virtudes e Traços de Caráter Constituintes do Bem

As seis virtudes nucleares são:

  • Sabedoria
  • Coragem
  • Temperança
  • Humanidade
  • Justiça
  • Transcendência

Faço aqui um resumo dos traços de caráter vinculados a cada virtude, compatibilizando a lista de Seligman com a lista da organização Values in Action – VIA)

  1. Sabedoria (Wisdom & Knowledge)
    1. Criatividade (Creativity)
    1. Curiosidade (Curiosity)
    1. Mente Crítica e Aberta (Judgment & Open Mindness)
    1. Paixão pelo Aprender (Love of Learning)
    1. Perspectiva (Perspective)
  2. Coragem
    1. Fortitude (Bravery)
    1. Perseverança e Resiliência (Perseverence)
    1. Honestidade (Honesty)
    1. Entusiasmo e Gosto pela Vida (Enthusiasm & Zest)
  3. Temperança
    1. Perdão e Misericórdia (Forgiveness & Mercy)
    1. Modéstia e Humildade (Modesty & Humility)
    1. Prudência (Prudence)
    1. Autocontrole (Self-Regulation)
  4. Humanidade
    1. Amor (Love)
    1. Bondade (Kindness)
    1. Inteligência Social e Emocional (Social and Emotional Intelligence)
  5. Justiça
    1. Cooperação (Teamwork)
    1.  Imparcialidade & Equidade (Fairness & Equity)
    1. Liderança (Leadership)
  6. Transcendência
    1. Apreciação da Verdade, do Bem, da Beleza (Appreciation of Beauty & Excellence)
    1. Gratidão (Gratitude)
    1. Esperança & Otimismo (Hope & Optimism)
    1. Senso de Humor (Sense of Humor)
    1. Espiritualidade (Spirituality)

Subsequentemente vou procurar “destrinchar” cada um desses traços de caráter. Aqui, basta listá-los, para que o leitor os compare com as treze virtudes de Benjamin Franklin, listadas no artigo anterior.

Em Salto, 24 de Fevereiro de 2021



Categories: Liberalism

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