Eu e as Estradas de Ferro Paulistas: Recordações Autobiográficas em um Aniversário

Sou paulista de uma época em que a forma de a gente viajar era basicamente o trem – e o Estado de São Paulo era razoavelmente bem servido em sua malha ferroviária [1]. No interior do Estado, o ônibus (então chamado de “jardineira”) era apenas para viagens relativamente curtas, de uma cidade que não possuía Estação Ferroviária para uma que tinha. De ônibus, exceto os urbanos, andei pouco, quando criança. E o avião, então, para viagens de média distância, pouca gente usava: só os ricos. Havia poucas alternativas na aviação e elas eram proibitivamente caras.  Embora eu não fosse rico quando criança, nem o seja agora, fiz minha primeira viagem de avião quando tinha três anos e meio: de Londrina para o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, pela Real Aerovias Brasil. Só viajei de avião para o exterior quando tinha perto de 24 anos. No mais era o trem mesmo que servia como principal meio de transporte. E o trem tinha um romantismo que nenhum dos outros meios de transporte tinha. Além do barulho ritmado das rodas nos trilhos, que convidava ao sono, havia a possibilidade de comer no trem (tanto comprando sanduíches e frutas para comer no assento, como no elegante vagão restaurante), e havia a possibilidade de, em viagens mais longas, dormir no trem, em uma cabine-leito, cheia de recursos interessantes. Para uma criança, era fascinante.

Como disse, felizmente o Estado de São Paulo era bem servido de ferrovias durante a minha infância. Elas nasceram no século 19, de baixo para cima, em função das necessidades, em especial dos grandes centros agrícolas do Estado, como Campinas, Sorocaba, e Santos, por onde a produção agrícola escoava para o exterior: primeiro o café, depois outras coisas. Mas as pequenas e restritas Estradas de Ferro regionais rapidamente eram adquiridas por empresas estrangeiras e se interligavam, formando uma malha ferroviária toda cheia de curvas imprevisíveis, e de emendas, para ligar uma Estrada de Ferro à outra. Campinas, por exemplo, era a principal cidade da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, mas esta ferrovia estava ligada com a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, em Jundiaí, com conexão para São Paulo e Santos; estava ligada com a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, com conexões para o Leste do Estado e o Oeste de Minas Gerais; estava ligada, através de um Ramal Ituano, com Indaiatuba, Elias Fausto, Salto, Itu e Sorocaba, onde se conectava com a Estrada de Ferro Sorocabana. Para passar em uma cidade de certa importância, a trajetória da linha fazia vários zigue-zagues doutra forma injustificáveis.

Deixando de lado ferrovias de menor projeção, as principais ferrovias do Estado de São Paulo eram as seguintes:

  • A São Paulo Railway, que se tornou a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí
  • A Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que controlava o interior no Norte, Centro e Oeste do Estado
  • A Companhia Sorocabana, que controlava o Sul e o Sudoeste do Estado
  • A Companhia Central do Brasil, que controlava o Leste do Estado, com o tráfego para o Rio de Janeiro
  • A Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que controlava o Leste do Estado, do rumo de Campinas para o Norte, e para o Oeste de Minas Gerais.

Com exceção das duas últimas, andei bastante nas três primeiras. Andei umas poucas vezes na Mogiana, e nunca andei na Central do Brasil.

Este artigo vai misturar a minha autobiografia com viagens de trem, primeiro pela Paulista, a minha primeira ferrovia; depois pela Sorocabana; finalmente, pela Santos Jundiaí, e novamente pela Paulista e pela Sorocabana.

o O o

Nasci em Lucélia, SP [2], na chamada “Nova Alta Paulista” [3]. Hoje a cidade é chamada, carinhosamente, de “A Capital da Amizade”. Mas é uma cidade muito pequena, ainda hoje: sua população atual gira por volta de 22 mil habitantes. Com tão poucos habitantes, a cidade não deve ter muitos amigos para qualificar como Capital da Amizade, mas… que seja assim conhecida. Curiosamente, a primeira pessoa que eu conheci que também havia nascido em Lucélia foi em Berkeley, CA, no ano de 1972, quando eu já tinha quase trinta anos. Ela era estudante de Doutorado na University of California em Berkeley. Foi no mês de Outubro, bem me lembro, em um almoço de brasileiros que estudavam ou trabalhavam na região. Eu estava começando a trabalhar na California State University, em Hayward, bem pertinho, no mesmo lado da Baía de San Francisco. Vai fazer cinquenta anos o mês que vem. Como passa o tempo! Nunca mais vi a tal moça, e nem sequer me lembro do nome dela. Mas lembro-me do fato de que havia nascido em Lucélia, e por tê-la encontrado tão longe do lugar em que ambos nascemos. Depois de lá não conheci mais muitos lucelienses. Houve uma época em que alguns lucelienses faziam uma reunião em São Paulo, para a qual eu fui uma ou duas vezes convidado. Mas como não pude ir, deixaram de me convidar…

Se Lucélia é cidade pequena ainda hoje, quando eu nasci, era minúscula. Oficialmente (isto é, considerada como município, comarca etc.), Lucélia não existia quando eu lá nasci, no Dia da Independência do Brasil, no ano de 1943. Às 21h45. Lucélia era, então, apenas, e informalmente, um “patrimônio” (lugarejo, povoado, amontoado de gente), que havia sido fundado, segundo consta, em um Dia de São João: 24 de Junho de 1939. É curioso que tenha sido preservada a data precisa da fundação do patrimônio. Na maior parte dos casos, um povoado é simplesmente iniciado, sem que se tome o cuidado de registrar o fato com precisão, com indicação do ano, mês e dia. Só faltou registrar a hora da fundação do patrimônio. Provavelmente ela se deu à noitinha, ao redor de uma Fogueira de São João, com pipoca, batata doce e muito quentão… O fundador do povoado foi o engenheiro Luiz Ferraz de Mesquita, que também foi, muito merecidamente, como se verá, nomeado [sic] o primeiro Prefeito da cidade, quando de sua emancipação (emancipação dela, a cidade, não dele, que já devia estar emancipado há bom tempo…) [4].

Na minha Certidão de Nascimento original, lavrada e emitida logo depois do meu nascimento, não sei exatamente onde, provavelmente em Martinópolis, por algum despachante, pois no povoado não havia ainda Cartório de Registro de Pessoas Civis, atesta-se que eu sou “nascido em Lucélia” [sem especificar a natureza do lugar], mas informando que Lucélia ficava “no Distrito de Baliza, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente”. Uma informação tão rica em detalhes estava fadada a gerar confusões. Meu valioso Certificado de Conclusão do Curso Primário (emitido no final de 1955, quando eu terminei o Primário já com  doze anos completos – comecei a escola com quase dois anos de atraso), afirma, com base nessa Certidão de Nascimento original, que eu sou “nascido em Martinópolis”, não em Lucélia. Minha Certidão de Nascimento atualizada (existe isso: a minha atualizada foi tirada por volta de 2014) afirma, por sua vez, que eu sou “nascido em Presidente Prudente”, e não em Lucélia (e isso porque os novos formulários para os Cartórios emitirem Certidões de Nascimento já vêm pré-impressos com a informação “nascido na comarca de . . .”). Dá para a gente ficar com a identidade pessoal confusa…  Como eu posso ter nascido em três cidades diferentes? “Oh dúvida cruel: onde foi mesmo que eu nasci?” Ou, como diria a velhinha da divertida PRK-30, programa humorístico de rádio, famoso na minha infância, já em Santo André, SP, “Será que eu nasci mesmo?”. Quanto a isso, não tenho dúvidas. Nasci, sim. Dou-lhes minha palavra. Só resta saber onde.

Enfim, Lucélia só se tornou oficialmente uma cidade em 1944, quatorze meses e alguns dias depois de eu nascer: a data de sua chamada “emancipação” é 30 de novembro de 1944. Nessa data, Lucélia, ao mesmo tempo (fato em si incomum), saiu da condição de patrimônio e “foi elevada à categoria de Distrito de Paz, Município e Comarca” – tudo de uma vez só. Isto se deu através do Decreto-Lei Estadual nº 14.334. O site oficial da cidade explica que Lucélia se tornou tudo isso de uma vez só “graças ao prestígio do seu fundador”. Já-já esclareço a origem desse prestígio.

As comarcas vizinhas que vieram a dar uma contribuição na forma de terra para que o território de Lucélia fosse constituído foram, pelo que consta, Valparaíso, Guararapes e Araçatuba, mais ou menos na direção Norte-Noroeste; Presidente Prudente e Martinópolis, mais ou menos na direção Sul-Sudoeste; e Tupã, na direção Leste (aqui sem o mais ou menos) [5]. Quando li isso fiquei cá pensando com os meus botões: de boa vontade ninguém faz isso… – é preciso de um bom cutucão de um Interventor, chamado de Governador do Estado, nomeado por um Ditador, chamado de Presidente da República, para que uma comarca já estabelecida, e justamente orgulhosa de suas terras, ceda parte de seu próprio território para a constituição de uma nova comarca. Já-já eu explico de que forma veio o cutucão. (Esta é a segunda dívida que assumo). Equacionada a questão do território, como a burocracia é, naturalmente, sempre lenta, mesmo quando está em jogo a criação de uma nova comarca, com cobiçados cargos de Prefeito, Vice-Prefeito, Secretários Municipais, Vereadores, Assessores de Vereadores etc., consta que “a instalação da Comarca de Lucélia aconteceu [apenasmente, como diria Odorico Paraguaçu] em 13 de junho de 1945” [6]. Em um Dia de Santo Antônio, o “Santo Casamenteiro”. A fundação do povoado foi em um Dia de São João, a instalação da comarca em um Dia de Santo Antonio. Faltou algo para São Pedro.

Passo a pagar as duas dívidas que contraí, através de um arrazoado só.

O primeiro Prefeito de Lucélia, Luiz Ferraz de Mesquita, havia sido também o fundador do patrimônio de Lucélia. A página oficial da cidade, mantida pela Prefeitura Municipal, explica por que o primeiro Prefeito de Lucélia foi nomeado, e não eleito. O Brasil vivia, desde 1937, a Ditadura do Estado Novo, e o Presidente da República, Getúlio Vargas, agia como Ditador, sem nenhum freio. Ele  nomeava os Governadores dos Estados e Territórios, chamados de Interventores, que, por sua vez, nomeavam os Prefeitos (chamados assim mesmo) de seus estados ou territórios. O Governador (nomeado, logo Interventor) do Estado de São Paulo era Adhemar Pereira de Barros (“Fé em Deus e pé na tábua”). O fundador do povoado de Lucélia e primeiro Prefeito da cidade, Luiz Ferraz de Mesquita, era engenheiro, e, segundo tudo indica, muito capaz, em mais de um sentido. Antes de fundar o patrimônio de Lucélia em 1939, ele foi a pessoa nomeada pelo governador do Estado para demarcar as terras da região. Por coincidência, ele era concunhado do Governador Adhemar de Barros! Isso explica a fonte de seu prestígio, que se traduziu na sua capacidade para trazer muitas benfeitorias para o povoado e para a pequena cidade que se estabeleceu.

Eis o que diz o site oficial de Lucélia sobre o fundador da cidade:

“Formado em engenharia civil em 1914, Luiz Ferraz de Mesquita iniciou sua atividade profissional na demarcação judicial das terras da Fazenda Monte Alegre, à margem direita do Rio do Peixe, quando a Estrada de Ferro Sorocabana atingia com suas linhas, em tráfego, a cidade de Assis. Monte Alegre é denominação vaga que servia para designar todas as terras entre o Rio do Peixe e o Rio Aguapeí, na proximidade de Bastos, até a barranca do Rio Paraná. [ . . . ] O trabalho de demarcação terminou em 1918 e Luiz Ferraz de Mesquita recebeu terras como pagamento de seus serviços.”

A narrativa da página sobre a História do Município, no site mantido pela Prefeitura Municipal, ganha, a partir daí, tons quase de aventura e romance…

“Na abertura de uma das picadas, quando atravessavam um dos afluentes do Rio do Peixe, perderam-se três balizas. Então denominaram o rio de Ribeirão Baliza. Ainda em 1918 empreendeu Luiz Ferraz de Mesquita a primeira abertura de uma clareira na mata virgem à margem esquerda do Ribeirão Baliza. Ali se localizaram as primeiras famílias, chefiadas pelo patriarca Benedito Lopes. Todavia, a colonização da referida região foi realmente iniciada apenas por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação, primeiro da Fazenda Baliza, e, a seguir, da Fazenda Santa Cecília.”

As terras ganhas pelo engenheiro, em troca do seu trabalho de demarcação das terras, ficaram bastante valorizadas, em decorrência de sua transformação em duas grandes fazendas. As grandes fazendas atraíram trabalhadores, em geral imigrantes. E os imigrantes, depois, queriam comprar terras, para se tornar proprietários das terras que cultivavam… Continua a narrativa do site da cidade:

“Nessa mesma época chegaram, pela Sorocabana, imigrantes Russos e outros Eslavos que, negociando com o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Baliza e Água Grande. A gleba que iria formar a Fazenda Baliza e Santa Cecília era originalmente ligada à José Theodoro, de Martinópolis. Foi a partir dali que Luiz Ferraz de Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização.”

Foi por isso que Lucélia se tornou um patrimônio, no Distrito de Baliza, no Município de Martinópolis… Qual o resultado desse trabalho do fundador da cidade?

“A partir de 1939, Luiz Ferraz de Mesquita fez de tudo por Lucélia e conseguiu oito estradas convergentes, sendo três de acesso para cidades que tinham estação da Estrada de Ferro Sorocabana (Rancharia, Martinópolis, Presidente Prudente), três de acesso para cidades que tinham estação da Estrada de Ferro Noroeste (Valparaíso, Guararapes e Araçatuba), mais os dois acessos representados pela chegada e pela saída do espigão da Companhia Paulista na própria Lucélia.”

O site da Prefeitura Municipal, na página que discute a História do Município, conclui de forma sensata:

“Com a elevação de Lucélia a município na época da Ditadura, o seu primeiro prefeito foi por nomeação do Interventor estadual, que na época era o Sr. Adhemar Pereira de Barros, concunhado do Dr. Mesquita, em que recaiu a nomeação de prefeito. Desde a elevação de Lucélia a município, somente o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita foi nomeado Prefeito pelo Interventor Estadual (Governador do Estado). Todos os demais foram eleitos democraticamente.”

Que alívio saber que Ferraz foi o único prefeito nomeado. Os demais foram eleitos porque o país voltou à normalidade democrática em 1945, com a deposição de Getúlio Vargas (que, no entanto, voltou a ser Presidente em 1950, agora pelo voto popular, sem Ditadura – que viria alguns anos depois, com outra cara).

Muitas coisas ficam explicadas no longo trecho citado. Algumas não vale a pena realçar, como o vínculo de parentesco entre o primeiro Prefeito de Lucélia e o Governador do Estado de São Paulo, na qualidade de Interventor, em última instância, do Presidente da República, que assumiu o cargo através do Golpe de 1930. Mas o texto explica, de forma cristalina, por que, quando eu nasci, Lucélia era um povoado do Distrito de Baliza, que ficava no Município de Martinópolis, de onde o futuro Prefeito do município já comandava tudo, mesmo antes de 1939, data da fundação do patrimônio.

Assim sendo, neste ano de 2022 eu completo 79 anos de vida e o município e comarca de Lucélia, onde nasci, completa 78 anos. Formalmente, sou mais velho do que o município-comarca em que nasci. Parece impossível, mas é verdade.

Lucélia viria a ser oportunamente servida pelos trens do Tronco Oeste da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF, ou, simplesmente, CP). Isso se deu com a inauguração da Estação Ferroviária da cidade em 20 de Abril de 1950 [7]. Isso significa que, quando eu lá nasci, Lucélia ainda não era servida por trens. Era necessário ir até Tupã para pegar o trem da Paulista. Mas, logo depois, como esclarecido anteriormente, a cidade tinha estrada de acesso a várias outras Estradas de Ferro: três estradas de acesso para a Estrada de Ferro Sorocabana, nos municípios de Rancharia, Martinópolis, e Presidente Prudente; três estradas de acesso para a Estrada de Ferro Noroeste, nos municípios de Valparaíso, Guararapes e Araçatuba; e as duas linhas, de chegada e de saída (!), para o Tronco Oeste da Companhia Paulista… E, mesmo assim, a cidade, hoje, ainda tem apenas 22 mil habitantes. Se fosse sociólogo tentaria explicar por quê.

Já que viemos, finalmente, a falar em trens, a primeira viagem de trem que eu fiz foi nos dias 19-20 de Outubro de 1943, quando eu tinha apenas e tão somente um mês e doze dias [8]. Está explicada a minha fascinação por Estradas de Ferro. A viagem, de Lucélia a Campinas, começou no dia 19 e terminou no dia seguinte, dia 20, conforme relata meu pai, Rev. Oscar Chaves, no documento que ele escreveu, com o pomposo título (eu mereço) de O Nascimento e a Vida do Eduardo Oscar, Escrito pelo seu Pai [9].

“No dia 19 de outubro tomámos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho [meu nick] dormiu quasi [sic] o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. [sic] da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomámos [sic: com o acento agudo] o trem. A viagem não foi muito bôa [sic: com o acento circunflexo], pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passámos [sic: com o acento agudo] a noite com o Nenê [com inicial maiúscula] nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. [sic] da manhã chegamos a Campinas.”

Conforme se pode constatar, os trens do Tronco Oeste da Companhia Paulista de Estradas de Ferro só chegavam até Tupã, quando eu nasci. O Tronco Oeste, saindo de Tupã (onde terminava, naquela época), passava por Marília, Garça, Bauru, Pederneiras, Jaú, Brotas, chegando a Itirapina, onde esse tronco se iniciava. De Itirapina até Campinas, o Tronco Principal da linha, passava-se por Rio Claro, Cordeirópolis, Limeira, Americana, Sumaré, Jacuba (hoje Hortolândia), chegando à linda estação de Campinas. Alguns trens mais lentos paravam ainda na Fazenda Boa Vista, onde minha mãe nasceu, antes de chegar a Campinas. O trem que meus pais tomaram levou 8h15m para percorrer o trajeto entre Tupã e Campinas. Saiu às 15h45 de um dia, chegou às 6h do dia seguinte.

A Companhia Paulista foi fundada em 30 de janeiro de 1868. Quatro anos atrás teria feito 150 anos. Em seu auge, ela tinha um Tronco Básico, queia de Jundiaí até Itirapina, passando por Campinas (a estação principal do tronco, mais importante mesmo que Jundiaí, a cidade inicial, e que, por um tempo, era maior e mais importante do que Campinas, tendo esta, com o assustador nome de “Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso”, sido um distrito, primeiro de Jundiaí, depois, pasmem, de Louveira!). Em Itirapina (não me perguntem por que Itirapina desempenhou esse papel central no desenvolvimento da Companhia Paulista) ela se dividia em dois troncos: Um Tronco Norte e um Tronco Oeste, e desses saíam ferrovias secundárias, como a Estrada de Ferro Araraquarense e a Estrada de Ferro Noroeste. O Tronco Norte da Paulista (que por muitos é considerado a continuação natural do seu Tronco Básico) ia até a cidade de Colômbia, no limite entre o Estado de São Paulo e o Estado de Minas Gerais. O Tronco Oeste, que nos interessa mais de perto, ia, em 1943, até Tupã, passando pelas cidades já indicadas. Depois ele se estendeu até Panorama, às margens do Rio Paraná, na divisa do Estado de São Paulo com o Estado do Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). Para chegar lá, a partir de Tupã, passava por Bastos, Osvaldo Cruz, Lucélia, Adamantina, e Dracena, chegando a Panorama. No auge esse tronco chegou a ter 709 km, com nada menos do que 54 estações! O comprimento da linha eventualmente foi reduzido para 680,6 km, com a retificação do trecho entre Bauru e Garça [10]. Quando concluída a linha, e retificado o trecho indicado, um trem que percorresse o percurso inteiro, de Jundiaí até Panorama, parando em todas as estações da linha, pararia, em média, a cada 13 km. Um verdadeiro “pinga fogo”. . . Felizmente havia os trens mais rápidos, os Expressos, dentro os quais o Trem Azul era o mais famoso. Parecia trem Europeu de tão chique.

Mas voltemos à minha primeira viagem de trem. Meu pai ficou apenas nove dias em Campinas e voltou para Lucélia, deixando-nos, a mim e à minha mãe, em Campinas. Voltou no Dia de Ano de 1944, ficou em Campinas durante um mês, gozando merecidas férias, e então todo mundo voltou para Lucélia, fazendo o mesmo trajeto, de trem, no final de Janeiro de 1944. Antes de voltarem para casa, meus pais tiraram uma foto minha, em estúdio profissional (Studio Paioli): eu, totalmente pelado, mas, felizmente, de bruços, com quatro meses de idade. Tenho a foto até hoje. Está disponível no meu perfil atual do Facebook.

No dia 23 de Junho de 1944 meu pai relata que “no dia 30 de maio [de 1944] resolvemos levá-lo para Campinas novamente, pois estava dando varisséla [sic], pneumonia e coqueluche em Lucélia”. Minha terceira viagem de trem (contando o retorno da primeira viagem como uma segunda viagem). Meu pai voltou em seguida para Lucélia, deixando-nos em Campinas. Retornou para Campinas no final de julho e, no dia 3 de Agosto de 1944, retornamos os três para Lucélia. Minha quarta viagem de trem (novamente contando o retorno como uma viagem diferente). Mas antes de voltar, no dia 13 de Julho de 1944, quando eu tinha dez meses e dez dias de vida, tiraram, em Campinas, agora no Studio Eurydes, mais refinado, uma foto em doze poses. Tenho também essa foto até hoje – e ela também está disponibilizada no meu perfil atual no Facebook.

No dia 8 de Agosto, já em Lucélia, meus pais descobriram meu primeiro dentinho e eu dei meus primeiros passos (“5 passinhos”, informa meu pai, e mais nada durante mais de duas semanas), com onze meses e um dia de idade. Quando completei meu primeiro ano já estava andando relativamente bem para a idade. Mas, segundo meu pai, foi a partir de 24 de Agosto que eu “deslanchei” na arte de andar, “andando pela casa toda”. A “casa toda” não passava de um pequeno bangalô de madeira, onde eu nasci, na então Rua Amazonas, s/n –  no rumo do cinema, que ficava na rua principal da cidade, a Av. Internacional. Tinha apenas um quarto, sala, cozinha e uma varandinha – o sanitário ficava fora da casa, como era costume. A água era de poço caipira. No meu perfil no Facebook há uma foto do bangalô, com minha mãe na varanda, e eu no colo dela. Pelo que consta eu tinha apenas 22 dias, a foto tendo sido tirada em 29 de Setembro de 1943.

No dia do meu primeiro aniversário (7 de Setembro de 1944), meu pai registrou: “O Oscarzinho já fala “papae” [sic], “mamãe”, “nenen” [sic], “dá”, e mais alguns vocábulos que só ele, porém, entende”. Oscarzinho, já disse, that’s me. Meu nome dado, composto, como mencionado atrás, era (e continua sendo) Eduardo Oscar. O Oscarzão era o meu pai.

Entre o meu primeiro e o meu segundo aniversário o meu pai não registrou absolutamente nada na minha biografia… No dia do meu segundo aniversário, registrou um monte de coisa, em especial o que ele então considerava alguns feitos linguísticos meus. Quando me perguntavam o meu nome, eu respondia “Cazinho Vate” (Oscarzinho Chaves). Por aí se vê que relatos, feitos pelos pais, acerca dos sucessos dos filhos, devem sempre ser recebidos com um módico de ceticismo… deixando fora os inevitáveis exageros – cum grano salis, como gosta de dizer meu amigo Enézio Eugênio de Almeida Filho. Gosto de ter amigos com nomes grandes e bonitos… O nome do meu único neto (homem) também é um charme: Marcelo Chaves de Moraes Salles. Em Campinas há uma avenida “Moraes Salles”…

Nada é explicitamente dito no relato paterno acerca de viagens ao longo de 1945 – mas uma viagem, pelo menos, certamente foi feita, e foi bem longa, porque em algum momento, antes do meu segundo aniversário, em 7 de Setembro de 1945, nós nos mudamos de Lucélia, SP, para Irati, PR, perto de Ponta Grossa. Diz o meu pai (no relato do dia do meu segundo aniversário):

“Estamos no Paraná, em Irati. – O Oscarzinho estranhou o clima, no começo, e adoeceu aqui, com um forte resfriado. O ouvido ficou inflamado. Sofremos muito. Quasi [sic] perdemos o garoto. Mas Deus o salvou.”

Sugerir que eu quase morri por causa de um resfriado, ainda que forte, me parece um exagero, mas vá lá. Deus nos salva todo dia de escorregar e cair no banheiro, bater a cabeça na privada, e morrer. Tenho um grande amigo que morreu assim. Voltemos ao relato. Segundo diz meu pai, “estamos em Irati” – mas nenhuma palavra sobre como chegamos lá. Senti falta dessa informação. Iria adornar este meu relato. Vou precisar supor e inferir. Para ir de Lucélia para Irati, certamente fomos de trem: era a única forma confiável para viagens longas naquela época. Esta certamente foi a viagem mais longa que fizemos em um bom tempo. Provavelmente descemos até Ourinhos, cidade chave na Estrada de Ferro Sorocabana, e, lá, pegamos a Rede de Viação Paraná-Santa Catarina. Como chegamos a Ourinhos? Não tenho a menor ideia. Provevelmente fomos até Campinas, ficamos uns dias lá, pegamos a Paulista e a Santos Jundiaí para São Paulo e lá pegamos a Sorocabana para Ourinhos. Mas é suposição. Não sei se a linha dos trens que ia de Ourinhos para Santa Catarina, atravessando o Paraná, passava em, ou perto de, Irati. A Wikipedia em Português explica que a Rede de Viação Paraná – Santa Catarina, por ter sido criada através da aquisição de pequenas ferrovias locais, tinha um trajeto meio tortuoso. Saía de Ourinhos, ainda no Estado de São Paulo, passava em Cambará, Cornélio Procópio, Jataizinho, Londrina, Apucarana. Nesta cidade a RVPRSC chegou em 1942, antes de eu nascer. Portanto, até aqui a suposição é viável. Mas e depois de Apucarana? Sei que a RVPRSC eventualmente continuou até Engenheiro Gutierrez e Guarapuava, mas não tenho informação da data em que isso aconteceu. Sei que em 1949 os trilhos já estavam em Guarapuava, prontos para entrar em Santa Catarina, através de Mafra e Lages. E sei que em 1949 também havia uma ligação ferroviária entre Apucarana e Ponta Grossa. Será que nossa viagem para o Sul do Paraná, nos levou para Guarapuava ou para Ponta Grossa? Ou será que havia alguma outra Estrada de Ferro com um trajeto mais direto, ligando São Paulo a Curitiba, de onde pegaríamos uma jardineira para Irati? Não tenho resposta certa, atualmente, para essas perguntas. Talvez um pouco mais de estudo da evolução das vias férreas no Brasil esclareça.

Meu pai não fornece a data em que mudamos para Irati. Mas foi antes de 7 de Setembro de 1945. Provavelmente foi no início de 1945, porque a Junta de Missões Nacionais (JMN) da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) geralmente remanejava seus obreiros no começo do ano. Sei que em Irati, por causa do frio, ficamos pouco tempo. Meu pai ficou com medo de que eu pegasse outro resfriado forte e me despedisse deles. Novamente, meu pai não fornece a data de nossa saída de Irati. Mas, muito provavelmente, ficamos na cidade  apenas um ano, até o início de 1946. Seguindo a mesma lógica já explicada, provavelmente mudamos para Marialva, no Norte do Paraná, em Janeiro de 1946. Novamente, a viagem deve ter sido de trem. O trem chegava, nessa época, até Apucarana, depois de Londrina (o trem vindo de São Paulo). Provavelmente pegamos uma jardineira de Apucarana até Marialva. Mas tudo isso é suposição e conjetura, com poucas possibilidades de refutação [11].

O relato do meu pai parou em meu segundo aniversário. Assim sendo, não sei como foi meu terceiro aniversário, em 7 Setembro de 1946, mas tenho algumas informações, de outra fonte, especialmente minha memória, sobre meu quarto aniversário, em 7 de Setembro de 1947. Eis o que escrevi, há muito tempo, em algumas anotações minhas (alguns dos meus alfarrábios), que passaram a integrar minha autobiografia, na qual venho trabalhando faz tempo, só que on and off:

“No meu quarto aniversário, em 1947, ganhei de Da. Mary Cook Lane, esposa do Rev. Eduardo Lane (Sênior), um livro de histórias, chamado … E Boa Noite, Filhinho. O livro se descreve como “Historietas para os pais contarem aos seus filhinhos na hora de dormir. Para crianças até dez anos de idade”. O livro, que hoje já perdeu a capa, aparentemente pertencia à própria Da. Mary, visto que tem o nome “Mary C. Lane, 1943” (sic), na parte de cima da primeira página. Embaixo, entretanto, tem uma dedicatória para mim: “Para o Oscarzinho — ‘Good Night stories’ from Grandmother Mary. Sept. 1947!’”.

O pessoal estava fazendo o melhor que podia para que eu me desenvolvesse com alguma precocidade. No meu quarto aniversário me dão um livro que serve para crianças de até dez anos. Na dedicatória, minha querida “Dona Meire”, escreve o maior trecho em Inglês – denominando-se minha avó (“Grandmother Mary”). Morro de orgulho que ela assim se considerasse. Eu adorava Dona Meire. O Rev. Eduardo era meio sisudo. Foi assim que minha educação pré-escolar começou: em casa (um exemplo fora de época de home preschooling). Minha mãe era (e sempre foi) uma leitora voraz. Lia tudo que encontrava: romances policiais (Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Perry Mason), livros da chamada Coleção das Moças (coisa meio água com açúcar), e alguns autores favoritos, mais sérios: A. J. Cronin, Pearl S. Buck (Prêmio Nobel de Literatura, missionária presbiteriana na China), Daphne du Maurier, as Irmãs Brontë etc. Registre-se que minha mãe tinha nessa época apenas 23 anos, celebrados exatamente um mês antes de eu completar quatro anos. E adorava contar histórias, as convencionais, como histórias bíblicas, contos de fada (supondo-se que não seja tudo a mesma coisa), e, as melhores, histórias que ela mesma inventava, a melhor das quais era “O Homem que Nunca tinha Visto Nada”. Mas como esta história era inventada por ela, cada vez que ela a contava, saía uma história meio diferente da anterior, e eu, naturalmente, protestava… Nasci um protestante! Meu pai tinha uma boa biblioteca – mas a maioria era de livros teológicos, muitos em Inglês. Nesse contexto, eu aprendi a ler por mim mesmo, com o apoio e a ajuda de meus pais, em especial da minha mãe (que nem normalista era: sua escolaridade chegou até o equivalente ao Ginásio – e, por cima (e aqui vão meus preconceitos), um Ginásio Comercial, profissionalizante, mais ou menos equivalente (mais menos do que mais) ao Fundamental II, como é chamado hoje. Eu devia ter por volta de cinco anos quando aprendi a ler e a escrever. PTL (Praise the Lord!).

Em Dezembro de 1946 ganhei meu único irmão homem, o Flávio, três anos e três meses mais novo do que eu. Em Julho ele comemorou suas Bodas de Ouro. Teria de esperar mais dez anos para ganhar minhas irmãs, Priscila e Eliane, nascidas, respectivamente, em Março de 1957 e Janeiro de 1959, em ambos os casos, em nossa casa, em Santo André. Viajar, para meus pais, se tornou mais complicado, com duas crianças. Minha mãe foi para Campinas para ganhar o meu irmão lá, na casa de minha avó e de minha tia, na Rua José Paulino, 254, bairro Ponte Preta (hoje parte do centro virtual). Meu pai e eu fomos juntos. No dia em que meu irmão nasceu, em casa, foi um rebuliço tão grande que ninguém prestou atenção em mim (porque outro valor, mais alto, se levantava). Resultado: testemunhei a cena do nascimento do meu irmão ficando quietinho, em pé, agarrado na guarda do pé da cama (pezeira?), no melhor assento do teatro, com vista perfeita do espetáculo. . .  Como se pode ver, minha educação acerca dos fatos da vida também foi precoce. Depois de terem me descoberto ali, tarde demais, ninguém da família nunca ousou me dizer que era a cegonha que trazia os bebês… Eu tinha três anos, três meses, e duas semanas, e me lembro da cena perfeitamente. A memória da gente retém aquilo que é essencial.

Em Dezembro de 1947 recebemos, em Marialva, a visita de meus avós maternos, Juca e Gina (José de Campos e Angelina Claro Godoy de Campos), que viajaram de Campinas até Marialva, não sei de que jeito. Provavelmente, de trem. Em Marialva, nesse momento, nós morávamos em uma chacrinha, bem afastada da cidade, rodeada de mato, em uma casa assobradada (em cima era apenas um sótão), que parecia muito com a casa do filme Psycho (Psicose) de 1960, em que Anthony Perkins aterroriza Janet Leigh… Meus avós se assustaram com o lugar em que a menina deles, a filha mais nova, estava morando… Tínhamos cavalos (o principal dos quais era o Galaor), cachorros (o principal dos quais se chamava Pipeau), tínhamos uma grande coleção de galinhas e de pés de café e de mamona. Meu pai tinha duas garruchas em casa e as usava para matar os gambás que vinham roubar os valiosos ovos das galinhas.

Meus avós me trouxeram presentes. Ganhei uma bola (de borracha, não de capotão – eu estava fazendo apenas quatro anos), uma piorra, e um ursinho de pelúcia, chamado Dudu, enviado pela minha tia Alice, que não pode ir nos visitar em Marialva.

Em Janeiro de 1949 nos mudamos mais para longe ainda (tomando São Paulo como o centro do mundo), para Maringá, cidade, então, recém fundada (a data de fundação é 1947). Em Maringá ficamos por três anos. A situação financeira da família melhorou um pouco lá e meu pai comprou, primeiro, uma motocicleta (marca CZK, se não me engano, importada da Tcheco-eslováquia); depois vendeu-a e comprou uma baratinha vermelha Ford 29, também importada – linda de morrer; depois vendeu-a e comprou um Jeep Willys Overland, com capota de aço, também importado. Naquela época tudo que envolvia alguma tecnologia era importado. Aqui no Brasil só produzíamos “commodities”, não produtos manufaturados. Mas, exceto por uma longa viagem de Jeep, ao final de 1951, começo de 1952, as viagens para Campinas, para ver os avós e os tios, ainda eram de trem.

Para ir de Marialva ou Maringá para Campinas, pegávamos a jardineira da Viação Garcia (já existia então), íamos até Apucarana, lá pegávamos o trem da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina até Ourinhos, em Ourinhos nos baldeávamos para a Estrada de Ferro Sorocabana, pegando o lindo trem chamado Expresso Ouro Verde, e vínhamos para São Paulo, onde mudávamos da Estação da Sorocabana para a Estação da Luz, lugar em que pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (antiga São Paulo Railway) até Jundiaí, onde começava a Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Os vagões continuavam os mesmos, mas a locomotiva vermelha da EFSJ era trocada por uma locomotiva azul da CPEF. Agora, tudo eletrificado, desde Ourinhos até Campinas. Não mais Marias Fumaças puxando o trem.

Mas a experiência mesmo, aquela que fica permanentemente na memória, era a cabine-leito do trem: um luxo, para nós. Minha mãe comprava pão, frios, queijo de Minhas meia cura, goiabada etc. e comíamos o tempo todo, exceto pelo pouco tempo em que dormíamos. Parecia que só estávamos ali para comer. Eu dormia na cama de cima do beliche, com meu pai, e meu irmão na cama de baixo, com minha mãe. Lembro-me de que o Expresso Ouro Verde, saía de Ourinhos por volta das 10h da manhã, vindo para São Paulo, e saía de São Paulo, indo para Ourinhos às 22h15, chegando em Ourinhos por volta de 6h30 da manhã. Algumas coisas a gente nunca esquece. Também não me esqueço de que, quando o Chefe do Trem vinha verificar (e picotar) os bilhetes, meu pai me mandava entrar debaixo da cama (de baixo, naturalmente). Eu já devia estar pagando passagem e, evidentemente, não estava. E ele era pastor presbiteriano. Tenho descoberto que pecadilhos assim acontecem nas melhores famílias crentes…

Em Fevereiro de 1952 nós nos mudamos para Santo André – e nossa vida mudou drasticamente. Adeus Expresso Ouro Verde, bem-vindos os trens de subúrbio da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí de Santo André até São Paulo, bem-vindos os trens da Paulista, de São Paulo até Campinas (trocando a locomotiva da Santos Jundiaí pela locomotiva da Paulista em Jundiaí – onde o trem ficava parado por uns 20 minutos para a troca de locomotivas ser feita).

Essa parada de 20 minutos era uma tortura para mim. Eu sempre fui meio estressado, preocupado com o que poderia acontecer de errado com a gente, especialmente com meu pai, que era meio arrojado… Ele, embora gostasse de dizer eu tinha espírito de contradição, ou, quando ele estava bravo, que eu era um espírito de porco, abusava daqueles 20 minutos de parada para agir (que ele me desculpe a ausência) como o próprio espírito de porco. Ele descia do trem – só isso já me preocupava e deixava estressado – para ir comprar sanduíche, pipoca, uva etc. E ficava rodeando a estação até o trem apitar e começar a rolar nos trilhos. Daí ele pegava o último vagão, com o trem já em movimento, e ia andando por dentro do trem até o nosso vagão. Isso me deixava exasperado, imaginando que ele pudesse ter perdido o trem, e que nós viéssemos a ficar sozinhos, apesar de minha mãe me assegurar que ele pegava o último vagão só para fazer graça para os filhos e nos deixar (especialmente a mim) como se fosse uma pilha de nervos…

Depois de passado um: tempo, fomos algumas vezes a Santos (bate volta, ida de manhã, retorno de tardinha), pela Estrada de Ferro Santos Jundiaí. Na primeira vez, fiquei conhecendo o mar, que nunca havia visto. Adorei a viagem, também, especialmente a descida da serra, em Paranapiacaba, que era um distrito de Santo André (acho que ainda é).

A São Paulo, íamos com frequência. Eu me vangloriava de saber o nome de todas as estações em que o trem de subúrbio parava, entre Santo André e a Estação da Luz. Lembro-me até hoje, embora hoje haja novas estações. As daquela época eram Santo André, Utinga, São Caetano do Sul, Tamanduateí (não desde 1952, mas a partir de um certo momento), Ypiranga, Moóca, Brás e Luz. Eu adorava ir para São Paulo de trem de subúrbio. Na Estação do Brás (que era gêmea da Estação Roosevelt, em que se pegava o trem da Estrada de Ferro Central do Brasil para o Rio de Janeiro), havia baldeação para as estações do trem de subúrbio da Zona Leste, e para os trens da Central do Brasil para o Rio de Janeiro, passando por São José dos Campos, Taubaté, Aparecida do Norte, Pindamonhangaba, Cruzeiro etc. Mas nunca peguei um trem da Central. O outro, o trem de subúrbio, sim, para ir até a Vila Formosa, onde moravam uns amigos da família (ela se chamava Nilza – não me lembro do sobrenome), que se tornaram amigos em Lucélia. Uma das filhas do casal havia nascido no mesmo dia, mês e ano que eu – infelizmente, não me lembro do nome também). Lembro-me de que eles moravam bem atrás da Igreja Católica, que possuía um lindo carrilhão.

Em Santo André fiz o Curso Primário, no Grupo Escolar Professor José Augusto de Azevedo Antunes, e o Curso Ginasial (primeiro patamar do Segundo Ciclo), no Colégio Estadual e Escola Normal Dr. Américo Brasiliense. O segundo patamar do Segundo Ciclo era o Curso Colegial, que fiz fora de Santo André (no Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira, SP, que era um colégio interno). Em Santo André, comecei a trabalhar, em Janeiro de 1959, com 15 anos de idade, no Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S/A. Comecei a trabalhar quando estava no início de minha quarta série do Colegial (que cursei à noite, por causa do emprego). Meu segundo emprego, do final de 1959 até Janeiro de 1961, foi na Companhia Swift do Brasil S/A, em Utinga.

Exceto para passeios, nessa época, não precisava tomar usar trens.

Quando, em Fevereiro de 1961, fui cursar o Curso Colegial Clássico, como interno, em Jandira, onde fiquei até Novembro de 1963, quando me formei, usei muito o trem de subúrbio da Sorocabana. Para ir de Santo André até Jandira precisava pegar o trem de subúrbio da Estrada de Ferro Santos Jundiaí, hoje Linha 7, Rubi, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que envolvia as seguintes estações naquela época: Santo André, Utinga, São Caetano do Sul, Ypiranga, Mooca, Brás e Luz. Em São Paulo, saía da Estação da Luz e me dirigia para a Estação Júlio Prestes, da Estrada de Ferro Sorocabana, para pegar o trem de subúrbio em direção de Itapevi (descendo em Jandira). Hoje essa linha é a 8, Diamante, da CPTM. As estações eram as seguintes: Estação Júlio Prestes, Barra Funda, Água Branca, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, Osasco, Quitaúna, Carapicuíba, Barueri e Jandira. Começa aqui a minha nova fase na Sorocabana. Andei muito nesse trem durante esses três anos. Quase todo fim de semana eu usava o trem, ou para ir para casa, em Santo André, ou ir para a casa de meu amigo, colega de turma e de quarto, Jonas Christensen, grande maestro, grande cantor, grande músico, que faleceu muito antes da hora. De vez em quanto íamos ao Teatro Municipal de São Paulo, nos domingos de manhã, o Jonas e eu, para assistirmos aos Concertos Matinais Mercedes Benz, gratuitos. Ou, às vezes, para ir namorar na casa da namorada em São Paulo, porque na escola a gente era proibido de namorar. . . Só olhando e conversando. O resto, verboten.

Enquanto estudava no JMC passei férias trabalhando nas igrejas de Iepê, Assis, Rancharia e Pirapozinho. Todas as cidades na mesma região. Para todas essas cidades ia basicamente de trem da Estrada de Ferro da Sorocabana. De Pirapozinho voltei em vagão leito para São Paulo, creio que em Julho de 1963. A experiência me fez lembrar dos anos em que morávamos no Norte do Paraná e viajávamos no Expresso Ouro Verde. Mas a experiência, em 1963, não teve aquele sabor de novidade e de luxo que as experiências anteriores tiveram. Até porque eu estava sozinho, não podia comentar, conversar, mostrar as paisagens interessantes que começavam a aparecer, quando começava a clarear, na madrugada.

Em 1964 fui estudar no Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Passei lá três anos. Nas férias fui trabalhar em Passos (MG) e Cuiabá (MT). Para Passos fui e voltei de ônibus, mas para Cuiabá, também fui de ônibus, mas na volta, vim de ônibus só até Campo Grande, onde peguei um trem que vinha de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, e me trouxe até Campinas, via Bauru. Só consegui me assentar no trecho de Bauru até Campinas. Passei 36 horas dentro do trem, em geral, em pé, exceto nos intervalos que conseguia um lugar no vagão restaurante para tomar um Guaraná. (Ainda não era viciado em Coca-Cola naquela época). Em algumas férias fiquei em Campinas, trabalhando no Centro Audiovisual Evangélico (CAVE), por indicação da Dona Alzira Valim Ferreira, esposa do Rev. Júlio de Andrade Ferreira, reitor do Seminário. E numa das férias, em 1964, viajei com Dona Alzira para Curitiba para participar de um evento no qual o Rubem Alves foi a principal atração. Conheci-o pessoalmente nessa ocasião – e acabamos nos tornando amigos, e, depois, colegas na UNICAMP, até que ele morreu, em 2014. Cinquenta anos de amizade, da qual eu sinto bastante falta.

Em Fevereiro de 1967 fui estudar em São Leopoldo, RS, mas fui e voltei de ônibus. Em Agosto de 1967 fui para os Estados Unidos, de avião, naturalmente (na ida da PanAm, na volta da Braniff) e lá quase não andei de trem durante os sete anos ininterruptos em que vivi no país. Fiquei lá durante sete anos. Voltei só em 1974, direto para a UNICAMP. Durante parte do período em que eu estava nos Estados Unidos, o Rubem Alves estava lá também, estudando e trabalhando. Foram meus colegas de estudos nos Estados Unidos os Revs. Waldir Berndt, Elias Abrahão, Lemuel Nascimento, Paulo Brasil, Guilhermino Cunha, Samuel Soares. O Elias sei que faleceu. O Waldir e o Guilhermino sei que estão vivos. Quanto ao Lemuel, o Paulo e o Samuel, não sei. Perdi contato. Sou amigo do Jairo Brasil, irmão do Paulo, que estudou comigo no JMC, em Jandira.

Por enquanto, paro a narrativa por aqui. O mais interessante, no tocante aos trens, já passou.

Amanhã vou comemorar em família o completamento dos meus 79 anos e meu ingresso na casa dos 80 anos.

Em Salto, 6 de Setembro de 2022.

Notas

[1] Vou me valer bastante de dados fornecidos para Wikipedia em Português. Para um artigo como este, ela é simplesmente indispensável. Os puristas acadêmicos, que franzem o cenho quando a gente cita a Wikipedia em um artigo, que se lixem. Desculpem o mau jeito de começar. Mas se você não gostou do meu jeito, não gosta de quem usa a Wikipedia para pesquisar e escrever, pode parar de ler. Nós torcemos para times diferentes. É como se fosse. Eu reconheço os defeitos do meu time, falo até mal dele quando estou sozinho (falo comigo mesmo),  mas não gosto de que outros o esculachem. Eu não me ofendo ou magoo se esta for a última frase do artigo que você ler. Numa boa.

[2] Para os dados acerca de Lucélia, vide, em especial, o artigo “Lucélia”, na Wikipedia em Português, no endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucélia. O site oficial da cidade, de responsabilidade da Prefeitura Municipal, está disponível em https://www.lucelia.sp.gov.br/. A cidade é governada no presente quadriênio (2021-2024) por uma prefeita do Partido Verde (PV), Tatiana Guilhermino Tazinazzio.

[3] A Wikipedia em Português assim define a “Alta Paulista”: “A Alta Paulista é uma antiga região ferroviária do estado de São Paulo colonizada em maior escala a partir da primeira metade do século XX, tradicionalmente conhecida como a faixa de terras situada entre o Rio Aguapeí ou Feio e o Rio do Peixe, por onde passava o traçado do Tronco Oeste da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Algumas das cidades da região (de Leste a Oeste) são: Garça, Marília, Tupã, Parapuã, Rinópolis, Osvaldo Cruz, Inúbia Paulista, Lucélia, Adamantina, Pacaembu, Dracena, Panorama (esta às margens do Rio Paraná)”. Mais adiante no artigo, explica-se o que se entende por “Nova Alta Paulista”: “A ferrovia chegou a Tupã em 1941, de onde avançou somente a partir de 1949, pelas terras que por tal motivo têm sido doravante conhecidas como ‘Nova Alta Paulista’.” [Ênfases acrescentadas.] Lucélia é considerada a primeira estação da “Nova Alta Paulista” (primeira talvez no tempo, não no ordenamento geográfico), provavelmente porque sua Estação de Trem foi a primeira a ser construída e inaugurada depois dos oito a nove anos de hiato nas inaugurações, entre 1941 e 1949. Vide https://pt.wikipedia.org/wiki/Alta_Paulista.

[4] Vide https://www.lucelia.sp.gov.br/cidade.

[5] Vide, a esse respeito, em especial, a página “História do Município”, seção “Comarca de Lucélia”,  no site oficial da cidade, na parte dedicada à Câmara Municipal, no endereço https://www.lucelia.sp.gov.br/cidade. Por alguma razão não explicada, essa página também pode ser alcançada ou encontrada através de um outro endereço, a saber, https://camaralucelia.sp.gov.br/?pag=T1RVPU9EZz1PV0k9T1RrPU9UUT0=&&id=3.

[6] Encontrei toda essa informação sobre a fundação da cidade na área dedicada à Câmara Municipal de Lucélia, na página “História do Município”, no site official da cidade, op.cit. A contribuição para a matéria feita pelo historiador José Carlos Daltozo (meu amigo, residente em Martinópolis) e pelo jornalista Marcos Vazniac, da imprensa local, é mencionada, com agradecimento.

[7] Vide a página “Estação Ferroviária de Lucélia” no site “Nossa Lucélia”, no endereço http://www.nossalucelia.com.br/fepasa.html.

[8] Provavelmente a data dessa minha primeira viagem, um mês e doze dias (42 dias) após o meu nascimento, se explique em função do costume, vigente então, de que mulheres que tivessem tido bebê mantivessem um “resguardo”, ou uma chamada “dieta”, de quarenta dias, em que geralmente nem sequer saíam de casa.

[9] Esse documento, escrito à medida em que se davam os acontecimentos, ficou em minha posse depois do falecimento do meu pai. Minha história foi registrada em uma pequena caderneta de anotações e cobre meus primeiros dois anos de vida. O documento segue a grafia vigente à época.

[10] Vide o artigo “Companhia Paulista de Estradas de Ferro”, na Wikipedia em Português, disponível no endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Paulista_de_Estradas_de_Ferro, e o artigo complementar, detalhando parte do anterior, “Linha Tronco Oeste (Companhia Paulista de Estradas de Ferro)”, disponível no endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_Tronco_Oeste_(Companhia_Paulista_de_Estradas_de_Ferro).

[11] A referência velada aqui é ao importante livro (coletânea de artigos) de Karl Popper, Conjectures and Refutations, publicado em 1963, que afirma que a ciência progride através de conjeturas refutáveis e de sua refutação, não pela acumulação de dados…



Categories: Estrada de Ferro, Liberalism, Lucélia

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