Por que Sou Libertário?

No Facebook, uma ex-aluna e até hoje amiga, Márcia Howard, me perguntou, publicamente (o que me dá o direito de citá-la), por que não podemos lutar pela “igualdade social”.

A mensagem dela por inteiro foi:

“Professor Eduardo, você é filósofo, educador, e historiador. Explique-me o porquê da raiva à chamada ‘esquerda’. Por que não podemos lutar por igualdade social?

Não gosto do PT, tampouco de Lula. Mas, entregar nosso país a interesses dos EUA não parece ser uma boa estratégia.

Você poderia também comentar sobre como a Doutrina Monroe afetou e afeta os países latino-americanos?

✨️ Obrigada

Márcia Howard“

A minha ex-aluna deve ter concluído que eu sou “de direita” e presumiu que tenho “raiva à chamada esquerda”. Daí saltou para a conclusão de que eu acho que não podemos lugar por igualdade social. No que me parece ser um non sequitur, ela inferiu que eu seja a favor de “entregar nosso país a interesses dos EUA” — algo que ela não considera uma boa estratégia. Por fim, pede que eu comente a chamada “Doutrina Monroe”.

Passo a responder à Márcia.

18 Outubro de 2026

Márcia Howard:

Este artigo é minha resposta a você. Ele explica, sucintamente, muita coisa.

Ele esclarece, por exemplo, entre outras coisas, que:

1. Eu sou libertário, defensor da liberdade, não da desigualdade social.

2. Por isso, sendo defensor da liberdade, não sou posso ser defensor da “igualdade social”, se por essa expressão se entende a “igualdade social, econômica, cultural”. Este tipo de igualdade é impossível de alcançar sem sacrificar a liberdade. Isto está mais do que provado.

3. Sou favorável à igualdade diante da lei, à igualdade formal, que postula que todos devem ser tratados, pela lei, e, por conseguinte, pelo governo, de forma igualitária, sem privilégios e favorecimentos, quaisquer que sejam, e acredito que nós, como seres humanos e cidadãos, devemos tratar a todos com (esse tipo de) igualdade, isto é com a dignidade de que todos os seres humanos, e com o respeito de que todos os cidadãos, são merecedores.

4. Não me considero “de direita”, embora defenda muitos dos valores chamados ‘de direita’: considero a vida humana importante, a família, os direitos individuais (a liberdade, de pensar e expressar o pensamento, de ir e vir, de viver em grupos sociais pacíficos, inclusive de natureza religiosa, de ter direito de manter e fazer o que eu quiser com o dinheiro que ganho e as coisas que compre com ele, etc.). Tudo isso é valor de direita que eu aceito.

5. Mas há valores considerados por muitos como sendo “de direita” com os quais não comungo. Acho que um indivíduo tem direito de se matar (cometer suicídio), se veio a concluir que sua vida se tornou insuportável. Se tem esse direito maior de pôr fim à própria vida, tem o direito (menor) de fazer o que quiser com ela (a própria vida), desde que respeite as leis que protegem, entre outras coisas, a vida dos outros. Ninguém pode ‘cometer o suicídio do outro’, que é um absurdo. A meu ver, ele (supondo que se trate de um homem) pode viver conjugalmente com alguém do mesmo sexo, isto é, com outro homem; pode, se desejar, trocar de sexo (na medida em que isso for possível), e dizer que é mulher-trans. Pode até tentar convencer outros adultos a fazerem a mesma coisa que ele, trocando de sexo. Mas não pode, por exemplo, se for professor, e estiver em sala de aula, na escola, defender essas ideias junto aos alunos, menores de idade; nem pode, se trocou de sexo (e agora se considera mulher-trans), exigir, na área pública, que o resto do mundo o trate pela sexo que ele escolheu adotar, e não pelo sexo biológico que tinha ao nascer. Se alguém quiser respeitar a decisão dele, que o faça, mas ninguém pode ser obrigado a fazer isso, sob pena de cometer um crime… Isso é um acinte.

6. Achei o máximo um vídeo que vi em que dois marmanjos, enormes, musculosos, barbudos, parecidos com jogadores de futebol americano, mas vestidos de mulheres, com trancinhas, etc., argumentar que de fato são mulheres (‘mulheres-trans’), mas (!) fazendo a ressalva de que são “mulheres-trans-lésbicas“, porque o que eles gostam mesmo de fazer é transar é com mulher… Estão certo eles… 🙂

Enfim: vamos ao que importa.

A chamada “igualdade social” é um mito que não envolve apenas essa tese. A igualdade social nunca existiu em nenhum momento da história e em nenhum lugar da geografia. Você é mulher, eu sou homem. Sou bem mais velho do que você. Somos filhos de pais diferentes. Nossos caminhos se cruzaram na UNICAMP nos anos 1980-1983, quando você fazia o Curso de Pedagogia. Eu era o diretor da Faculdade de Educação na época. Antes disso você fez o Colégio Técnico da UNICAMP, de 1975 a 1978. Eu fiz o Ensino Médio Humanista (Curso Clássico) de 1961 a 1963, em um colégio interno protestante (presbiteriano), o Instituto José Manuel da Conceição. De 1967 a 1974 vivi nos Estados Unidos, onde fiz o Mestrado e o Doutorado. Você eventualmente foi parar lá também.

Apesar de todos os pontos de contato, é impossível que sejamos iguais — biologicamente, psicologicamente, socialmente, politicamente, economicamente, culturalmente somos diferentes. Somos amigos, mas somos diferentes. Cada um de nós é único, em quase todos os sentidos. Sou liberal (algo que hoje chamo de libertário) desde 1966. Para mim o maior valor ético e político é a liberdade, não a igualdade social. O que é bom, porque a igualdade social, como a caracterizei atrás, é inalcançável. Nascemos diferentes um do outro, crescemos diferentes um do outro, morremos diferentes um do outro. Dizem os cristãos conservadores que até no céu teremos diferenças: uns terão mais “galardões” do que os outros.

Você me pergunta “por que não podemos lutar por igualdade social?” A minha resposta é que, em uma sociedade livre (liberal, libertária), podemos lutar, se quisermos, pela igualdade social. Mas a luta será uma luta inglória, se imaginarmos que ela implica a igualdade social, econômica, cultural. Igualdade formal, diante da lei, por outro lado, é perfeitamente possível e muitos países a tem alcançado.

Mas a igualdade social, econômica, cultural quem é que vai promovê-la? Ou é cada um por si, se desejarmos, lutando para eliminar as diferenças sociais, econômicas, culturais, recorrendo a guerrilhas, guerra civil, etc., ou, então, é delegando ao estado que a busque e conquiste por nós. Por isso todo, socialista, comunista, ou assemelhado, é estatista.

Mas o estado não gera riqueza. Como pode ele promover igualdade social? Para promover a igualdade social, econômica e cultural ele tem de tirar de uns para dar para outros, para nivelar (equalizar) a sociedade. Não tem outra alternativa, além da revolução. E em ambos os casos a liberdade é desprezada.

Por quê? Porque o nivelamento é por baixo: a gente consegue igualdade na pobreza, não na riqueza. Como em Cuba.

Nós, no Brasil, um pelo outro, pagamos ao estado cerca de metade de nossa renda, na multidão de impostos diretos e indiretos, visíveis ou embutidos e escondidos em taxas, pedágios, emolumentos diversos. Em quase 30 anos de governos socialista (FHC, Lula, Dilma, Lula de novo, tirado da cadeia) será que foi feito algum progresso real na direção de igualdade social, será que o pobre ficou menos pobre, mais igual ao rico? É questionável. O Lula, sim, ele ficou biliardário e, com ele, uma “tropa de choque”, os seus cupinchas, porque eles estavam no poder e roubaram tudo o que puderam. O Lula é ladrão, o Ali-Babá, que vem acompanhado pelo filho dele, que também é ladrão, pelo irmão padre, que também é ladrão, por assessores, que também levam o seu, etc. Há provas disso. O resto é sonho de socialista.

Você diz, em sua mensagem, que “entregar nosso país a interesses dos EUA não parece ser uma boa estratégia”. Pergunto eu: você protestou quando, na eleição de 2022, o Brasil entregou o seu destino aos EUA, através de acordos com o Governo Biden, com a USAID, para impedir o Bolsonaro de ganhar — e ele de fato ganhou, há provas, só não levou. Só um cego não enxerga isso — e pior cego é o que não quer ver. Você protestou quando, neste último governo, o Lula entregou o destino do nosso país à China e a Rússia?

E quem diz que o Flávio Bolsonaro, se ganhar, vai entregar o nosso país aos interesses americanos? Ele vai realinhar a política econômica ao novo bloco que se formou nas Américas, especialmente envolvendo a América do Sul. Nós não escolhemos estar nas Américas. É destino nosso. Eu gostaria de ter nascido na Suiça, mas o que adianta querer? Nasci aqui é aqui que eu vou viver. Mas vamos nos alinhar com a China e a Rússia, em vez de com os países das Américas? É loucura fazer isso.

Enfim, a Doutrina Monroe, que vem sendo praticada, a partir do presidente James Monroe, em 2 de dezembro de 1823, às vezes mais, às vezes menos, que postula que as Américas pertencem aos americanos, e os EUA prometem ajudar quem estiver sendo atacado por um país não americano. Lutamos ao lado dos americanos na Segunda Guerra. Ajudamos os Estados Unidos e a Inglaterra ganhar a guerra (pela segunda vez). Custamos a nos definir, no governo do Getúlio, mas nos definimos.

Depois da Segunda Guerra, Cuba se desalinhou, e deu no que deu. Custou para ficar óbvio, mas a aventura comunista de Cuba foi um fracasso — se bem que, em certo sentido deu certo: Cuba quase alcançou a igualdade social total: todo mundo é miserável, exceto os Castro e os demais governantes. No momento atual, na América do Sul, só o Brasil está desalinhado, insistindo em apoiar a “soberania” de Cuba. O Uruguai tem uma postura diferenciada, mas vai se alinhar. Teve um presidente socialista que era um modelo, o Pepe Mujica — um dos poucos socialistas que eu admirei. Nunca roubou nada, morava num sitiozinho pobre, andava de chinelo de dedos, dirigia um fusquinha cinquentenário. Fantástico. Mas ele morreu. Seu sucessor não é igual a ele, mas ficaram algumas influências. E o que fará um país pequeno, no sul das Américas, sendo socialista, se Bolsonaro ganhar a eleição, e o Uruguai for o único país socialista no continente?

Você ressalta que eu sou três coisas: filósofo, historiador e educador. (A ordem certa dos três é esta). Filosoficamente, eu sou libertário (tem um artigo recente meu sobre isso aqui no Facebook). Foi pensando como filósofo, que também estuda a história, e frequentemente escreve como historiador, que eu resolvi ser educador. Mas hoje voltei para a educação de Sócrates, e hoje defendo a desescolarização da educação, a começar pela educação dita pública, que, aqui no Brasil do PT, não passa de doutrinação marxista-socialista da mais vagabunda, que deveria ser proibida na escola. A educação, daqui para frente, vai ser basicamente não-formal e viabilizada pelas tecnologias de informação e comunicação.

Voltando aos EUA… Apesar de os EUA terem tido, da Segunda Guerra em diante, governos democratas (em contrapartida a republicanos), que se rotulam de liberais, esses governos são na verdade socialistas, eles perderam totalmente as raízes firmes no libertarianismo que os republicanos tinham no liberalismo clássico que está na base e nos fundamentos da nação americana, em sua Declaração de Independência e em sua Constituição original, incluindo a Carta de Direitos. O Trump está trazendo o país de volta para o seu destino libertário. Foi ela que tornou os EUA o país mais forte do mundo, em quase todos os aspectos positivos. E eu, não só por posicionamento geopolítico, mas por preferência filosófica (ética), e por conhecer bem a história do país, sou totalmente favorável ao papel que o Trump vem exercendo neste seu segundo mandato.

Por um tempo parecia que, nas Américas, Trump era um pássaro solitário de topete alaranjado. Mas, de repente, em dois anos de governo dele, no segundo mandato, a América do Sul deu uma virada e lhe forneceu um apoio de 15 governos, que endossaram o “Escudo das Américas”. Graças a Deus, mas Deus agiu por intermédio do Trump (e do Marco Antonio Rúbio…).

E, aqui no Brasil, voto para o Bolsonaro, certo de que ele vai estar alinhado com o Trump (e, não desprezível, também com Israel, não com o Hezbollah, nem com o Hamas, nem com o Houthis, para não falar no Iran). E você se esqueceu de listar uma outra coisa que eu sou: também sou teólogo — religioso, nem tanto, mas de teologia eu entendo bem…

E, para terminar, quero continuar ser seu amigo, Márcia. Leia Ayn Rand, Atlas Shrugged, que você vai me entender melhor. Quem sabe você não gosta dela?

Um abraço.

Eduardo



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