Eu Sou um Libertário: Não Sou de Direita nem, muito menos, de Extrema Direita; mas Estou muito mais longe de Ser de Esquerda, ainda que Light

Vou votar no Flávio Bolsonaro. Isto é equivalente a me declarar de direita, ou, pior, de extrema direita? Isto é equivalente a me declarar um conservador, ou, pior, um conservador radical?

Ninguém me conhece melhor do que eu próprio, e eu posso garantir a você, meu leitor, que não sou nem de direita, nem conservador, muito menos de extrema direita, nem um conservador radical. 

Antigamente eu me rotulava de liberal. Depois passei a me rotular de liberal clássico. Hoje me rotulo de libertário.

Esses três rótulos carregam em si a referência à liberdade. Sou favorável a uma forma ou sistema de governo que proporcione aos cidadãos o máximo de liberdade possível – que é a liberdade que pode ser desfrutada por todos. E entendo a liberdade, de uma forma negativa: ser livre é não ser coagido (é estar livre de coação) por terceiros, sejam esses terceiros indivíduos, grupos, governos, ou o próprio estado. 

A razão pela qual evoluí na forma de rotular é que termos se desgastam, e, hoje, em dia, especialmente nos Estados Unidos, e essa tendência progride cada vez mais, um liberal é um esquerdista, defensor de idéias socialistas, proponente de um governo cada vez mais cheio de funções, porque a função do estado, através do governo, não é mais garantir aos cidadãos a maior liberdade possível, mas, sim, restringir a sua liberdade, para que seja alcançada a maior igualdade possível – em todos os planos: econômico, social, cultural, etc. E como nenhum governo tem varinha de condão para fazer todo mundo igualmente rico, esses esquerdistas tentam tornar os ricos pouco a pouco menos ricos, impondo regulamentações de suas atividades e taxação sobre os seus rendimentos. Se não é possível fazer todo mundo igualmente rico, façamos todo mundo igualmente pobre. 

Os esquerdistas, que defendem a tese de que a função do governo é equalizar todo mundo, se abrigam todos, hoje, debaixo das asas do Partido Democrata, que, nos últimos sessenta e poucos anos, foi o partido dos seguintes presidentes: John Kennedy, Lyndon Johnson, Jimmy Carter, Bill Clinton, Barack Obama, e Joseph Biden. No plano global, essa turma toda busca algo equivalente a um governo global, que buscaria os mesmos objetivos no plano do planeta, e não apenas dos continentes, das regiões e das nações.

Os antiesquerdistas se aninham, tanto quanto possível, no Partido Republicano, que, da data de 1968 para cá, fizeram os seguintes presidentes dos Estados Unidos: Richard Nixon, Gerald Ford, Ronald Reagan, George Bush (pai), George Bush (filho), e Donald Trump (o atual presidente).

Até o século 20, década de 30, não havia grandes diferenças entre os dois partidos americanos, exceto que os republicanos eram mais conservadores (e sua cor era vermelha) e os democratas eram mais progressistas (e sua cor era azul). 

Depois da Primeira Guerra houve uma crise econômica nos Estados Unidos, no final da década de 20, que levou ao governo o democrata Franklin Roosevelt, que, uma vez eleito, veio a ser reeleito mais três vezes. Seus quatro mandatos começaram em 1933, 1937, 1941, e 1945 – mas no último caso só governou três meses, pois morreu e veio a ser substituído pelo seu vice, Harry Truman, que acabou sendo reeleito em 1949, governando até 1953.

Durante a crise econômica (a Grande Depressão) e durante toda a guerra, governou Roosevelt, que mudou drasticamente a cara do seu partido, o Democrata, pois reivindicou para o Governo Federal poderes que ele não tinha, mas que, segundo ele, eram necessários em uma época de crise econômica e um tempo de guerra (a Segunda Guerra Mundial). Sua gestão, de incríveis doze anos e pouco, fez do partido Democrata um partido de Esquerda, pois cresceu e meteu o seu bedelho em tudo o que é área da economia, e até na área social e cultural. E o Partido Democrata insistiu, contra a realidade, que estava fazendo nada mais, nada menos, do que levar adiante o Liberalismo dos Pais da Nação. Foi essa distorção que fez com que, nos Estados Unidos, e em nenhum outro lugar, ser democrata era ser liberal, mas um liberal que era defensor de um estado gigantesco que metesse o bedelho em tudo, o que fez com que, lá, ser democrata era equivalente a ser esquerdista.

Durante esse tempo, o Partido Republicano, que era liberal, perdeu o uso desse rótulo, se qualificando como conservador e apelando para um eleitorado (lá chamado de “constituency“) cada vez mais religioso. 

Isso fez com que o Partido Democrata se tornasse (no seu próprio entender) progressista e esquerdista, e o Partido Republicado se tornasse (também no seu próprio entender) conservador e, por contraste, direitista. 

O que eu faço, num contexto assim, em que não sou progressista nem esquerdista, mas também não sou nem conservador, nem direitista, muito menos religioso, no sentido que esses termos normalmente possuem (sou um estudioso da religião, isto sim, mas isto é outra coisa). 

A saída foi me designar, por um tempo, como “Liberal Clássico”, que queria dizer um liberal da linha de Locke, Hume, Adam Smith, meio John Stuart Mill, etc. Essa a linha de Ayn Rand, defensora do “Governo Mínimo”.

Mas, eventualmente, surgiu um termo melhor, proposto por Murray Newton Rothbard: “Libertário”. Rothbard era tão radical na defesa da liberdade que chegou a se designar “Anarquista”: o governo que ele advogava era tão “Mais do que Mínimo”, que beirava um poder quase desnecessário – daí o rótulo de Anarquista. 

É nesse ponto que me situo: sou libertário, porque defendo a maior liberdade possível. Mas há momentos em que é preciso que haja leis que me defendam, não só dos meus concidadãos, mas dos governantes. Hoje, no Brasil, temos o crime organizado, mas o governo brasileiro, no momento, oferece um perigo quase tão grande quanto o do crime organizado, que lhe faz parceria. 

Mas não sou conservador, nem de direita, muito menos de direita radical. Não há nada na chamada pauta dos costumes que eu critique. O indivíduo quer ser gay, bissexual, trans, poligâmico, ponha lá quantas letrinhas quiser, que seja… Mas não tente colocar isso na pauta do governo e das escolas que o governo dirige. Sou contrário a escola pública. Na verdade, sou contrário à escola obrigatória, seja ela pública ou privada. No tocante à religião, me considero um deísta e aceito uma boa parcela dos ensinamentos de Jesus. Mas não sou membro de nenhuma religião, igreja, seita, o que seja – embora já tenha sido. 

Quanto à eleição em meio à qual nos situamos aqui no Brasil, sou Flávio Bolsonaro, mas seria Tarcísio com a mesma facilidade. Eu claramente não sou Lula, porque é um imprestável, corrupto, condenado, mas também não sou PT, PSOL, PSDB, PMBD, etc. E sei que no PL tem gente que não presta. Por isso, não tenho partido nem jamais fui filiado a algum. E ser político seria a última profissão que eu teria na vida. 

Está respondida a pergunta do início? 

Aqui no Brasil, entre Lula e Flávio Bolsonaro não há comparação. Flávio fará, espero, o que o pai dele não fez, porque foi roubada a eleição. 

Na política americana (dos Estados Unidos) apoio o Trump, o Marco Antonio Rubio, e outros que acompanham o Trump. Eles estão revertendo o que o Franklin Roosevelt fez. E adorei que a primeira coisa que eles acabaram tenha sido a USAID.  

Na literatura de Filosofia Política, gosto de ler Ayn Rand, Murray Rothbard, Friedrich von Hayek, Brian Doherty, Lyle S. Rossiter, Kim Holmes, etc.

É isso.

Salto, 12 de Outubro de 2026

Eduardo CHAVES

Post Scriptum 1

No dia 23 de junho de 2026 eu escrevi a resenha abaixo sobre o livro de Helena Rosenblatt, The Lost History of Liberalism: From Ancient Rome to the Twenty-First Century e a publiquei no site da Amazon. Minha resenha, escrita em Inglês, tem o seguinte título: “What Rosenblatt Considers Liberalism is Mostly Fake Liberalism”, e nela eu defendo a tese de que aquilo que Rosenblatt considera liberalismo é, em grande parte, um liberalismo falso (fake liberalism).

Eis a resenha.

Primeiramente, quero agradecer a C. Puplick — autor da obra magistral Liberal Thinking: A Contemporary Statement of Liberal Philosophy, publicada em 1980 e, infelizmente, atualmente fora de catálogo — por sua resenha neste site. Em minha opinião, sua resenha segue, em grande medida, a direção correta e me inspirou a escrever a minha.

Para quem não o conhece, Puplick (nome completo: Christopher John Guelph Puplick) é um ex-político australiano (embora nascido na Inglaterra, em 1948), que continua firme e forte… Ele foi membro do Senado australiano no final da década de 1970 e durante toda a década de 1980. Depois, a Austrália optou por seguir uma direção política diferente (iliberal) e ele não foi reeleito — o que foi uma pena (para a Austrália), na minha opinião.

A seguir, farei uma crítica leve à resenha de Puplick, tentarei esclarecer por que eu — assim como Puplick, mas por razões diferentes — não concordo com a tese principal do livro de Helena Rosenblatt e, finalmente, explicarei por que atribuo cinco estrelas ao livro dela nesta avaliação, apesar de discordar categoricamente de sua compreensão do liberalismo e da tese central da obra.

PRIMEIRO:

Minha principal discordância em relação a Puplick tem duas vertentes:

(a) por um lado, diz respeito à sua observação de que Rosenblatt “não percebe a distinção sutil, porém crucial, entre liberalismo e libertarianismo”; e

(b) por outro lado, refere-se à sua afirmação de que “é este último [o libertarianismo] que deve suas origens às Revoluções Francesa e Americana e que se manifesta agora [à época de sua resenha, 2019, ou talvez um pouco antes] nos movimentos dos Coletes Amarelos e do Tea Party”.

Quanto ao ponto (a), na minha opinião, Rosenblatt não deixa de perceber a distinção entre liberalismo e libertarianismo. O que ela faz é tomar sua visão de liberalismo — basicamente o liberalismo do New Deal de Franklin D Roosevelt, que se tornou a principal plataforma política do Partido Democrata nos EUA até hoje — como o paradigma para analisar toda a história do liberalismo.

Essa versão americana do liberalismo do século XX é uma denominação equivocada, proposta pelos democratas americanos. Certamente, ela não tem suas raízes nos Pais Fundadores da Revolução Americana e dos EUA, nem em seus antecedentes britânicos (principalmente John Locke e Adam Smith).

É razoável sugerir que as raízes desse “Fake Liberalism” estejam em várias iniciativas socialistas europeias do século XIX (incluindo o socialismo fabiano na Grã-Bretanha). Os libertários americanos mencionados por Puplick tentaram resgatar o liberalismo (clássico!) dos Pais Fundadores (e de Locke e Smith) E radicalizá-lo a ponto de transformá-lo quase em uma forma de liberalismo anárquico ou anarquismo liberal — e fizeram isso para impedir o crescimento do “liberalismo”, entre aspas, do Partido Democrata americano.

Quanto ao ponto (b), não é o movimento libertário surgido em torno da iniciativa do Tea Party que deve suas origens à Revolução Francesa, mas sim o “liberalismo” do Partido Democrata. (Aliás, Puplick parece considerar que a Revolução Francesa tinha a mesma natureza ideológica e a mesma base teórica que a Revolução Americana; se ele realmente pensa assim, acredito que esteja enganado, mas essa é outra questão.)

SEGUNDO:

A meu ver, o que Helena Rosenblatt tenta fazer em seu livro não é uma reconstrução “revisionista” do liberalismo perene (liberalismo clássico, para aqueles que preferem usar essa expressão). Ela tenta apresentar como o “liberalismo real e verdadeiro” aquilo que, na verdade, é um “liberalismo falsificado” ou “liberalismo de fachada” — a saber, a ideologia da Revolução Francesa (e não da Revolução Americana), e essa ideologia que ele considera como o liberalismo “real e verdadeiro” está muito mais próxima do pensamento do atual Partido Democrata dos EUA (e das posições da Organização das Nações Unidas) do que do pensamento dos Pais Fundadores e de Locke, Smith (e, devo acrescentar, David Hume, sobre quem escrevi minha tese de doutorado entre 1970 e 1972 na Universidade de Pittsburgh). Essa é a minha principal crítica a Helena Rosenblatt.

TERCEIRO:

Por que atribuo cinco estrelas ao livro de Rosenblatt, mesmo discordando totalmente de sua tese principal? Porque é um bom trabalho acadêmico, bastante informativo e agradável de ler, ainda que sua tese principal esteja, a meu ver, equivocada. E, afinal, porque sou um liberal clássico capaz de apreciar um bom livro, mesmo discordando totalmente de sua tese central.

Vale muito a pena ler a obra — desde que se faça isso de forma crítica.

Salto, SP, Brasil, 23 de junho de 2026

Eduardo Chaves

Post Scriptum 2

Reencontrei hoje, 12.Out.2026, um livro que tem um Post Scriptum que se casa bem com este artigo. Trata-se de The Constitution of Liberty (em Português, Os Fundamentos da Liberdade), de Friedrich A. Hayek. O livro trata da liberdade. E o Post Scriptum tem o seguinte título: “Why I Am Not a Conservative” (“Por Que Não Sou um Conservador”).

Hoje em dia, quem defende a liberdade, em vez da igualdade, em geral é conservador e de direita. Eu, como von Hayek, defendo ardorosamente a liberdade, mas não sou nem conservador nem de direita. Aos que possam estar interessados na lógica desses conceitos, sugiro que leiam esse Post Scriptum (chamado de Posfácio na edição brasileira).

Faz tempo que isso acontece. John Stuart Mill, mencionado na Nota 1 do Pósfácio, conhecimento liberal clássico do século 19, diz o seguinte: “Quase todos os projetos dos reformadores sociais de hoje são realmente liberticidas.” Por casa disso, os libertários (bem como os liberais clássicos), ao combatê-los, se vêem do mesmo lado de conservadores e pessoas de direita. A aliança é compreensível. Diante de um liberticida, a opção de se aliar a um conservador ou a uma pessoa de direita é natural. Recomendo a leitura desse Posfácio — e de todo o livro de von Hayek.

Salto, SP, Brasil, 12 de Outubro de 2026

Eduardo Chaves



Categories: Liberalism

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