NOTA: Cada um tem suas manias e seus vícios. Eu não sou exceção a essa regra. Tenho uma quantidade enorme delas (manias) e um número bastante menor deles (vícios). Na minha forma de entender, uma mania é um comportamento, ou um hábito, que a gente faz ou pratica porque gosta, porque sente prazer na coisa, enquanto um vício é um comportamento, ou um hábito, que a gente faz ou pratica, não porque necessariamente gosta, mas porque se tornou, por alguma razão, por costume ou natureza, vítima dele. Fumar geralmente um vício. Poucas pessoas fumam por prazer, porque gostam da sensação de ver uma fumacinha saindo por suas narinas. Muitas pessoas sabem que fumar faz mal a saúde, vão a médico, tentam, de várias formas e maneiras, largar a coisa, e não conseguem. Ou conseguem, por um tempo, mas têm uma recaída, voltam a fumar. Em síntese, eu diria que a diferença filosófica mais interessante entre uma mania e um vício é esta:
- Na mania, a pessoa costuma fazer a coisa porque gosta, porque sente prazer em praticá-la, não sente que a sua liberdade está sendo tolhida ao praticá-la.
- No vício, a pessoa costuma fazer a coisa, porque não consegue deixá-la, porque sente que precisa fazer aquilo, mesmo que o resultado a longo prazo seja o pior possível: a morte.
A mania, assim, é predominantemente uma questão de preferência: nós temos a mania, enquanto o vício é, predominantemente, uma questão de dependência, de perda de liberdade: o vício nos tem, ele manda em nós.
Eu fumei dos 22 aos 40 anos. Não me lembro do dia em que fumei o primeiro cigarro, mas me lembro de que não foi algo prazeroso. Mas lembro-me perfeitamente do dia em que deixei de fumar definitivamente: foi no dia em que completei 40 anos, 7 de setembro de 1983. Antes tinha tentado deixar de fumar várias vezes, mas voltei. Mas nesse dia, foi uma decisão definitiva: nunca mais pus um cigarro (um charuto, um cachimbo) na boca.
Colecionar livros é um vício que eu tenho. Hoje eu tenho perto de 50 mil livros, entre os impressos e os digitais (ebooks). E já publiquei mais de 30 livros, de minha própria autoria, de uma forma ou de outra (mimeografados, impressos ou digitais — incluindo os PDFs). Minha principal empresa, cujo nome fantasia é Mindware Education – Editora. Um dia desses, neste ano de 2026, li, pela primeira vez, um livro que comprei em 1967, quando cheguei aos Estados Unidos, quase sessenta anos antes. E continuo comprando livros, que eu sei que provavelmente nunca vou conseguir ler, por estar vivendo meu octogésimo quarto ano… Não vai sobrar tempo para ler tudo… (Irrita-me um bocado quando alguém visita minha biblioteca e pergunta: “O senhor já leu tudo?” (Um viciado em livros é um bibliotecário. Ele não precisa ter lido todos os livros da sua Biblioteca: basta que ele saiba o que tem nela e como encontrá-lo, em caso de necessidade…)
Escrever artigos (de vários tamanhos: curtos, médios e longos, quase livros), criar blogs para colecioná-los, e adquirir ou criar domínios da Internet para disponibilizá-los na Internet, é uma mania que tenho. Tenho milhares de artigos, tenho mais de 50 blogs (uns com mais de mil artigos, outros com bem poucos), e já cheguei a ter mais de 500 domínios na Internet. Aqui a coisa fica cara, incluindo tanto o custo da anualidade do registro como a hospedagem dos domínios e dos blogs. Hoje tenho um pouco mais de 100 domínios, a maioria absoluta nos Estados Unidos, em diversas companhias, mas cerca de quinze deles no Brasil, no REGISTRO.BR. Um desafio meu é, ao morrer, deixar algo perto de 50 deles. E os meus blogs estão todos hospedados na WordPress, depois que a Microsoft, em 2011, vendeu o seu Microsoft Space, criado em 2004, onde criei o Liberal Space, meu primeiro blog para valer, mais de mil artigos, para a WordPress. Mas meu primeiro blog foi criado em 2002 no Blogger (Blogspot).
Entre os meus blogs mais importantes, e mais visitados, ocasionalmente, e seguidos, com regularidade, está o meu blog sobre o RUBEM ALVES. O título dele é “Rubem Alves: Teólogo, Filósofo e Educador”, e ele fica hospedado no endereço “rubemalves.com” (que fui rápido o suficiente para registrar). Além disso, tenho uma Página, no Facebook, “A Tribute to Rubem Alves”, no endereço “https://www.facebook.com/rev.rubem.alves/”. O “rev.” é para encher o saco da Igreja Presbiteriana do Brasil. Eles podem “despojar” (“desordenar”) alguém do ministério, mas não podem mudar os fatos. O Rubem era, acima de tudo, um pastor — meio irreverente, é verdade, mas um pastor. Ele deu a dica quando, em um artigo, que eu descobri e publiquei no blog, explica: “sou, porque fui”. A Igreja Católica apontou o caminho: a ordenação (bem como o batismo e a confirmação) imprimem no destinatário um “character indelebilis“.
O artigo abaixo é a apresentação que eu faço do blog do Rubem. Por isso, toda essa explicação.
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Este Blog: “Rubem Alves: Teólogo, Filósofo e Educador”
Escrevo em 1º de Janeiro de 2020.
Minha maior realização neste fim de 2019, início de 2020, foi criar este blog para / sobre o Rubem Alves e registrar o domínio rubemalves.com na Internet, que, a partir de agora, remete para cá.
Criar um blog para e sobre o Rubem Alves é o meu jeito de mantê-lo vivo como teólogo sério, filósofo sério, e educador sério, que foi, e de mantê-lo como meu amigo querido do coração que ele é (o maior, ao lado de Aharon Sapsezian, que também era amigo dele, a quem ele me apresentou).
Rubem Alves não foi apenas um acadêmico alternativo, ou apenas um escritor de crônicas, para adultos, e obras de literatura infantil, para crianças, as de fato e as eternas. Essas suas obras são magníficas, mas foram escritas por força das circunstâncias, não como expressão de sua essência pessoal. Rubem Alves também não foi apenas um palestrante genial que levantava a galera, e que a fazia rir ou se emocionar, ao seu bel-prazer.
A paixão do Rubem Alves era a liberdade.
Sua paixão era um mundo sem gaiolas, reais ou do pensamento, um mundo sem dogmas e, por conseguinte, sem dogmatismos, um mundo em que, não havendo dogmatismos, a intolerância é improvável, um mundo em que podemos ir para onde o espírito nos leva, literal ou metaforicamente, andando ou voando como pássaros, sem que um comissário qualquer nos bloqueie o caminho, pedindo que mostremos nosso passaporte e nosso visto, ou o nosso laissez-passer, ou nossa “carteirinha de afiliados ao Partido”…
O mundo do Rubem Alves é um mundo em que podemos voar, literalmente ou em pensamento, para onde queremos, sem precisar provar que temos direito de ir e vir, de voar para lá ou de volta para cá, porque esse direito é tacitamente reconhecido como natural, como universal, por todos afirmado… O mundo do Rubem Alves é um mundo em que, estejamos nós onde estivermos, ou em curso, em trânsito, no meio do caminho, podemos dizer, oralmente ou por escrito, o que nos vai pela cabeça, sem precisar pedir permissão para ninguém, porque o livre pensar, como dizia o Millôr, é só pensar, e somos livres para expressar em palavras, ditas ao vento, ou escritas em papel, em telas, em chips, em fitas ou em discos, aquilo que pensamos, sem precisar provar que temos esse direito, porque ele é um direito natural, universal, por todos reconhecido, e que deveria ser por todos afirmado…
O que eu admiro no Rubem, acima de tudo, é esse jeito marrento que ele tinha. Se eu quero me considerar protestante, ou presbiteriano, ou até pastor que batiza e faz casamento, com toga branca, com adereços vermelhos, esvoaçantes, e tudo o mais, dizia ele (ou, pelo menos, era assim que ele pensava, mesmo que não o dissesse o tempo todo), quem é que vai ousar me negar esse direito? Quem é que vai ter a coragem de me impedir? Basta que haja alguém que queira que eu o batize, ou que haja um casal, de qualquer natureza, que quer que eu case os dois — ou os três ou quatro, sabe-se lá o que vem por aí… — e eu batizo ou oficio o casamento.
A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) pode ter nos botado para fora, primeiro a ele, depois a mim, e a tantos outros, nos anos 50 e 60 e até depois. Protestantes de outras denominações podem nos renegar. Nem mesmo a denominação de que fui membro de 2010 a 2020, depois de um exílio de 40 anos da igreja, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), me deixou viver desengaiolado. Pedi demissão de sua Faculdade de Teologia, a FATIPI, em 2017, para não criar problemas para seu diretor, que é meu amigo pessoal e a quem eu quero muito bem. Não quis que ele pagasse o preço daquilo que eu penso, digo e escrevo. E, em 2020, deixei de ser membro da denominação quando os pastores da Catedral resolveram fazer o L e usar o púlpito para fazer propaganda político-eleitoral.
O Protestantismo não tem Papa, ninguém manda no Protestantismo. Por isso é que há mais de 30 mil — MAIS DE QUARENTA MIL — denominações protestantes no mundo e apenas uma Igreja Romana, que se pretende Católica e Universal — e Única (ou Una). Mas quem quiser se chamar de Protestante, pode se chamar, com toda a legitimidade, porque a marca não pertence a ninguém, não está patenteada. Se os seguidores de Joseph Smith (fundador dos Mórmons), Ellen White (fundadora do Adventismo do Sétimo Dia), ou do Rev. Moon (fundador do Unificacionismo) quiserem se denominar protestantes, ninguém tem o direito de contestar, como se fosse dono do Protestantismo e estivesse autorizado a lhe fixar os limites.
No início do século 20, nos Estados Unidos, os Presbiterianos de inclinação Fundamentalista se acharam no direito de dizer que aqueles que não aceitavam as teses do nascimento virginal de Jesus, ou da ressurreição física e corpórea do Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus, ou de que sua morte redimiu os pecados do mundo, ou de que os milagres que a Bíblia diz que ele fez foram reais, ou de que a Bíblia foi literal e verbalmente soprada (inspirada) por Deus aos seus autores, vale dizer, ditada, e, por conseguinte, não tem, pelo menos em seus autógrafos (que ninguém sabe onde estão), erro ou falha — que aqueles que fazem qualquer dessas coisas não são Presbiterianos de fato e não podem ficar na Igreja Presbiteriana. No acerto final, nos Estados Unidos, foram eles que tiveram de sair. Os outros, que faziam essas coisas, ficaram. Porque, nem mesmo no Presbiterianismo, ninguém é dono da marca. Quanto mais no Protestantismo. Alguma instituição pode ser dona de uma marca, como “Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB)”, mas não é dona da marca “Presbiteriano” ou “Presbiterianismo”.
Nós, os protestantes, temos o direito de pensar livremente E DE PROTESTAR, quando tentam nos engaiolar. É essa a nossa essência, a de espernear e de gritar: “Protestante sou eu, que continuo a protestar, que estou sempre me reformando, e não vocês que se deixam congelar numa ortodoxia fria, numa recta doctrina ultrapassada, numa ortodoxia que nunca foi realmente orto, nem mesmo em 1643-1649, NEM LÁ EM WESTMINSTER, e que só se impôs pela força parlamentar, real ou imperial na retaguarda… Enfim, pela espada. Pelo argumento da força, não pela força do argumento.”
Uma igreja que só se preocupa em caçar, cassar, e, daí, novamente caçar hereges, agora para matar, que se preocupa em processar, expurgar, em manter a área limpa de diferenças e diversidades, que ela chama de erros, mas que são expressão da mais lídima liberdade, essa igreja não é Protestante: é Católica. Protestantes, antes do seu tempo, foram Arius, Nestorius e Pelagius. Protestantes foram Andreas Kalstadt, Michel Servetus e Sébastien Castellio. NUNCA FORAM protestantes Constantino, Teodósio, Agostinho, João Calvino e Teodoro Beza — alguns deles, autoridade do poder secular, outros, do poder religioso, outros, ainda, os piores, das duas coisas. Eles eram a autoridade no poder.
Autoritários, no meu livro, na época da Reforma (bem como antes e depois), foram os católicos. Ainda são hoje. São eles que constrangem os divergentes a se curvar, como fizeram com o coitado do Frei Leonardo Boff: impõem a ele um vergonhoso “silêncio obsequioso”. Pior do que proibir uma pessoa de falar é constrangê-la a, voluntariamente, se calar e permanecer quieta, de “livre e espontânea” vontade, enquanto a autoridade quiser que ela fique. Morro de dó e de vergonha alheia pelo Boff. Ele, além de um coitado, é um babaca por ter aceitado ficar quieto. Belo revolucionário é ele que fica quieto ao primeiro “Cala a boca!” A Igreja Católica é isso. Como as autoridades de hoje, aqui no Brasil, a Igreja Católica quer que o cara cale boca e não possa nem dizer que sua boca foi calada. Ela quer que ele faça de conta que calou a boca porque quis.
Martinho Lutero foi protestante por um tempinho, enquanto ele protestava, enquanto ele era estilingue e a Igreja Católica era vidraça. Quando ele virou autoridade e passou a mandar numa nova igreja, quando ele virou vidraça para os estilingues dos outros, virou autoritário, tanto quanto Leão X. Expulsou Kalstadt de Wittenberg, perseguiu-o, tentou impedir que outras cidades o acolhessem e outras pessoas o acolhessem como pastor, voltou-se contra os camponeses, que eram amigos de Karlstadt… Se Erasmo não acolhesse Karlstadt em Basileia, como depois fez também com Castellio, os dois teriam se tornado combustível de fogueira, como Servetus depois se tornou em Genebra.
Vocês, os autoritários de hoje, são os equivalentes do Papa Leão X de ontem. Nós somos o Lutero Jovem (mas não queremos, como ele, que, assim que ficou mais velho, e ganhou poder, virou um leãozinho, um Papinha Leão, e passou a perseguir os seus hereges, fazer a mesma coisa que ele). Nós somos aquele Lutero que, diante do Imperador Carlos V e de representantes do Papa, teve a coragem e a ousadia de dizer: “Hier stehe ich: ich kann nichts anders“. (Aqui eu fico, daqui ninguém me tira. Não há como me obrigar a agir diferente, a violar a minha consciência [em tradução livre minha]).
É isso que o Rubem Alves significa. Ele foi, aqui no universo protestante brasileiro, a primícia dos renegados. A primícia daqueles que ousaram dizer: Aqui eu estou, aqui eu fico, daqui ninguém me tira. Tentem para vocês verem… Eu posso não ter mais o meu nome no rol de membros das igrejas que se denominam protestantes. Mas o meu ser, a minha alma, a minha mente, continua protestante. Isso ninguém consegue tirar de mim. Vou continuar assim até morrer. Mesmo que seja numa fogueira em Genebra como Servetus.
O sonho do Rubem (e o meu, confesso), era ser professor no Seminário Presbiteriano de Campinas: ele, de Teologia Sistemática, eu, de História da Igreja e do Pensamento Cristão. Imaginamos algumas vezes, tomando um Jack Daniels, como isso teria sido divertido… A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) nos expurgou, a nós dois e a tantos outros que poderiam ter ajudado a igreja a formar um exército de novas e brilhantes lideranças, modéstia à parte. Se apenas ela não tivesse a pretensão de ser uma igrejinha católica de menos de um milhão de membros, fazendo o seu massacrezinho do Dia de São Bartolomeu com os huguenotezinhos liberais brasileiros… Mas, ao nos expurgar, a IPB, sem saber, acabou por nos dar uma audiência bem maior do que uma classe de 20 alunos no Seminário de Campinas.
Este blog vai tentar ampliar essa audiência ainda mais. Inclusive entre os alunos dos atuais Seminários Presbiterianos. A real educação não se faz mais em sala de aula convencional. Faz-se aqui, nas redes do espaço virtual.
Quem ganhou a guerra no Ocidente não foi o reformador Lutero que criou a sua ortodoxia e se tornou perseguidor de hereges, como, em sua visão estreita, seria Karlstadt. Quem ganhou a guerra no Ocidente não foi o reformador Calvino e, que além de perseguir Servetus, concordou que ele fosse queimado em Genebra — com tantos outros, registre-se. Quem ganhou a guerra no Ocidente foi Erasmo, o pacífico humanista, escritor, filósofo, teólogo. Quem ganhou a guerra no Ocidente foram Andreas Kalstadt e Sebastian Castellio, corajosos e intrépidos. Castellio, além disso, foi esperto e hábil, deixou Calvino chupando o dedo. Escreveu tudo, registrou tudo, para a posteridade. Depois, trevas. Tenebrae. O Massacre do Dia de São Bartolemeu (24.8.1572) em Paris e em toda França foi a continuação, em muito maior escala, e, de certo modo um revide, do que Calvino fez em Genebra com Servetus em 27.10.1553. Só que, desta vez, foram os calvinistas as vítimas. O sinal foi trocado. E os calvinistas não podiam nem chiar, porque poucos anos antes, fizeram o mesmo com Servetus.
Não acredito em determinismo histórico, mas acredito na força e na atração que a liberdade exerce e continuará a exercer sobre mentes fortes, brilhantes e criativas. E corajosas, como a de Castellio. Alea jacta est. A sorte está lançada. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
Assim seja. Amém e amém.
Eduardo Chaves
Salto, 1 de Janeiro de 2020. Levemente revisado em 30 de Maio de 2023, Memorial Day, nos Estados Unidos. Levemente revisado no dia 24 de Agosto de 2023. Dia de São Bartolomeu. Gaspar de Coligny, você está muito mais vivo do que Boanerges Ribeiro. E é assim que vai ser. Fiz mais uma revisãozinha em 22 de Abril de 2024. E outra em 20 de Maio de 2024, um mês depois. E uma revisão final em 5 de Novembro de 2026.
Categories: Liberalism
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