A Implicância de Liberais Conservadores com o Construtivismo na Educação – vol.1

1.  Um Preâmbulo Esclarecedor 

O título desta sequência de artigos (de início são planejados três), se não houvesse restrição convencional ao espaço dedicado ao título, deveria ser “A Implicância de Liberais Conservadores com o Progressivismo, o Construtivismo, e o Construcionismo na Educação – vol.1”. Deixei os termos “Progressivismo” e “Construcionismo” de fora porque eles não aparecem tanto quanto o termo “Construtivismo” na discussão. O termo “Construtivismo” está mais ligado a Jean Piaget (1896-1980), o termo “Construcionismo” mais ligado a Seymour Papert (1928-2016), e o termo “Progressivismo” mais ligado a John Dewey (1859-1952). Como se vê, dos três ilustres personagens, Dewey é o mais antigo, seguido de Piaget e, por fim, de Papert. Mas, na discussão educacional ou pedagógica, Piaget é hoje o mais conhecido e popular dos três, aqui no Brasil, razão pela qual deixei apenas o termo “Construtivismo” no título. Admito, desde já, a despeito das diferenças que vários autores (inclusive os próprios, talvez) insistem em achar entre os três conceitos, que vou, em grande medida, ignorar essas diferenças para me concentrar nas semelhanças, que, a meu ver, são mais importantes. Destaco, porém, que o conceito de “Progressivismo” não se aplica apenas à Educação, abrangendo, também, a Política e outras áreas. 

Além desses três conceitos mais ligados à área educacional ou pedagógica, o artigo vai lidar com três conceitos mais ligados à área da filosofia política ou social: Liberalismo, Libertarianismo e Conservadorismo. O título, porém, se refere apenas ao “Liberalismo Conservador”. A razão para essa decisão, além da economia de espaço, ficará evidente no corpo dos artigos. 

Os termos que figuram no título (ou naquele que deveria ser o título) se conectam e se vinculam portanto, com duas áreas (ou sub-áreas) do conhecimento.

Os termos “liberais”, “libertários” e “conservadores” normalmente aparecem na área da Filosofia Política (que deveria ser chamada da Filosofia da Política, mas vou seguir a tradição e falar em Filosofia Política), e os termos “progressivistas”, “construtivistas” e “construcionistas” normalmente aparecem na área da Educação (Filosofia da Educação e Psicologia da Educação — aqui quase não se usa, hoje, a expressão Filosofia Educacional e Psicologia Educacional). Esclareço que, neste caso, vou me concentrar mais na Filosofia da Educação do que na Psicologia da Educação.

Vou iniciar a discussão pela primeira dessas duas áreas (Filosofia Política), passando, depois, para a área da Filosofia da Educação. A discussão será bastante superficial (aquilo que os de fala inglesa chamam de “perfunctory”), ficando em um plano bastante genérico, para que fique claro, espero, por que liberais conservadores se opõem à essência do que eu chamo de progressivism, construtivismo, e construcionismo. 

2.  A Questão na Filosofia Política 

Na área da Filosofia Política tenho sido, desde 1966, há mais de 55 anos, um constante defensor do Liberalismo Clássico de John Locke, David Hume, Adam Smith, e, em parte, de John Stuart Mill, entre os principais autores anteriores ao século 20, e de Ludwig von Mises, Friedrich von Hayek, Milton Friedman, Ayn Rand, e, em parte, de Karl Popper, entre os principais autores do século 20. Dois desses autores do século 20 foram agraciados com o Prêmio Nobel de Economia: von Hayek, em 1974 (com Gunnar Myrdal) e Friedman, em 1976 (sozinho)  [1]. 

O termo “Liberalismo” que se refere à tendência que eu aceito precisa, infelizmente, ser qualificada pelo adjetivo “Clássico”, porque os americanos, em uma alquimia linguística, vieram a também chamar de “Liberalismo” uma tendência de Filosofia Política que difere bastante daquela que eu aceito, e que, na verdade, se opõe a ela. 

O Liberalismo Clássico admite apenas a existência de um Estado Mínimo, que só tem permissão para atuar em três áreas restritas:

  • a da preservação da liberdade e dos direitos individuais dos cidadãos;
  • a da manutenção da segurança interna e externa e da preservação da ordem, sem as quais a liberdade e os direitos individuais não sobrevivem;
  • a da organização e manutenção de um sistema legislativo e jurídico que dê sustentação às duas primeiras áreas.  [2]

A tendência de Filosofia Política que os americanos chamam de “Liberalismo” (que eu vou chamar de “Liberalismo Americano”, na sequência) fica, a meu ver, muito mais próxima da tendência que o resto do mundo chama de “Social Democracia” e mesmo de um “Socialismo Democrático” (se é que este é possível) do que da tendência que eu chamo de “Liberalismo (Clássico)”.

O “Liberalismo Americano” admite e defende a existência de um Estado Amplo e Forte, com atribuições e poderes que lhe permitem atuar (além das áreas em que o Estado atua no Liberalismo Clássico), nas seguintes quatro áreas:

  • a da promoção do bem-estar, da seguridade social e da justiça social dos cidadãos;
  • a da supervisão e controle da economia e da moeda (interferindo e intervindo em ambas sempre que necessário, com vistas ao “bem comum”); 
  • a da criação e implementação de “políticas públicas” em qualquer outra área que vise facilitar a atuação do Estado na primeira área;
  • a do controle e manutenção de estrutura (educacional, sanitária, agrícola, industrial, de serviços, etc.) e da infraestrututura (de esgotos, de vias [terrestres, aquáticas e aéreas], de comunicações, etc.]) da nação, de modo a tornar possível que o objetivo contido na primeira área seja bem sucedido.

O maior defensor do “Liberalismo Americano” em tempos mais recentes — embora, é bom que se esclareça, ele nunca use o qualificativo “Americano”, fazendo de conta que o seu é o único Liberalismo digno do nome, é John Rawls. O Liberalismo (Americano) de Rawls é sofisticado, tentando fazer parecer que sua posição é realmente mais próxima do Liberalismo (Clássico) do que da Social Democracia ou do Socialismo. Para ele, o conceito básico do Liberalismo, que é a Liberdade, não deve ser interpretada apenas em um sentido negativo, como ausência de coação para fazer ou deixar de fazer algo. Ela deve incluir, também, um sentido positivo, de dar condições de toda ordem ao indivíduo de poder efetivamente vir a exercer e desfrutar sua liberdade  [3]. 

Além do Liberalismo Clássico, de que, conforme esclarecido na Nota 2, me apropriei a partir de 1966, tenho, nos últimos quinze anos, defendido, também, até de forma preferencial, o Libertarianismo Anárquico, ou Anarquismo Libertário, ou Anarco-Capitalismo (uso essas três expressões como equivalentes), cujo principal representante, nos Estados Unidos, no século 20, sem dúvida alguma, é Murray Newton Rothbard. Coloco Rothbard como a principal figura neste caso, porque (mesmo que já falecido há algum tempo) é a figura mais conhecida e representativa dessa tendência. Ele se alinha mais com Ludwig von Mises do que com os outros autores liberais do século 20. Acrescento, porém, o nome de dois de seus sucessores na liderança desse movimento: Hans-Hermann Hoppe e Erik-Ritter von Kuehnelt-Leddhin. Menciono esses três nomes sem prejuízo de meu interesse em alguns anarquistas europeus, não marxistas, do século 19. Curiosamente, todos eles são russos: Mikhail Bakunin e Piotr Kropotkin, ambos identificados com a tendência conhecida como Anarco-Socialismo ou Anarco-Coletivismo, e Liev (Leon) Tolstoy, com sua forma própria de anarquismo, chamada por alguns de Anarquismo Cristão

A principal diferença entre o Liberalismo Clássico e o Libertarianismo Anárquico é que o primeiro defende a necessidade de um Estado (ainda que mínimo) para que a liberdade e os direitos individuais possam subsistir, o segundo, não. O Libertarianismo Anárquico não considera necessário que algo externo ao ser humano, como o Estado, o coaja ou constranja a  fazer o que deve (respeitar a liberdade e os direitos dos outros). Para o Libertarianismo Anárquico o ser humano pode ser levado, através da educação, a fazer o que deve e respeitar a liberdade e os direitos dos outros, sem que seja necessário que um Estado o coaja e constranja a fazer isso. Em outras palavras, a antropologia filosófica do Liberalismo Clássico é pessimista, quase agostiniana e calvinista: ela pressupõe uma natureza humana fraca, sem força, talvez corrompida, incapaz de fazer o bem, incapaz de trilhar o caminho certo. A antropologia filosófica do Libertarianismo não pressupõe que a natureza humana seja fraca e corrompida: pelo contrário, a considera perfeitamente capaz de fazer o que deve ser feito. 

Registro, desde já, que, embora liberal clássico ou libertário anárquico  [4], minha principal oposição ao Socialismo ou ao Coletivismo é feita às suas formas estatais, ou estatistas, em que cabe ao Estado, para promover o bem estar social, realizar a socialização dos meios de produção (economia) e a coletivização da sociedade. Se o Socialismo ou Coletivismo é anárquico, isto é, vem precedido do qualificativo “Anarco-“, e, portanto, prescinde do Estado para promovê-lo, eu fico bem mais descontraído e minha oposição se reduz consideravelmente. Isso explica o meu interesse por Bakunin e Kropotkin. O interesse em Tolstoy se deve principalmente ao seus seus escritos e às suas iniciativas na área da chamada Educação Libertária (que é algo mais radical do que a chamada Educação Democrática).. 

A questão do Conservadorismo será discutida no próximo artigo desta série.

3.  A Questão na Filosofia da Educação 

Na área da Filosofia da Educação, que eu entendo como uma reflexão de segunda ordem sobre os discursos (de primeira ordem) que são feitos pela Pedagogia, pela  História da Educação, pela Psicologia da Educação, pela Sociologia da Educação, pela Antropologia da Educação, pela Economia da Educação, etc. é mais fácil especificar a que e a quem eu me oponho, do que a que e a quem eu me disponho a defender – mas não me furtarei de fazer isso. 

Sou contrário a: 

  • Educação Estatal e/ou Educação Pública 
  • Educação Obrigatória e/ou Educação Compulsória 
  • Educação Escolar e/ou Educação Formal e Institucionalizada

Sou, em primeiro lugar, contrário a toda e qualquer forma de Educação Estatal (administrada, financiada, controlada pelo Estado), e, portanto, sou contra a Educação Pública – acredito que eu seja um caso raríssimo, nos dias atuais, de oposição à Educação Pública.

Sou, numa variação pequena, também contra toda e qualquer forma de Educação Obrigatória ou Compulsória em que o indivíduo é obrigado ou compelido a se educar (ou ser educado). Na realidade, hoje vou além (mas nem sempre pensei assim).

E sou, finalmente, contra toda e qualquer forma de Educação Escolar, mesmo que ela seja não-estatal e, portanto, privada ou particular, em que se criem mecanismos formais (como currículos, metodologias, formas de avaliação, etc.) e institucionalizados (com seu corpo de profissionais especializados) destinados especificamente a educar. A educação, para mim, é algo que acontece principalmente quando estamos fazendo alguma outra coisa, como brincando, jogando, nos divertindo, ou, então, trabalhando (mediante salário ou não), ou, ainda, quando não estamos fazendo nada, exceto pensando, refletindo ou desfrutando a vida. Raramente acontece de alguém dizer “agora vou apenas me educar”, ou “agora preciso de alguém que apenas me eduque”. Sentimos, na verdade, com frequência, necessidade de aprender alguma coisa que não sabemos, ou não sabemos fazer — em geral, quando estamos fazendo, ou vamos fazer, alguma outra coisa e essa outra coisa exige que saibamos, ou saibamos fazer, algo que até aquele momento não aprendemos. Por exemplo: a partir do ano que vem, vou morar, permanentemente, em Cesky Krumlov, na República Tcheca. Logo, preciso aprender a língua tcheca. Preciso achar uma forma de fazer isso de maneira eficiente, agradável e, de preferência, sem pagar nada… Quem sabe ajudando um tcheco a aprender Português…  

Colocando a minha forma de pensar em uma perspectiva mais positiva, sou favorável à seguinte tese:

Tudo que diz respeito à educação de um indivíduo deve ser definido e controlado por ele próprio, tão logo seja capaz de tomar esse tipo de decisão.

O indivíduo se torna capaz de cuidar da própria vida e tomar esse tipo de decisão por volta dos doze anos de idade – quando deveria também poder ser objeto de ação penal ao cometer um crime.

A colocação dessa idade ao redor dos doze anos é algo meio arbitrário, mas, pelo menos, é historicamente defensável. Doze anos é a idade do bar mitzvah, no Judaísmo, do batismo, nos ambientes religiosos cristãos que rejeitam o batismo infantil, da confirmação, consagração ou profissão de fé, nos ambientes religiosos cristãos que aceitam o batismo infantil, mas adicionam esse passo a ele. Enfim: por volta de doze anos tem sido fixada a chamada Idade da Razão – cujo início, razoavelmente, coincide com o início da puberdade, a idade em que um menino e uma menina adquirem a capacidade biológica de ter filhos. O início da Idade da Razão e o início da Idade da Procriação se equivalem. Antes desse momento, o que a partir dessa idade se torna responsabilidade do indivíduo é responsabilidade de seus pais, ou de quem lhes faça as vezes. 

Isso quer dizer que, como liberal clássico ou libertário anárquico, o cerne do meu ponto de vista está na liberdade de aprender – que é a liberdade do aprendente, tão logo este tenha condições de assumir essa responsabilidade. O resto é consequência. Sou contra a educação escolar porque ela, mesmo que privada ou particular, e mesmo quando de boa qualidade, força a delegação, por parte do indivíduo, de sua inalienável e intransferível liberdade de aprender, para a escola (e para os que nela militam: diretores, orientadores, supervisores e, principalmente, professores ou ensinantes), A educação escolar implica uma transferência de um direito individual, o de aprender, que é intransferível.

O direito de decidir se, porque, quando, onde, e como um indivíduo na idade da razão deve, ou simplesmente vai, aprender alguma coisa, qualquer que seja, é única e exclusivamente dele, indivíduo, célula menor da sociedade. Não é nem sequer dos pais (ou da família) dele – quanto mais de uma escola, de uma comunidade, da uma igreja, da sociedade como um todo, ou, muito menos ainda, do Estado. Esse direito, repito, é dele, e é inalienável e intransferível como os demais direitos individuais que um liberal ou libertário reconhece e defende: o direito à integridade física e mental, o direito de ir e vir, o direito de se associar, o direito de manter consigo o fruto do seu trabalho, o direito de estabelecer contratos, e o direito de ter propriedade de qualquer tipo (menos de um outro indivíduo).

O indivíduo é, na minha maneira de ver as coisas, dono (proprietário) de si próprio, de sua mente e de seu corpo, e tem todo direito de decidir o que fazer de sua vida, até mesmo de terminá-la por decisão própria (direito ao suicídio). A propriedade de si próprio, da própria pessoa, é a primeira propriedade privada que um indivíduo deve ter. Ele pode até destruir essa propriedade, mas não pode aliená-la: transferi-la a terceiros, sem deixar, no processo, de ser um ser humano livre, autônomo, protagonista de sua própria vida e autor de sua própria história.

4.  Resumo da Minha Posição sobre a Educação 

Diante dessa breve exposição inicial, já começa a ficar evidente, creio eu, por que é que eu, um liberal clássico ou libertário anárquico (que é um liberal mais radical do que os demais), sou contra a educação tradicional, convencional, conservadora, obrigatória, centrada na escola, predominantemente estatal ou pública, que, mesmo no caso da escola particular ou privada, é focada no papel do professor. O currículo, a metodologia e a forma de avaliação são pré-definidos e pré-determinados, seja isso feito pelos professores da escola em suas salas de aula, seja isso oficialmente feito pela própria escola, através de seus dirigentes ou gestores, para todos os professores, seja isso feito pelo sistema de educação, de qualquer nível ou natureza, a que pertence a escola, para todas as escolas do sistema ou da rede. 

Meu conceito mais básico de educação é oriundo em Jean-Jacques Rousseau, em seu magnífico livro Émile, ou de l’Education:

Tudo aquilo que o indivíduo precisa para construir a sua vida
(isto é, a vida que ele deseja para si próprio, e para a qual define um plano ou projeto de vida),
e que não lhe é dado antes de ele nascer
(isto é, tudo o que não lhe é inato),
ele precisa obter através da sua educação.

É evidente — tão evidente que deveria dispensar a necessidade de ênfase — que o indivíduo não vai definir seu plano ou projeto de vida, muito menos construir, em cima dele, a sua vida e a sua história, sozinho, como se fosse um ermitão, ou um Robinson Crusoe perdido, sozinho, em uma ilha isolada. O ser humano não é isso. Mesmo depois da idade razão ele continua a ter família, parentes, amigos, colegas, conhecidos, contatos no Facebook, oportunamente um cônjuge e um lar próprio, depois (espera-se) filhos, etc. e ele pode recorrer a eles, ou ainda a outros, sempre que quiser, e deve recorrer, todas as vezes que achar necessário fazê-lo – mas sempre por decisão dele próprio, e somente dele, e sob responsabilidade única e exclusiva dele. 

Educação, portanto, é um processo de desenvolvimento humano. Se não nos educarmos mutuamente — “em comunhão” com os outros, como diz Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, ou em interação, em conversa, em diálogo, em debate, em discussão, em controvérsia com os outros, ainda que os outros estejam representados pelos textos e livros que escreveram, bem como observando, interagindo e fazendo uso da realidade natural (a natureza) – se não nos educarmos assim, repito, não nos tornaremos seres humanos no sentido pleno da palavra, qual seja: indivíduos livres, autônomos, protagonistas na construção, cada um, de sua própria vida e de sua própria história. Sem educação, seremos como bebês que acabaram de nascer: na melhor das hipóteses, parasitas, em tudo dependentes dos outros; na pior das hipóteses, para sempre seres heterônomos, teleguiados, telecomandados, programados e conduzidos por terceiros, como se fossem robôs, programados e dirigidos por outrem

Ficou claro, agora, eu espero, por que razão eu sou realmente liberal ou libertário, e o que isso envolve e implica. Mas tentarei explicitar ainda mais: sou liberal ou libertário, e por causa disso: 

  • Sou contra a educação tradicional / convencional, predominantemente escolar, e majoritariamente estatal e obrigatória; e 
  • Sou a favor de uma educação individualista, livre e libertária, não coletiva / não coletivista, não socialista / não comunista, não comprometida com nenhum objetivo ou meta que não se identifique claramente como meu próprio, uma educação não tutelada, nem, muito menos, comandada ou guiada, por coletivos, classes sociais, raças, sexos ou gêneros, ou suas lideranças ou vanguardas, quaisquer que sejam, como, por exemplo, sindicatos ou equivalentes, a “sociedade civil organizada”, a ONU, outras organizações internacionais, como a Internacional Socialista e a Internacional Comunista, etc. 

Essa educação da qual sou a favor é a educação que eu chamo educação progressista, construtivista, e construcionista — como já assinalado, vou usar os termos em seu sentido essencial, em que, a meu ver, são equivalentes (mesmo sabendo que há autores que investiram bastante na sua diferenciação). E eu citei dois nomes importantes nela: Jean-Jacques Rousseau e Paulo Freire. Faltou citar John Dewey, o que será feito no devido momento. Este é o meu primeiro artigo nesta linha. Mas não será o último. Quem for ansioso ou não quiser esperar, pode ler meu artigo anterior neste blog: “Rousseau e a Educação: Um Breve Apanhado”  [5].

5.  A Questão do Conservadorismo Introduzida 

Vou começar a analisar e criticar, a partir deste artigo, as propostas de liberais conservadores que defendem, não a educação inovadora que eu defendo, mas a educação tradicional ou convencional, brasileiros, como Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino, a quem estimo, e vários outros, estrangeiros como Inger Enkvist, sueca, introduzida e divulgada no Brasil por liberais bem intencionados, mas que nada entendem de educação inovadora, progressista, verdadeiramente construcionista ou construtivista. A educação progressista e construcionista / construtivista é aquela que defende o direito de aprender do indivíduo, que é o direito de aprender tudo aquilo que ele, não tendo recebido no ventre materno, decide que precisa para definir e construir sua vida livre, autônoma, da qual ele é não apenas protagonista, mas produtor, diretor, roteirista, e ator principal – e não ator coadjuvante, nem, muito menos, mero figurante, que é a única coisa que ele de fato é na educação escolar tradicional.

No artigo seguinte, discutirei o Conservadorismo, sobre que nada falei até aqui e agora. Tendo mostrado, neste artigo, em que sentido sou inovador, e mesmo revolucionário, na educação, mostrarei, em um terceiro artigo, em que sentido sou conservador na área da educação

Até lá. 

6.  Notas a este Primeiro Artigo

[1] Qualifiquei John Stuart Mill e Karl Popper porque, com o tempo, percebi, primeiro, através de críticas de Ayn Rand e de Frederick von Hayek, que o liberalismo de Mill continha algumas simpatias socialistas. Recomendo aqui a leitura do livro que von Hayek escreveu sobre Mill e sua mulher, Harriet Taylor. Vide F. A. Hayek, Hayek on Mill: The Mill-Taylor Friendship and Related Writings (The Collected Works of F. A. Hayek, vol. XVI [série da qual o meu Orientador de Doutorado, William W. Bartley, III, foi o Founding Editor], volume editado por Sandra J. Peart (University of Chicago Press, Chicago, 2015, disponível em ebook, Kindle Edition). [Para quem não sabe, Mill era um solteirão que desenvolveu um relacionamento afetivo relativamente profundo com Harriet Taylor, uma mulher casada — aparentemente, bem casada. Muitos autores acreditam que o relacionamento era puramente platônico, isto é, não chegando a ser um relacionamento sexual. De qualquer forma, o relacionamento era do conhecimento do marido de Taylor, que, de boa vontade ou a contragosto, com ele consentiu. Mill dá enorme crédito (segundo alguns, exagerado) a Harriet Taylor na elaboração de seus escritos. Em um determinado ponto, o marido de Taylor morreu, e Mill e Taylor, depois de deixar passar um tempo protocolar, se casaram. Sete anos depois de casada, Taylor faleceu (em 1858). Mill, que era um ano mais velho, ainda viveu dez anos mais. Nesses anos dez anos, Helen Taylor, que era filha de Harriet Taylor com seu primeiro marido, dedicou sua vida totalmente a Mill, assumindo (pelo menos em parte) o papel da mãe: foi sua colaboradora em seus escritos, foi sua secretária, foi sua cuidadora, etc. Mesmo depois de Mill morrer, ela dedicou o resto de sua vida a gerenciar os seus escritos, revisando-os, agindo como a responsável legal por eles, que de fato era. Cuidou também de seus escritos não publicados, conseguindo fazer com que alguns deles viessem a ser publicados. Há quem suspeite que o relacionamento da enteada com o padrasto tenha ido além do que manda o dever filial ou mesmo profissional. Mas isso é especulação. Vide, ainda, sobre Hayek e Mill, o livro de Andrew Farrant, ed., Hayek, Mill, and the Liberal Tradition (Routledge Studies in the History of Economics, vol. 121, Taylor and Francis, Abingdon, Oxon, 2011, disponível em ebook, Kindle Edition). Acerca do liberalismo de Popper, minha atenção foi chamada para algumas de suas peculiaridades por Ernest Gellner. Especificamente, a minha atenção foi atraída para a questão da semelhança entre o liberalismo de Mill e o liberalismo de Popper. Em seu artigo “Beyond Truth and Falsity”, publicado originalmente na seção de Resenhas (“Review Articles“) do British Journal for the Philosophy of Science (vol. 26 (1975), pp.331-342), Gellner faz uma crítica do livro Against Method, de Paul K. Feyerabend (New Left Books, Londres, 1975). Feyerabend era um ex-aluno de Popper que virou um anarquista de esquerda. Ele afirma, no livro, o seguinte: “A filosofia de Popper, que alguns gostariam de nos impingir como o único racionalismo humanitário hoje existente, não passa de um pálido reflexo do ensaio On Liberty, de Mill. Ela é … muito mais formalista e elitista e totalmente desprovida de qualquer preocupação com a felicidade individual [. . .] Poderemos compreender-lhe as peculiaridades se levarmos em conta [. . .] o inflexível puritanismo de seu autor (e da maioria de seus seguidores) e se lembrarmos a influência de Harriet Taylor sobre a vida e a filosofia de Mill. Não há nenhuma Harriet Taylor na vida de Popper” (p.48, nota, do livro de Feyerabend). O comentário de Gellner a esse trecho do livro é delicioso e exibe sua língua ferina: “A passagem é certamente picante. Meu próprio liberalismo, porém, vai ao ponto de afirmar que nem mesmo os puritanos estão excluídos da verdade (aliás, alguns dos meus melhores amigos são puritanos) e que até mesmo os professores de filosofia têm liberdade, se tão excêntricas forem as suas inclinações, de se absterem de amantes. Isso não é algo que deveria expô-los a censuras ou tornar suspeitas as suas opiniões. Mas talvez meu liberalismo vá longe demais.” Foi a partir desse artigo de Gellner que eu procurei investigar mais a fundo o liberalismo de Popper e compará-lo com o de Mill. Antes havia me interessado principalmente por sua Filosofia da Ciência. William W. Bartley III, que foi meu Orientador de Doutorado, foi orientado em seu Doutorado por Popper, na London School of Economics — e veio a ser o “testamenteiro intelectual” tanto de Popper como de Hayek (ou, no caso de Popper, editor, ainda durante a vida dele, de obras de Popper não ainda publicadas), até ele, Bartley, vir a falecer, em 1992. [A tradução das duas citações feitas neste parágrafo é a encontrada na versão do artigo de Gellner em Português, tradução feita por meu antigo colega na UNICAMP, Balthazar Barbosa Filho, e artigo publicado nos Cadernos de História e Filosofia da Ciência (CHFC), do Centro de Lógica e Epistemologia (CLE) da UNICAMP, do qual fui sócio fundador (em 1976), com o título “Além da Verdade e da Falsidade”. O artigo foi publicado no vol. I (1980), dos Cadernos, pp. 62-76, e ele está disponível na Internet em https://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/CHFC-s1-v1-artigo4.pdf. Compare-se ainda, a respeito de Popper, o livro de Jeremy Shearmur, The Political Thought of Karl Popper (Routledge, London & New York, 1966, disponível em versão ebook, Kindle Edition).  [Nota acrescentada em 2.11.2022, parcialmente corrigida e aumentada em 8.11.2022].

[2] Descobri o Liberalismo Clássico em 1966, em plena vigência do Governo Militar aqui no Brasil, quando eu estudava no Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), localizado em Campinas, SP. Eu era aluno do terceiro ano do Bacharelado em Teologia, era Secretário do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), e editor e redator-chefe daquela que foi (tanto quanto eu saiba) a primeira publicação oficial do CAOS, que tinha o título de “O CAOS em Revista”. Todos os números desse jornal (hoje seria chamado de Newsletter, provavelmente) que foram publicados sob minha direção (quatro números) foram confiscados pela Reitoria do Seminário, que, depois do segundo confisco, colocou “O CAOS em Revista” debaixo de “censura prévia” (não obedecida — razão pela qual fui expulso do seminário em Agosto de 1966). Foi na preparação de editoriais e artigos para os quatro números publicados e confiscados que eu vim a ler o ensaio On Liberty, de John Stuard Mill. O ano de 1966 marca, portanto, o ano em que me tornei, conscientemente, um Liberal Clássico. Um segundo passo, extremamente importante, na minha evolução como liberal clássico se deu em 1973, quando eu já trabalhava no Pomona College, em Claremont, CA, EUA, depois de ter obtido meu Doutorado, em 1972, na University of Pittsburgh.. No meu artigo “A Greve dos Patrões: Aqueles que Sustentam o Mundo em suas Costas”, publicado neste mesmo blog, em 29.10.2022, no endereço https://chaves.space/2022/10/29/a-greve-dos-patroes-aqueles-que-sustentam-o-mundo-em-suas-costas, eu explico, na Nota 4, como se deu o meu primeiro contato com Ayn Rand. Escrevi eu: “Eu trabalhava, na ocasião, no Departamento de Filosofia do Pomona College, situado (a despeito do nome) em Claremont, CA, que é um pedaço da Nova Inglaterra no Sul da California. Quem me indicou e recomendou o livro [Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas), de Ayn Rand] foi meu colega, especializado em Ética e Filosofia Política (a minha área era Metafísica, Epistemologia e Filosofia da Religião), J. Charles King, que, mais tarde, se tornou presidente do Liberty Fund. Em uma nota curiosa, mais para o fim da vida, Charles, que era agnóstico ou ateu (os limites são fluidos, de vez em quando) se converteu à Igreja Anglicana e se tornou sacerdote. Ele, nascido em 1940, faleceu em 2019, dias antes de completar 79 anos, idade que eu tenho hoje. Vide seu interessante obituário em https://flannerbuchanan.com/obits/j-charles-king/. Sou, e serei para sempre, devedor a J. Charles King pelo conselho que me deu de ler Ayn Rand, começando com Atlas Shrugged. Ele me disse, na ocasião, que, depois de ler esse livro, eu não iria sossegar enquanto não lesse tudo que Ayn Rand havia escrito. Ele estava absolutamente certo. Na ocasião, Ayn Rand ainda estava viva. Ela, que havia nascido em 1905, em St Petersburg, na Rússia, morreu em 1982, em New York.  [Nota acrescentada em 2.11.2022, e levemente revisada em 8.11.2022].

[3] Vide, a esse respeito, meu artigo de 2005 “O ‘Liberalismo’ e a ‘Justiça’ de John Rawls”, no meu blog Liberal Space, no endereço https://liberal.space/2005/05/15/o-liberalismo-e-a-justica-de-john-rawls/. Nele discuto em algum detalhe não só o conceito de Liberdade adotado por Rawls, mas também o seu conceito de Justiça, que é o conceito de “Justiça Social”, que considero um conceito socialista travestido de liberal.  [Nota acrescentada em 8.11.2022].

[4] Uso esta disjunção (“liberal clássico ou libertário anárquico”, “Liberalismo Clássico ou Libertarianismo Anárquico”) quando as duas tendências estiverem de acordo (ou não estiverem em desacordo) em relação à questão tratada. Faço isso em especial na área do relacionamento da Educação com o Estado. O Libertarianismo Anárquico não admite a existência do Estado. Logo, a fortiori,  não admite que haja interferência do Estado na Educação. O Liberal Clássico admite a existência do Estado (Mínimo), mas estipula, claramente, que entre suas funções não está a de interferir em assuntos educacionais, nem mesmo para regular ou supervisionar. Logo, nessa questão, não faz nenhuma diferença se uso meu chapéu de “liberal clássico” ou o de “libertário anárquico”. Os dois chapéus estão de acordo entre si.  [Nota acrescentada em 8.11.2022].

[5] Datado de 27 de Setembro de 2022, o artigo se encontra em meu blog Chaves Space, no endereço https://chaves.space/2022/09/27/rousseau-e-a-educacao-um-breve-apanhado/.  [Nota acrescentada em 8.11.2022].

Em Salto, 28 de Setembro de 2022.  [Revisado, com acréscimo das duas primeiras notas, em 2 de Novembro de 2022.]  [Revisado, no texto principal, e com o acréscimo de três outras notas, no total perfazendo cinco, em 8 de Novembro de 2022.]



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4 replies

  1. Uma visão muito diferente! Já estou ansioso para ler o próximo artigo!

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  2. Não havia pensado na concepção de construtivimo na perspectiva que apresentou. Boa parte vem de pessoas que apresentam este conceito, mas não neste sentido ou contexto do texto apresentado. A autora Inger, em seus escritos que tive acesso, apresenta o construtivismo no sentido em que os estudantes tem que construir algo sem uma base minima direcionante, tendo a figura do professor como mediador do processo de aprendizagem. Na visão, e argumentos que ela sustenta, a má formação docente, somado ao que ela chama de idéias progressistas (dizendo, em alguns momentos, que as ações afirmativas políticas prejudicam o real sentido do ensino) prejudica geração após geração de estudantes. Os argumentos que pontua em seus livros tem como uma das base o relatório Mckinsey (2007). Ela exemplifica em dois livros: O Complexo Ofício do Professor e A Boa e Má Educação com vários locais de exemplo do que, na visão dela, pontua ser “Boa” ou “Má” Educação (França, EUA, Inglaterra, China, Japão). Ela não se posiciona quanto a ser escola pública, privada, homeschooling. O posicionamento é colocar o professor, despreparado (especificamente) como mediador somente, e não alguém que ensina algo.

    Ruy Guilherme A. Pereira.
    Goiânia, 02 de Outubro de 2022.

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    • Depois de nossa conversa, fui ler Inger Enkvist (comprei três ou quatro livros dela) e estou lendo… No tocante à educação, não estou nem de longe do lado dela. Com o tempo vou escrever mais. Obrigado por ter me provocado a lê-la. Mesmo não concordando com ela, eu aprendo bastante lendo os livros dela. Abraço.

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