Aspectos Difíceis da Visão Cristã do Mundo

Não tenho vergonha ou constrangimento em admitir que tenho dificuldades com quase todos os principais aspectos da Visão Cristã do Mundo (VCM).

Talvez a maior parte das pessoas que perdem sua fé cristã comecem a perdê-la ao se perguntar como é que alguém que, na doutrina cristã, é Todo Poderoso, Onisciente, e Perfeitamente Bom pode criar um mundo em que há tanto sofrimento, tanta miséria, tanta ignorância, tanta maldade. Este o famoso Problema do Mal, que tanta fé tem derrubado, em especial na era moderna, em que David Hume, sobre quem escrevi minha Tese de Doutoramento, apresentou um formulação quase irrespondível do argumento cético. Já escrevi sobre isso em mais de um lugar e não vou repetir aqui.

Uma segunda grande dificuldade para muita gente está na doutrina da Divindade de Cristo com a consequente necessidade de aceitar um Deus pelo menos Biúno, mas que, na Ortodoxia Cristã, se tornou Triúno, com o acréscimo da Divindade do Espírito, que, na História do Pensamento Cristão, parece ter sido um afterthought. Até hoje há ramos do Cristianismo que são Arianos, e que defendem a tese de que Jesus Cristo está acima dos homens mas abaixo de Deus, e, ao longo de toda essa história, tem havido pessoas que se designam Cristãos Unitários, que acreditam que os ensinamentos de Jesus são sublimes mas que ele definitivamente não é Deus. Também já escrevi bastante sobre isso e não vou repetir aqui.

Uma terceira dificuldade está na doutrina do homem — na chamada Antropologia Teológica Cristã (ATC).  É sobre ela que quero discorrer rapidamente neste artigo. Na ATC, construída em cima da história da Criação e Queda do primeiro livro da Bíblia Judaica, que se tornou o nosso Velho Testamento, o ser humano foi criado perfeito, mas livre, e escolheu desobedecer a única real proibição que Deus lhe havia imposto. Que um ser livre possa cometer alguma besteira não é algo difícil de entender ou mesmo aceitar. Há quem acredite que Deus poderia ter criado um ser livre mas desinclinado a pecar. Tomás de Aquino, contudo, contesta: para ele, se o ser é livre, é só questão de tempo e ele vai fazer o que não deve. Mas os principais problemas da ATC não estão aí. Um deles é a doutrina de que o Pecado Original do primeiro casal é transmissível aos seus descendentes. Um outro é a doutrina de que esse pecado herdado dos pais originais ficou tão incrustado na natureza humana que é impossível se livrar dele por mais sublimes que sejam nossos valores e mais impoluta a nossa conduta. Não há como se livrar dessa herança maldita (perto dessa as outras que nós brasileiros conhecemos são café pequeno, por assim dizer) por nossa própria iniciativa e por nosso próprio esforço. É necessário que o próprio Deus monte um Plano de Salvação e que os seres humanos aceitem esse plano para poderem ser salvos. Aqui, porém, aparece uma terceira grande dificuldade em algumas versões da ATC: Deus não oferece esse plano a todos os seres humanos, mas apenas a alguns que ele elegeu ou escolheu. Os demais não têm a menor chance. Se não foram escolhidos, podem ser ortodoxos na fé e acima de qualquer crítica na conduta, vão perecer para todo sempre as penas decorrentes do pecado de seus primeiros pais. Uma criança que morre nas primeiras horas de vida, se não tem a sorte de estar entre os eleitos, vai para o Inferno.

É muito difícil aceitar esse pacote fechado. E muitos não o aceitam, hoje em dia, optando por uma Antropologia Humanista, que não considera a que a natureza humana foi degradada e ficou depravada por algo que ser humano x, y ou z fez, mas por algo que seus supostos ancestrais originais fizeram e que, de uma forma meio misteriosa (teria o nosso DNA original sido alterado? seria a forma de nossa concepção que carrega consigo o Pecado Original?), passa de pais para filhos.

Admiro a coragem de quem decide enfrentar a tarefa de defender essa ATC, e por isso quero recomendar dois livros interessantes e mais ou menos recentes sobre o assunto. Um é The Human Being: A Theological Anthropology, de Hans Schwartz (William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, 2013), e o outro, dez anos mais velho, é Reforming Theological Anthropology: After the Philosophical Turn to Relationality, de F. LeRon Schults (William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, 2003). Se você só puder ler um, leia o mais recente. Além de ser mais completo, está por 2,99 dólares americanos em formato e-book Kindle na Amazon USA. Uma barganha para mais de quatrocentos páginas ricas de informações e argumentos.

Eis o que diz a Apresentação do livro na Amazon USA (em Inglês):

“This overview of Christian anthropology by Hans Schwarz uniquely emphasizes three things:

      1. the biblical testimony;
      2. the historical unfolding of Christian anthropology through the centuries;
      3. the present affirmation of Christian anthropology in view of rival options and current scientific evidence.

Schwarz begins by elucidating the special place occupied by human beings in the world, then ponders the complex issue of human freedom, and concludes by investigating humanity as a community of men and women in this world and in the world beyond. While maintaining a strong biblical orientation, Schwarz draws on a wide range of resources, including philosophy and the natural sciences, in order to map out what it means to be human.

Schwarz’s Human Being will interest anyone who is concerned with how in the face of fascinating scientific insights we can intelligently talk today about human sinfulness, human freedom, and human beings as children of the God who created us.”

Traduzo o último parágrafo da citação à guisa de apelo…

“O Ser Humano de Schwarz vai ser de interesse para qualquer pessoa que esteja preocupada, diante das fascinantes teses científicas que nos rodeiam, com como podemos falar hoje, de maneira inteligente, sobre a pecaminosidade humana, sobre a liberdade humana, e sobre seres humanos que são os filhos do Deus que nos criou.”

Em Salto, 7 de Fevereiro de 2020.



Categories: Christian Worldview, Freedom, Original Sin, Sin

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