The Scopes Monkey Trial (21.7.1925) e Inherit the Wind / O Vento Será Tua Herança (1960)

Neste dia, 21.7, no ano de 1925, terminou o julgamento de John T. Scopes, em Dayton, TN, pondo fim a uma das mais horrorosas iniciativas do Fundamentalismo Religioso americano: The Scopes Monkey Trial. Scopes foi condenado por ensinar a evolução, em linhas darwinianas, em suas aulas de Biologia no Ensino Médio, num julgamento em que William Jennings Bryan, famoso presbiteriano americano, que por três vezes foi candidato à Presidência da República pelo Partido Democrata, perdendo todas as três tentativas, foi Promotor (Auto)Convidado. O famoso Clarence Darrow foi Advogado de Defesa, também (Auto)Convidado e atuando pro bono. Apesar de condenado pelo Juri, o Juiz local, amedrontado diante da dimensão que o julgamento alcançou, fixou a pena em apenas o pagamento de 100 dólares de multa (no filme ela virou 1 dólar). Darrow recorreu e ganhou o caso em Tribunal de Alçada. O caso não chegou à Suprema Corte americana.

Segundo alguns autores, em vez de o julgamento acabar com o Modernismo na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, ele foi um tiro pela culatra que acabou com o Fundamentalismo. Doze anos depois, em 1937, a controvérsia Fundamentalista – Modernista havia terminado com o triunfo total dos Modernistas (Liberais): os Fundamentalistas saíram todos da Igreja (sem serem postos para fora: por livre e espontânea vontade). A própria revista Christianity Today, que é um periódico conservador (mas não fundamentalista), criado por Billy Graham, afirma, em sua seção “Today in Christian History” de hoje (21.7.2021), o seguinte: “July 21, 1925: Biology teacher John T. Scopes is fined $100 for teaching evolution. He lost his trial, but because of it fundamentalists lost respect” [21 de Julho de 1925: O professor de Biologia John T. Scopes foi condenado a pagar uma multa de 100 dólares por ensinar a evolução. Ele perdeu o julgamento, mas, por causa desse julgamento, os fundamentalistas perderam o respeito”.] [1]

O magnífico filme Inherit the Wind (O Vento Será Tua Herança), de 1960, teve Frederic March no papel de Bryan (no filme chamado de Mathew Harrison Brady), Spencer Tracy no papel de Darrow (no filme chamado de Henry Drumond), e Gene Kelley no papel do principal jornalista a cobrir o julgamento (no filme chamado de E. K. Hornbeck), aparentemente um personagem inventado para dar dinamicidade à narrativa. Dick York, à época um obscuro ator jovem, mas que viria se tornar um famoso comediante na TV americana, fez o papel de John T. Scopes (no filme chamado de Bertram T. Cates). O papel de Scopes/York no filme foi menor, os destaques cabendo a Darrow/Tracy e Bryan/March.

O personagem que representou William Jennings Bryan, o conhecido e famoso líder dos Presbiterianos Fundamentalistas, foi ridicularizado no filme. Isso fez com que os que assistiam ao filme sem conhecer por dentro a controvérsia concluíssem que os Fundamentalistas eram um bando de retrógrados ignorantes. No fim do filme ele morre de frustração por uma vitória que foi mais uma derrota do que propriamente uma vitória real.

O diretor do filme foi Stanley Kramer, que iria se tornar famoso por seus filmes Judgment at Nurenberg [Julgamento em Nurenberg], de 1961] e Guess Who’s Coming to Dinner {Adivinhe quem Vem para Jantar], de 1967, ambos com Spencer Tracy em papel principal.

Assisti esse último filme, com Spencer Tracy, Katharine Hepburn e Sidney Poitier, em Pittsburgh, no ano seguinte ao seu lançamento. Tracy & Hepburn tinham um quente caso extra-conjugal na época, que durou 26 anos e só terminou com sua morte.

Em 1973 levei minha recém-nascida filha Andrea (Andrea Chaves Wolford), então com um mês de idade, à John Tracy Clinic, em Los Angeles, especializada em dificuldades de audição, criada por Spencer Tracy em homenagem ao seu filho, John, que nasceu surdo. Na época eu tive um ataque de pânico de pai pela primeira vez achando que minha linda filha não ouvia direito. Uma segunda consulta nem foi necessária, mesmo diante de um veredito cauteloso na primeira, porque descobri que, graças a Deus, meus temores eram infundados. Andrea Chaves Wolford era apenas calma e tranquila demais…

Vide os seguintes links:

https://www.onthisday.com/people/john-t-scopes

https://www.imdb.com/title/tt0053946/

https://en.wikipedia.org/wiki/William_Jennings_Bryan

https://en.wikipedia.org/wiki/Katharine_Hepburn_and_Spencer_Tracy

https://cinemaclassico.com/listas/filmes-de-katharine-hepburn-e-spencer-tracy/

https://www.jtc.org/ [hoje chamada de John Tracy Center]

NOTA

[1] Vide a esse respeito o artigo publicado em Christianity Today por David Goetz, sob o título “The Monkey Trial: The ‘First Trial of the Century’ Revealed a Great Divide Separating American Christians” (número 55, ano 1997, encontrado no endereço https://www.christianitytoday.com/history/issues/issue-55/monkey-trial.html), bem como a entrevista com George M. Marden, sob o título “The Monkey Trial and the Rise of Fundamentalism – Spurring on Secularism: The leading historian of fundamentalism assesses the damages inflicted by the fundamentalist-modernist controversy” (também no número 55, ano 1997, encontrada no endereço https://www.christianitytoday.com/history/issues/issue-55/55h042.html). George M. Marsden registra o seguinte: “The watchers of mainstream culture were writing off fundamentalism, assuming that as people became more educated they would become more liberal. [ . . . ] Liberalism flourished, and mainline Protestant churches were very influential in the culture; they tended to think they spoke for Protestantism in America.” (Os observadores da cultura predominante vieram a considerar o Fundamentalismo derrotado, pressupondo que, à medida que as pessoas ficavam mais e mais bem educadas, elas se tornavam mais liberais [ . . . ] O Liberalismo floresceu, e as principais Igrejas Protestantes [de tendência liberal] se tornaram muito influentes na cultura. E elas tinham a tendência de pensar que elas eram a voz do Protestantismo na America). Mais adiante Marsden diz: “The controversies of the 1920s strengthened the hand of people who wanted to secularize the culture; they were able to argue that religion is divisive, and the way to keep the peace is to restrict religion to the private domain. Also secularism became more dominant in mainline Protestant schools, which reacted strongly against fundamentalism. For instance, one message mainline Protestant colleges sent to their constituencies in the 1930s and 1940s was this: “We’re religious, but we’re not fundamentalist!” That reaction tended to move them further from their particular religious identities, so that today many Presbyterian and Baptist colleges are just as secular as Yale and Harvard.” (As controvérsias dos anos 20 entre fundamentalistas e modernistas fortaleceram a mão das pessoas que desejavam secularizar a cultura; eles se sentiram capazes de argumentar que a religião é um fator de divisão na sociedade, e que a melhor forma de manter a paz na sociedade era restringir a religião à esfera privada, removendo-a da esfera pública. O Secularismo assim se tornou mais dominante nas escolas e faculdades das principais escolas protestantes, que reagiram de forma intensa contra o Fundamentalismo. Por exemplo, uma mensagem que os principais “colleges” protestantes enviaram aos seus clientes, reais e potenciais, nos anos 1930 e 1940, era esta: “Nós somos religiosos, mas não fundamentalistas!” Essa reação teve o resultado de movê-los para mais longe de suas identidades religiosas particulares, fazendo com que, hoje, muitos dos “colleges” presbiterianos e batistas sejam tão seculares quanto Yale e Harvard.)[Tradução de Eduardo Chaves, que acrescenta: Não podemos nos esquecer de que Harvard e Yale começaram como “colleges” cristãos — na verdade, como escolas de formar pastores — verdadeiros seminários — para as igrejas protestantes, que, em sua totalidade, representavam a maioria do Cristianismo americano.

Em Salto, 21 de Julho de 2021. (Originalmente publicado como um post no Facebook e republicado aqui com pequenos acréscimos e algumas insignificantes alterações.



Categories: Liberalism

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