Sonhos…

Acordei, agora de manhã, por volta de 6h da manhã, com a nítida impressão de que estava sonhando com a história de um rei que governava um reino cheio de problemas, e que não sabia como resolvê-los, e que havia ouvido de um sábio a sugestão de que tivesse filhos, vários, e encarregasse cada um deles de buscar a solução de um problema… E ele fez isso, casou-se e começou (com sua mulher, naturalmente) a ter filhos. O primeiro filho já havia nascido quando eu acordei — e fiquei matutando, tentando de me lembrar de detalhes da história.

Sou ruim para lembrar os detalhes de sonhos. Nem mesmo o grosso da história eu consigo reter algum tempo depois. Admiro as pessoas que são capazes de lembrar detalhes de sonhos, e que os registram, para em seguida tentar encontrar a sua interpretação, buscando o seu significado. E que os relatam, tim-tim-por-tim-tim, para o terapeuta… A Bíblia é cheia de histórias desse tipo: José, filho de Jacó, Daniel, o que foi posto na cova dos leões…

Chego a duvidar que esse pessoal que relata os sonhos para os outros interpretarem realmente se lembra dos detalhes daquilo que sonhou. Acho, com o maior respeito, que a maior parte da história é inventada, às vezes inconscientemente… As pessoas se convencem de que sonharam dormindo o que pensaram acordado… Mas deixemos isso pra lá.

Tentei me lembrar de quantos eram os problemas do reino do meu rei no sonho… E quais eram os principais problemas? Veio-me à cabeça a ideia de que a ignorância, a doença, a pobreza, a maldade das pessoas estavam entre eles. Mas imediatamente me perguntei: será que eu realmente sonhei isso? Esses quatro problemas (ignorância, doença, pobreza, maldade) são muito parecidos com alguns dos principais vinte problemas básicos da humanidade relatados por Jean-François Rischard em seu interessante livro High Noon: 20 Global Problems and 20 Years to Solve Them (2003 — os 20 anos já estão quase acabando!), que já li e reli algumas vezes. Será que pedaços do livro ficaram no meu inconsciente e agora viraram matéria prima de um sonho meu? Como saber? Como separar os ingredientes de sonhos das narrativas de coisa que a gente ouviu ou leu, e internalizou, e que entraram no sangue da gente, passando (como se fosse) a fazer parte do nosso DNA… Pode alguma coisa que não era parte de nós, ao sermos formados no útero materno, vir a se tornar parte de nós, porque nós ouvimos ou lemos alguma coisa? A natureza básica da gente, aquela caracterizada pelo nosso DNA, pode vir a ser alterada pelo ambiente, por aquilo que a gente ouve em casa ou na igreja ou na televisão, que a gente lê nos livros favoritos, ou que é enfiado na cabeça da gente pela Dona Zezé na escola?

E enquanto eu tentava obrigar a minha memória a recuperar os detalhes do sonho, ocorreu-me por que é que a gente chama pela mesma palavra, sonho, de um lado, aquilo que passa pela nossa cabeça enquanto dormimos, de outro lado, aquilo que nós fortemente desejamos na vida (“Meu sonho é ser professor”, “meu sonho é ser médico”, “meu sonho é ser rico”, “meu sonho é ser uma pessoa tão boa quanto Jesus”)… Será que essas coisas estão relacionadas e a gente sonha, enquanto dorme, com coisas que fortemente deseja — deseja ser, deseja ter, deseja fazer, deseja ser lembrado pelos outros, depois de morrer, como tendo sido, tido, feito, alcançado, realizado na vida? Complicadas as coisas. Será que quem quer ser professor quer resolver o problema da ignorância, que quem quer ser médico quer resolver o problema da saúde, que quem quer ser rico quer resolver o problema da pobreza, que quem quer ser bom como Jesus quer resolver o problema da maldade que existe no coração humano? Ou será que todo mundo quer, mesmo, lá no fundo, é ser feliz e essas coisas todas são apenas jeitos diferentes que as pessoas descobrem de ser felizes — ou, pelo menos, de tentar? Ou o que será que é mais importante, como objetivo de vida: ser feliz ou fazer os outros felizes? Quando a gente se casa, a gente está procurando ser feliz ou fazer feliz a pessoa que a gente ama? Lembro-me de ter ouvido algo assim em um sermão de casamento de um dos meus primos: teria sido no casamento do Alexandre ou no do César?

Só agora me dei conta que dois primos meus têm nomes de grandes conquistadores militares e líderes políticos: Alexandre, grego, e César, romano… Os dois tiveram cidades nomeadas em homenagem a eles: Alexandria, no caso de Alexandre, Cesareia (várias delas, de Antioquia, de Felipo), no caso de César. Por falar em César, por que a operação para retirar uma criança do útero materno sem ser pelas vias naturais se chama cesariana? Será que César não gostava da via vaginiana?

A história desse meu sonho está se perdendo. Faz-me lembrar de um conto de Monteiro Lobato (“Cabelos Compridos”, em Cidades Mortas), sobre a das Dores, uma moça simples do interior, que um dia ouviu um sermão de um bispo famoso na região que dizia que, quando a gente reza o Padre Nosso, não deve fazê-lo de forma automática, decorada, sem pensar nas palavras. Aquela noite ela resolveu rezar pensando em cada palavra: “Padre”… Por que será que a gente precisa confessar para o padre? Será que o padre realmente guarda em segrego os nossos pecados, ou será que um padre fofoca com os outros, contando os segredos de seus paroquianos. “Que estais no céu” (católico reza na segunda pessoa do plural) — ah, como é bonito um céu estrelado, fico imaginando quantas estrelas haverá, por que é que algumas são maiores do que as outras, ou brilham mais. Ouvi dizer que o Sol é uma estrela, mas eu não acredito: imagine! as estrelas têm pontinhas, o Sol é redondo! “Santificado seja o vosso nome”. Nome, por que será que tem nome bonito e nome feio? Rolando, para mim, é o nome mais bonito que tem. Queria achar um namorado lindo e rico chamado Rolando. E os nomes feios, por que é que são feios? Quanto tapa na boca eu levei da minha mãe por falar… não posso nem lembrar desse nome, especialmente enquanto estou rezando! E assim ela dormiu, pensando nos termos da oração que rezava… [Os detalhes do conto são em parte lembrados, em parte inventados. Se quiser saber o que é o quê, leia o conto do Lobato: ele escreve bem melhor do que eu…]

Não falei que a história desse meu sonho estava se perdendo enquanto eu tentava recuperar os seus detalhes? Será que foi sonho mesmo ou eu pensei nessas coisas enquanto estava no lusco-fusco entre o dormindo e o acordado? É melhor eu parar porque, nesse livre fluxo da minha consciência que se tornou esse artigo, preciso cuidar para não deixar sair alguma besteira ou alguma indiscrição lá de dentro do meu inconsciente profundo… Socorro! Cadê o meu superego?

Vou deixar o rei com seus problemas e seus filhos para lá. Na verdade, será que era um rei mesmo ou era o presidente de um país subdesenvolvido com mania de grandeza e com vários filhos? (A mania grandeza é do país, não do presidente, os filhos, os do presidente, não os do país).

Em São Paulo, 23 de Setembro de 2019



Categories: Dreams, Inconsciente, Sonhos, Unconscious

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