As Coisas Boas da Vida

[Transcrição de um artiguete que eu publiquei em um Travel Log na data de 9 de Novembro de 2006, quando estava na cidade do Porto.]

Desde que assisti à novela “O Casarão”, de Lauro César Muniz, que foi transmitida pela Globo nos idos de 1976, e que tem, ao final, uma cena antológica em que Paulo Gracindo e Yara Cortez finalmente se encontram na Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, quarenta anos depois de ela haver faltado ao primeiro encontro, colocando um hiato enorme no relacionamento deles, tive vontade de ir à Confeitaria Colombo. Já passei em frente dela várias vezes, na Rua Gonçalves Dias, no coração do Rio antigo, mas nunca tive tempo ou ocasião de entrar e me tornar cliente… Ela foi aberta em 1894 – há 112 anos. O tempo mudou. A rua Gonçalves Dias não é hoje, nem de longe, o que era no fim do século XIX, começo do século XX. Mas a Confeitaria Colombo está lá. Incomparável. Quem não a conhece “de corpo presente”, pode fazê-lo, virtualmente, através do site http://www.confeitariacolombo.com.br/. Vale a pena. O site também é um luxo.

Hoje passei, aqui no Porto, em frente a um café, na Rua Santa Catarina, uma rua apenas de pedestres, que se denomina “o coração do Porto”. Ao olhar, tive a impressão de estar olhando para uma réplica da Confeitaria Colombo. Trata-se do Café Majestic – criado em 1921. Requinte puro. Como diz a publicidade que, depois, vim a ver, “o Majestic é um dos mais selectos cafés do Porto”. O vídeo que é mostrado no site e que você pode baixar afirma que o café é “o esplendor da Belle Époque no Porto”. Não há exagero nisso. Se duvidam, confiram no site do Café Majestic – que, como o da Confeitaria Colombo, também, é um luxo. Fica em http://www.cafemajestic.com/prt/. E não deixem de ver o vídeo. Diferentemente do que aconteceu com a rua Gonçalves Dias no Rio, a rua Santa Catarina no Porto é ainda uma rua chique. Chiquérrima, na verdade. Em fronte ao café está, hoje, a Fnac. Ambos ficam a 5 minutos do meu hotel. Almocei lá hoje – tarde, no dia, “comme il faut” a quem está de férias.

Mas estou escrevendo isso para levantar a seguinte questão: por que a maioria das coisas boas da vida não estão disponíveis a não ser para uma elite? Não pretendo negar que haja coisas boas na vida – na verdade, coisas magníficas – que não custam nada, ou muito pouco. Mas a maioria das coisas boas está inacessável para a maior parte das pessoas: elas custam caro. É esse o preço que é pago para que possam manter seu diferencial. Um café com leite grande, na Bella Roma, onde tenho tomado café da manhã, custa 85 cêntimos de Euro (O Euro em Portugal tem cêntimos, não centavos). No Majestic um cafezinho custa o dobro disso. Uma cerveja, na Bella Roma, custa 1 Euro. No Majestic, 3 Euros. O diferencial no preço não é ganância capitalista, como diriam os esquerdistas. É o preço de manter um local diferenciado, lindo de morrer, com garçons e garçonetes bonitos, bem vestidos, atenciosos, competentes no atendimento dos clientes. Na Bella Roma, um garçon – simpaticíssimo, por sinal – atende a uma multidão de clientes. No Majestic, há vários garçons para bem menos clientes.

Se o governo socialista que está no poder em Portugal (José Sócrates é o Primeiro Ministro) resolver eliminar ou reduzir a desigualdade social e exigir que os estabelecimentos comerciais cobrem todos o mesmo preço, o Majestic não durará seis meses – a menos que o governo tabele o preço com base no “preçário” do próprio Majestic (o termo “preçário” é usado aqui – junto com “ementa”, que é o termo que preferem para designar o menu). Mas neste caso, tudo custando o preço que cobra o Majestic, as pessoas que ainda não são clientes, mas puderem pagar, provavelmente aumentarão a clientela do café até o ponto em que este não terá condições de manter o mesmo padrão.

Fico pensando nas escolas públicas brasileiras. Elas eram escolas de qualidade – verdadeiras escolas de elite – quando eu as freqüentei, nos anos 50. A competição para entrar nelas era acirrada – porque a sua qualidade era muito acima da das demais. O Exame de Admissão ao Ginásio que fiz em 1955 é prova disso: de 330 candidatos, só 30 entraram. Ponto final. Nada menos do que 300 excedentes – mais de 90%. O clima político mudou. As escolas públicas não podem mais atender apenas os melhores, do ponto de vista acadêmico: têm de atender a todos. Para tanto, criaram-se milhares de escolas, contrataram-se centenas de milhares de professores (nem todos adequadamente qualificados e preparados). Hoje, dentro de limites, quem quiser uma vaga na escola pública tem. Acabou a seleção. Acabou o “elitismo”. Mas acabou também a qualidade. O Café Majestic da educação virou uma lanchonete de rodoviária (com todo o respeito).

É possível compatibilizar a maior qualidade com o atendimento universal – de todos, indiscriminadamente, sem seleção?

O mesmo problema ronda hoje as nossas universidades públicas, pressionadas a adotar sistemas de cotas. Predigo que, em pouco tempo, quem quiser estudar em uma universidade pública será capaz de fazê-lo. Mas a elite acadêmica vai querer distância dela – e falo não só dos alunos: incluo aí os professores.

A única coisa que tornou possível que o Café Majestic sobrevivesse durante 85 anos, foi o fato de que atende à elite. Se tivesse virado uma franquia, teria perdido a majestade.

No Porto, em 9 de novembro de 2006. Republicado neste blog em Salto, 22 de Agosto de 2019.



Categories: Café Majestic, Confeitaria Colombo, O Casarão

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